domingo, janeiro 25, 2015

Arte & Estrategia



Seria um contrassenso para não dizer um absurdo exigir dos artistas contemporâneos uma sequencia lógica e contínua do que foi a ruptura moderna, sobretudo, as marcas inconfundíveis da vanguarda histórica. Pergunto-me se o desejo ardente por atitudes similares, inspiradas na ruptura do modernismo, se tornou uma obsessão para os artistas contemporâneos. Ser contemporâneo e como ser contemporâneo virou regra geral, não uma postura, uma atitude. As réplicas chupadas pelos *heady made -para o dissabor paternal do Duchamp- se tornaram o dever de casa das academias e uma pauta dominante da produção estética dos últimos trinta anos. Quer dizer,definiu-se um punhado de códigos estéticos apanhados nas vertentes mais radicais do modernismo fez-se download das variedades e saiu-se pelo mundo atribuindo certificado de atualização da "Arte Contemporânea" a partir dos programas e temas pré definidos pelos curadores. Tudo feito com autorização explicita dos artistas. Ingenuidade,burrice ou oportunismo e os três simultaneamente, afetam de forma direta o primado fundamental da criação: liberdade. Aí surge o primeiro sintoma da dependência orgânica de grande parte dos artistas da atualidade aos ditames do mercado 'livre'.Eles entendem literalmente o paradigma ' livre mercado' e enxergam, pela brecha,a liberdade criativa como um acessório disponível a todos os dotados de virtudes artísticas.O temor infantil dos artistas, expressado na repulsa ao contraditório, mostra que de fato a tão aludida liberdade é um blefe que sucumbe até a contradição explicitada nas criticas do Gullar. Como,em tese,desprezam o entendimento estético do Ferreira é possível que o temor se localize na difusão e na penetração do veiculo da grande imprensa onde o poeta tem uma coluna.Quer dizer,em termos objetivos,trata-se de uma defesa corporativa aparentemente fundada na ilusão de que a ARTE é uma instancia divina e a liberdade uma dadiva dos deuses.Está,portanto,acima do bem e do mal e dissociada dos interesses mesquinhos e utilitários. Podem fazer o que bem entendem,vale tudo,porém,exigem que todos entendam,aceitem e omitam suas criticas ao que fazem sobre a ameça de se tornarem reacionários.Os tolos,fincados no ideário do politicamente correto,acreditam que ser critico do sistema vencedor,não importa qual, é ser intolerante e,portanto,reacionário.Nem desconfiam que a burrice é um mau maior! Um paralelo grotesco pode ser percebido na advertência:"Ame-a ou deixa-a" em paz,tão caro aos autoritários mais retrógrados da historia.Esses 'anjos' celestiais sequer imaginam a muralha de resistência que Duchamp e amigos enfrentaram na ocasião da ruptura histórica que tentam a todo custo reeditar.Claro,essas crianças mimadas obedecem as ordens gentis e amigáveis que os abriga de ruídos e contradições oriundas do real:seus amáveis curadores de estimação.
*Heady enquanto, inebriante,intoxicante,arrebatado,impetuoso,violento,temerário etc, me parece melhor definir o espirito elegantemente indomável dos replicantes contemporâneos.

quarta-feira, janeiro 21, 2015

Triste Despedida


Às 10:36 GMT foi divulgada a notícia de que um pequeno grupo de fanáticos terroristas invadiu a sede do Charlie Hebdo.
Às 10:30GMT eu já estava embarcado no avião que me traria de volta ao Rio.
Um atraso- por condições climáticas- de aproximadamente uma hora para decolagem permitiu que os passageiros embarcados pudessem acessar seus celulares.

Isso me permitiu ter acesso a informação ‘in loco’ sobre o atentado ao Charlie Hebdo que até aquele instante havia registrado 12 mortes.

Às 11:28 GMT,cinco minutos antes do comandante anunciar a autorização para decolagem e pedir para os passageiros desligarem os celulares, a foto que ilustra esse post foi a última imagem que vi da cidade onde passei mais de um mês, comemorei meu aniversário, o Natal e a entrada de um novo ano junto a minha irmã, sobrinhos e amigos.

A notícia desviou minhas divagações sobre a estadia em Paris.
Meus pensamentos  tomaram outro rumo.

A França, Paris em particular, são emblemas de conquistas libertárias. Naquela terra, naquela cidade e sobretudo naquela cultura de incontáveis conquistas sociais, onde a indústria de bens se expande do campo objetivo de produção para as áreas do pensamento, da cultura, da arte e dos direitos humanos, a fortuna que mais se destaca aos olhos do viajante é a liberdade individual.

Esse item está diretamente vinculado ao maior orgulho nacional: ‘Le droit du citoyen’.

Ainda que a liberdade seja um conceito sujeito a todo tipo de abordagem e especulações de fundo teórico, na prática, ela se manifesta na sociedade francesa de maneira inequívoca.
Não é a toa que atribui-se aos parisienses a invenção do ‘trottoir’ que na versão popular significa apenas uma boa calçada mas, no sentido atribuído pelos poetas da cidade, é a arte de andar, passear e flanar pelas ruas  às três horas da tarde ou da madrugada, sem se sentir ameaçado por hordas bárbaras  ou mesmo pelas forças de segurança pública simplesmente porque você é uma pessoa diferente da maioria.

Discutir nos bistrôs, portar publicações radicais, vestir-se como um dândi, um gótico ou um Aiatolá, ou mesmo gritar aos quatro ventos o que pensa, em Paris, é uma atitude tão natural quanto respirar.

Antagonizar o governo, as indústrias, o consumo, as corporações do setor econômico, a imprensa, o 'pouvoir'  e  a hegemonia militar do ocidente é um clássico do ativismo social francês. 

Contudo, matar o HUMOR, foco da irônica resistência, atinge a liberdade no seu ventre.

Esse ato deve trazer à tona a irresponsabilidade de uma militância supostamente esquerdista e debiloide do ocidente que apoia atos terroristas que visam restringir, para não dizer exterminar definitivamente, a liberdade.
Saio dessa cidade com uma sensação de tristeza  e luto por todos os jornalistas mortos neste ato estúpido de consequências terríveis.

O epitáfio dessa ação pode ser sintetizado numa frase anônima bem ao estilo de maio de 68,poucos anos antes do Charlie Hebdo ressurgir das cinzas do velho  HaraKiri Hebdo, extinto por descontentamento de um ministro gaulista: "Um homem não é estúpido ou inteligente: ele é livre ou não é."

Essa é a questão maior da tenebrosa intolerância do extremismo religioso e a que mais aflige as sociedades livres do Ocidente.


