segunda-feira, agosto 11, 2014

Dizem por aí!

Não é difícil entender! 
O que é difícil é situar a mentalidade dominante, aparentemente aberta à fruição da arte, no contexto da cultura contemporânea. Alguns simpatizantes das ‘vanguardas’ da atualidade- artistas/espectadores- manifestam aversão espantosa contra quem quer que ouse criticar o que se auto denomina arte no tempo presente. O poeta Ferreira Gullar, por exemplo, já deve ter sido mandado para o fogo do inferno centenas de vezes. Mas, para aporrinhação dos seus oponentes, o poeta não se queima e, para piorar, se nega ao silencio. Ele vai a uma exposição e dela sai sentando o cacete na maioria das obras que viu. Em sucessivos textos o poeta afirma que a maior parte das obras hoje consideradas como arte, não são Arte. Isso não seria nada demais caso os leitores ofendidos não partissem para a contra ofensiva.
Oh!Deus!Para piorar as coisas, eles se aventuram.
Partem açodadamente em defesa do que estimam como um campo aberto a todas as formas de expressão com a fúria dos combatentes de uma guerra santa. O paradoxo da aventura arrebatada em defesa da trincheira- ‘arte é tudo que eu digo que é arte’- é tão evidente quanto um elefante vermelho num cubo branco.
As argumentações restritivas ao livre pensar e à crítica autônoma que advogam chega às raias do ridículo. Os argumentos se restringem a negação explicita ao direito de expressão dos contrários.
Amparados na censura mais imbecil que existe esbravejam orgulhosos de suas vanguardices: “Múmia!Reacionário! Conservador.”
Pronto!Disseram tudo esbravejando suas maldições contra os seus críticos.
Suponhamos que o foco dessa arenga fosse, de fato, a defesa da arte e não a expressão particular de um ou outro artista. Suponhamos, também, que o FG não publicasse seus artigos num jornal. Seriam seus pensamentos tão relevantes para o circuito das artes visuais?
Tenho certeza que não!
Os textos do poeta, hostis a grande parte da produção da atualidade, podem até não induzir a reflexões profundas sobre a arte do momento. Todavia, por serem publicados em veículos da grande imprensa incidem em visibilidade. Visibilidade é uma peça chave no atual sistema de arte e,sobretudo, para o mercado.
Ir a guerra sem ter clareza contra quem se combate é uma idiotice completa. Alistar-se no batalhão dos fieis ao deus da Arte sem carregar uma fileira de explosivos na cintura é coisa para amadores.
Assim,os ‘radicais’ que não tem como alvo os templos da Arte,mas,sim seus críticos e oponentes,continuam contribuindo com seus dízimos para a grandeza e a riqueza do sistema.
E a arte?
Ora,tudo É!
Dizem por aí.

domingo, junho 08, 2014

A pele que nos protege


Arsène Housset(nome de nascimento),Alfred Mousse(pseudônimo),era a dupla de nomes que se agregava a face do escritor francês Arsène Houssaye (18141896).Além da  frenética disposição para escrever sobre os mais variados temas, Houssaye teve muita influencia no meio cultural quando em  1843 dirigiu a revista L’artiste,aberta a jovens escritores como Charles Baudelaire, Theodore Bainville, Henri Murger Monselet entre outros.
Também colaborou com outras duas publicações como  La Revue des Deux Mondes e Revue de Paris.Nos anos finais da decada de 70,durante minha residencia em Paris,me caiu nas mãos um dos seus livros mais famosos“História da quadragésima primeira cadeira da Academia” (1845).Fui atraído pelo tema desse livro que tocava, de maneira curiosa, sobre as “escolhas” da cultura que elegem, sem que saibamos exatamente os motivos,as obras,artistas e autores que se consolidam como modelos  de uma época e  ícones da sociedade.O livro toca de raspão no enigma  da hierarquização dos modelos estéticos pela cultura dominante.Nesse livro Arsène Houssaye criou discursos de ‘aceitação’ imaginários de grandes escritores que nunca pertenceram à Academia Francesa. A ideia de publicar discursos  imaginários  feitos por escritores não reconhecidos pelo mérito acadêmico, me pareceu  uma maneira irônica de decretar uma ruptura com os cânones conservadores que    definiam os parâmetros artísticos da época e um passo arrojado que precedeu as atitudes dos artistas mais radicais da modernidade.      
Mais intrigante ainda foi  a decisão de Houssaye  de jamais tentar  negociar  politicamente - teria dinheiro e prestigio para isso- ou mesmo aplicar-se para Academia Francesa.Vale dizer que para Houssaye a Academia Francesa era o motor da ascensão de figuras de proa da cultura e lugar de consagração dos literatos.São inúmeras as suposições sobre a repulsa de Arsène à instituição.Hoje,esse velho modo de louvor literário foi superado.As academias não mais influenciam a politica cultural,ao contrario são influenciadas pelas circunstancias do poder politico.Nos dias correntes a consagração social de um artista é forjada pelo mercado de arte,a industria editorial,instituições publicas e privadas e pelos veículos de comunicação.As Academias se tornaram emblemas opacos de um passado glorioso da corporação dos escritores e refúgios seguros para a velhice.Mais curioso ainda é que a postura arrojada do Houssaye no tocante a “institucionalização” da arte e  na contramão do sistema, se contrapõem a sua atitude conservadora ao vetar a publicação no La Presse(1862) dos poemas em prosa “Paris Spleen” de Baudelaire  a ele dedicados,sob o argumento de que os poemas, em sua opinião, chocariam os leitores.Ele atrasou a publicação por todos os meios, afetando severamente Charles Baudelaire que sofria da falta cronica de dinheiro.
Pois bem, a obra de Baudelaire segue pulsando na longa travessia do tempo,enquanto Houssaye desfrutava do seu  ostracismo.Quer dizer,até semana passada, quando o New York Times publicou uma matéria em que  Houssaye  reaparece na cena cultural por motivos paralelos a sua obra literária e,de certa forma, inusitado,enquanto objeto cultural.Um romance ou tese a ele atribuído intitulado  “Dos Destinos da Alma”,acervo da Houghton Biblioteca,vem, desde abril deste ano, fascinando os pesquisadores da instituição.Uma nota manuscrita na publicação declara que o livro foi encadernado com a pele tirada das costas de uma mulher. Uma vez que,segundo o manuscrito,"um livro sobre a alma humana merecia ter uma cobertura humana”.Comprovada cientificamente como real, resta saber quem fez a “criação” e a quem pertencia a pele que reveste a publicação. Se Houssaye dormia sossegadamente nas baias do esquecimento, esta semana foi  subitamente despertado do sono e hoje se sujeita a duas especulações.A primeira é se foi o próprio autor quem determinou a edição de um exemplar  tão enigmático onde a  pele que nos protege e nos contata ao mundo foi extraída de uma pessoa e aplicada no exemplar .A outra é se a concepção foi feita pelo doador do livro que 1934  passou a integrar o acervo da biblioteca.  

