quarta-feira, setembro 15, 2010

Game update

Em um mundo saturado de informação tecnológica falar em inclusão digital é tão urgente quanto decifrar a validade de uma informação na rede virtual?

O escritor Howard Rheingold ("Smart Mobs") acha que não. Sou tentado a concordar com ele. Para ele a sobrecarga crescente de informação online está nos apontando para a necessidade premente de um novo tipo de literacia (tradução literal de literacy que é a palavra técnica para determinar a capacidade de julgar a exatidão das informações encontradas na web).

Segundo Howard: Se os alunos pudessem aprender a sondar uma informação antes de navegar online pela primeira vez, estariam mais capacitados para deliberar se uma informação merece um “não” ou um “sim”.

Avaliar a validade ou as intenções das informações nos meios de comunicação convencionais já exige do cidadão um esforço considerável. Na web, onde os sítios são contados acima do milhão essa tarefa é mais complexa ainda.

Em ano eleitoral, então, as coisas se complicam e tornam-se campos minados de informações suspeitas. Os partidários do candidato da situação lançam noticias de um lado, os opositores de outro, um na tentativa de denegrir o outro. Contudo, a informação clara, imparcial e confiável é difícil de ser apanhada. Como numa torcida de futebol, se torce pela vitória.

Quem freqüenta com assiduidade as redes sociais não tem muita dificuldade para saber a tendência do voto dos seus seguidores. O internauta atento já teve tempo para identificar qual é o candidato presidencial preferido na sua lista de amigos.

Todavia, ainda que a urna seja eletrônica, o voto é secreto e presencial,há sempre,por menor que seja,uma possibilidade de surpresa.O leitor capacitado encontra mais duvidas que respostas confiáveis a cada edição de uma nova pesquisa de intenção de voto.

Há muito decidi em quem vou votar. Não mudarei essa decisão por nenhum fato novo ou espetacular. Para mim, a deliberação de voto não passa por instancia emocional, impacto promocional ou imediatismos. Minha decisão é fruto de uma avaliação conjuntural. Portanto, achaques daqui, escândalos dali, não mudarão minha decisão.

Fui e permaneço sendo contra a violação constitucional. Nada me preocupou mais na política recente que a façanha de Fernando Henrique ao operar em prol da reeleição. Naquele conluio ele comprometeu o rito democrático e nos expôs ao continuísmo. Essa irresponsabilidade o tornará inesquecível.

No meu entender nenhuma causa é mais importante que a alternância do poder.

Alguns amigos, simpatizantes da situação, me questionam sobre a longa permanência das elites políticas brasileiras no poder e que a reeleição é uma reparação tardia. Outros, da suposta oposição, argumentam sobre a perda dos valores éticos. Pelo menos não se atrevem a culpar a mutreta da reeleição. Seria descaramento demais.

Para os dois lados respondo : no poder o mais humilde dos brasileiros torna-se, imediatamente, o mais destacado membro da elite e um intelectual da elite se apraz em jogos rudimentares, sem avaliar os custos de seus atos para as futuras gerações. O que os diferenciava na origem os une no esplendor do poder.

Entristece-me imaginar a possibilidade de um destino pré concebido. Quando a chance de transformação parecia possível, fomos coagidos a sufocá-la. Retornarmos, qual um navio escravo perdido no horizonte, aos eternos jogos do poder. Nesses jogos a democracia é a eterna perdedora.

É difícil avaliar os estragos produzidos por esse tipo de arrogância e desprezo pela democracia.

Ontem, nos umbrais da intolerância, da injustiça e do medo, ou hoje, cegos pelos flashes do marketing eleitoral que se irradia das telas de plasma e monitores digitais na Era da Informação e do Conhecimento, grande parte das informações transitam secretas e indecifráveis.


terça-feira, setembro 07, 2010

Intro- New vocabulary

Visualização gráfica de várias rotas em uma porção da Internet mostrando a escalabilidade da rede

New vocabulary

Um grupo de amigos resolveu criar um hipertexto sobre o tópico: O Contemporâneo. Uns se dedicaram a produzir textos aprofundados, outros pegaram links em artigos sobre a vida contemporânea e os disponibilizaram para a intervenção de terceiros. Eu optei por apanhar as palavras inclusas no hipertexto que tivessem uso assíduo no ambiente cultural e colá-las sobre imagens disponíveis na rede virtual. Como notarão, algumas seqüências são extratos de filmes, outras de programas de TV, eventos do mercado de arte e cultura, comportamento e etc. A trilha desse clipe é a introdução da música The End do The Doors, usada na abertura de Apocalipse Now do Francis Coppola. Minha participação no texto resultou nesse comentário visual intitulado New Vocabulary. O que estou mostrando agora para vocês é o que incluí ontem no conjunto do hipertexto. Como a dinâmica desse tipo de escrita é imprevisível é possível que a minha contribuição tenha hoje outra configuração. O grupo é composto por pessoas de diferentes regiões do globo, por isso, optou-se por usar o inglês como língua de referencia

domingo, setembro 05, 2010

Diálogo digital

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clipe- imagens coletadas na internet - setembro 2010