Levante auspicioso




Adriano de Aquino
Paris/Sexta feira -12/12/14 
12°/vento e chuva fina.
Ontem, eu havia programado o circuito que hoje faria  por algumas exposições imperdíveis. Descartada de cara  a ida ao Beabourg, tendo em conta que a instituição programou como o destaque do mês a ¨retrospectiva¨ de Jeff Koons, artista cuja obra não se encaixa no meu interesse estético, além de não se  ajustar ao termo retrospectiva de jeito algum .Mas, convenhamos, faz jus a todos os predicados que definem a pujança do marketing pessoal e da ambição espalhafatosa pelo sucesso, fundamentos básicos para quem se empenha na técnica de alavancar currículo e preços e que, hoje, nas alturas, compram até mesmo prestigio, que dirá retrospectivas.
Se a estratégia de mídia do show de Koons objetivava criar um vácuo onde a crítica de arte não tivesse ambiente para germinar, o objetivo foi atingido em cheio. 
Argumentos tolos e as maiores bobagens foram publicadas em vários veículos de comunicação com a mesma altivez com que se diz coisas sérias sobre as correntes estéticas do momento. A orientação parece ter sido a de exacerbar  interrogações para seduzir  o público consumidor de cultura artística  que anseia por respostas para tudo e veem questões  embutidas na banalidade e no gosto dos artistas endinheirados, as 'celebridades' que galgaram o status de  mídia, produzindo os mesmos maneirismos, carregados da doce inocência dos predestinados à fama e a fortuna, que encantam o espectador ávido por novidades e delicias do sucesso.
Enfim, mais do mesmo, diluído  em falsa polemica.
Matérias aos borbotões enchem paginas com fofocas e comentários de admiradores em contraponto as manifestações de repulsa visceral dos que consideram a arte do Koons puro lixo.
O esquema atrai o inocente  o levando a supor que está diante de algo revolucionário e transformador. Chamadas de mídia cheirando a mofo: "impostor ou gênio? Koons, um homem de negócios bem sucedido ou o ultimo artista pop?" De tão manjadas deixam claro que ninguém que pensa  vai se ocupar  a respeito, sequer responde-las. 
O mega esquema para o show do Koons, usou de todos os recursos promocionais, inclusive, disponibilizando simultaneamente no Beaubourg um debate sobre um tema saturado no ambiente artístico/intelectual. Para conceder "inserção" histórica ao pop star, ajeitaram o calendário da agenda de palestras da instituição para incluir a obra de  Koons na temporalidade das rupturas históricas do  modernismo ao contemporâneo,  em  um evento paralelo e simultâneo à mostra -até 05 janeiro de 2015- com  palestras  de críticos e estudiosos  sobre as reflexões do Duchamp e suas intervenções nos  parâmetros estéticos vigentes no inicio do Século XX e a 'redefinição'  das fronteiras da  arte..  Tudo bem montadinho para bombar o show do Koons no Beaubourg. E...bombou!

Foi com essa argumentação que convenci à Lynne que eu não era a companhia ideal para acompanha-la nessa tarde  de convencional  e brochante turismo cultural pós moderno.
Então, ela sugeriu que a acompanhasse  à uma galeria do quartier para visitar a exposição 'L'Art de la Aprpropiation'.Meu interesse era zero. Mas, para não frusta-la mais uma vez, cedi.
 A exposição consistia na montagem de uma serie de obras do que hoje se convencionou chamar de 'appropriationisme", o mais recente estilo já convenientemente aplicado ao mercado e nas escolas de arte. Nada que valha a pena realatar.
Poucos comentários de ambas as partes, nos dirigimos, então,  para o Gran Palais para ver a mostra do Hokusai. Porém, a  terceira  tentativa de visitar esta  exposição que desejávamos ver,  foi novamente frustrada. Uma fila enorme de japoneses obstinados em prestigiar o grande mestre, somada a chuva fina e o vento frio, acabaram por quebrar nossa resistência.
De volta a estação La Muette, seguimos para visitar a exposição "Impression,Soleil Levant".Nessa estadia visitei essa mostra umas quatro vezes.
Mesmo não sendo a mostra de maior destaque na agenda  cultural parisiense deste dezembro, eu havia anotado essa visita como obrigatória antes mesmo de sair do Rio.
Primeiro por conta do museu. O Marmottan é meu museu preferido desde o tempo de estudante em Paris. Segundo, porque a proposta da mostra de abordar a verdadeira história do "chef-d'oeuvre" de Claude Monet, me pareceu um desafio a conferir. Sobretudo, tendo em vista que a primeira grande historia do impressionismo, escrita por John Rewald e publicada nos anos 50, que apontava essa obra como o ícone do Impressionismo e titulo  que deu origem ao nome desse  estilo, ao contrario das suposições que indicavam a pintura intitulada "La Gare de Saint-Lazare" como a gênese desse movimento artístico.
Comprovei mais uma vez como um trabalho de curadoria criteriosa define uma museografia correta capaz de tornar uma visita a um museu uma experiência intensa entre o visitante e o tema proposto, entre obra e espectador. 
A iluminação adequada-perfeita para falar a verdade-integrada a uma museografia discreta e elegante empenhada em destacar pontos convergentes entre as obras expostas e enfatizar a busca incansável do artista pela luz e contra planos que marcam a poética profundidade pictórica de Monet, fazem dessa mostra um delicado estudo sobre a pintura e enlevam o visitante em uma experiência sensível e emocionante conduzida por um trabalho curatorial serio e dedicado, desprovido de vaidades supostamente autorais. O desafio da curadoria é ainda maior tendo em vista que ao sair dessa mostra o visitante desce dois lances de escada e mergulha nas profundezas das 'nynfeas' que pertencem a coleção nacional de arte, agora, definitivamente instalada no museu Marmottan Monet.
Só a titulo de curiosidade colo aqui uma citação critica contra a histórica exposição de 1874, intitulada "L'impression"(soleil levant sur la Tamise) que consta do catálogo desta exposição:<<...la impression de Lever le soleil est traitee par la main enfantine d'un ecolier qui etale pour la premiere fois des couleurs sur un surface quelconque...>>na versão literal em português: "  A pintuira Soleil Levant  é processada pela mão infantil de um colegial que pela primeira vez espalha cores em qualquer superfície"  Marc de Montifaud,L'Artiste,1 mai 1874, inserida no catalogo de forma a nos dizer que os ponto de vista de  críticos e intelectuais do oficialato cultural de uma época, se dissolvem no ar como pensamentos fugazes e ínsitos, contra ou a favor . 
As grandes obras transcendem o tempo.
Ainda que a opinião do critico de então  não tenha correspondência direta com meu comentário sobre o show do Koons,  o assunto não deixa de ser engraçado dado que, hoje, o marketing e a mídia cultural em consonância com as politicas institucionais, valorizam ao extremo  a projeção econômica de alguns produtos artísticos,  com  ênfase no sucesso  pessoal e na  economia do espetáculo, itens alheios a verdadeira  polemica que perpassa o ambiente artístico dos nossos dias. 
Enfim, esses fatores, juntos e misturados, são o inverso  de Marc de Montifaud,,mas, como ele, tendem a figurar na história de forma semelhante.
Saímos satisfeitos e fomos nos deliciar com uma refeição e um papo substancioso no Pure Cafè.

sábado, outubro 18, 2014



Hoje em dia adoramos quando algo dá errado na pintura e, principalmente, quando nós não percebemos quando ela funciona bem. É o que veio a acontecer depois do Impressionismo, mas também podemos nos referir aos métodos aleatórios que ficaram bem conhecidos depois da pintura de Pollock

Pode-se dizer que a indeterminação é uma condição “existencial” do modernismo. Nesse sentido, o que é “impintável” refere-se às experiências que ficam de fora da capacidade de representação. Antagonicamente, podemos dizer que o “impintável” vem do desejo de parecer verdadeiro.

Fiquei pensando nessas coisas enquanto percorria com o olhar os quadros do Adriano de Aquino expostos na Gávea.