domingo, maio 04, 2014

Saudoso naentherdal*


Resiliência é um termo usado com frequência por analistas que estudam as tendências sócio/cultural do nosso tempo. Na Física a palavra é relativa a característica mecânica que define a resistência aos choques de materiais No dicionário formal a palavra resiliência significa a capacidade que temos como pessoa ou sociedade de voltar ao estado natural, principalmente após alguma situação crítica e fora do comum.Ora,se há alguma coisa “fora do comum”,uma virada de procedimentos que faz com que tudo no nosso dia a dia pareça ‘antinatural’,quer dizer, fuja ao ciclo previsível dos acontecimentos naturais tipo amanhecer,entardecer e anoitecer, é a dinâmica do tempo estendido motivado pelo fluxo ininterrupto da informação.Ela é responsável pela transformação veloz com que as coisas ocorrem num dia que se amplia para alem das 24horas convencionais.Um veiculo de comunicação,como um jornal, por exemplo, sobre a mesa do café da manhã,no almoço será um calhamaço de papel onde se relembra noticias do passado. Admitamos ou não o nosso tempo ‘natural’ digamos assim, foi estendido potencialmente pela cultura digital. Os fatos e as coisas do mundo nos chegam instantaneamente. Não são mais passiveis de serem editadas a posterior. São apreendidas de imediato. Os meios tradicionais de noticias que não se adéquam ao tempo virtual são expelidos do presente. Esse é um dos dados que as transformações radicais propiciadas pelo acesso on line a informação esparramou por todo o globo.A “volta ao estado natural” remete,queiramos ou não,ao mito do “beau sauvage”. Ainda que os analistas pós modernos tentem desviar desse conceito(Rosseau) em suas considerações,ele permanece ao fundo,como um fantasma a nos lembrar de um passado glorioso no qual o homem era mais humano e feliz.
Oh!Maldita tradição (ou traição)que insiste em moldar a imagem,semelhança e mentalidade os nascituros!
Minha leitura desse domingo desviou da cretinice da vida política nacional para percorrer trechos de um debate sobre as habilidades socioemocionais consideradas importantes para profissionais do futuro. Num seminário intitulado Educar Para as Competências do Século 21 ocorrido em março, no Brasil, e na Conferência de Educação Privada, realizada em abril em San Francisco (EUA) pela International Finance Corporation, ligada ao Banco Mundial,os participantes tatearam questões que afligem as sociedades,os pais e as escolas.
Mais uma vez se comprova o quanto é confortável projetar o futuro dentro de um laboratório ou de um gabinete político. Como parece fácil e sofisticado avaliar as tensões culturais e sociais da atualidade e projeta-las num sistema lógico de pressupostos. Ocorre que nem sempre o futuro é tão acolhedor às ideias e pressupostos antecedentes. É admissível que os especialistas se mobilizem para transferir para programas de educação simulações do que ocorre -HOJE- no mercado de trabalho com o objetivo de buscar aperfeiçoamentos nos sistemas de ensino atuais. Isso é bacana e demonstra uma preocupação meritória em como conduzir milhões de jovens num mundo devastado por guerras, corrupções desmesuradas e todo tipo de ação que reverte contra a vida igualitária e justa, mas também, "com as habilidades cruciais, não exclusivamente técnicas, mas, sim, sociais e emocionais como a resiliência, a curiosidade, a colaboração,o pensamento crítico e capacidade de resolução de problemas, por exemplo."Eventos dessa ordem soam como positivos. Contudo, ao firmarem um propósito de ‘reparação’ num mundo corroído pela violência, a estupidez e a destruição em busca do ‘progresso” econômico, as colunas do edifico futurista parece não ter fundações solidas.Sequer tocam o chão.
A resiliência projetada a partir das otimizações de um advir consonante com as observações do passado/presente, diferentemente da ocorrência na física onde objetiva definir a resistência entre os materiais, pode ser um método eficaz e bom. Mas, nada garante que também possa ser tão ruim, dócil e submisso quanto o método anterior . A superação de desafios, o pensamento crítico e colaborativo que hoje tornam o mundo menos ignorante, surgiram de experiências educacionais que previam resultados pautados em projeções antecedentes focadas em objetivos muito diferentes e conflitantes com a realidade dos nossos dias.
Só de provocação: a resiliência aplicada a um personagem como o Putin, por exemplo, pode ser apenas a volta da Rússia ao estado natural de União Soviética. A resiliência aplicada a Dilma pode ser nada mais que a volta ao ‘estado natural’ de colônia. A resiliência do Sarney, um retorno ao estado natural das cavernas e assim por diante,quer dizer,pé a pé para trás.
*Uma proposta corporalística/mental para um cientista resiliente é clonar um gene
naentherdal e inocula-lo numa Barbie humana.Criar o ultra beau sauvage

sexta-feira, maio 02, 2014

‘Como conquistar uma nova geração de patronos para os museus’ é o titulo de um artigo recente no NYT que expõem os aspectos decisivos da passagem do cetro dos velhos magnatas provedores dos museus para a mais nova geração de endinheirados.No ambiente perfumado do mais sofisticado aroma e cheio de glamour e elegância das grandes marcas onde transitam coisas belas para os olhos e deliciosas ao paladar, as fissuras do sistema que as sustenta é invisível. Mas,é ele que agora está em jogo.
A crise é grave!
E não é apenas de natureza econômica,é, sobretudo,cultural.Quando as duas vertentes centrais da sociedade-economia e cultura- sentem-se ameaçadas no seu ajustamento estético é por que as coisas estão em processo de mudança e poucos se apercebem disso.A crise das instituições culturais não se restringe apenas a manutenção dos museus.Ela afeta o modelo de amostragem de arte tipo bienais, exposições temáticas hiperbólicas,entediantemente desproporcionais em confronto com a cultura que se expande nas ruas,guetos e canais das grandes cidades e nas avenidas virtuais.
Um choque ‘fin de siècle’,diria um ‘sans culottes’ ejetado pela máquina de um tempo revolucionário.
Apesar dos rituais milionários dos leilões apontarem que o dinheiro inunda o sistema da arte em lances com valores mirabolantes, a crise do sistema institucional de arte se agrava.Na verdade, se hoje uma grande instituição não é financiada com dinheiro público ela padecera na decadência estrutural e funcional. Mas, ao contrario do que muitos supõem não se trata apenas de um problema econômico. Não se trata de economia demais ou de menos no sistema. O que vemos é o vértice de uma crise cultural de proporções transformadoras.
Não façam ilações precipitadas.
A crise que agora se apresenta não é de natureza artística. Aliás,é bom lembrar que a arte sempre soube e sempre se nutriu,renovou e reinventou-se nas crises da cultura estabelecida. Essa será mais uma ‘virada’ da qual a arte fará bom uso para moldar novos campos de experimentação.
A montagem das fotos que ilustra esse post é uma picardia. A palavra picardia, catada no velho vocabulário, se ajusta ao ambiente aristocrático de outrora que legitimou a arte de uma época. Ao lado, a imagem de um sofisticado ambiente museológico dos dias atuais que, a rigor, pretende legitimar a arte do nosso período. O espelhamento de dois tempos refletidos num só plano escancara as diferenças formais e estilísticas, porem, não de modos e atitudes. É incrível,mas,permanecem os mesmos!Quanto esforço fez a aristocracia para reter entre seus dedos as tramas da cultura. Quanto esforço e capital os novos patronos empoderarão no sistema de museus e grandes mostras para oxigenar um aparelho moribundo?A cultura digital se agigantou de tal forma que não dá mais para evitar uma radical substituição dos valores. A informação maciça e fluente esmaga inexoravelmente os meios de comunicação tradicionais. Todos parecem assustados com o que virá. As tendências, antes ditadas por um núcleo editorial, se esgueira nas redes.Estamos no olho do furacão de uma transformação sem precedentes na historia da cultura.
Não adianta resistir.Alias,para que resistir?
Não basta, portanto, trocar a geração de provedores. O problema das grandes instituições de arte é muito mais profundo. Num certo sentido assemelha-se a perda gradual de poder dos aristocratas cultos do século XVIII, detentores de fortuna, poder e saber.
Brecht já alertava: “Alegrem-se com o Novo, envergonhem-se do Velho!”
Em 06/2010 postei um artigo no Hiperblog que vem de encontro as minhas considerações nesse texto.Quem tiver interesse acessa o link:
http://adrianodeaquino.blogspot.com.br/2010/06/alegrem-se-com-o-novo-envergonhem-se-do.html






