domingo, maio 29, 2016

Tão longe e só e... tão longe e só, mesmo.




"Quando encontrar meu corpo, por favor, avise meu marido George e minha filha Kerry. Seria uma enorme gentileza informá-los que eu morri e onde fui encontrada - não importa quantos anos isso leve". O Epitáfio de Geraldine Largay, que desapareceu em 2013 na Trilha dos Apalaches no estado americano do Maine, seria um fato esquecido caso não estivéssemos em plena era do conhecimento e da informação. Geraldine morreu enquanto esperava por uma equipe de resgate que nunca veio. Seus restos mortais foram descobertos por uma equipe de filmagem do canal Animal Planet para o reality show 'North Woods Law',dois anos após seu desaparecimento.
O cinegrafista capturou a cena angustiante que mostra um policial do Maine descobrindo o acampamento improvisado onde Geraldine Largay morreu solitária.
Na era da comunicação global as façanhas humanas mais impressionantes,para o bem ou para mau, viraram um show global. Um estupro cruel de uma menina do Rio, o terror que leva a morte de milhares de pessoas na Síria,centenas em Paris,dezenas em Bruxelas, as meninas sequestradas pelo Boko Haram,a morte solitária em uma floresta do Maine,a conquista de Marte e a entrada do homem no espaço interestelar, viajando "mais do que ninguém, ou nada, na história", quando a nave Voyager 1 penetrou no espaço interestelar. Seu espectrômetro de plasma deve fornecer as primeiras medições diretas da densidade e temperatura do plasma interestelar.
Nós, do lado oposto do monitor protagonizamos tudo isso em tempo real. A era do conhecimento atravessou - ou realizou?- na realidade virtual o que antes era domínio da ficção. E o homem continua indo e irá cada vez mais longe em busca de algo que faça sentido, em meio a tudo que criou para si mesmo.

segunda-feira, abril 25, 2016

Ah! Essas 'almas sensíveis'

O ato terrorista que destruiu o WTC levando junto mais de três mil vidas chocou o mundo ao mesmo tempo em que inspirou ‘almas sensíveis’. Além das manifestações de louvor à beleza dos atos para glória de Alá, ocorridas em regiões do Oriente Médio, as análises de cientistas políticos, o luto e a comoção das nações do Ocidente, ouviu-se muitas declarações demandando retaliação militar pesada dos EUA contra Bin Laden e a devastação das populações e territórios onde os serviços de inteligência achavam que se concentrava o poder de decisão da al Qaeda. Nas palavras do presidente Bush " Hoje somos um país que despertou para o perigo e que foi conclamado a defender a liberdade. Nosso pesar se tornou ira, e nossa ira se tornou determinação. Quer tragamos nossos inimigos à Justiça ou quer levemos justiça aos nossos inimigos, saibam que a justiça será feita. " Na ocasião, o compositor Karlheinz Stockhausen,considerado um dos maiores compositores do final do século XX, autor de obras ambiciosas como o "Quarteto de Cordas com Helicópteros " (Helikopter-Streichquartett) ficou tão impressionado com a grandeza e a ousadia do ataque que não se furtou de expor ao mundo seu espanto ao comentar que estava diante: "da maior obra de arte de todos os tempos" ou "a maior obra de arte de Lúcifer". Após a reação global ao seu comentário rapidamente retirou a sua declaração e pediu desculpas: “acho que eu deveria ser perdoado”,disse ele. Os amigos do compositor tentaram justificar o 'encantamento' do arista diante do maior espetáculo de destruição compartilhado na rede mundial de computadores, tecendo elogios à sua música e justificando que as manifestações do artista deveriam ser entendidas como uma reação natural pelo fato da sua musica ter sido negligenciada nos últimos anos. Para eles, o artista tem uma obra que precisa ser ouvida. Acho que não sou o único artista que não tece ilusões quanto a aceitação definitiva das suas obras dentro das complexas conexões sócio/ políticas/culturais que elegem personagens das artes e sua produção. Um artista que dedique tempo e atenção,siga um planejamento de marketing que coloque sua produção em vários eventos ,usufrua de visibilidade midiatica e situação financeira confortavel ,que o inserem no gosto das altas esferas do negócio da arte e aplausos do senso comum,muitas vezes se esquece de refletir sobre as viradas do sistema e a decadencia de estilos.Não posso afirmar que Stockhausen não deu atenção a esse dado.Porém,seus amigos e admiradores dizem que ele sofre com o ostracismo. Caso isso seja um fato,é um fato mediocre.Artistas que atingem o sucesso e não refletem sobre as voluveis oscilações do gosto geral, só vão se dar conta de que o ostracismo existe quando dois aviões se chocam contra duas torres, ocasionando milhares de mortes e nenhum jornalista lhe telefona para pedir sua opinião sobre a trágica ocorrência. Já os artistas que enfrentam do sol nascente ao poente,as circunstancias concretas da sua jornada criativa, reações adversas da crítica,da mídia e a volatilidade do mercado, convivem desde a aurora com o horizonte do ostracismo. Essa perspectiva é uma porta sempre aberta na sua alma inquieta. O ideário pop star e o 'laises faire' são manuais que artistas dedicados a difusão constante dos seus egos lhes permite respirar e viver uma vida inteira bafejada pelo sucesso. Quando isso esmorece, por qualquer motivo, a noite cai e escurece seus sonhos. Aí podem acontecer coisas ruins,que o fazem sofrer, sem uma explicação que o console. Se seus admiradores estão certos, foi isso que despertou Stockhausen o levando a se expor a luz dos holofotes para opinar sobre as funestas explosões no WTC. Contudo,para mim, a declaração de Stockhausen, nem é tão patética. Mais patético é seu arrependimento. Do ponto de vista cultural, sua declaração é só espetacular nada mais que isso. E mais, sua desculpa é uma rebordosa emocional que o coloca de volta no foco da comunicação. Nos dois casos são declarações inócuas que demonstram que Guy Debord sabia o que estava falando quando escreveu 'A Sociedade do Espetáculo', livro precursor de toda análise crítica da pós moderna sociedade de consumo e suas implicações na comunicação de massas e na formação da mentalidade 'artística' e política do século XXI. A declaração de Stockhausen é Inócua por se tratar de palavras para expressar uma ideia confusa e inadequada, em contraponto à comoção mundial que se abateu sobre o mundo. Se ele tivesse optado por compor uma Sinfonia para Dois Boeings, talvez não recebesse em troca tanta ira. Mas não, optou pela 'palavra' ou opinião, se preferirem esse termo. Aqui, entre nós, brasileiros, vejo muitas 'almas sensíveis' se revoltatarem com palavras mais do que com fatos e ações malévolas concretas,realizadas. Imagino o que algumas 'almas sensiveis ' sentem quando absorvem promessas irrealizaveis de politicos inescrupulosos ou leem versos obscenos vindos da criação poética contemporânea. Na esfera provinciana,um elogio tosco do deputado Bolsonaro ao Ustra,como réplica a outro elogio estúpido do deputado Renato Simões (PT-SP) que em 2014 , proferiu um discurso no plenário da Câmara que nada mais era que uma ode ao terrorista Carlos Marighella. Os dois episódios grotescos detonaram um debate também estúpido nos meios de comunicação. Ora,mutatis mutandis, os dois discursos em nada tem serventia, exemplo e conselho para quem preza a democracia,acima das premissas de correntes ideológicas e partidárias. Ainda que as duas falas, enquanto retórica parlamentar, cultuem a memória de um proto ditador e um torturador, nesse contexto,não tem o mesmo peso concreto de um jato se chocando contra o prédio do Congresso ou uma horda de deputados de direita torturando ao vivo e a cores gente de esquerda. Fico abismado que num país de subletrados tanta gente se espante com palavras, quando o fato real e grave é que nesse caldo de toxinas verbais é que a classe politica afoga os possiveis avanços da sociedade brasileira. No tocante a arte,onde supostamente reinaria a liberdade de expressão, o mínimo que se espera de um artista,cuja obra se concentre em quebrar paradigmas e descortinar belezas inéditas é que ela seja um estímulo para se ir alem do lugar comum. Coisa rara! Por que estou falando isso? Explico: O ambiente artístico da atualidade está saturado do banal e do repetitivo. É comum ver artistas se dizerem preocupados e motivados por temas de cunho social ou político, se colocando como bravo defensor das minorias e dos injustiçados e , reclamando para si o campo da arte,como um Olimpo da sua verdade particular,capaz de salvar o mundo da barbarie. Mal comparando, são Stockhausen's do bem. Hoje, referir-se à assassinatos em massa como arte, como fez Stockhausen, não é mais um ato solitário. Tudo, até mesmo os rompantes em defesa de uma política desastrosa e criminosa se consolidou, em forma e em conceito, como um manifesto que ameaça as 'almas sensíveis'. Confundir palavras com a verdadeira banalidade do mal e as consequências da massificação da arte, revela apenas a extensão e a capilaridade da mediocridade dos dias de hoje. Como não dou crédito a fãs e admiradores de artistas, prefiro aceitar a ideia de que Stockhausen, deu conta da tolice que falou. Voltou atrás e se desculpou. Eu o perdoo! Não o desculpo pela fraqueza de caráter mencionada por seus admiradores frente às agruras do ostracismo. Mas, sim, pelo fato de que ao falar essa asneira não o torna um terrorista de fato e,muito menos, um influencer alucinado que 'inspirou' a Al Qaeda a cometer o bárbaro crime.