Criado e editado por Adriano de Aquino

Musica - Down - Cinematic Orchestra

Ela - Surfar, alegre e solto, nos fluxos da blogosfera é tão agradável quanto temerário. Ao atravessar o portal desse novo mundo o navegante deve redobrar a atenção para não tropeçar em ardis. Os velhos artifícios matreiros se alastram por entre os cursos da realidade virtual. A universalização dos meios tecnológicos de comunicação interpessoal está mudando muita coisa, isso é certo, contudo, a mudança de mentalidade ocorre num ritmo lento demais. Falam muito na revolução do terceiro milênio. De fato existe, porém, seu epicentro é o conhecimento e o domínio técnico, não o comportamento individual. Se a característica marcante das revoluções sociais é a rapidez com que viram o poder pelo avesso, na tecnologia o que vira pelo avesso é o bolso do consumidor e sua habilidade em manipular códigos. Observe as causas humanitárias que mobilizam milhares de pessoas nas redes sociais. Repare na quantidade de manifestos virtuais contra a manipulação política e as injustiças contra as minorias. Manifestos se alastram na rede para logo se tornarem assuntos secundários. Por quê? Porque a indignação tem data de validade? Não, nada disso! Ocorre que um novo lançamento tecnológico atrai todas as atenções. Ontem foi anunciado a entrada no mercado do iPad. Os veículos da grande imprensa se adaptam imediatamente, Suas edições se adéquam a nova plataforma e o navegante entra na fila para comprar o novo produto. Durante uma semana ele vai se concentrar em aprender a utilizá-lo. Quando souber operar alguns componentes do sistema poderá assistir e interagir, em cores mais nítidas e em qualquer lugar do planeta, com as manchetes sensacionalistas de sempre, as cruéis fotos de combate, os aviltantes apedrejamentos de mulheres islâmicas e muito mais - em imagens mais nítidas que nunca. Mal se ajustou a nova ferramenta, no mês seguinte um concorrente lança outro produto, mais versátil, leve, dinâmico e barato. Diante dessa parafernália me pergunto: o que esses prodígios tecnicistas têm contribuído para a mudança de mentalidade, quer dizer, para a mudança do homem? Será que mais habilitado tecnologicamente o homem se tornará mais humano?

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Ele -Ora, minha amiga. Entendo o prodígio cibernético de outra maneira. Sou um sujeito lúdico, fã das infos. Minhas maiores preocupações são de natureza afetiva. Gosto e isso me basta! Não gosto e de pronto deleto. Lixo-me para política e para economia. A tecnologia da informação é para mim apenas um jogo, assim como a arte e a cultura contemporânea. Ao iniciar uma navegação vou direto até meu canal no You Tube seleciono algumas músicas, míniminizo a pagina, e saio navegando acompanhado por uma boa trilha sonora. Visito as redes sociais, os sites e os jornais mundo afora. Faço um vôo rasante e pego as mensagens do dia na minha caixa postal. Leio-as enquanto passeio por paisagens fantásticas. Vou até a Antártida e em um segundo estou de volta aos trópicos para logo em seguida partir em direção ao Afeganistão a tempo de assistir o último combate entre tropas americanas e talibãs. Não demoro muito nessa paisagem inóspita. Em milésimos de segundos estou assistindo a um desfile fashion nas passarelas parisienses. Vez por outra abro um post onde um artista visual fala da profunda inspiração que o motivou a tatuar porcos com ícones mais populares do mercado da moda. Ainda que sejam de leitura intragável, leio os artigos dos cientistas da criatividade - titulo que substituiu as nominações da Era Analógica para críticos de arte, curadores e membros da academia de artes - os manifestos políticos, os poemas e as escritas flutuam à minha frente, os apanho em vôo. Não há nada mais delicioso que saltar de nó em nó nessa rede invisível. Lembra-me o jogo da amarelinha. Quem não se recorda da delicia de saltitar no interior dos quadrados, apanhar a pedra, ir até o Céu e depois voltar saltitando até a Terra de novo.

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quarta-feira, setembro 01, 2010

Customizado a sangue frio

- Casemiro é customizado.