Arrastar a Arte para a classe do espetáculo acentuou a vulnerabilidade da cultura as praticas submetidas a centralidade econômica. Muitos pensadores do modernismo criticavam os efeitos devastadores de se submeter o fazer artístico e as instituições culturais as diretrizes do mercado. Poucos críticos daquele período vieram a conhecer o que nos últimos vinte anos se consolidou como marketing cultural. Em contrapartida,os críticos da atualidade perderam a prevalência sobre assuntos artísticos para os curadores. Um conjunto de novos agentes e gestores institucionais festejam os efeitos de um sistema promocional que independentemente dos valores intrínsecos da arte, deposita suas certezas e energias nas técnicas do marketing que fomenta a visibilidade de parte da produção contemporânea.A meta é agregar aos produtos indicadores de preços atraentes,grande visibilidade midiática e enorme frequência de público numa exposição.Essa técnica de comunicação visa formatar na cabeça do público leigo uma miragem.Quem não se dobra a essa doutrina é antiquado,para não dizer burro.A intenção é não deixar margem a duvidas.Ou seja,aqui,nesses espaços, se abriga o reconhecimento artístico de uma época.Porém, todo esse poder e glamour não foi esperto o bastante para aquilatar o que estava acontecendo nos subterrâneos da cultura. O advento e a universalização da cultura digital acelerou um impasse que afetou sobremaneira a mentalidade de uma nova geração de possíveis “clientes” das grandes mostras de arte. Contudo, para alguns, a crença no poder do dinheiro de promover glamour e atrair novos ‘clientes’ para os museus ainda permanece latente. Será que a troca dos velhos magnatas provedores das grandes instituições de arte por jovens endinheirados ira persuadir os usuários do ambiente digital a ceder aos encantos dos espaços institucionais onde se instala a arte tecnicamente ajustada à consagração?

http://www.nytimes.com/2014/03/20/arts/artsspecial/wooing-a-new-generation-of-museum-patrons.html?ref=artsspecial&_r=0

domingo, janeiro 19, 2014

15” de GRANDE BELEZA




As analogias entre Jep Gambardella (A Grande Beleza/ Paolo Sorrentino) e Marcello Rubini ( Doce Vida/Fellini) são notáveis.Em algumas cenas Jep transita sobre a imagem ausente de Rubini a lhe completar os passos. Os dois heróis modernos do mundanismo convivem com a angustia e o desconforto dos indivíduos que se contorcem e não se ajustam a sensação de que nem mesmo todos os exageros que o dinheiro pode comprar são suficientes para aplacar o vazio de suas vidas.
Os dois personagens sentem-se seres distintos daqueles com os quais convivem.Por isso se colocam na posição de observadores.Consideram-se, cada um a seu modo, destinados à sensibilidade e imaginam que enxergam para além dos personagens com os quais compartilham prazeres e delírios nos luxuosos ambientes das altas rodas movidas pela afetação e suscetível aos ‘ultrajes’ escarnecidos e a elegância de folhetim.
Embalados pela musica ensurdecedora, pelas performances peculiares, pelo sexo e pelas drogas e, claro, pela exposição do dinheiro e pelo sorriso escancarado das celebridades em dialogo com o maçante histrionismo de um artista da vanguarda, empenhado em interpretar sua própria lenda.
Jep Gambardella como Marcello Rubini transitam entre dicas clarividentes,chics e gratuitas dos amantes das artes e da cultura.Os dois sorvem a ironia palatável aos salões,servidas junto com champanhe de safra especial, adornada pelos comentários de um intelectual ‘outsider’ tendo ao fundo um balé de protagonistas que compõem as cenas e adornam o cenário luxuriante do High Society.
Sorrentino trilha o mesmo percurso do seu conterrâneo Fellini. Ele toma emprestado do notável narrador, a crítica acida à sociedade naquilo que me parece o mais crucial: o desprezo sutil e elegante pelos valores mais elevados da vida e uma atração mórbida,revestida de luxo e amenidades,por tudo que se refere a precariedade da existência humana.
O triunfo e a centralidade econômica, que nos últimos trinta anos conduz todo o fazer social, criou uma camada de fuligem e limo que entranhou na mentalidade do nosso tempo.
O modo de ver, entender e viver o mundo foi sugado pelos indicadores econômico/financeiro, pela luxuria cafona e pela visibilidade ostensiva.
É fácil entender porque em nosso tempo tudo tem que ser tão veloz .
Hoje,até o efêmero é cronometrado.
Se durar mais de quinze segundos os protagonistas entram em tédio
Aprecie e descarte!
A dicotomia do nosso tempo se projeta sobre duas profundidades : Vazio e Abismo.
A elegância inerente ao bom convívio social cultua a superficialidade dos debates teatralmente acalorados.
O ponto avançado da trajetória social estabeleceu o individualismo compartilhável como uma nova fase da comunicação entre pessoas.
Paradoxalmente,é nesse cenário que o individuo é destituído de valor.
Nesse ambiente a beleza se tornou um detalhe tão fugaz e passageiro quanto o próprio evento social.
O público 'eleito' interage in loco com as manifestações estéticas. São protagonistas da obra/performance/instalação que se ajusta a frenética rotatividade e interrompe o ciclo atemporal da contemplação.
O mundo pós moderno repudia a contemplação.
Gambardella e Rubini sofrem a angustia do tempo enquanto os aspones da transitoriedade festejam quinze segundos de glória no protagonismo criativo, envoltos pela sensação de imersão completa na experiencia fugaz ofertada pela banalidade contemporânea.
É nesse território conflituoso e angustiante que o filme de Paolo Sorrentino se desenrola.
O desafio é grande mas o diretor se mostra um realizador dotado de mestria e potencia criativa ao armar e desarmar as armadilhas onipresentes na vida,na sociedade, arte e cultura da atualidade.