A história da pintura é essencialmente a resposta emocional de uma alma sensível à uma parede ou tela em branco. A superfície plana tem sido sempre um estímulo para excitar a imaginação desde a primavera do Homem. Os pintores rupestres podem ter pintado bisões e cervos nas paredes das cavernas para assegurar uma boa caçada, mas é necessário estabelecer outra suposição naqueles desenhos, ou seja, supor que havia um vínculo emocional entre o morador da caverna e o espaço da parede da caverna que ele via. A emoção vivida desta união é de natureza particular, é o espaço sutil e medido de uma parede em branco exigindo ao pintor a sua atenção.

Vou dar um salto enorme no tempo e chegar até o francês Gustave Courbet que afirmou: "... a pintura deve consistir apenas na representação de objetos que o artista pode ver e tocar." O materialismo social que fazia parte do novo Realismo ignorou o experiência abstrata e emocional fundamental para o pintor. As pinturas com qualidade fotográfica de Courbet foram contrastadas pelo trabalho de dois contemporâneos - os pintores Eugene Delacroix e Jean-Baptiste Corot. Ambos expressaram uma nova consciência da cor: Corot - com sua ênfase sobre o efeito da luz sobre os objetos; e Delacroix - com sua ênfase sobre os efeitos das cores sobre as cores. Com as contribuições de Turner, Corot e Delacroix a pintura do século XIX explodiu em várias direções, com a cor se tornando a principal fonte de energia. A superfície plana de uma tela tornou-se um laboratório de experimentação de cores - cujo objetivo era conciliar o que vemos com o que sentimos. Mas, antes que "ver" e "sentir" pudessem ser conciliados, o pintor devia se afastar dos preceitos que definiram a realidade como mera representação do mundo visível.

A obra de Edouard Manet deu o impulso para a revolução estética que viria a seguir; ele achatava suas cores e formas, trazendo o foco para o plano da tela bidimensional. Ao intentar reproduzir o processo psico-fisiológico da visão, os impressionistas adotaram um cânone da física que, em essência, afirma: superfícies pretas não refletem a luz e, portanto, o preto não é uma cor! Assim, os impressionistas, seguindo um preceito da ciência, eliminaram a cor preta de sua paleta. Eles reconheceram a verdade científica de física, mas ignoraram a verdade básica de nossos sentidos - que o preto é uma cor – até muito mais cor do que a maioria dos pigmentos, por causa da sua força emocional!

Quando chegaram na Europa, as cores brilhantes e achatadas das gravuras japonesas criaram uma revolução dentro da revolução! O esforço estético gerou o desenvolvimento de cinco pintores pós-impressionistas. Talvez o mais conhecido - mas não tão compreendido - foi Vincent van Gogh. A turbulência emocional provocada por sua psique supersensível criou um estilo explosivo de pintura, de tal forma que desde Michelangelo nenhum pintor desnudou sua alma para que todos a pudessem contemplar. As formas e cores planas de Paul Gauguin deram um significado cheio de sensualidade e frescor às formas pictóricas. A reconciliação entre "ver" e "sentir" avançou de uma forma inesperada na obra de Georges Seurat. Ele combinou uma abordagem cerebral ao pintar, unindo a estrutura física da cor (semelhante a dos impressionistas), com "leis" de relações harmônicas. Henri de Toulouse-Lautrec se desgarrou dos nobres ambientes de origem, para frequentar a vida noturna parisiense. Suas pinturas e cartazes levaram a nobreza a se misturar com a burguesia – um break-through sem precedentes para a época. Paul Cezanne - o quinto pós-impressionista - descarta as velhas definições de "cor" e "forma", criando assim uma forma-cor multidimensional. Os componentes estruturais e plásticos de suas composições reafirmam o vínculo entre o pintor e uma superfície plana. Cezanne é do mesmo nível histórico de Giotto , quando, depois deles, a pintura partiu em uma nova direção.

Nesse ponto devemos retornar à galeria da Gávea. Uma característica de todas as formas de arte moderna, da pintura à literatura, é a consciência do artista. Em outras palavras, em qualquer trabalho, o artista vai chamar a atenção direta ao fato de que o que as pessoas estão vendo (ou lendo, ouvindo,...) é uma obra de arte. O que estou dizendo pode soar como algo consabido e comum, mas antes do advento da era moderna artística (no Impressionismo), a arte não chamava a atenção para si, mas para celebrar formas figurativas e retratar fielmente as coisas que tinham alguma base na realidade.

Por deliberadamente chamar a atenção para o nivelamento natural da tela, os artistas têm exercido um fenômeno exclusivamente moderno, em que o espectador não se destina a apreciar a representação de alguma coisa, mas o próprio ato de pintar. O que torna este um ato consciente, é que o artista está reconhecendo abertamente as limitações mecânicas de tentar aplicar profundidade visual a uma superfície bidimensional. Essa é uma saga que ainda não se encerrou. –Essa me parece ser a perene e sempre renovada experiência à qual Adriano de Aquino nos conduz.
A denomine de reflexos ou de esfacelamento prismático de uma superfície, criando planos onde aparentemente não há nada, Adriano consegue reafirmar de um modo inédito a bidimensionalidade da superfície. Paradoxalmente, e no mesmo instante, nos submerge literalmente dentro dos planos que parecem brotar de uma forma mutante. Somos obrigados a nos mover continuamente diante da tela, não apenas espectadores, mas dando continuidade ao trabalho do pintor. É uma experiência no tempo! A nossa visão se torna aderente ao objeto visual diante de nós. A forma não precede a visão. A forma é o próprio olhar. Ficamos conscientes disso todo o tempo!
Demais, Adriano!



domingo, outubro 12, 2014





Convite estendido.
Peço aos amigos que levem em conta que o depoimento desse web release é apenas uma fala do artista.
As pinturas expressam por si.Para falar a verdade,elas(as pinturas)acham melhor que o artista fique calado e apenas convide os amigos.
Portanto,estão todos convidados!















segunda-feira, agosto 11, 2014

Dizem por aí!

Não é difícil entender! 
O que é difícil é situar a mentalidade dominante, aparentemente aberta à fruição da arte, no contexto da cultura contemporânea. Alguns simpatizantes das ‘vanguardas’ da atualidade- artistas/espectadores- manifestam aversão espantosa contra quem quer que ouse criticar o que se auto denomina arte no tempo presente. O poeta Ferreira Gullar, por exemplo, já deve ter sido mandado para o fogo do inferno centenas de vezes. Mas, para aporrinhação dos seus oponentes, o poeta não se queima e, para piorar, se nega ao silencio. Ele vai a uma exposição e dela sai sentando o cacete na maioria das obras que viu. Em sucessivos textos o poeta afirma que a maior parte das obras hoje consideradas como arte, não são Arte. Isso não seria nada demais caso os leitores ofendidos não partissem para a contra ofensiva.
Oh!Deus!Para piorar as coisas, eles se aventuram.
Partem açodadamente em defesa do que estimam como um campo aberto a todas as formas de expressão com a fúria dos combatentes de uma guerra santa. O paradoxo da aventura arrebatada em defesa da trincheira- ‘arte é tudo que eu digo que é arte’- é tão evidente quanto um elefante vermelho num cubo branco.
As argumentações restritivas ao livre pensar e à crítica autônoma que advogam chega às raias do ridículo. Os argumentos se restringem a negação explicita ao direito de expressão dos contrários.
Amparados na censura mais imbecil que existe esbravejam orgulhosos de suas vanguardices: “Múmia!Reacionário! Conservador.”
Pronto!Disseram tudo esbravejando suas maldições contra os seus críticos.
Suponhamos que o foco dessa arenga fosse, de fato, a defesa da arte e não a expressão particular de um ou outro artista. Suponhamos, também, que o FG não publicasse seus artigos num jornal. Seriam seus pensamentos tão relevantes para o circuito das artes visuais?
Tenho certeza que não!
Os textos do poeta, hostis a grande parte da produção da atualidade, podem até não induzir a reflexões profundas sobre a arte do momento. Todavia, por serem publicados em veículos da grande imprensa incidem em visibilidade. Visibilidade é uma peça chave no atual sistema de arte e,sobretudo, para o mercado.
Ir a guerra sem ter clareza contra quem se combate é uma idiotice completa. Alistar-se no batalhão dos fieis ao deus da Arte sem carregar uma fileira de explosivos na cintura é coisa para amadores.
Assim,os ‘radicais’ que não tem como alvo os templos da Arte,mas,sim seus críticos e oponentes,continuam contribuindo com seus dízimos para a grandeza e a riqueza do sistema.
E a arte?
Ora,tudo É!
Dizem por aí.