-Eu hein!Elvira. Os indivíduos customizam coisas, ferramentas, carros, computadores, roupas e outros apetrechos. Pessoas customizam, não são customizáveis, respondeu Gabriel.

-Engano seu, Gabriel. A aspiração desmedida pelo reconhecimento público customiza as pessoas. O Casemiro é uma prova disso.

-Ta bem, respondeu sorrindo Gabriel. Admito que Casemiro seja um sujeito que mesmo calado clama por atenção. Acho que ele sofre com isso. Repare como ele se comporta nas pausas de uma conversação. É nítida sua aflição em encontrar a palavra certa para retomar a conversa com um assunto mais interessante do que o que foi falado anteriormente.

-Que nada! Não há aflição alguma. Todo o sujeito customizado é bem adaptado ao convívio social. São senhores de uma personalidade aparentemente natural urdida nos modelos de sucesso difundidos pelas colunas sociais e as revistas mais chiques do mundo.

-Ora!Se uma pessoa é natural não é customizada. Isso é uma contradição. Concorda?

-Por favor, Gabriel. Hoje se compra programas de humanização até em camelô. São tão abundantes quanto os livros de auto-ajuda do século passado e que até hoje vendem de montão. Simulações de sensibilidade, sofrimento, tensão, solidariedade, elegância, charme Cult, timidez, criatividade e etc. são arquivos de programas inclusos nos mais baratos softwares. Não descarto a hipótese de que um olhar blasée possa, às vezes, ser confundido pelo interlocutor como tédio ou angustia existencial. Mas, isso é apenas representação dos procedimentos previamente analisados. Milhares de softwares comportamentais estão disponíveis em qualquer loja de joguinhos eletrônicos. Os programas mais sofisticados custam caro, mas, sempre há um hacker para pirateá-los. O Casemiro foi configurado por um soft pirata e talvez, por isso, vez por outra, ocorre um tilt no sistema que acaba confundindo o ouvinte que percebe lapsos humanos em suas atitudes.

-Ah!Ah!Ah! Casemiro é culto. Tem uma biblioteca razoável e uma coleção de arte admirável. Não se acumula tamanho acervo artístico cultural sem o aprimoramento da escolha pessoal e do gosto refinado.

- Gabriel, não provoca. Você vive dizendo que os programas de customização agregam vetores que administram as escolhas e o gosto pessoal. Pra falar a verdade esses são itens da primeira fase do adestramento tecnicista. Quem é que vive dizendo que os dados cadastrais dos indivíduos, seus gostos e escolhas, são atualizados automaticamente? Você já ouviu alguma coisa do Casemiro que não seja uma reprodução, em tons pálidos, das idéias alheias?Pior é que ele as reproduz como se fosse um troço inédito. Isso é típico de um hardware mal dimensionado. E a decoração do apartamento, o carro e as roupas da Dulce, sua mulher? Tudo em variações sutis de beje. Meu Deus! Tudo é beje, levemente esverdeado, acastanhado ou rosado, mas beje. No jantar dessa noite predominou o tom pastel. Dos talheres aos pratos, até a comida, tudo variava ou tendia pro beje. Afora o tomate, aliás, nunca vi um tomate tão vermelho, pareceu-me o único ser vivo da residência. Quando me sentei à mesa o tomate gritou comigo. Sei lá por que. Acho que foi porque a minha retina estava dopada pela cor beje dominante e o contraste do vermelho tomate teve o efeito de uma bofetada. Puxa, imagino o quanto é difícil se orientar no deserto. O predomínio dos tons areia/beje deve levar um sujeito destreinado a alucinações incríveis. Num momento tive a impressão de estar sendo observada por máquinas sensíveis.

A voz metálica de Brutus, o intelectual responsável pela orientação espiritual de Casemiro e sua mulher, me irritava mais ainda. Ele se inspira em dois ícones da modernidade. De um lado os gestos e articulações matreiras de Rasputin em versão fragilizada, de outro, o ar de bom moço, cabelo bem aparado e penteado a lá Yves Montand. O sujeito é uma mistura de apresentador de telejornal e manequim de vitrine, segundo os padrões da moda da intelectualidade francesa do século passado. Sabe como é? Paletó de veludo castor, camisa de padronagem quadriculada em tons pastel, fiel a paleta dos tons terra, beje e areia. Tudo muito arrumadinho para parecer humano, discretamente elegante, sensível e inteligente. O tom da voz dele é desagradável demais. Só ouvidos protegidos por filtros eletrônicos especiais, como da Dulce, conseguem acompanhar a falação prepotente do Brutus. E o homem é venerado por artistas, grã finos e pela elite econômica. Gabriel, para o carro agora! Só em me lembrar da conferencia que participei na universidade católica na qual Brutus foi paparicado como um recém nascido, eu tenho ânsia de vomito.