sexta-feira, abril 08, 2016

Assoreamento criativo & Contabilidade realista


Festeja-se as cifras alcançadas pelo mercado de arte.
Aplausos!
O mercado é o nicho final no intercâmbio entre produtos e dinheiro. Enquanto o mercado apresentar números atraentes a perspectiva de retorno ao método arcaico do escambo permanece longe do horizonte das trocas sociais.
Ainda que meu saldo pessoal não melhore como reflexo indireto dos altos preços divulgados por uma operação do mercado de arte, não faço considerações morais sobre o preço de uma obra de arte.
Parto da premissa de que o preço, em si, não é uma questão da arte. Sequer uma confirmação do valor cultural e artístico de uma obra de arte. O valor de uma obra de arte não é concedido simultaneamente ao certificado de venda. O alto preço alcançado por uma obra de arte fala sobretudo do poder afirmativo do dinheiro pago na transação. A comunicação e a mídia adoram fatos espetaculares. Por isso, os preços das obras de arte da atualidade se tornaram fenômenos mais ‘espetaculares’ que as próprias obras. Por essas e outras, os produtos que alcançam patamares altos se encaixam na vitrine mais visitada da mídia. Entretanto, subestimar, desferir imprecações contra os preços altos demais de um artista que o indignado despreza é o mesmo que ficar decepcionado com os preços baixos demais de um artista que o mesmo ‘amante’ de arte admira. O mercado é absolutamente indiferente a esses detalhes de natureza subjetiva.
Com a crise, o emocional se agiganta e aparece ‘neguin’ dizendo que não daria 1 vintém por uma obra vendida por milhões.  Dessa forma, um episódio financeiramente positivo do mercado fomenta a cizânia num ambiente cultural empobrecido pela dinâmica do dinheiro e pela falta dele.
Tanto assim que os que se opõem ao esplendoroso fato de uma venda milionária, promovem um julgamento estético e moral do artista bem-sucedido. Tudo inútil, dado que a questão é de natureza mercadológica. Isso quer dizer que tanto pode ser uma ação puramente especulativa quanto representativa do gosto do comprador que tendo dinheiro em abundancia, realizou um sonho de consumo comprando um objeto de arte com o qual pretende conviver por um longo tempo.
Na escala macroeconômica - industrias/centros de desenvolvimento e pesquisa e setor financeiro – ajustam perspectivas contendo gastos e evitando riscos. Com isso, a redução das pesquisas e desenvolvimento de produtos sofrem retração e o mercado de trabalho é penalizado. O resultado é o que vivenciamos.
No tocante ao autônomo, não vinculado ao trabalho assalariado formal e que depende de fatores oscilantes do mercado, a crise estendida tem graves consequências. No meu caso particular, em que os insumos, suportes e substratos utilizados, com preços fixados em dólar e custos variáveis, acrescidos de impostos extras, advindos da crise fiscal e cambial, disparam o alarme. A primeira medida é reduzir o ritmo de produção. A segunda é demitir metade de mim mesmo reduzindo, a exemplo do que fez maduro na Venezuela, a atividade produtiva a quatro dias da semana. Tal medida evoca o assoreamento do processo criativo. As consequências disso podem ser bem definidas por um aforismo do Millôr Fernandes:  “O desespero eu aguento. O que me apavora é a esperança”.    
     