domingo, junho 08, 2014

A pele que nos protege


Arsène Housset(nome de nascimento),Alfred Mousse(pseudônimo),era a dupla de nomes que se agregava a face do escritor francês Arsène Houssaye (1814/ 1896).Além da  frenética disposição para escrever sobre os mais variados temas, Houssaye teve muita influencia no meio cultural quando em  1843 dirigiu a revista L’artiste,aberta a jovens escritores como Charles Baudelaire, Theodore Bainville, Henri Murger Monselet entre outros.
Também colaborou com outras duas publicações como  La Revue des Deux Mondes e Revue de Paris.Nos anos finais da decada de 70,durante minha residencia em Paris,me caiu nas mãos um dos seus livros mais famosos“História da quadragésima primeira cadeira da Academia” (1845).Fui atraído pelo tema desse livro que tocava, de maneira curiosa, sobre as “escolhas” da cultura que elegem, sem que saibamos exatamente os motivos,as obras,artistas e autores que se consolidam como modelos  de uma época e  ícones da sociedade.O livro toca de raspão no enigma  da hierarquização dos modelos estéticos pela cultura dominante.Nesse livro Arsène Houssaye criou discursos de ‘aceitação’ imaginários de grandes escritores que nunca pertenceram à Academia Francesa. A ideia de publicar discursos  imaginários  feitos por escritores não reconhecidos pelo mérito acadêmico, me pareceu  uma maneira irônica de decretar uma ruptura com os cânones conservadores que    definiam os parâmetros artísticos da época e um passo arrojado que precedeu as atitudes dos artistas mais radicais da modernidade.      
Mais intrigante ainda foi  a decisão de Houssaye  de jamais tentar  negociar  politicamente - teria dinheiro e prestigio para isso- ou mesmo aplicar-se para Academia Francesa.Vale dizer que para Houssaye a Academia Francesa era o motor da ascensão de figuras de proa da cultura e lugar de consagração dos literatos.São inúmeras as suposições sobre a repulsa de Arsène à instituição.Hoje,esse velho modo de louvor literário foi superado.As academias não mais influenciam a politica cultural,ao contrario são influenciadas pelas circunstancias do poder politico.Nos dias correntes a consagração social de um artista é forjada pelo mercado de arte,a industria editorial,instituições publicas e privadas e pelos veículos de comunicação.As Academias se tornaram emblemas opacos de um passado glorioso da corporação dos escritores e refúgios seguros para a velhice.Mais curioso ainda é que a postura arrojada do Houssaye no tocante a “institucionalização” da arte e  na contramão do sistema, se contrapõem a sua atitude conservadora ao vetar a publicação no La Presse(1862) dos poemas em prosa “Paris Spleen” de Baudelaire  a ele dedicados,sob o argumento de que os poemas, em sua opinião, chocariam os leitores.Ele atrasou a publicação por todos os meios, afetando severamente Charles Baudelaire que sofria da falta cronica de dinheiro.
Pois bem, a obra de Baudelaire segue pulsando na longa travessia do tempo,enquanto Houssaye desfrutava do seu  ostracismo.Quer dizer,até semana passada, quando o New York Times publicou uma matéria em que  Houssaye  reaparece na cena cultural por motivos paralelos a sua obra literária e,de certa forma, inusitado,enquanto objeto cultural.Um romance ou tese a ele atribuído intitulado  “Dos Destinos da Alma”,acervo da Houghton Biblioteca,vem, desde abril deste ano, fascinando os pesquisadores da instituição.Uma nota manuscrita na publicação declara que o livro foi encadernado com a pele tirada das costas de uma mulher. Uma vez que,segundo o manuscrito,"um livro sobre a alma humana merecia ter uma cobertura humana”.Comprovada cientificamente como real, resta saber quem fez a “criação” e a quem pertencia a pele que reveste a publicação. Se Houssaye dormia sossegadamente nas baias do esquecimento, esta semana foi  subitamente despertado do sono e hoje se sujeita a duas especulações.A primeira é se foi o próprio autor quem determinou a edição de um exemplar  tão enigmático onde a  pele que nos protege e nos contata ao mundo foi extraída de uma pessoa e aplicada no exemplar .A outra é se a concepção foi feita pelo doador do livro que 1934  passou a integrar o acervo da biblioteca.  