terça-feira, junho 11, 2013

A ARGÚCIA DO OLHO



Desde o seu surgimento, na Renascença, a perspectiva como elemento de composição pictórica, foi paulatinamente se consolidando no imaginário artístico e nas praticas pictóricas como um novo conhecimento. Imaginem como antes do advento da perspectiva se processava a informação e se organizava uma cena representativa do ponto de vista de um pintor?  Imaginem, também, as conexões de códigos comuns compartilhadas entre observador e imagem pictórica. Para que essa  imaginação se constitua numa abordagem mais proveitosa é necessário nos munir dos relatos históricos, porém, esse recurso, no modo de uma narrativa, por si só, não nos conduz para um ponto especifico no tempo e no espaço,nos colocando dentro do episodio e submetidos as categóricas sócio culturais, hábitos e costumes dominantes. Uma imersão através das camadas da historia pode nos descrever em detalhes muito precisos as condições de vida, cultos e estrutura social. Essa atmosfera nos consente montar um cenário de suposições que, como um roteiro cinematográfico, nos coloca diante da cena como visitantes. Basta um passo para frente e estaremos noutra camada do tempo, um passo atrás, no período medieval. Os estilos pictóricos desse período, por razões diversas, (inclusive, por disciplina, método e balizamento cultural) são testemunhos de que a ilusão visual de profundidade não era um conhecimento exercido na pratica pela maior parte dos artistas. No entanto, pela marcante influência dos gregos (e romanos, em evolução à arte grega) esse intento, como narram historiadores, era latente no interesse dos artistas pré-perspectivistas. Contudo, a ideia de somar aos seus conhecimentos e técnicas a profundidade ilusória como um elemento relevante na composição de uma pintura, permanecia um grande desafio a ser superado.Para alcançarem um efeito espacial persuasivo, ainda que de forma rudimentar, muitos artistas usavam as linhas diagonais como forma de obtenção de espaço interno de representação Esse processo empírico ficou conhecido como espinha de peixe. Apesar das excelentes pinturas do período a pergunta que se coloca é: por que artistas tão dotados não tinham se dado conta, até então, da existência do ponto de fuga?
Várias especulações rondam essa ‘santa ignorância’ ou melhor, essa forçosa impossibilidade. As hipóteses mais fantásticas discorrem sobre um obstáculo de natureza orgânica, neural mesmo, que me parece bastante arbitrária. Outra, explica essa impossibilidade como algo não atribuído a fatores cognitivos e técnicos, mas, a subordinação à doutrina de perímetro conferida pelo  olhar religioso,portanto,quase uma regra. Nessa demarcação o geocentrismo, quando muito o heliocentrismo, ainda que parcialmente tolerado, eram limites intransponíveis ao saber. Um tabu. Galileu- nascido 45 anos após a morte de Leonardo- legou para a humanidade uma contribuição extraordinária com o seu método científico em contraposição a metodologia aristotélica, soberana para a ciência da época e que reinava absoluta no agrément religioso.Pois bem,com todo o seu gênio, Galileu que além de sábio  era cristão, não logrou escapar da Inquisição .Mas,isso é outra historia,porém,serve aqui para ilustrar que as idas e vindas em matéria religiosa atravancavam o desenvolvimento da ciência e,por que não dizer,da representação artística de mundo, subjacente a doutrina da  Igreja Católica.
É senso comum que o processo de transformação cultural dos modos de fazer é complexo demais. Primeiro porque exige uma abertura da percepção do real e segundo, porque uma das perturbações mais corriqueiras da cultura diante do impacto do novo é a tendência dos agentes dominantes de se refugiarem na tradição, ou seja, naquilo que é estabelecido. Além disso, o surgimento de algo previsível, no plano do sensível, por si só, não desfaz os códigos antecedentes, os diluindo inexoravelmente no passado. Mas, ainda que um novo conhecimento seja sutilmente percebido por artistas muito especiais, as ferramentas e técnicas e não apenas eles, disponíveis não davam conta de opera-las simultaneamente e no mesmo ritmo em que esse novo saber  é absorvido e hierarquizado nos códigos estético-culturais dominantes. Quando o conhecimento (ciência) e a sensibilidade (ousadia) se amalgamam, abre-se um portal para as mudanças mais substantivas da cultura.
Ainda que no ano 1000, o matemático e filósofo árabe Alhazen, na sua obra Perspectiva já tivesse, teoricamente, fornecido uma base óptica da perspectiva,suficiente para fundamentar pinturas onde os objetos eram dispostos de modo convincente e esquematizava, pela primeira vez, a compreensão de que a luz projeta-se em formato cônico no olho humano, Alhalzen não era um pintor. Ele estava mesmo era preocupado com a óptica, não com métodos de representação comum aos pintores.As interelações entre  conceito e concepção estética não é matéria simples . Além disso, conversões cônicas são matematicamente difíceis, de forma que a construção de um desenho utilizando-se delas seria bastante demorado e, na ocasião, talvez, impraticáveis. Porém, nada impede que especulemos que os grandes mestres da pintura msmo antes da consolidação desse saber, vislumbraram no método Alhazen as bases mais perfeitas para a representação pictórica. A perspectiva é um expediente geométrico que reproduz de forma convincente a ilusão da realidade. Os objetos, dispostos no plano seguindo uma orientação precisa da luz, tamanhos e proporções, organiza os fatos visuais e os estabiliza, colocando  o observador num ponto ao qual o 'mundo' todo converge.
Alguns estudiosos estimam que muito antes do uso corrente da perspectiva pelos artistas do resnascimento,outras culturas ja a utilizavam,ainda que de forma simbólica, para definir as posições de personagens mais importantes do registro visual.Porém,essa é uma hipotese que levanta muitas discordâncias.O fato incontestavel é que o conjunto de ações e o acervo de obras do renascimento confirmam que a consagração da perspectiva na obra pictórica é um feito que se consolida com o renascimento. A  emblemática frase de Leonardo Da Vinci fornece uma pista do impacto cultural causado por sua aplicação: ‘a pintura é uma coisa mental’. O pensamento de Leonardo, neste caso, é um contraponto ao de seus contemporâneos. Além de estimar para a arte o mesmo status da ciência, Leonardo deu ao olhar uma compreensão mais complexa do que as apresentadas até então pelos seus pares.É claro que ao deflagrar tal afirmação Leonardo tinha em mente objetivos precisos em relação a sua obra .Na ocasião,contudo,ninguém imaginaria  o quanto esse aforismo seria poderoso para as transformações propostas pelos  artistas modernos que tempos depois se beneficiariam da noção de que a arte é um processo mental.
Essa introdução, na sua perspectiva temporal, é uma tentativa de ilustrar as investidas dos sucessores de Leonardo que, como ele, firmaram sua produção a partir do primado do olhar como meio mais eficiente para alcançar o saber e sua consequente difusão. Nesse contexto, a pintura se constituía o meio mais ajustado a ideia de perfeição. Contudo, apesar da potência liberada por tal evento, as hierarquias estéticas, montadas após o renascimento, culminaram na configuração das academias, dando margem a rigidos modelos que privilegiavam a técnica e o método em detrimento da experiência singular da autoria. Com o passar do tempo, exauridas, as academias foram eclipsadas pelos cortes  modernos advindos do impressionismo, expressionismo e demais ismos, até atingirem seu ápice na ruptura moderna promovida pela vanguarda histórica.
Pois bem, penso que nesse parágrafo ficou  claro que pretendo questionar a investida da pós modernidade  contra  o primado do olhar como o eixo da abordagem das artes plásticas ou artes  visuais.Tirante os aspectos subjetivos que ocorrem no contato  entre observador e uma obra de arte, excluindo-se os  itens relativos a sensibilidade,coisa difícil de mensurar,o que temos como fator predominante é que para as artes visuais o  olhar é o campo primordial,porque não dizer;exclusivo.Desprezar esse sentido, em prol das sensações tocantes,é  entorpecer  o olhar,quase o fechando. 
Entretanto, os cortes estéticos promovidos pela vanguarda histórica e por movimentos artísticos subsequentes, infligiram nos artistas uma serie de reflexões que visavam, no fundo, estender para fora do plano bidimensional suas investidas mais radicais. Vou pular citações de caráter descritivo sobre as diversas correntes estéticas do modernismo para ir direto a um ponto que me parece comum a maior parte das estratégias das vanguardas contemporaneas. Como a representação naturalista, os limites da condição do objeto estético contemplativo, os domínios das grandes narrativas, os temas nobres da arte e as ideologias estéticas consagradas já haviam sido relegados ao passado pelos cortes mais representativos do modernismo, os artistas pós-modernos se depararam com um grande dilema. O espólio da modernidade empurrou para as gerações seguintes um desafio intimidador. Se por um lado as novas gerações se beneficiavam dos avanços alcançados num curto espaço de tempo pelo modernismo, por outro, se viam compelidos a romper com o passado ou serem arrastados para confrontos indigestos. Rejeitar, apriorísticamente, os paradigmas modernos ainda predominantes foi uma saida. Tal atitude, a principio, pressupõe uma ousada emancipação em relação aos postulados herdados. Mas, só a principio e apenas para os incautos, porque, o olhar arguto desvenda rapidamente a trama que fertiliza os procedimentos que se sucedem e revelam um artifício penoso,por vezes mimético e sem consequências renovadoras  para o pensamento e para a arte. É muito chato explanar aqui o porquê da profusão de teorias (hoje, todo mundo tem uma só pra si) e fundamentos que se sobrepuseram desde as ultimas décadas do século XX.Mas,basicamente,podemos dizer que elas proliferaram para embasar e emprestar significado para intenções um tanto banais a titulo de paradigmas estéticos dignos de atenção. A sucessão veloz e ininterrupta de paradigmas individualizados deu corpo a uma miríade de estilos artísticos que leais à pluralidade, deitaram e rolaram num padrão estético dominante, gerador de coisas artísticas inspiradas em autobiografias estetizadas, misturadas a sub antropologia acadêmica e atitudes burlescas e iconoclastas. Não podemos deixar de lado as citações proto-revolucionárias com pitadas, aqui e ali, de condimentos filosóficos e referências especificas ao campo da arte.Uma espécie de troca de códigos entre 'colegas'. Um paradoxo tão evidente é a parte mais sedutora do cardápio da pós-modernidade.
Se aventurar num tempo despojado de história não é mole!
O curioso disso tudo é que ao lançar ao mar a sequência da historia o que sobra é nada mais que uma montanha de escombros. Em terra de ninguém e desprovida de historia, pegar um naco do  Warhol juntar com um  pedacinho de pintura paisagística japonesa e 'rasgar' a superficie numa alusão pueril a obras de um artista do passado pode resultar em espanto e histeria novidadeira,no sentido mais rentável dos termos.
É muito chato explicar aqui, em detalhes, a profusão de teorias que se sobrepuseram para embasar os desígnios singulares que seguem à risca as técnicas da comunicação e do espetáculo. Porém, um ponto me parece significativo nesse conjunto. Aí, voltamos ao inicio desse texto que trata o olhar como o sentido privilegiado para abordagem das propostas artísticas. Mas, sei lá porque diabos, os herdeiros da modernidade lançaram esse recurso no quinto dos infernos e priorizaram suas experimentações com ênfase no sensorial, na micro narrativa,na conceituação egocêntrica  e em caixinhas de surpresa  para apresentação de cenas estéticas bombásticas (feito para os grandes eventos,toda Bienal tem uma),aludindo uma espécie réplica compacta e pronta para o consumo das massas de um "choque do novo",troço que a midia cultural adora e  registra como polêmica. As instalações,objetos insólitos,atos,gestos, atitudes e pequenas narrativas de natureza intima, por razões evidentes, lançaram ao mar o primado do olhar como eixo  prioritário na relação autônoma  entre  observador e a arte.O que vale e o que se  deve imprimir no imaginário do espectador é o sentido do espetáculo multimídia,cenográfico,caleidoscópico que, no entender dos autores e curadores das grandes mostras institucionais,arrepiam os sentidos do observador, refletem uma cultura multifacetada e a pujança da sociedade contemporânea.É nos intertícios dessa modalidade aparentemente tolerante que qualquer expressão pode se converter em obra de arte. Para que o fenômeno se complete,os agentes do sistema de arte,as instituições,galerias,mídia e editoras emitem um certificado de reconhecimento cultural. Bem, nesse ponto é preciso fazer justiça. Os curadores, agentes mais interessados nesse jogo, o elegeram  por razões que dizem respeito a estratégias específicas de natureza acadêmica ou econômica, em sincronia com o sistema de arte,para  difundir suas conjecturas teoréticas.
Oh! Ideias!O que elas são capazes de promover.
Para encerrar, falarei da minha surpresa ao ir essa semana à escola de arte aqui do Rio para uma conversa  informal  com alguns estudantes. O texto acima, parte das anotações que mandei para um fórum sobre arte há alguns anos, foi o foco da minha apresentação. Há muito tempo eu não ia a escolas de arte. No caminho divaguei sobre a predominância dos modelos estéticos fundados no sensorial, nas instalações, gestos, atitudes e demais procedimentos afins que nos últimos trinta anos são predominantes nas Bienais globais, tem grande visibilidade midiática e se destacam nos eventos institucionais e oficiais de arte. Será que lá verei simulações dessa vertente da arte de grande destaque curatorial?
Que nada!Qual não foi minha surpresa quando constatei os corredores apinhados de cavaletes, pinturas penduradas por toda parte,salas repletas de estudantes enfronhados na velha prática pictórica.
Tem alguma coisa aí a se aprender? 