terça-feira, abril 05, 2016

Refuto a ideia de que existe uma poderosa central programadora de cérebros. Uma especie de Big Brother ancestral.
Mesmo contestando argumentos de que uma 'força estranha'(cultura) conduziu códigos programadores de cérebros para dentro dos agrupamentos sociais no correr da historia humana, alguns fatos recentes me levam a admitir que o PONTO D (Ponto Deus)identificado em nossos cérebros pelos neurocientistas ajuda a explicar a expansão das crenças e a explosão das guerras religiosas em pleno Seculo XXI.
Neurocientistas estão debruçados em pesquisas comparativas entre os cérebros dos crentes e os dos céticos para avaliar a frequência e o diferencial dos impulsos cerebrais quando uma pessoa está rezando,meditando ou simplesmente divagando por entre abstrações,contemplando ou imaginando um mundo só seu.
Ainda se conhece pouco sobre esse campo.Porém, algumas pistas começam a surgir na escuridão do nosso cérebro. 
Em especial no que diz respeito as áreas cerebrais. 
Dados coletados e analises aprofundadas estimam que o córtex pré-frontal medial está associado a nossa capacidade para entender os pensamentos e sentimentos dos outros. Curiosamente,alguns estudos revelam que esta região do cérebro está especialmente ativa entre os crentes e religiosos, especialmente quando estão rezando.
Já o lobo parietal, de acordo com estudos,pode estar envolvido em experiências religiosas, especialmente aquelas caracterizadas com a dissolução do ego.
Todo dia,ao acordar,tateio regiões no meu cérebro  que insistem em permanecer dormindo. Entendível,o mundo dos sonhos,tirante os pesadelos,é um lugar muito melhor para se perder tempo. Perder o precioso tempo existencial com a alta ansiedade que move o mundo competitivo é uma asneira compulsória para alcançar a gloria que muitos confundem com realização existencial. 

Eis o pecado original!  
Sou tolerante com meus pecados.  
Por isso a pesquisa sobre o Ponto D  me  desperta especial interesse no momento.
Creio que essa pesquisa vai ajudar a elucidar algumas questões intrigantes como aquelas que tocam na estranha dependência que provoca um certo grau instabilidade emocional que  resulta em debilidade intelectual.Muitas pessoas que supomos emancipadas e inteligentes mas que depositam fé cega numa liderança politica,ainda que os fatos comprovem que se trata de um farsante corrupto,sofrem dessa insanidade.
Outro dado interessante dessas pesquisas ajudarão a esclarecer porque mesmo nas sociedades que reprimiram as religiões como a Russia na era stalinista, a China de Mao,a Coreia do Norte da dinastia Kim e a Cuba da irmandade Castro, o Ponto D(ponto Deus)tem sido usado com a polaridade redirecionada para os ícones(lideres) que tomaram o lugar de deus,instalando-se no imaginário popular através do culto a um líder ou ao Estado.Algo incompreensível para as mentes emancipadas e modernas,porem,comum aos fiéis.Sejam eles comprometidos com as ideologias religiosas ou politicas.

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Melancolia


Camadas de fuligem, bolor e fungo afixaram na estrutura carcomida onde se aloja o centro decisório do governo e da administração pública brasileira. As coisas mais novas, feitas ontem, quando imersas na cultura política nacional depressa adquirem aspecto decadente. Naquele ambiente o novo surge adaptado ao velho padrão mediano do gosto e do consenso. 
Com isso, as duas últimas gerações de brasileiros são obrigadas a medir a passagem do tempo pela ampliação da defasagem entre a arcaica tradição brasileira e o impulso transformador que move-lá fora- o mundo da atualidade.
A cultura politica brasileira está imersa no caldo da sublimação catatônica das experiências fracassadas do passado, liquefeita aos acontecimentos desastrosos do presente e aditivado pela extrema ideologização das políticas públicas.O objeto resultante desse amalgama foi a edição do populismo de esquerda.Consolidados no poder trataram da imediata substituição dos métodos mais aprimorados de tecnicidade nos campos cruciais para o desenvolvimento como educação, saúde, justiça social e trabalho,pela demagogia paternalista de grandes resultados eleitorais.
No Brasil as políticas sociais são efêmeras porque projetadas para durar uma eleição.
Intencionalmente desestruturadas, as políticas sociais voltam no próximo pleito como nova promessa de campanha. Assim, ‘macunaimamente’ original, o Brasil assiste o tempo passar sem que nada se transforme concretamente.
Até mesmo os debates políticos, ancorados na divisão ideológica do mundo que ocorria em meados do século XX, continuam na pauta das atualidades da vida política brasileira.
Nunca me senti tão Brasil como hoje ao acordar e ler:
“Delfim está com saudade da ditadura” Maria da Conceição Tavares
Oh!Fui catapultado no tempo.
Que barato!
Que puta estranha sensação acordar em outro tempo.
Tirante o cheiro imaginário do bolor fétido dos infrutíferos debates dos anos 60/70/80, a reedição do seriado Delfim & Maria da Conceição Tavares é a cara do governo Dilma e o apogeu da Era petista.

sexta-feira, janeiro 22, 2016

‘Énouement’