domingo, maio 04, 2014

Saudoso naentherdal*


Resiliência é um termo usado com frequência por analistas que estudam as tendências sócio/cultural do nosso tempo. Na Física a palavra é relativa a característica mecânica que define a resistência aos choques de materiais No dicionário formal a palavra resiliência significa a capacidade que temos como pessoa ou sociedade de voltar ao estado natural, principalmente após alguma situação crítica e fora do comum.Ora,se há alguma coisa “fora do comum”,uma virada de procedimentos que faz com que tudo no nosso dia a dia pareça ‘antinatural’,quer dizer, fuja ao ciclo previsível dos acontecimentos naturais tipo amanhecer,entardecer e anoitecer, é a dinâmica do tempo estendido motivado pelo fluxo ininterrupto da informação.Ela é responsável pela transformação veloz com que as coisas ocorrem num dia que se amplia para alem das 24horas convencionais.Um veiculo de comunicação,como um jornal, por exemplo, sobre a mesa do café da manhã,no almoço será um calhamaço de papel onde se relembra noticias do passado. Admitamos ou não o nosso tempo ‘natural’ digamos assim, foi estendido potencialmente pela cultura digital. Os fatos e as coisas do mundo nos chegam instantaneamente. Não são mais passiveis de serem editadas a posterior. São apreendidas de imediato. Os meios tradicionais de noticias que não se adéquam ao tempo virtual são expelidos do presente. Esse é um dos dados que as transformações radicais propiciadas pelo acesso on line a informação esparramou por todo o globo.A “volta ao estado natural” remete,queiramos ou não,ao mito do “beau sauvage”. Ainda que os analistas pós modernos tentem desviar desse conceito(Rosseau) em suas considerações,ele permanece ao fundo,como um fantasma a nos lembrar de um passado glorioso no qual o homem era mais humano e feliz.
Oh!Maldita tradição (ou traição)que insiste em moldar a imagem,semelhança e mentalidade os nascituros!
Minha leitura desse domingo desviou da cretinice da vida política nacional para percorrer trechos de um debate sobre as habilidades socioemocionais consideradas importantes para profissionais do futuro. Num seminário intitulado Educar Para as Competências do Século 21 ocorrido em março, no Brasil, e na Conferência de Educação Privada, realizada em abril em San Francisco (EUA) pela International Finance Corporation, ligada ao Banco Mundial,os participantes tatearam questões que afligem as sociedades,os pais e as escolas.
Mais uma vez se comprova o quanto é confortável projetar o futuro dentro de um laboratório ou de um gabinete político. Como parece fácil e sofisticado avaliar as tensões culturais e sociais da atualidade e projeta-las num sistema lógico de pressupostos. Ocorre que nem sempre o futuro é tão acolhedor às ideias e pressupostos antecedentes. É admissível que os especialistas se mobilizem para transferir para programas de educação simulações do que ocorre -HOJE- no mercado de trabalho com o objetivo de buscar aperfeiçoamentos nos sistemas de ensino atuais. Isso é bacana e demonstra uma preocupação meritória em como conduzir milhões de jovens num mundo devastado por guerras, corrupções desmesuradas e todo tipo de ação que reverte contra a vida igualitária e justa, mas também, "com as habilidades cruciais, não exclusivamente técnicas, mas, sim, sociais e emocionais como a resiliência, a curiosidade, a colaboração,o pensamento crítico e capacidade de resolução de problemas, por exemplo."Eventos dessa ordem soam como positivos. Contudo, ao firmarem um propósito de ‘reparação’ num mundo corroído pela violência, a estupidez e a destruição em busca do ‘progresso” econômico, as colunas do edifico futurista parece não ter fundações solidas.Sequer tocam o chão.
A resiliência projetada a partir das otimizações de um advir consonante com as observações do passado/presente, diferentemente da ocorrência na física onde objetiva definir a resistência entre os materiais, pode ser um método eficaz e bom. Mas, nada garante que também possa ser tão ruim, dócil e submisso quanto o método anterior . A superação de desafios, o pensamento crítico e colaborativo que hoje tornam o mundo menos ignorante, surgiram de experiências educacionais que previam resultados pautados em projeções antecedentes focadas em objetivos muito diferentes e conflitantes com a realidade dos nossos dias.
Só de provocação: a resiliência aplicada a um personagem como o Putin, por exemplo, pode ser apenas a volta da Rússia ao estado natural de União Soviética. A resiliência aplicada a Dilma pode ser nada mais que a volta ao ‘estado natural’ de colônia. A resiliência do Sarney, um retorno ao estado natural das cavernas e assim por diante,quer dizer,pé a pé para trás.
*Uma proposta corporalística/mental para um cientista resiliente é clonar um gene
naentherdal e inocula-lo numa Barbie humana.Criar o ultra beau sauvage

sexta-feira, maio 02, 2014

‘Como conquistar uma nova geração de patronos para os museus’ é o titulo de um artigo recente no NYT que expõem os aspectos decisivos da passagem do cetro dos velhos magnatas provedores dos museus para a mais nova geração de endinheirados.No ambiente perfumado do mais sofisticado aroma e cheio de glamour e elegância das grandes marcas onde transitam coisas belas para os olhos e deliciosas ao paladar, as fissuras do sistema que as sustenta é invisível. Mas,é ele que agora está em jogo.
A crise é grave!
E não é apenas de natureza econômica,é, sobretudo,cultural.Quando as duas vertentes centrais da sociedade-economia e cultura- sentem-se ameaçadas no seu ajustamento estético é por que as coisas estão em processo de mudança e poucos se apercebem disso.A crise das instituições culturais não se restringe apenas a manutenção dos museus.Ela afeta o modelo de amostragem de arte tipo bienais, exposições temáticas hiperbólicas,entediantemente desproporcionais em confronto com a cultura que se expande nas ruas,guetos e canais das grandes cidades e nas avenidas virtuais.
Um choque ‘fin de siècle’,diria um ‘sans culottes’ ejetado pela máquina de um tempo revolucionário.
Apesar dos rituais milionários dos leilões apontarem que o dinheiro inunda o sistema da arte em lances com valores mirabolantes, a crise do sistema institucional de arte se agrava.Na verdade, se hoje uma grande instituição não é financiada com dinheiro público ela padecera na decadência estrutural e funcional. Mas, ao contrario do que muitos supõem não se trata apenas de um problema econômico. Não se trata de economia demais ou de menos no sistema. O que vemos é o vértice de uma crise cultural de proporções transformadoras.
Não façam ilações precipitadas.
A crise que agora se apresenta não é de natureza artística. Aliás,é bom lembrar que a arte sempre soube e sempre se nutriu,renovou e reinventou-se nas crises da cultura estabelecida. Essa será mais uma ‘virada’ da qual a arte fará bom uso para moldar novos campos de experimentação.
A montagem das fotos que ilustra esse post é uma picardia. A palavra picardia, catada no velho vocabulário, se ajusta ao ambiente aristocrático de outrora que legitimou a arte de uma época. Ao lado, a imagem de um sofisticado ambiente museológico dos dias atuais que, a rigor, pretende legitimar a arte do nosso período. O espelhamento de dois tempos refletidos num só plano escancara as diferenças formais e estilísticas, porem, não de modos e atitudes. É incrível,mas,permanecem os mesmos!Quanto esforço fez a aristocracia para reter entre seus dedos as tramas da cultura. Quanto esforço e capital os novos patronos empoderarão no sistema de museus e grandes mostras para oxigenar um aparelho moribundo?A cultura digital se agigantou de tal forma que não dá mais para evitar uma radical substituição dos valores. A informação maciça e fluente esmaga inexoravelmente os meios de comunicação tradicionais. Todos parecem assustados com o que virá. As tendências, antes ditadas por um núcleo editorial, se esgueira nas redes.Estamos no olho do furacão de uma transformação sem precedentes na historia da cultura.
Não adianta resistir.Alias,para que resistir?
Não basta, portanto, trocar a geração de provedores. O problema das grandes instituições de arte é muito mais profundo. Num certo sentido assemelha-se a perda gradual de poder dos aristocratas cultos do século XVIII, detentores de fortuna, poder e saber.
Brecht já alertava: “Alegrem-se com o Novo, envergonhem-se do Velho!”
Em 06/2010 postei um artigo no Hiperblog que vem de encontro as minhas considerações nesse texto.Quem tiver interesse acessa o link:
http://adrianodeaquino.blogspot.com.br/2010/06/alegrem-se-com-o-novo-envergonhem-se-do.html






Arrastar a Arte para a classe do espetáculo acentuou a vulnerabilidade da cultura as praticas submetidas a centralidade econômica. Muitos pensadores do modernismo criticavam os efeitos devastadores de se submeter o fazer artístico e as instituições culturais as diretrizes do mercado. Poucos críticos daquele período vieram a conhecer o que nos últimos vinte anos se consolidou como marketing cultural. Em contrapartida,os críticos da atualidade perderam a prevalência sobre assuntos artísticos para os curadores. Um conjunto de novos agentes e gestores institucionais festejam os efeitos de um sistema promocional que independentemente dos valores intrínsecos da arte, deposita suas certezas e energias nas técnicas do marketing que fomenta a visibilidade de parte da produção contemporânea.A meta é agregar aos produtos indicadores de preços atraentes,grande visibilidade midiática e enorme frequência de público numa exposição.Essa técnica de comunicação visa formatar na cabeça do público leigo uma miragem.Quem não se dobra a essa doutrina é antiquado,para não dizer burro.A intenção é não deixar margem a duvidas.Ou seja,aqui,nesses espaços, se abriga o reconhecimento artístico de uma época.Porém, todo esse poder e glamour não foi esperto o bastante para aquilatar o que estava acontecendo nos subterrâneos da cultura. O advento e a universalização da cultura digital acelerou um impasse que afetou sobremaneira a mentalidade de uma nova geração de possíveis “clientes” das grandes mostras de arte. Contudo, para alguns, a crença no poder do dinheiro de promover glamour e atrair novos ‘clientes’ para os museus ainda permanece latente. Será que a troca dos velhos magnatas provedores das grandes instituições de arte por jovens endinheirados ira persuadir os usuários do ambiente digital a ceder aos encantos dos espaços institucionais onde se instala a arte tecnicamente ajustada à consagração?