segunda-feira, junho 03, 2013

UM ESCAFANDRISTA NA BIENAL DE VENEZA


Transitando pelas vielas atemporais, transpondo biografias estetizadas, objetos multiformes, verbetes de antropologia cultural,estetização dos discursos ideológicos e miríades de erários auto confessionais, alinhados sob o pórtico da arte do século XXI, o escafandrista devotado busca no seu navegador indicações sobre o percurso a ser seguido nessa inspeção. Encontra no seu navegador de ultima geração o mapa traçado por Lawrence Alloway em seu livro a Bienal Veneza 1895-1968. Sim, pensa ele, o lugar é precisamente esse!
Mas, logo percebe que no correr desse curto espaço de tempo algo estranho aconteceu na Bienal de Veneza. A tentativa de mostrar a abundância da arte contemporânea ao mesmo tempo em que se tenta remover as ervas daninhas da incerteza para fora do contemporâneo a fim de adequá-la aos novos ciclos da arte, de solução prevista,levou a Bienal de Veneza a perder gradativamente  substância sensível, ao mesmo tempo em que ganha lastro especulativo espetacular.
Esse conjunto de fatores acrescido as intempéries do mar e da atmosfera geopolítica foram desastrosas para a estabilidade da instituição. Recarregar de nova potência um corpo em decomposição é missão hercúlea e com fortes tendências ao fracasso. Nesse item, o escafandrista marcou na sua tabuleta de avaliação um X sobre a opção:"resultados insatisfatórios". A danosa corrosão, provocada pela clausura do sistema de arte frente aos novos desafios da atualidade, somado a fatores objetivos de natureza econômica e mercadológica e pretensiosamente politica, se impôs  no mesmo  passo em que degradou impiedosamente essa histórica instituição de arte. Essa que,alias, é a mãe de similares espalhadas pelo mundo e que algumas já pereceram há muito tempo. Pesada demais e imprópria para navegação em tempos hiper modernos, a Bienal de Veneza afunda mais rapidamente que as edificações maravilhosas dessa cidade emblemática. Apesar da diversidade entre os pavilhões nacionais onde as nações tentam mais uma vez mostrar um perfil  supostamente inovador sob o viés do deus do tempo pautado numa máxima ultrapassada : "vejam quão contemporâneos somos" o que se registra como evento singular é sua sobrevida como parque temático ilustrativo das questões periféricas à arte mas que tocam e se impõem como ações mercantis subvencionadas por políticas culturais ambíguas que ainda cultua a 'critica' ao sistema da arte como o motor propulsor das transformações sócio culturais.Ha muito não é mais!
Um dos exemplos observáveis são as repetições do mesmo recurso estratégico usado pelos EUA para a consagração da arte norte americana(POP)na edição de 1960.Hoje, a China e outras nações, antes periféricas no circuito internacional da arte,recorrem ao método  que daquele tempo para cá, se tornou um  padrão. As Bienais se tornaram uma espécie de antítese da arqueologia. Enquanto esse campo do conhecimento se esmera em  revelar ao mundo a "descoberta" da tumba de um desconhecido faraó  que, de fato, um dia foi  soberano, as Bienais se esmeram em mumificar lendas contemporâneas.
A visão do século XX,  projetada por  Allan Bloom,( A Cultura Inculta) como  o século da crise intelectual, quando as universidades ruíram  pela “falta de conhecimentos dos estudantes, desde os clichês da libertação à substituição da razão pela "criatividade" dando espaço para ideias continentais vulgarizadas de niilismo e desespero e  de relativismo disfarçado de tolerância”, inspira os devaneios profundos do escafandrista que se põem a imaginar  o século XXI  no papel do  'exterminador do  futuro'. No registro dessa pesquisa submarina resta apenas uma pequena anotação de pé de página, em contraponto ao aforismo do Beyus:"Toda pessoa é um artista" o escafandrista sublinhou: “Nesses moldes,definitivamente,eu não sou um artista”