Tem manhãs que desperto sacudido por sonhos juvenis.
Creio que todos os sonhos que se desenrolam em nossas vidas são pré-produções infantis,gravados entre a infância e a adolescência e exibido por toda nossa existência.
"Não podemos esmorecer!" 
Este foi o último alerta que vi estampado nas faixas erguidas por uma multidão de jovens alegres na terra dos sonhos. Senti uma certa discrepância entre as imagens e a mensagem. Mas, o mundo dos sonhos é pleno de mistérios e enigmas que misturam tempos que se foram, mas, sei lá porque, permanecem. 
Sequer procuro desvendar. Ao longo do dia sou contemplado com as sensações apanhadas nos domínios dos sonhos e sinto um certo desconforto em compartilha-las na dimensão da realidade real.
Enfim, sou muito egoísta com meus sonhos.
Todavia, depois que o artista John Koening publicou seu "Dicionário das Tristezas Obscuras" me dediquei a achar uma 'nova' palavra- no sentido de genuína - que pudesse expressar as tentativas de conectar as várias dimensões do real. Encontrei na palavra ‘Énouement’, cujo o verbete alude ao advento da “sensação agridoce de ter chegado no futuro, visto como tudo aconteceu, mas não ser capaz de contar para o seu EU do passado” uma significação estimulante.
Era isso que me faltava. 
Que Freud me perdoe, mas sou persuadido a admitir que para além dos traumas germinais o mundo atemporal dos sonhos tem uma espantosa sinergia com o ciberespaço(vice e versa) e os meios virtuais de percepção do mundo.
A cultura digital é forjada no sonho que constrói mundos virtuais tão palpáveis quanto o real. Tangíveis a ponto de nos levar a indagar: Onde acontece a realidade real? 
Como não tenho queda por fantasias surrealistas, minha tendência é considerar o real como o ‘sítio do absurdo’. 
É nele, no real, que tudo é possível.É nele que se processa a fantasia, os sonhos, a vida cotidiana, a mesmice,a opressão e as revoluções.
A convergência da realidade real com a realidade virtual dilatou os canais da percepção e, por conseguinte, ampliou a comunicação interpessoal. 
A vida e o mundo se estenderam para horizontes antes vivenciados apenas por poetas e destemidos aventureiros que habitavam nossos sonhos juvenis de liberdade.
Essa é a revolução que se processa AGORA que poucos tem o dom da graça de perceber e compartilhar em tempo real. 
Caso compartilhem, como contemporâneos do evento, pouco ou quase nada conseguem transferir para o EU do passado que vos fala. 
Diante disso é pura tolice olhar o momento atual com o paradigma que atribui totalidade ética/moral ao fator presencial. Essa virtude imposta ao EU ficou no passado por limitar o entendimento de que a experiência humana só se realiza na materialidade - corpo e a alma fincados no tempo real – que, por tratar-se de uma raridade experimental acontece em fases cruciais da existência como no nascimento, gozo, dor e na morte. 
Entende-la como a única ocorrência digna de uma existência sem ‘vícios’ adquiridos na realidade virtual, é uma recorrência ao passado por temor do presente/futuro.
O duplo SER - um consciente e presencial, outro virtual e alienado - é puro blefe de quem ainda acredita na unidade do SER como estagio mais elevado da consciência.
A realidade é múltipla. Por que o SER não seria também?
As realidades se complementam e o SER que as interpenetra se expande em múltiplas percepções sensoriais. 
Torço para que se instrumentalize mais rapidamente possível as ferramentas tecnológicas para a humanidade alcançar uma terceira, quarta e quinta dimensão do real sem a necessidade de uma mediação mística, uso de drogas alucinógenas ou delírio ideológico/ fundamentalista que, de acordo com a tradição arcaica, finda em servidão, tortura e guerras.
Alcançar esse estágio da evolução levará a humanidade a democratizar o acesso a dimensões hoje intransponíveis para os ‘caretas’ que, lamentavelmente, compõem a massa dos realistas crédulos e obcecados pela economia da subsistência e pelo poder político. 
Tal fenômeno acarreta na mais ousada evolução da espécie.
Induzir um fundamentalista religioso radical ou um militante convicto a atravessar a limitada dimensão condicionada do real é mais transformador que uma guerra sangrenta para derrota-los. 
A realidade ficará mais complexa e rica e o mundo um lugar melhor para se viver.
O diabo desse sonho é que a opção de vivenciar plenamente a realidade me leva direto para os domínios da frustração. 
Talvez, por isso, o alerta: "Não podemos esmorecer!" tenha amplo significado nas muitas dimensões do real.
Ele se manifesta também como resistência objetiva ao corrupto e seu “Poder” de convencer a massa de que ela é impotente para vencê-los.
O fato é que não É!
Estamos em plena transformação. 
Antes do advento das redes digitais,a resposta correta e exemplar da Operação Lava Jato, da PF, do MP e da PGR ao clamor da população, se restringiria ao campo do desejo.Além disso,sem essas ferramentas muitas pessoas sequer saberiam da extensão e malefícios causados pela população de pilantras e corruptos e seus associados que achacam o presente e comprometem o destino das futuras gerações de brasileiros.
Aos poucos os pegaremos! 
Ainda tem muitos deles escondidos que serão progressivamente alcançados

domingo, janeiro 10, 2016

Narco Fashion

Relutei por um tempo compartilhar o artigo do link. 
Me negar a replicar, ainda que de forma numericamente insignificante,a maciça visibilidade de mais tolices, além das que já abundam no Brasil, é um procedimento que adotei nas redes sociais. 
Porém, o culto piegas ao ‘marginal justo’ contra o Estado opressor e injusto, mantido por uma sociedade hipócrita, omissa e criminosa denunciada e combatida por bastiões da verdade,como os 'astros' dessa pantomima moralista,é uma babaquice que me desperta repulsa. 
Diante de mais um embuste me sinto na obrigação de revidar a carolice oportunista das celebridades histriônicas, como é o caso dos personagens centrais do artigo desse link. 
“A vida é um negócio. A única coisa que muda é a mercadoria. Você não concorda? ”
É raro ver tamanha platitude para expressar encanto pelo cartel mexicano das drogas. 
Todavia, foi assim mesmo, com essa indagação carregada de admiração que em 2012 Kate del Castillo, uma das atrizes mais famosas do México,fechou um tuíte expressando desconfiança no governo mexicano e admiração pelo traficante El Chapo.
Politica,propriamente dita,Zero!
Justiça social e segurança pública,então,nem se diz.
As sociedades mais pobres não merecem esses benefícios admiráveis que em países onde a lei é um valor inegociável, conferem alguma segurança a sociedade.. 
Para engrossar o caldo de uma mitologia contemporânea eletrizante,como num filme de Hollywood, Kate protagonizará nessa entrevista com o ator Sean Penn, um deslumbrado por personagens engajados em causas dispares que podem ir da militância histriônica por um Chávez a uma rebeldia alucinada sem qualquer causa política aparente.
Esse é o perfil 'outsider' de um ator conturbado pela contradição entre o "negocio" milionário que exerce e o ser humano -tocado pela lucidez- que interpreta na vida real. 
O resultado desse trailer de conflito existencial pode ser lido na matéria em tom de roteiro de blockbuster dramático,em forma de elegia ao tráfico de drogas.
A vida, ao contrário do deslumbramento da dupla, é muito mais complexa que um "negócio", seja ele qual for. 
Ainda que a cultura do espetáculo invista os tubos para formatar a mentalidade do espectador e explodir as bilheterias, a existência, a dor humana e a própria realidade é que definem o mundo, à revelia dos padrões morais, da estética hollywoodiana e das lendas que transbordam a atualidade.
A cabecinha doidivana da Kate e o deslumbre ativista do Penn, se esborracham na medíocre tentativa de converter El Chapo em um Emiliano Zapata.
O artigo é uma fogueira de vaidades.
Uma disputa de narcisismos entre Penn e El Chapo com a doidivana Kate del Castillo como plateia.
Porém,o que transparece como fato inconteste é que um oceano de inteligencia e talento separam Sean Penn de John Steinbeck, responsável pelo roteiro do filme Viva Zapata! do Elia Kazan 
Na verdade, El Chapo sequer tem a estatura de um Pancho Villa, ex-domador de cavalos, ex-bandido e guerrilheiro, que liderava os camponeses do Norte com o objetivo de combater o Exército Federal e os grandes proprietários, conquistando vilas e cidades e que, em determinado ponto da conturbada história mexicana, se aliou a Zapata,dois sinônimos dos maiores líderes revolucionários mexicanos.
Em resumo:"a secreta visita ao homem mais procurado do mundo" é um estardalhaço promocional ridículo que seria mais eletrizante caso os dois protagonistas acompanhassem El Chapo no seu novo domicilio pelo tempo em que lá permanecer.
Até a próxima fuga, rastreada em tempo real por um reality show compartilhado em rede, com Kate e Sean como o casal da missão especial.