http://www.nytimes.com/2014/03/20/arts/artsspecial/wooing-a-new-generation-of-museum-patrons.html?ref=artsspecial&_r=0

domingo, janeiro 19, 2014

15” de GRANDE BELEZA




As analogias entre Jep Gambardella (A Grande Beleza/ Paolo Sorrentino) e Marcello Rubini ( Doce Vida/Fellini) são notáveis.Em algumas cenas Jep transita sobre a imagem ausente de Rubini a lhe completar os passos. Os dois heróis modernos do mundanismo convivem com a angustia e o desconforto dos indivíduos que se contorcem e não se ajustam a sensação de que nem mesmo todos os exageros que o dinheiro pode comprar são suficientes para aplacar o vazio de suas vidas.
Os dois personagens sentem-se seres distintos daqueles com os quais convivem.Por isso se colocam na posição de observadores.Consideram-se, cada um a seu modo, destinados à sensibilidade e imaginam que enxergam para além dos personagens com os quais compartilham prazeres e delírios nos luxuosos ambientes das altas rodas movidas pela afetação e suscetível aos ‘ultrajes’ escarnecidos e a elegância de folhetim.
Embalados pela musica ensurdecedora, pelas performances peculiares, pelo sexo e pelas drogas e, claro, pela exposição do dinheiro e pelo sorriso escancarado das celebridades em dialogo com o maçante histrionismo de um artista da vanguarda, empenhado em interpretar sua própria lenda.
Jep Gambardella como Marcello Rubini transitam entre dicas clarividentes,chics e gratuitas dos amantes das artes e da cultura.Os dois sorvem a ironia palatável aos salões,servidas junto com champanhe de safra especial, adornada pelos comentários de um intelectual ‘outsider’ tendo ao fundo um balé de protagonistas que compõem as cenas e adornam o cenário luxuriante do High Society.
Sorrentino trilha o mesmo percurso do seu conterrâneo Fellini. Ele toma emprestado do notável narrador, a crítica acida à sociedade naquilo que me parece o mais crucial: o desprezo sutil e elegante pelos valores mais elevados da vida e uma atração mórbida,revestida de luxo e amenidades,por tudo que se refere a precariedade da existência humana.
O triunfo e a centralidade econômica, que nos últimos trinta anos conduz todo o fazer social, criou uma camada de fuligem e limo que entranhou na mentalidade do nosso tempo.
O modo de ver, entender e viver o mundo foi sugado pelos indicadores econômico/financeiro, pela luxuria cafona e pela visibilidade ostensiva.
É fácil entender porque em nosso tempo tudo tem que ser tão veloz .
Hoje,até o efêmero é cronometrado.
Se durar mais de quinze segundos os protagonistas entram em tédio
Aprecie e descarte!
A dicotomia do nosso tempo se projeta sobre duas profundidades : Vazio e Abismo.
A elegância inerente ao bom convívio social cultua a superficialidade dos debates teatralmente acalorados.
O ponto avançado da trajetória social estabeleceu o individualismo compartilhável como uma nova fase da comunicação entre pessoas.
Paradoxalmente,é nesse cenário que o individuo é destituído de valor.
Nesse ambiente a beleza se tornou um detalhe tão fugaz e passageiro quanto o próprio evento social.
O público 'eleito' interage in loco com as manifestações estéticas. São protagonistas da obra/performance/instalação que se ajusta a frenética rotatividade e interrompe o ciclo atemporal da contemplação.
O mundo pós moderno repudia a contemplação.
Gambardella e Rubini sofrem a angustia do tempo enquanto os aspones da transitoriedade festejam quinze segundos de glória no protagonismo criativo, envoltos pela sensação de imersão completa na experiencia fugaz ofertada pela banalidade contemporânea.
É nesse território conflituoso e angustiante que o filme de Paolo Sorrentino se desenrola.
O desafio é grande mas o diretor se mostra um realizador dotado de mestria e potencia criativa ao armar e desarmar as armadilhas onipresentes na vida,na sociedade, arte e cultura da atualidade.