sábado, maio 25, 2013

Um matrimonio feliz




A visão do cérebro como uma espécie de área social ( ou de serviço)onde atuam  forças politicamente rivais parece, a principio, uma  fantasia divertida. Algo que caberia perfeitamente num roteiro de filme de ficção cientifica. Ocorre que alguns filósofos e cientistas estão levando a complexa rede neural muito a sério e se aprofundando em pesquisas que poderão suscitar uma nova compreensão sobre o que se passa e como se relacionam o provedor(cérebro) e o software (mente).Por milhares de anos se questionou sobre as funções do cérebro ou sobre o que é realmente  a mente e, mais ainda,quais as funções da mente? Entre esses três elementos sobrevém,inevitavelmente, um enigma: qual a relação existente entre cérebro e mente?
Sobre esse labirinto de hipóteses, o site Edge  postou no Tópico:MIND. em [1.8.13] http://www.edge.org/conversation/the-normal-well-tempered-mind  uma conversa com Daniel C. Dennett 
Daniel Clement Dennett é um proeminente filósofo norte americano. Suas pesquisas se prendem principalmente à filosofia da mente (relacionada à ciência cognitiva) e a biologia. Dennett é também  um dos mais proeminentes ateus ou,que diabos isso signifique.Pode-se imaginar que se trata de  algo similar a um Papa do ateísmo da atualidade. Para Dennett, os estados interiores de consciência não existem. Em outras palavras, aquilo que ele chama de "teatro cartesiano", isto é, um local no cérebro onde se processaria a consciência, não existe, pois, admitir isto seria concordar com uma noção de intencionalidade intrínseca. Para ele a consciência não se dá em uma área especifica do cérebro, como já dito, mas em uma sequência de inputs e outputs que formam uma cadeia por onde a informação se move. Essa ideia é desenvolvida em  A Ideia Perigosa de Darwin,um dos livros de Dennett .
Com o titulo "The normal well -Tempered mind"(Normal mente bem humorado,em tradução literal)cabe muito bem na interpretação pessoal que fiz da conversa do Dennett
No meu entender, suas investigações penetram numa preciosa região da mente e podem desvendar um novo conhecimento de nós,seres pensantes.
Uma das virtudes do conhecimento é elucidar questões cruciais que atravancam a vida e dificultam o acesso à felicidade. O bom humor é,para mim, um elemento fundamental desse jogo.É ele que promove e sustenta de forma consistente a  reversão da insatisfação pessoal diante dos reveses impostos pela realidade objetiva.Hoje,o bom humor,  é  um valor capital,muito  mais importante que a fortuna, a glória e outras vetustas  representações sociais e o qual vale a pena se dedicar com afinco.Nessa conversa Dennett abre algumas portas no corredor do conhecimento. Suas palavras podem auxiliar e fortalecer nossa determinação em não gastar um tempo precioso com tolices e disputas estúpidas.
Após desfazer um erro cometido há alguns anos, Dennett avisa ao leitor que  reiniciou um novo percurso nos labirintos da mente. Adotando um desvio do mito ou “Alegoria” da caverna, uma via clássica da história da Filosofia,onde  Platão discute sobre teoria do conhecimento, linguagem e educação na formação do Estado ideal. Dennett, todavia, prefere a via do desmonte da mente em mentes mais simples e, em seguida, em mentes mais simples ainda, até encontrar a mente que pode ser substituída por uma máquina. Esse procedimento,chamado de funcionalismo homuncular,tem inicio na pessoa. A partir dela inicia-se uma sucessão de quebras em duas, três, quatro ou sete sub pessoas que são basicamente agentes. Esses homúnculos encetam um retrocesso que é apenas um regresso finito, o qual se deve tomar cada um deles e dividi-los em um grupo de homúnculos especializados. Seguindo esse procedimento chega-se a partes que podem ser substituídas, como numa máquina.
Para Dennett, essa é uma ótima maneira de pensar sobre a ciência cognitiva. É o bom e velho AI(Inteligência Artificial) da qual  Dennett é um conhecido  estudioso . Mas, sua critica sobre o procedimento adotado anteriormente, o levou a rever aspectos da ideia, basicamente certa quando foi concebida, mas que  um grande erro quase o direcionou para um câmara  sem saída. Nas suas palavras: “Eu estava naquele momento encantado com o neurônio lógico McCulloch-Pitts. McCulloch e Pitts tinham reunido a ideia de um neurônio artificial muito simples, um neurônio computacional que tinha várias entradas e uma única saída.Suas pesquisas  provaram que, em princípio, uma rede neural feita desses neurônios lógicos pode calcular qualquer coisa que você queira calcular. Isso foi muito emocionante para mim,pois, significava que, basicamente, você pode tratar o cérebro como um computador e tratar o neurônio como uma espécie de elemento básico de comutação. Isso foi, certamente, uma simplificação excessiva. Todo mundo sabia que  era uma simplificação excessiva, mas as pessoas não percebem o quanto, e, mais recentemente, tornou-se claro para mim que é uma dramática simplificação excessiva, porque cada neurônio, longe de ser um switch lógico simples, é um agente com uma agenda e  são muito mais autônomos  e muito mais interessantes do que qualquer switch.” Ele continua sua explanação preliminar dizendo que:” A pergunta é: o que acontece com as suas ideias sobre a arquitetura computacional quando você pensa em neurônios individuais não como escravos obedientes ou como máquinas simples, mas como agentes que têm de ser mantidos na linha e que tem que ser devidamente recompensados a ponto de formarem  coalizões e cabalas, organizações e alianças? Esta visão do cérebro como uma espécie de área social de forças politicamente rivais parece uma espécie de fantasia divertida, mas, agora está se tornando algo que eu levo muito  a sério e é alimentado por uma série de diferentes correntes."
Bem, se sua mente não foi banhada pelo tédio e você chegou até aqui tentarei expor uma parte simples do conceito de Dennett que alegrou meu cérebro, ou mente? 
Ele comenta uma passagem fascinante do trabalho do biólogo evolucionista David Haig sobre os conflitos intrapessoais. Haig coloca algumas questões ao nível da genética e até mesmo ao nível do conflito entre os genes que você recebe de sua mãe e os genes que você recebe do seu pai, os chamados genes madumnal e padumnal. Desse amálgama surge um vetor iridescente que estimula uma nova visão sobre a mente humana. Segundo Haig; se os genes madumnal e padumnal ficam fora de sintonia, graves desequilíbrios podem acontecer. Esses desequilíbrios aparecem na pessoa como determinadas anomalias psicológicas. A partir daí surgiu a compreensão de que o cérebro não é um sistema bem organizado comandado  por um painel de controle hierárquico, onde tudo está em ordem.Numa visão um tanto  dramática,para mim  claustrofóbica, da mente como um escaninho entupido de docs. externos,padrões de procedimento, normas de conduta social,aspiração e desejo e onde se processa a burocracia 'existencial' a partir da compreensão de que somos o que pensamos e que,em sintese, um núcleo separador de escolhas  boas e más. Na verdade, a mente é  mais parecida  com a  anarquia, com  laivos de democracia. Às vezes você pode alcançar a estabilidade através da ajuda mútua entre genes e atingir uma espécie de calma, então, tudo é ótimo. Mas, a possibilidade de que  coisas 'fora do lugar' ou mesmo uma aliança ‘madrasta’ ganhe o controle, acontecimento  bastante comum,sua mente te coloca no inferno. Se isso ocorrer, em algumas pessoas ocorre com muita frequência, o indivíduo começa a ter obsessões, delírios, compulsões inexplicáveis e assim por diante. Por outro lado,  uma mente bem-humorada possui uma organização suave que  orienta o individuo pelo bom caminho. Essa é uma conquista, algo que só é alcançado quando tudo está bem, mesmo quando, no âmbito geral, a humanidade e a maioria das pessoas estão tirando as calças pela cabeça. Em parte isso explica também que mesmo diante da zorra global, grande parte das pessoas vive relativamente bem em ajuntamentos conflitosos e  gigantescos.
Finalizo essa nota com uma observação interessante nas palavras do próprio Dennett:  “O que estamos vendo agora na ciência cognitiva é algo que eu tento  antecipar há  anos, e, agora, está acontecendo. Está acontecendo tão rápido que é difícil manter-se atento aos seus desdobramentos.Estamos afogando em dados e, também, estamos felizes. Jovens brilhantes que cresceram em meio a esse turbilhão  e para quem isso é  apenas uma segunda natureza, estão imersos em pensar em termos computacionais bastante abstratos.Coisa que tempos atrás era simplesmente impossível, mesmo para  especialistas.Agora uma criança motivada adequadamente pode chegar a faculdade já preparado para  adentrar essas questões. É muito emocionante.Eles estão indo rápido,quase  fugindo de nós.Vai ser divertido assistir.A visão do cérebro como um computador está mudando velozmente. O cérebro é um computador,porém,muito  diferente de qualquer computador que você está acostumado.Não é como seu desktop ou laptop, não é como o seu iPhone, exceto em alguns aspectos.É um fenômeno muito mais interessante. O que Turing nos deu, pela primeira vez (sem Turing você simplesmente não podia fazer nada disso)foi  uma maneira de pensar de forma disciplinada sobre os fenômenos que têm, como eu gosto de dizer, trilhões de partes parecidas que nos leva a especular o que  aconteceria caso deixássemos  as ovelhas ou os porcos  recuperarem seus talentos selvagens.”
A conversa é enorme e cheia de texturas fantásticas.
Quem quiser ir adiante aciona o link no corpo desse texto.