Read more: http://www.rollingstone.com/…/fea…/el-chapo-speaks-20160109… 
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terça-feira, janeiro 05, 2016

Um Olhar Entrevista: Adriano de Aquino





Os primeiros dias de um novo ano inspiram mudanças e avaliações sobre realizações de um tempo que passou. 
Rememoriza-los nos induz a rever com um novo olhar não apenas os arquivos físicos mas, também, mentais, ideias, sensações e opiniões que nos mobilizaram num período. 
Os registros de um tempo,quando revistos, abrem novas oportunidades para repensar o momento presente.
A entrevista à Paola Bonelli em novembro de 2014(link) toca em temas que abordo com certa frequência neste blog.
Falar descontraidamente é bem diferente de escrever burilando de forma mais concisa o que penso sobre diversos assuntos.

sexta-feira, janeiro 01, 2016

Trópico do Entreguismo



Enquanto a grande imprensa nacional especula sobre as razões da vizinha Argentina se transformar de país muito rico em muito pobre e a mídia nativa chapa branca argumenta em favor dos investimentos promissores do governo brasileiro no Porto de Mariel, em Cuba, e sobre as benesses do financiamento do BNDES às empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato para obras de infraestrutura nas ditaduras africanas, a China vai de mansinho arrematando nacos estratégicos do ‘terreno baldio’ abandonado pela anorexia das políticas petistas para a infraestrutura nacional.
A política energética petista, imantada na corrupção e no delírio megalômano do PT, reduziu a Petrobras a um escombro.
Ainda que o governo use o sindicalismo amestrado para se manifestar em período eleitoral em defesa do patrimônio nacional do pré sal e dos braços produtivos e comerciais da companhia, o fato é que ela está sendo paulatinamente canibalizada. A estratégia petista para o setor derrubou as últimas porteiras permitindo a escalada chinesa no setor energético nacional. A desidratação da estatal brasileira oculta um programa de governo que poderíamos chamar de “Mais China” – ‘colonizador do bem’- na economia nacional.
Duas companhias chinesas recém-criadas (China National Petroleum Corporation (CNPC) e China National Offshore Oil Corporation (CNOOC) atuam agora fortemente no setor de petróleo e gás brasileiro. Numa jogada de cartas marcadas o consórcio chinês venceu o leilão de Libra, alavancando sua atuação para três blocos de operação no pré-sal. Se incluirmos as investidas no pós-sal, a China possui hoje 12 blocos. O próximo passo das empresas chinesas será no segmento de refino.
Tudo leva a crer que nesse setor os governos petistas visavam afogar a a Petrobras em má gestão, escândalos, dividas gigantescas e forte estresse financeiro para depois desafoga-la recorrendo a medicina milenar chinesa.
Mesmo os adeptos da privatização do setor petrolífero ficaram boquiabertos pela condução direcionada do governo para um comprador. Muitas pessoas advertem: a roubalheira e a gestão destrambelhada dos governos Lula/Dilma visavam quebrar a coluna vertebral da companhia para depois privatizar os nacos do flagelo.Senão,como explicar a opção preferencial dos petistas pelo capitalismo chinês?
Quem vê adiante já prevê a proporção do desastre ao avaliar essa medida como um risco para as contas externas do Brasil. A crescente presença do capital chinês no setor deve elevar as exportações de petróleo para a China, ac ampliando a dependência da economia brasileira em relação à China que, diga-se de passagem, é o principal destino de nossas exportações.
Esticando as pernas para o setor hidrelétrico, outro setor estratégico que os governos petistas asfixiaram,a companhia China Three Gorges (CTG) venceu o leilão das usinas Jupiá e Ilha Solteira em São Paulo. Localizadas no rio Paraná, as duas hidrelétricas eram as mais cobiçadas entre as 29 usinas leiloadas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Aflito em fazer caixa o governo deu pulinhos de alegria ao arrecadar 17 bilhões de reais em bônus de outorga – valor pago pelas empresas pela concessão.
E não para por ai!
Começamos o ano de 2016 com perspectivas negativas para a economia. Hora certa para o capital chinês pôr para andar o projeto de uma estrada de ferro que rasgará a floresta amazônica.
Troço de louco!
Parece até roteiro de filme.
Partindo do Rio de Janeiro,do Porto Maravilha, mais precisamente da Estação Central do Amanhã(triste amanha), a ferrovia se estenderá por 5.300 quilômetros atravessando o Brasil profundo e atingindo o Peru, passando por Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Acre.
A nova aventura ‘neocolonialista’ em Terra Brasilis será administrada por ‘Fliz Callaldo’, substituto asiático do aventureiro germânico que cortou a floresta amazônica com um barco a vapor.
O aventureiro asiático pretende fazer isso de trem.
A Dilma, que anunciou um trem bala que nunca chegou, deve estar louca para autorizar a façanha dos chineses que cumprem o que prometem.
Que se dane as políticas ambientais.
O progresso não deve ser emperrado por um bando de ecochatos.
A ferrovia pretende cortar uma serpentina no que resta da maior reserva de biodiversidade no planeta.
A devastação do meio ambiente tem como objetivo reduzir os custos de transporte do petróleo, minério de ferro soja e outras commodities oriundas da “colônia” latino-americana para a metrópole na China. Por conta disso e para alavancar sua produção industrial, a China envidará todos os esforços para ligar o litoral atlântico brasileiro à costa peruana do Pacífico. Os chineses, doravante os donos da bola energética brasileira, chamada carinhosamente pelos petistas como ‘commodities neoliberal’, vão fazer tudo que lhes der na veneta para reduzir os custos de transporte do que, por força de um contrato, lhes pertence.
A Dilma acha que os chineses são com ela e o PT que prometem tudo mais não realizam nada.
São inconsequentes contumazes!
Temo pelas gerações futuras que terão que enfrentar o modelo de capitalismo expansionista chinês, amparado no poderio bélico da segunda maior potência econômica do mundo.
Todos conhecem a obstinação daquele povo.
Quem não conhece basta ver a extensão e resistência da secular Muralha da China e dar uma olhadinha nas obras monumentais contemporâneas e outros megaempreendimentos que os chineses realizam de olhos fechados, para se ter uma ideia de como eles irão pressionar os nativos latino americanos que ainda estão por nascer e ousem resistir.