terça-feira, junho 11, 2013

A ARGÚCIA DO OLHO



Desde o seu surgimento, na Renascença, a perspectiva como elemento de composição pictórica, foi paulatinamente se consolidando no imaginário artístico e nas praticas pictóricas como um novo conhecimento. Imaginem como antes do advento da perspectiva se processava a informação e se organizava uma cena representativa do ponto de vista de um pintor?  Imaginem, também, as conexões de códigos comuns compartilhadas entre observador e imagem pictórica. Para que essa  imaginação se constitua numa abordagem mais proveitosa é necessário nos munir dos relatos históricos, porém, esse recurso, no modo de uma narrativa, por si só, não nos conduz para um ponto especifico no tempo e no espaço,nos colocando dentro do episodio e submetidos as categóricas sócio culturais, hábitos e costumes dominantes. Uma imersão através das camadas da historia pode nos descrever em detalhes muito precisos as condições de vida, cultos e estrutura social. Essa atmosfera nos consente montar um cenário de suposições que, como um roteiro cinematográfico, nos coloca diante da cena como visitantes. Basta um passo para frente e estaremos noutra camada do tempo, um passo atrás, no período medieval. Os estilos pictóricos desse período, por razões diversas, (inclusive, por disciplina, método e balizamento cultural) são testemunhos de que a ilusão visual de profundidade não era um conhecimento exercido na pratica pela maior parte dos artistas. No entanto, pela marcante influência dos gregos (e romanos, em evolução à arte grega) esse intento, como narram historiadores, era latente no interesse dos artistas pré-perspectivistas. Contudo, a ideia de somar aos seus conhecimentos e técnicas a profundidade ilusória como um elemento relevante na composição de uma pintura, permanecia um grande desafio a ser superado.Para alcançarem um efeito espacial persuasivo, ainda que de forma rudimentar, muitos artistas usavam as linhas diagonais como forma de obtenção de espaço interno de representação Esse processo empírico ficou conhecido como espinha de peixe. Apesar das excelentes pinturas do período a pergunta que se coloca é: por que artistas tão dotados não tinham se dado conta, até então, da existência do ponto de fuga?
Várias especulações rondam essa ‘santa ignorância’ ou melhor, essa forçosa impossibilidade. As hipóteses mais fantásticas discorrem sobre um obstáculo de natureza orgânica, neural mesmo, que me parece bastante arbitrária. Outra, explica essa impossibilidade como algo não atribuído a fatores cognitivos e técnicos, mas, a subordinação à doutrina de perímetro conferida pelo  olhar religioso,portanto,quase uma regra. Nessa demarcação o geocentrismo, quando muito o heliocentrismo, ainda que parcialmente tolerado, eram limites intransponíveis ao saber. Um tabu. Galileu- nascido 45 anos após a morte de Leonardo- legou para a humanidade uma contribuição extraordinária com o seu método científico em contraposição a metodologia aristotélica, soberana para a ciência da época e que reinava absoluta no agrément religioso.Pois bem,com todo o seu gênio, Galileu que além de sábio  era cristão, não logrou escapar da Inquisição .Mas,isso é outra historia,porém,serve aqui para ilustrar que as idas e vindas em matéria religiosa atravancavam o desenvolvimento da ciência e,por que não dizer,da representação artística de mundo, subjacente a doutrina da  Igreja Católica.
É senso comum que o processo de transformação cultural dos modos de fazer é complexo demais. Primeiro porque exige uma abertura da percepção do real e segundo, porque uma das perturbações mais corriqueiras da cultura diante do impacto do novo é a tendência dos agentes dominantes de se refugiarem na tradição, ou seja, naquilo que é estabelecido. Além disso, o surgimento de algo previsível, no plano do sensível, por si só, não desfaz os códigos antecedentes, os diluindo inexoravelmente no passado. Mas, ainda que um novo conhecimento seja sutilmente percebido por artistas muito especiais, as ferramentas e técnicas e não apenas eles, disponíveis não davam conta de opera-las simultaneamente e no mesmo ritmo em que esse novo saber  é absorvido e hierarquizado nos códigos estético-culturais dominantes. Quando o conhecimento (ciência) e a sensibilidade (ousadia) se amalgamam, abre-se um portal para as mudanças mais substantivas da cultura.
Ainda que no ano 1000, o matemático e filósofo árabe Alhazen, na sua obra Perspectiva já tivesse, teoricamente, fornecido uma base óptica da perspectiva,suficiente para fundamentar pinturas onde os objetos eram dispostos de modo convincente e esquematizava, pela primeira vez, a compreensão de que a luz projeta-se em formato cônico no olho humano, Alhalzen não era um pintor. Ele estava mesmo era preocupado com a óptica, não com métodos de representação comum aos pintores.As interelações entre  conceito e concepção estética não é matéria simples . Além disso, conversões cônicas são matematicamente difíceis, de forma que a construção de um desenho utilizando-se delas seria bastante demorado e, na ocasião, talvez, impraticáveis. Porém, nada impede que especulemos que os grandes mestres da pintura msmo antes da consolidação desse saber, vislumbraram no método Alhazen as bases mais perfeitas para a representação pictórica. A perspectiva é um expediente geométrico que reproduz de forma convincente a ilusão da realidade. Os objetos, dispostos no plano seguindo uma orientação precisa da luz, tamanhos e proporções, organiza os fatos visuais e os estabiliza, colocando  o observador num ponto ao qual o 'mundo' todo converge.
Alguns estudiosos estimam que muito antes do uso corrente da perspectiva pelos artistas do resnascimento,outras culturas ja a utilizavam,ainda que de forma simbólica, para definir as posições de personagens mais importantes do registro visual.Porém,essa é uma hipotese que levanta muitas discordâncias.O fato incontestavel é que o conjunto de ações e o acervo de obras do renascimento confirmam que a consagração da perspectiva na obra pictórica é um feito que se consolida com o renascimento. A  emblemática frase de Leonardo Da Vinci fornece uma pista do impacto cultural causado por sua aplicação: ‘a pintura é uma coisa mental’. O pensamento de Leonardo, neste caso, é um contraponto ao de seus contemporâneos. Além de estimar para a arte o mesmo status da ciência, Leonardo deu ao olhar uma compreensão mais complexa do que as apresentadas até então pelos seus pares.É claro que ao deflagrar tal afirmação Leonardo tinha em mente objetivos precisos em relação a sua obra .Na ocasião,contudo,ninguém imaginaria  o quanto esse aforismo seria poderoso para as transformações propostas pelos  artistas modernos que tempos depois se beneficiariam da noção de que a arte é um processo mental.
Essa introdução, na sua perspectiva temporal, é uma tentativa de ilustrar as investidas dos sucessores de Leonardo que, como ele, firmaram sua produção a partir do primado do olhar como meio mais eficiente para alcançar o saber e sua consequente difusão. Nesse contexto, a pintura se constituía o meio mais ajustado a ideia de perfeição. Contudo, apesar da potência liberada por tal evento, as hierarquias estéticas, montadas após o renascimento, culminaram na configuração das academias, dando margem a rigidos modelos que privilegiavam a técnica e o método em detrimento da experiência singular da autoria. Com o passar do tempo, exauridas, as academias foram eclipsadas pelos cortes  modernos advindos do impressionismo, expressionismo e demais ismos, até atingirem seu ápice na ruptura moderna promovida pela vanguarda histórica.
Pois bem, penso que nesse parágrafo ficou  claro que pretendo questionar a investida da pós modernidade  contra  o primado do olhar como o eixo da abordagem das artes plásticas ou artes  visuais.Tirante os aspectos subjetivos que ocorrem no contato  entre observador e uma obra de arte, excluindo-se os  itens relativos a sensibilidade,coisa difícil de mensurar,o que temos como fator predominante é que para as artes visuais o  olhar é o campo primordial,porque não dizer;exclusivo.Desprezar esse sentido, em prol das sensações tocantes,é  entorpecer  o olhar,quase o fechando. 
Entretanto, os cortes estéticos promovidos pela vanguarda histórica e por movimentos artísticos subsequentes, infligiram nos artistas uma serie de reflexões que visavam, no fundo, estender para fora do plano bidimensional suas investidas mais radicais. Vou pular citações de caráter descritivo sobre as diversas correntes estéticas do modernismo para ir direto a um ponto que me parece comum a maior parte das estratégias das vanguardas contemporaneas. Como a representação naturalista, os limites da condição do objeto estético contemplativo, os domínios das grandes narrativas, os temas nobres da arte e as ideologias estéticas consagradas já haviam sido relegados ao passado pelos cortes mais representativos do modernismo, os artistas pós-modernos se depararam com um grande dilema. O espólio da modernidade empurrou para as gerações seguintes um desafio intimidador. Se por um lado as novas gerações se beneficiavam dos avanços alcançados num curto espaço de tempo pelo modernismo, por outro, se viam compelidos a romper com o passado ou serem arrastados para confrontos indigestos. Rejeitar, apriorísticamente, os paradigmas modernos ainda predominantes foi uma saida. Tal atitude, a principio, pressupõe uma ousada emancipação em relação aos postulados herdados. Mas, só a principio e apenas para os incautos, porque, o olhar arguto desvenda rapidamente a trama que fertiliza os procedimentos que se sucedem e revelam um artifício penoso,por vezes mimético e sem consequências renovadoras  para o pensamento e para a arte. É muito chato explanar aqui o porquê da profusão de teorias (hoje, todo mundo tem uma só pra si) e fundamentos que se sobrepuseram desde as ultimas décadas do século XX.Mas,basicamente,podemos dizer que elas proliferaram para embasar e emprestar significado para intenções um tanto banais a titulo de paradigmas estéticos dignos de atenção. A sucessão veloz e ininterrupta de paradigmas individualizados deu corpo a uma miríade de estilos artísticos que leais à pluralidade, deitaram e rolaram num padrão estético dominante, gerador de coisas artísticas inspiradas em autobiografias estetizadas, misturadas a sub antropologia acadêmica e atitudes burlescas e iconoclastas. Não podemos deixar de lado as citações proto-revolucionárias com pitadas, aqui e ali, de condimentos filosóficos e referências especificas ao campo da arte.Uma espécie de troca de códigos entre 'colegas'. Um paradoxo tão evidente é a parte mais sedutora do cardápio da pós-modernidade.
Se aventurar num tempo despojado de história não é mole!
O curioso disso tudo é que ao lançar ao mar a sequência da historia o que sobra é nada mais que uma montanha de escombros. Em terra de ninguém e desprovida de historia, pegar um naco do  Warhol juntar com um  pedacinho de pintura paisagística japonesa e 'rasgar' a superficie numa alusão pueril a obras de um artista do passado pode resultar em espanto e histeria novidadeira,no sentido mais rentável dos termos.
É muito chato explicar aqui, em detalhes, a profusão de teorias que se sobrepuseram para embasar os desígnios singulares que seguem à risca as técnicas da comunicação e do espetáculo. Porém, um ponto me parece significativo nesse conjunto. Aí, voltamos ao inicio desse texto que trata o olhar como o sentido privilegiado para abordagem das propostas artísticas. Mas, sei lá porque diabos, os herdeiros da modernidade lançaram esse recurso no quinto dos infernos e priorizaram suas experimentações com ênfase no sensorial, na micro narrativa,na conceituação egocêntrica  e em caixinhas de surpresa  para apresentação de cenas estéticas bombásticas (feito para os grandes eventos,toda Bienal tem uma),aludindo uma espécie réplica compacta e pronta para o consumo das massas de um "choque do novo",troço que a midia cultural adora e  registra como polêmica. As instalações,objetos insólitos,atos,gestos, atitudes e pequenas narrativas de natureza intima, por razões evidentes, lançaram ao mar o primado do olhar como eixo  prioritário na relação autônoma  entre  observador e a arte.O que vale e o que se  deve imprimir no imaginário do espectador é o sentido do espetáculo multimídia,cenográfico,caleidoscópico que, no entender dos autores e curadores das grandes mostras institucionais,arrepiam os sentidos do observador, refletem uma cultura multifacetada e a pujança da sociedade contemporânea.É nos intertícios dessa modalidade aparentemente tolerante que qualquer expressão pode se converter em obra de arte. Para que o fenômeno se complete,os agentes do sistema de arte,as instituições,galerias,mídia e editoras emitem um certificado de reconhecimento cultural. Bem, nesse ponto é preciso fazer justiça. Os curadores, agentes mais interessados nesse jogo, o elegeram  por razões que dizem respeito a estratégias específicas de natureza acadêmica ou econômica, em sincronia com o sistema de arte,para  difundir suas conjecturas teoréticas.
Oh! Ideias!O que elas são capazes de promover.
Para encerrar, falarei da minha surpresa ao ir essa semana à escola de arte aqui do Rio para uma conversa  informal  com alguns estudantes. O texto acima, parte das anotações que mandei para um fórum sobre arte há alguns anos, foi o foco da minha apresentação. Há muito tempo eu não ia a escolas de arte. No caminho divaguei sobre a predominância dos modelos estéticos fundados no sensorial, nas instalações, gestos, atitudes e demais procedimentos afins que nos últimos trinta anos são predominantes nas Bienais globais, tem grande visibilidade midiática e se destacam nos eventos institucionais e oficiais de arte. Será que lá verei simulações dessa vertente da arte de grande destaque curatorial?
Que nada!Qual não foi minha surpresa quando constatei os corredores apinhados de cavaletes, pinturas penduradas por toda parte,salas repletas de estudantes enfronhados na velha prática pictórica.
Tem alguma coisa aí a se aprender? 