domingo, maio 12, 2013

OBJETO LACUNA

Tom Friedman's pizza sculpture.
Photo:Fred R. Conrad/The New York Times

Adriano de Aquino
05/2013

Hoje é um risco (!) falar sobre arte sem focar preços, visibilidade midiática, indicadores de status cultural, marketing e... espetáculo.Mas,se porventura, a cabeça falante ousar criticar o sistema que tudo disciplina,porém,aparentando tudo tolerar, é bem provável que receba os mais arrebatados xingamentos . Afinal, resistir pra que?Aliás, resistir também pode ser taxado pela galera dos contentes de reacionarismo, recalque e outros adjetivos mais ofensivos ainda.
Que assim seja!
Ainda que a gradual supressão da crítica ou de uma fala sensível, quer dizer, fora dos padrões palatáveis aos meios de comunicação, à margem dos códigos dominantes ou das igrejinhas mais 'influentes' no jogo da ocasião seja um fato incontestável,poucos ousam falar sobre isso. Nos dias atuais a vertente do pensamento crítico se tornou um sub item sofisticado para a fruição de poucos interessados e uma prática anacrônica dispensável para o bom funcionamento do sistema de arte. O que ela poderia acrescentar para a reflexão sobre o fenômeno artístico vem sendo operado satisfatoriamente pelas súmulas curatoriais e pela mídia cultural.
Para mim, como artista, esse fato assenta uma série de questões. A primeira delas revela um amálgama nocivo que essa tendência tenta ocultar atrás de resultados financeiros estonteantes e na fixação, no ambiente artístico,do culto ao deleite fugaz. Uma simulação ‘pop Cult’ procura induzir no público a ideia de que existe hoje, como jamais ocorreu na historia, um consumo(interação) imediato de produtos estéticos de ponta . O alicerce desse milagre não é a arte em si, em contato direto com o público, mas, o sucesso das fórmulas institucionais e mercadológicas que viabilizaram maior acesso do público a arte.
Penso que muitas pessoas estão mobilizadas pelo glamour dessas instâncias intermediarias situadas entre a arte e a sociedade,seja pela colossal oferta de produtos estéticos,seja pelo lastro de dinheiro e patrocínios administrados por instituições culturais que,diga-se de passagem, mais parecem parques temáticos da arte contemporânea. Essa magnânima oferta pode, a principio, ser entendida por muitos como uma ação afinada com o pluralismo cultural e em prol da diversidade estética.Será isso mesmo?
Se por um lado o imediatismo das ações do mercado associado às estratégias institucionais promove um fluxo maior de dinheiro no sistema, por outro, abre uma lacuna que estigmatiza o objeto sensível reduzindo o campo de avaliação das suas qualidades intrínsecas e o tonando suscetível, antes de tudo, ao alvitre dos agentes de intermediação, colocando em segundo plano a apreciação estética autônoma e despachando para o quinto dos infernos os valores da arte em detrimento do preço e do status cultural a ele anexado. Isso explica, em parte, o apogeu alcançado pela cultura do espetáculo na contemporaneidade.
Mas, a que custo?
Em contraposição aos acontecimentos de aparente liberdade criativa que hoje despontam por todo lado, observo uma armadilha. O aclamado abandono da imitação naturalista, a proliferação de estilos,a inefável decadência dos salões oficiais -bienais & etc. hoje em disputa frontal pela frequência do público com as feiras de arte e similares- o louvor ao discurso 'outsider' visando o exito das teorias de ação tática sobre os espaços consagrados, na esteira dos ‘não’ dos autênticos, expressados pelos artistas da vanguarda histórica em prol da liberdade criativa e contra o adestramento estético oficial,se tornaram,de poucos anos para cá,ecos de um passado longínquo sem nenhuma ressonância efetivamente transformadora na cultura da atualidade.Lamentavelmente,resultaram na formação de novos paradigmas que fundamentam atitudes e procedimentos similares aos das escolas de arte do passado só que numa velocidade mais acelerada. Como se pode notar a questão central não acontece no plano artístico,quer dizer,nos domínios das propostas estéticas substanciais ou mesmo inovadoras em confronto com correntes estabelecidas e consagradas.Sequer sugere ou aponta alternativas inusitadas de apresentar um trabalho artístico ou ofertar ao público novas modalidades de fruição da arte, mas,sim, consolidar ainda mais os velhos métodos de projeção social de estilos, visibilidade, comunicação direcionada e inserção mercantil dos produtos estéticos.
Afinal,o vale tudo é,em si, uma afirmação: se libertar de que, se tudo é permitido? Aliás, mais permitido ainda se sua voz encontra eco na mídia e comentários enaltecedores endossam sua celebração. Se tiver, então, resposta imediata na conta bancária é uma glória.
Não pensem que acho uma corrupção ou um desvio de conduta um artista viver bem do seu trabalho. Ao contrario! Penso que o artista deve prezar sua atuação tanto no que tange a liberdade criativa quanto no plano profissional/financeiro. A pergunta que coloco é uma variante desse fator e coloca em questão o seguinte: produzir sua obra, alheio às circunstancias das operações institucionais e de mercado é uma modo consciente de estar no mundo?
Deixo a resposta para cada um dos leitores!
Minha ideia inicial não era expor tantos pontos de vista, mas sim tocar num ponto especifico de uma matéria publicada hoje na coluna Art Review do jornal NYT. Mas,sabe como é,uma coisa leva a outra.Todavia,prometo que sobre o que se segue não postarei juízo de valor.
No inicio da matéria: “40 Nations, 1,000 Artists and One Island “ Roberta Smith alerta o leitor dizendo: “Algumas pessoas odeiam feiras de arte e a maioria das pessoas acaba por odiá-las por algum tempo. É moda ser sarcástico e condescendente com eles, mas isso é muito fácil. Feiras de arte, agora e no futuro próximo, representam esforços coletivos - senão as esperanças e sonhos - de milhares de pessoas que querem a arte como centro de suas vidas.”
Absorvi essa abertura com certa ironia mas, sem sarcasmo, e segui lendo o texto deglutindo discordâncias,porém,evitando deixar crescer uma resistência intransponível que me impedisse de seguir adiante na matéria até seu final.
Lá pelo meio da segunda página a Roberta foi fundo ao situar essa vontade da arte como centro existencial de uma vida, ao criar mais uma categoria de apreciação estética adaptável para pessoas de uma certa idade. Sem sarcasmo algum penetrei nesse labirinto conjectural:
“ No final do percurso algumas dicas merecem uma atenção especial : O estande da L & M Arts de Barbara Kruger se "você olhar bem," apresenta uma prestigiosa escolha de obras de arte para pessoas de uma certa idade.” Mais adiante,fechando a matéria Roberta alude tambem ao gênero nas artes,criando uma outra perspectiva de inserção para além da questão propriamente artística: “ Não quero deixar de mencionar com justeza os esforços dos artistas do sexo feminino que parecem particularmente fortes.” 