quinta-feira, dezembro 24, 2015

War in Cyberspace




Renegados 'on line' são caçados mundo afora por xerifes da rede.
A rebeldia dos ativistas da free web contra as reservas dos grandes domínios e a lei dos direitos autorais que cerceiam a informação pelo viés econômico e da segurança de dados, despertou bandos de renegados espalhados pelo mundo.
O problema é complexo e de difícil solução.
A justiça norte americana tenta debelar o movimento pelo viés da lei.
Há tempos o renegado Kim Dotcom chefe do Magaupload e seu bando se mandaram do território americano. Se refugiaram na Nova Zelândia e de lá continuam a pulsar fluxos digitais na rede mundial de computadores. O movimento conta com a simpatia de milhões de usuários. Os ativistas da free web contestam os critérios legais que protegem as grandes empresas de entretenimento que cerceiam a livre informação. Alegam que a internet é território livre, avesso ao controle empresarial e do estado, item previsto na constituição americana que protege o livre transito do conhecimento. As autoridades americanas fecharam o site de compartilhamento de arquivos Dotcom, Magaupload, que já foi um dos sites mais populares da Internet. Os promotores acusam o site de ter arrecado pelo menos US $ 175 milhões, com download ilegal de filmes. Os promotores acusam os homens de conspiração para cometer infração de direitos autorais, extorsão e lavagem de dinheiro. Se forem considerados culpados, eles poderiam enfrentar décadas de prisão.
Os acusados contestam. Dizem que se trata de falsa acusação e que o site viabiliza enorme gama de informação e conhecimento que não devem se ater ao controle empresarial ou do estado.
Um julgamento histórico está em vias de bater nos tribunais americanos. O Juiz Dawson presidiu uma audiência de extradição e delineou o processo contra os quatro homens Em sua decisão sobre o pedido de deportação, o juiz Dawson escreveu que a evidência "estabelece um caso ‘prima facie’ para responder por todos os entrevistados em cada um dos aspectos."
O despacho do juiz é necessário para o pedido de extradição.
Contudo, Dawson adverte que não se trata de uma determinação de que os Estados Unidos tenham um caso válido e que a extradição não é uma declaração judicial de que eles são culpados.
Os advogados do Dotcom já disseram que vão recorrer da decisão. O caso pode ter implicações mais amplas para as regras de direitos autorais na Internet.
Ron Mansfield, um dos advogados dos renegados, disse que se a lei dos Estados Unidos prevalecer, compartilhamentos de conteúdo do YouTube para o Facebook teriam que ser necessariamente policiados mais cuidadosamente.
A coisa se complica mais ainda quando os defensores dos renegados alegam que “Hoje, não se fez Justiça", disse Ira Rothken.
Ele aguarda com expectativa a revisão da decisão no tribunal.
O fato pode trazer mais uma crise internacional tipo Snowden. Apesar da pressão dos EUA, ministro da Justiça da Nova Zelândia, Amy Adams, não é obrigada a assinar esse pedido de extradição.
Em um comunicado à imprensa na quarta-feira, a Sra Adams disse que iria esperar a conclusão de eventuais recursos antes de tomar uma decisão.
Guerra nas Estrelas é vesperal dos conflitos internacionais no ciberespaço.

sábado, dezembro 12, 2015

Hit Natalinos

Carta + Carta + Carta
Minha carta desabafo 2015
Hits Natalinos
É grande a lista de alegrias, perdas, ganhos, tolices e tragédias a se refletir e avaliar sobre o ano que se encerra. 
Ainda não tive tempo para brindar a mim mesmo pela pujança do meu instinto animal de sobrevivência contra os ataques sucessivos das três órbitas de governo que teimam em violar a minha integridade pessoal, difundindo a explosão de mal-estar social que vara para dentro e para fora a soleira da porta,excita e estimula a disputa generalizada,a ponto de levar à loucura os militantes da insegurança local e planetária.  
É tanta insistência que mal tive tempo de consultar o marcador do estoque de ‘sorte’ que ainda me resta. 
O impacto na conta corrente desanima ir adiante, mas  a mão invisível do destino me afaga e anima. Ela continua previdente, não falhou nem uma vez em 365 dias. Empurrou-me para longe de uma bala perdida em busca de abrigo num corpo caminhante. Também não precisei ir a um médico por qualquer emergencia, nem fui torturado pela ansiedade hipocondríaca que leva a vítima de um espirro a uma batelada de exames preventivos. 
Na atual conjuntura, a soma desses fatores é quase um milagre. 
Ainda bem que meus neurônios continuam na ativa prestando serviços inestimáveis a minha máquina orgânica. Porém, no tocante a invasão dos ‘inputs’ da comunicação social, o famoso e inescapável mundo exterior, meu humor oscila entre o desprezo absoluto e a atenção esperta de um cão de guarda. 
Hoje, abrindo a caixa de e.mail o compartimento dos neurônios ‘cão de guarda’ rosnaram para os visitantes indesejáveis. 
O que esses seres robóticos pensam que são? 
Que ousadia! 
Antes mesmo que você abra a porta eles já entram trazendo,sorridentes, suas mensagens mercadológicas de paz e amor. 
Pro’s diabos! 
Que papo é esse de impor unilateralmente uma lista dos melhores de 2015? 
As listas de consultas populares não inspiram confiança.Basta conferir o histórico eleitoral para constatar quem são os "eleitos" pela maioria.
Ora, se a vizinha alcoólatra dorme embalada pelos hits do momento e acorda todas as manhãs de cara com um programa ‘up’ de uma apresentadora “modelo” na Tv , não significa que o morador da porta ao lado é obrigado a socializar com essa merda. Sou gentil com ela. Não tenho preconceitos contra alcoólatras, mas me previno de ser atingido pela insistência que assola as mentes entorpecidas. 
Mas, são as mentes entorpecidas que mais absorvem as mensagens afirmativas. Certos dessa máxima, as agências de comunicação e marketing acham que todos são dependentes da ‘droga’ da comunicação social. 
Fundados nesta certeza atacam todas as mentes,na ânsia de coletar um clique e respostas imediatas dos espectadores distraídos,ávidos pela coletivização das celebridades e deslumbrados em geral. 
Ja disse mais de mil vezes,repito outras mil:me lixo para a lista dos ‘10 Mais de 2015’. 
Os Top 10 são escolhidos por dez trouxas financiados por dez empresas da industria editoral,galeristas,estetas fashion e o escambau mercadológico. 
Consulte a lista do júri que os elege e constate a corrente ‘pra frente’ do jornalismo cultural que os elege. 
Não queria estar nessa escolha nem para entrar no paraíso cercado de  72 virgens louquinhas para dar,banquetes intermináveis, tâmaras e mel.  
Não importa o que eu ache.Eles são impessoalmente  gentis e acolhedores mesmo com quem os despreza. 
Por isso,antes que o Leão da Receita rosne no início de 2016, eles invadem na maior desfaçatez as veias abertas do ciberespaço para te encher de comunicação amigável listando "Quem foi Quem em 2015",os artistas mais vendidos,os preços mais espetaculares nos leilões de arte,o personagem do Ano etc e tal, ao mesmo tempo em que te desejam um ano novo cheio de coisas velhas, repetitivas,cheirando a mofo e se arrastando nas filas dos espectadores de uma arvore de natal ‘socializada’, boiando na lagoa.Uma coisa eles tem certeza.Milhares de replicantes entorpecidos pelo sucesso alheio 'compartilharão' essas maravilhas da ilusão mercantil.
Bom Natal, Papai Noel Coletivo! 
Mas, por favor, me tira dessa generosidade histérica.

quinta-feira, novembro 19, 2015

As artimanhas da moral absoluta.