segunda-feira, junho 03, 2013

UM ESCAFANDRISTA NA BIENAL DE VENEZA


Transitando pelas vielas atemporais, transpondo biografias estetizadas, objetos multiformes, verbetes de antropologia cultural,estetização dos discursos ideológicos e miríades de erários auto confessionais, alinhados sob o pórtico da arte do século XXI, o escafandrista devotado busca no seu navegador indicações sobre o percurso a ser seguido nessa inspeção. Encontra no seu navegador de ultima geração o mapa traçado por Lawrence Alloway em seu livro a Bienal Veneza 1895-1968. Sim, pensa ele, o lugar é precisamente esse!
Mas, logo percebe que no correr desse curto espaço de tempo algo estranho aconteceu na Bienal de Veneza. A tentativa de mostrar a abundância da arte contemporânea ao mesmo tempo em que se tenta remover as ervas daninhas da incerteza para fora do contemporâneo a fim de adequá-la aos novos ciclos da arte, de solução prevista,levou a Bienal de Veneza a perder gradativamente  substância sensível, ao mesmo tempo em que ganha lastro especulativo espetacular.
Esse conjunto de fatores acrescido as intempéries do mar e da atmosfera geopolítica foram desastrosas para a estabilidade da instituição. Recarregar de nova potência um corpo em decomposição é missão hercúlea e com fortes tendências ao fracasso. Nesse item, o escafandrista marcou na sua tabuleta de avaliação um X sobre a opção:"resultados insatisfatórios". A danosa corrosão, provocada pela clausura do sistema de arte frente aos novos desafios da atualidade, somado a fatores objetivos de natureza econômica e mercadológica e pretensiosamente politica, se impôs  no mesmo  passo em que degradou impiedosamente essa histórica instituição de arte. Essa que,alias, é a mãe de similares espalhadas pelo mundo e que algumas já pereceram há muito tempo. Pesada demais e imprópria para navegação em tempos hiper modernos, a Bienal de Veneza afunda mais rapidamente que as edificações maravilhosas dessa cidade emblemática. Apesar da diversidade entre os pavilhões nacionais onde as nações tentam mais uma vez mostrar um perfil  supostamente inovador sob o viés do deus do tempo pautado numa máxima ultrapassada : "vejam quão contemporâneos somos" o que se registra como evento singular é sua sobrevida como parque temático ilustrativo das questões periféricas à arte mas que tocam e se impõem como ações mercantis subvencionadas por políticas culturais ambíguas que ainda cultua a 'critica' ao sistema da arte como o motor propulsor das transformações sócio culturais.Ha muito não é mais!
Um dos exemplos observáveis são as repetições do mesmo recurso estratégico usado pelos EUA para a consagração da arte norte americana(POP)na edição de 1960.Hoje, a China e outras nações, antes periféricas no circuito internacional da arte,recorrem ao método  que daquele tempo para cá, se tornou um  padrão. As Bienais se tornaram uma espécie de antítese da arqueologia. Enquanto esse campo do conhecimento se esmera em  revelar ao mundo a "descoberta" da tumba de um desconhecido faraó  que, de fato, um dia foi  soberano, as Bienais se esmeram em mumificar lendas contemporâneas.
A visão do século XX,  projetada por  Allan Bloom,( A Cultura Inculta) como  o século da crise intelectual, quando as universidades ruíram  pela “falta de conhecimentos dos estudantes, desde os clichês da libertação à substituição da razão pela "criatividade" dando espaço para ideias continentais vulgarizadas de niilismo e desespero e  de relativismo disfarçado de tolerância”, inspira os devaneios profundos do escafandrista que se põem a imaginar  o século XXI  no papel do  'exterminador do  futuro'. No registro dessa pesquisa submarina resta apenas uma pequena anotação de pé de página, em contraponto ao aforismo do Beyus:"Toda pessoa é um artista" o escafandrista sublinhou: “Nesses moldes,definitivamente,eu não sou um artista”