sábado, abril 20, 2013

O ABISMO TE OLHA ENQUANTO VOCÊ ADMIRA A PAISAGEM



A variedade de substancias tóxicas que poluem a atmosfera não afetam apenas as condições climáticas do globo. Sua  irradiação atravessa as camadas protetoras e atingem diretamente as pessoas e as sociedades, deflagrando conflitos de múltiplas conformidades. Miss Sarajevo  já completou maioridade,porém,mais da metade das suas colegas de concurso não tiveram a mesma sorte. No meio do caminho foram curradas, vilipendiadas publicamente por conta das suas etnias ou religião, quando não  mortas e jogadas em covas comuns.
Em 1991, depois que a Croácia declarou sua independência e a minoria sérvia do país se dobrou ao direcionamento assassino de Milosevic, as forças federais da Iugoslávia invadiram a Croácia, dando início à guerra. Em 1998, foi a vez de Kosovo, província ao sul da Sérvia, lutar por sua independência. O problema na região era mais delicado pelo fato de o território de Kosovo ser considerado berço cultural e religioso para os sérvios. Nos três meses de conflito o mundo assistiu a barbárie de uma  ‘limpeza étnica’ contra os albaneses - 90% da população de Kosovo – em grande parte massacrada por Milosevic, então presidente da antiga Iugoslávia. Cerca de 20 mil pessoas morreram no conflito e mais de 400 mil ficaram desabrigadas. 
As guerras pela independência naquela região ocultam intenções terríveis de fundo étnico e religioso. As fronteiras regionais são abismos profundos onde se lançam corpos e se oprime as culturas locais. 
A pergunta que se coloca é: o que tem levado as guerras modernas pela independência a se transformarem em caçadas étnicas e religiosas e punições coletivas aleatórias e generalizadas?
Enquanto Milosevic praticava abertamente seus crimes,no Cáucaso,mais precisamente na Chechênia, Djokhar Dudaiev, presidente nacionalista da República da Chechênia, declarava a independência do seu país (1991). Em 1994 o presidente da Rússia Boris Iéltsin enviou quarenta mil soldados para evitar a separação da região da Chechênia - importante produtora de petróleo.Os insurgentes chechenos infligiram grandes baixas aos russos. As tropas russas não tinham conseguido capturar a capital chechena, Grózni, até o fim daquele ano. Os russos finalmente tomaram Grózni, em fevereiro de 1995, após pesada luta. Em agosto de 1996 Iéltsin concordou com um cessar-fogo com os líderes chechenos, e um tratado de paz foi formalmente assinado em maio de 1997.Mas,ao contrario do que se esperava um novo confronto armado foi retomado em setembro de 1999, dando início à Segunda Guerra da Chechênia, tornando sem sentido o acordo de 1997. Os separatistas chechenos ainda pretendiam a independência da Chechênia e organizaram operações na própria república da Chechênia, como também ataques terroristas em outras regiões da Rússia, incluindo Moscou.Uma década de guerra deixou a maior parte do território sob controle militar. Guerrilheiros islâmicos chechenos invadiram a vizinha república russa do Daguestão e anunciaram a criação de um estado islâmico. A maioria da população, em ambas as repúblicas, é muçulmana sunita. Os militares russos expulsaram os rebeldes para a Chechênia em setembro, mês em que atentados contra diversos edifícios em cidades russas mataram mais de 300 pessoas. O governo responsabilizou diretamente os separatistas e enviou tropas à Chechênia.Apesar da pressão por um cessar-fogo, o governo da Rússia rejeitou a mediação internacional. Mas as denúncias de massacres, estupros e torturas cometidos pelas tropas russas contra centenas de civis levaram o governo russo a aceitar, em março de 2000, a visita de representantes da ONU à Chechênia. Mas as emboscadas e os ataques suicidas contra as tropas russas prosseguiram, assim como os bombardeios aéreos russos. Em junho de 2000, o presidente Vladimir Putin colocou a Chechênia sob administração direta da Presidência da Federação.Em março de 2003, o governo russo organizou um referendo na Chechênia, sobre a nova constituição local, que estabelece subordinação da república a Moscou. A lei foi aprovada por 96% dos eleitores, mas o referendo foi considerado irregular e condenado internacionalmente. Num pleito igualmente criticado, em outubro de 2003, Akhmad Kadyrov, foi eleito presidente da Chechênia, com 81% dos votos. Em setembro de 2004, uma escola em Beslan foi palco de uma das maiores barbáries da atualidade. Terroristas chechenos aprisionaram, torturaram e mataram crianças, pais e professores. O líder separatista Shamil Bassaiev assumiu a autoria desse e de outros ataques, como a explosão no metrô de Moscou, em fevereiro do mesmo ano.Uma semana depois  do atentatado de Boston que até agora matou seis pessoas(uma criança,duas mulheres,dois policiais em serviço e um dos autores do atentado além de ferir centenas de pessoas)levanta algumas questões: qual seriam as  intenções dos irmãos Tsarnaev em estender os conflitos regionais para o território norte americano?
Muito se pode especular sobre esse ato. Primeiro é que ele tenha alguma ilação religiosa punitiva contra os Estados Unidos, especificamente. E, segundo é que se esse não foi um ato isolado,mas, um ataque programado por grupos terrorista, uma espécie de  jihad chechena  que pretende abrir uma nova frente do terror para além do âmbito regional.
O ultimo ataque terrorista dos grupos chechenos aconteceu em 2004 contra crianças e professores em Beslam,Ossétia do Norte e o penúltimo de que se tem noticia ocorreu no  Teatro Dubrovka de Moscou, em 2002.
A diáspora chechena se espalha por quase toda a Europa.
Existem milhares de refugiados chechenos na Áustria, e outros milhares na Polônia, França, Turquia, Cazaquistão, Dubai e em outros lugares (bem como as comunidades espalhadas nos Estados Unidos). Alguns analistas dizem que  onde quer que estejam os chechenos se destacam como  uma nação à parte e que a maioria do  povo é constituída de "refugiados". Talvez 20 por cento, talvez um pouco  mais, de todos os chechenos não deixaram Chechênia nos últimos 20 anos. Dzhokhar A. Tsarnaev (19) o suspeito sobrevivente  dos atentados de Boston, nasceu em uma família chechena. Ele era apenas um bebê quando Boris Yeltsin enviou tanques para subjugar sua nação rebelde. Neste ponto nós sabemos muito pouco sobre as motivações do suspeito. Tudo o que sabemos é que, para a sua geração, a Chechênia tem sido sempre um lugar de violência, sequestros, viúvas,  órfãos e estupro: um lugar de onde fugir e não mais voltar. Dzhokhar Tsarnaev  que foi capturado depois de um confronto com a polícia em um subúrbio de Boston na sexta à noite e seu irmão, Tamarlan, 26 anos, morto depois de uma perseguição policial na noite anterior  tornam mais relevante ainda a pergunta sobre o que levou esses irmãos a se inclinarem tão destrutivamente na borda do abismo? São muitas as motivações possíveis. Uma das mais gritantes pode ser tirada da conclamação  do líder militante Chechan Doku Umarov feita em  2007: "Hoje no Afeganistão, Iraque, Somália, Palestina, nossos irmãos estão lutando", disse ele. "Nosso inimigo não é apenas  a Rússia, mas todos  aqueles que estão em  guerra contra o Islã."
Como se não bastasse  que a  América tenha que se  indispor com jovens como Adam Lanza, Dylan Klebold e tantos outros assassinos em massa da história recente,surge no horizonte uma nova  modalidade inescrutavel de ameaça. Nos EUA  há armas suficientes para matar qualquer um e, um louco,  pode sempre encontrar um motivo qualquer  para  promover uma chacina.Se  os irmãos Tsarnaev - jovens de origem chechena aparentemente adaptados na América – tiveram acesso a ideologia jihadista e, além disso,  foram intoxicados pelas variantes da violência moderna, não é de todo  improvavel que o que vimos em Boston foi resultante  de uma overdose  de  violência,disponibilidade de meios  e propósitos insanos que, quando reunidos, geram morte e destruição em grande  escala. Torço para que esses fatores letais não se encontrem novamente.