As argumentações dos progressistas -made in Brasil e dos democratas - politicamente corretos - made in USA- convergem para um ponto comum.Para os dois vetores do protagonismo político moderado as democracias do ocidente são os principais culpados pela expansão do terror mundo afora. 
As argumentações diferem em alguns detalhes(armas,petróleo), todavia, se estabilizam na certeza de que a mais devastadora violência contra a humanidade se origina dos três pilares do vicio,da dominação e da ganância que conduzem ao crime.São eles:a democracia, as garantias à liberdade individual e o livre mercado .
Os multiculturalistas são unanimes em afirmar que esses vetores, expandidos em operações culturais,econômicas e militares além mar, se constituem armas de guerra política. Vem dessa hipótese maluca a ideia de que o maior erro das potencias ocidentais foi tentar impor a democracia na regão,em detrimento da cultura das castas religiosas.Quando se condena as práticas insidiosas do livre mercado não se aponta os governos corruptos como únicos responsáveis.A tendencia é apontar a permissividade criminosa dos cidadãos que vivem nas democracias do ocidente como cúmplices do sistema.Isso é um blefe que,em certa medida,no entendimento dos progressistas, relativiza a violência jihadista contra civis.
Para os combatentes da jihad islâmica esses itens representam a base de uma ofensiva autócrata contra a qual os fieis devem opor resistência, dispondo inclusive a própria vida ao sacrifício se atirando na missão divina de espalhar o terror enquanto ato de auto defesa dos valores culturais e territoriais mais autênticos. 
Do 11 de setembro aos dias atuais, os combatentes da jihad islâmica tem angariado simpatizantes no ocidente.
Alguns intelectuais dessa banda do mundo estabeleceram uma muralha de proteção onde guardam os argumentos de defesa que atestam,antes de tudo, que os crimes cometidos pelas democracias ocidentais contra aquela região do globo e aos muçulmanos em geral,são inomináveis e infinitamente mais violentos e destruidores. 
Tomarei aqui uma citação fora dos padrões mais elegantes das correntes liberal/progressista do ocidente para ilustrar minhas reflexões.
Todos já estão cansados de saber o que pensa Chomsky sobre a insidiosa vilania das democracias ocidentais.Também estamos fartos de saber que os progressistas nativos consideram os neoliberais os maiores assassinos do planeta.Isso significa dizer que se você não enxerga a realidade por esse viés é porque é um reacionário conivente com o Terror imposto aos povos do Oriente Médio,America Latina,Leste Europeu,Africa e demais vitimas do capitalismo eurocêntrico e norte-americano. 
Todavia,poucos se importam com o que pensa sobre o terrorismo(se é que pensa)os velhos comunistas, para quem os neoliberais,multiculturalistas, progressistas e o escambau são uma tralha burguesa e que,ao fim e ao cabo, merecem -todos- "uma boa bala,um bom paredão e uma boa morte."
O trecho que segue é parte de um artigo intitulado "Atentado em Paris: as lágrimas de crocodilo dos dirigentes europeus e dos EUA " de autoria de Edmilson Costa,secretário de Relações Internacionais do Partido Comunista Brasileiro.Diz ele:”Esse atentado em Paris se enquadra nas ações de terrorismo puro e simples. Cerca de 130 pessoas foram assassinadas, nenhuma delas possuía relação com o governo ou tinha realizado qualquer ação contra o islamismo. Foram mortos simplesmente por estar no lugar errado, na hora errada. Tratou-se, evidentemente, de um ato bárbaro que ceifou a vida de inocentes, executado por fanáticos, sem nenhum critério político, ideológico ou militar. Na verdade, os executores desse massacre eram apenas peões guiados desde longe por interesses geopolíticos e econômicos do imperialismo, tanto europeu quanto norte-americano.” 
Como vemos o arauto do comunismo foi mais explicito que os liberais/progressista ocidentais na sua condenação aos atos do terror em Paris. Ainda que os comunistas,assim como os jihadistas, sofram alergia crônica à democracia, o autor dessas linhas foi menos “compreensivo” com o terror avulso que os grupos politicamente corretos -made in USA, os progressistas nativos e os multiculturalistas ocidentais no tocante aos atos da sexta feira sangrenta.
Fica evidente que para um comunista ferrenho o “terrorismo puro e simples” sem objetivos políticos nobres,como o deles,é uma violência gratuita.Para um comunista,o terror de inspiração ideológica, cometido em nome de uma ideologia igualitária,fundada na hipótese insana de que o extermínio das diferenças é o caminho para paz, fundamenta a moral na qual a execução em massa dos inimigos burgueses é um terror justificável..
Todavia,todos os segmentos do protagonismo político fluente nas democracias ocidentais são unanimes em admitir que a democracia,as liberdades individuais e o livre mercado são os principais responsáveis pela crescente violência no mundo.
Essas vertentes, a parte algumas diferenças, desprezam as características violentas inseridas na gênese das culturas religiosas.
Todos isentam o islamismo como fomentador de uma cultura da violência.Coincidem na premissa de que a violência contra as mulheres,as minorias étnicas e religiosas e contra tudo mais que permeia o leque da diversidade cultural,são refratários a violência e devem ser redimidos da culpa.
É incrível que uma mentira tão maquiavélica ainda subsista em pleno século XXI. 
Para esses indivíduos, amputar clitóris, dilapidar mulheres supostamente promiscuas, vetar o prazer ao gênero feminino, açoitar e matar infiéis,subestimar crenças,punir com a morte os homossexuais, decapitar os apostatas,doutrinar mentes desde a mais tenra infância é 'natural' as culturas religiosas e,como tal, devem ser respeitadas como algo inofensivo à sociedade.Multiculturalistas defendem abertamente essa tradição por acreditarem que sua permanência não lastreia a opressão,o medo e,claro,o ‘boom’ da violência por todo o planeta.Dado que os muçulmanos, na era global,se tornaram cidadãos do mundo,a arrogância, fundada na moral sagrada, lhes autoriza mudar radicalmente o mundo a fim de elevar a humanidade,como um todo, à categoria de servidores obedientes a Alá.
No seculo passado,a sua maneira, os eugenistas nazi tinham a mesma pretensão de controlar a raça do mundo. 
É difícil encontrar hoje algo mais violento do que isso!
Para esse intento,comum aos diversos vetores do protagonismo politico da atualidade, a democracia ocidental é um estorvo que deve ser combatido até o juízo final.

sexta-feira, novembro 13, 2015

Asas da Carne






































Não leio,comento e compartilho qualquer comentário sobre a frenética escalada de preços das obras de arte.Seja nos leilões ou operações avulsas do mercado. O afã da grande imprensa e do público em geral pelo hipódromo financeiro das artes é motivo de grande frenesi.Propagar  os recordes dos preços de venda de um objeto de arte é apenas tietagem histérica  de quem confunde valor com preço e trabalha de graça para o sistema.O tiete pós moderno responde como um automato aos estímulos da atualidade manifestando orgulho pelos preços estratosféricos que as obras atingem no mercado. O sucesso financeiro de algumas celebridades ocorre,sobretudo,por conta do altos preços propagados pela comunicação social,segmento estratégico do marketing. Depositar crédito nesse mecanismo é pura tolice.Altos  preços excitam o público avido por disputas sem nexo algum. Essas tolices, ao lado das pinturas do Bacon, revelam a grotesca atração dos 'incautos' pela ostentação e a estupidez. Um fato econômico não é um fenômeno artístico.Pagar-se somas elevadas para obras de arte não significa acrescentar virtudes e valor artístico a uma obra de arte. 
A trupe dos boquiabertos e deslumbrados -incluindo alguns artistas embasbacados - festeja os 'lances' que se concretizam em lucros estupendos dos intermediários.Ganhos que os autores e mesmo a arte em si,pouco se beneficiam materialmente.Quem lucra são os intermediários. Nada mais que isso. É bom para um artista vender suas obras  a fim de sobreviver de forma digna com o fruto do seu trabalho e dar segmento a sua produção. 
Os índices do mercado são vitais apenas para operações objetivas das Bolsas de Valores e Mercadorias.Entretanto,usar esses índices como exegese é de uma estupidez cavalar que me enche de vergonha da especie humana e do que ela é capaz.
O fato que interessa e sequer é mencionado é que a ostentação de hoje - o mega preço atingido pela revenda do  tríptico do Bacon tendo Lucian Freud como modelo, pintado em 1969 - coloca em segundo plano o  dado sublime que é o dialogo criativo entre os artistas.Essa obra abre à visão sensível, puramente artística e profundamente afetiva, que irmana os habitantes de um mesmo mundo.
É,em síntese,um registro magistral do afeto sublime que nos une aos amigos.
Monetizar tudo,inclusive fenômenos amorosos, é a banalidade mais recorrente aos imbecis.
A foto ‘Asas de Carne” com o tempo se tornou uma especie de premonição.A interação fotografo/artista estabelecida nas duas pontas da imagem,tanto no olho que captura quanto no modelo que é registrado,se materializa em fina ironia que sabiamente previa o que uma sociedade futura,altamente competitiva e subjugada ao status e ao preço das coisas, faria com as obras dos artistas.
Tiram a carne e devastam a alma.
Depois festejam e dividem os lucros.
Suprema ironia!



Adriano de Aquino

postado em 13/11/2013  TL/














quinta-feira, setembro 10, 2015

Pouco tempo atras os vínculos explícitos entre arte/mercado eram vistos como algo vulgar.Para os puristas de uma hipotética cultura autentica,um anátema.Os últimos trinta anos produziram um fenômeno de massificação em grande escala de bens e serviços com finalidades mercantis.Nada escapa a essa lógica.Os 'insumos' estético-emocionais da criatividade artística foram engolfados pelo sistema e se tornaram ferramentas de fomento de um consumo supostamente mais seletivo e sofisticado.
Entre os milhares de pressupostos atribuídos à arte,um deles muito cultuado no momento,fala do desafio da pessoa no mundo contemporâneo.
Os bens materiais,hits e valores voláteis de uma sociedade competitiva,inspiradora de anseios que estimulam o ritmo insano da escalada social, se consolida no glamour das celebridades.Esses personagens atravessam de cabo a rabo o mundo do dinheiro,da moda,da cultura e das artes.
Um 'must'.
Porém,todo esse glamour é dócil e pueril frente a uma realidade que tudo reduz ao minimo divisor comum: a realidade não é o bastante para suprir os termos mais sensíveis de uma vida plena,intensa e digna.
Quanto mais agora,diante da centralidade econômica sobre todas as coisas. Seria uma ingenuidade imaginar que o mundo sensível estaria protegido da massificação por uma muralha de disciplinas e conceitos que ainda insistem em hierarquizar um sistema cultural dominante pelo viés da certidão de autenticidade criativa, concedida por um 'expert' curatorial,um dono de galeria,um comentarista da mídia cultural ou outros segmentos de intermediação intelectual entre Arte,sociedade e negocio.
Portanto,por mais irônico que possa parecer,as mais constantes discussões e a difusão midiática sobre arte da atualidade foca implícita ou explicitamente na economia.
Na grana!
As promoções culturais em larga escala seguem o método do marketing que faz circular conceitos estéticos a fim de distinguir o 'diferencial'- para melhor- de um produto alvo para logo adiante se esborrachar no antro econômico e mercantil ao qual as artes e os artistas estão inexoravelmente submetidos.
A maior parte deles com quase nenhum dinheiro.Outros, ostentando cifras elevadas.Esses são os "eleitos" de um sistema apurado de negocio que insere todos- eleitos e ofuscados- no mesmo game!Nesse mundo mais que perfeito,ninguém será excluído-Todos são artistas!Com menos,nenhuma ou extravagante visibilidade. 
Não vá a uma feira de arte sem um link à mão. Em geral,o produzido pelos próprios expositores.No âmbito social(não em ambito pessoal) não ha transversalidade que escape a tensão que empurra para a massificação. Arte aos borbotões em contraponto ao raquitismo de conteúdo crítico autônomo,livre do direcionamento estético de gestores do gosto alheio. 
No meu entender,não ha discussão possível sobre a Arte da atualidade sem que se mergulhe profundamente nas reflexões suscitadas pelo livro de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy comentado no link abaixo. 

http://obenedito.com.br/capitalismo-artista/