-Ah!Ah!Ah! Vomitar agora por um enjôo do passado?Essa é boa!Acho que foi a quantidade de espumante que você bebeu. Isso sim!Eu não tomo essa bebida porque ela é beje! Sem querer provocar mais sua ira apenas lembro que o destaque social de Casemiro não é nada beje, é escarlate. Ele mora naquela casa, mas vive, de fato, na mídia. Não há evento de um seleto grupo de artistas, mostras de vanguarda contemporânea, bienais e feiras de arte em que ele não esteja presente. Em todos, lá está ele estampado nas colunas sociais, dando opiniões e falando da qualidade das obras do fulano. O cara se tornou uma referencia para a arte contemporânea. Isso é inegável.

-Engraçadinho! Não sinto ira, apenas enjôo. Saquei sua provocação desde o inicio. Depois da agonia desse jantar você quer rir um pouco. É isso, né? Se precisar de motivos te dou de graça.

-Adoraria!

-Brutus excede em sua discurseira acadêmica. Todavia, sou obrigada a reconhecer que ele opera num território com fronteiras bem demarcadas quando exerce sua influencia de forma objetiva sobre a pobreza intelectual da critica de arte contemporânea. Por isso, tornou-se um deus entre os mortais. Alguns artistas, críticos e curadores mais jovens devotam fé cega em sua autoridade. Uma vez um artista me disse que nunca havia lido suas criticas, mas, esse fato, não o impedia que o admirasse. Convenhamos isso é a prova cabal de uma lavagem cerebral eficiente, seguida de um enxágüe com amaciantes aromáticos. Porém, uma coisa é certa, se não fosse pelo empenho de Brutus, a pintura de Trieste jamais teria o destaque que hoje tem na mídia e nas instituições culturais. Trieste é um gênio tardio? Ora!Ora!Quimeras! Ele não se destacou entre seus contemporâneos porque na ocasião sua obra era medíocre. Deixou de ser? Claro que não!

-Trieste foi customizado por Brutus?

-Sem duvida! Trieste e parte da critica, funcionários da mídia, artistas e algumas pessoas participam desse jogo sem nenhuma consciência disso. É uma espécie de segunda chance, ou melhor, second life em operação no real que arma o cenário para o visitante e aponta o que é bacana e merece ser “vivenciado” pelo publico.Ocorre,entretanto, que os programadores como Brutus estão perdendo terreno diante da fuzarca reinante. Eles ainda conseguem alguns êxitos na mídia e nas editoras de arte. Porém, a mídia está tonta e os editores frustrados, pois, empilham nas livrarias publicações de arte contemporânea que acabam adotando as estantes das lojas como residência permanente. Com isso, os softwares de marketing, que antes se dedicavam apenas a promoção de eventos bolados por curadores, viram uma brecha para substituí-los nas instituições. É a velha astúcia mercantil em estado liquido. Ha uma crise aberta entre os "cientistas da criatividade" - a nova sigla que agrega curadores e promotores de arte e cultura. Há tempos esses cientistas da criatividade vêm buscando um corredor de acesso na blogosfera que lhes permita deslocar os debates culturais do âmbito das redes sociais, onde a maioria dos freqüentadores é constituída de seres humanos autônomos. Fracassaram as incontáveis tentativas de trazer para um domínio virtual especifico o que, na pratica, as pessoas estão trocando voluntariamente nas redes virtuais.

-De tanto tentar talvez um dia acabem acertando.

-Casemiro está excitado com a mais recente empreitada virtual do Museu Guggenheim. Ele considera um exemplo a ser seguido por nossos museus. Casemiro é um soft com a memória carregada de exemplos bem sucedidos. Dias atrás o Guggenheim se filiou a uma iniciativa do YouTube para seleção e exibição de vídeos de arte. Deve ser mais um artifício planejado por um cientista da criatividade. Casemiro deu pulinhos de alegria com esse fato. Oba!Oba! Mais uma novidade. Estou louco pra ir à Nova York e participar desse evento, comentou eufórico com Brutus que não se preocupou nem um pouco em esconder seu fastio. Afinal, Brutus ainda não havia esgotado seu manancial teórico. Todavia, o enfado de Brutus para com os assuntos cibernéticos não impediu que Casemiro falasse maravilhas da iniciativa intitulada Ask Curator e o fabuloso link para o Twitter, a mais nova promoção do famoso museu nova-iorquino que já tem quase 154 mil seguidores. Foi esse comentário que fez Brutus se levantar e começar a se despedir dos convidados. Nesse momento a festa acabou para Casemiro. Seu software entrou em pane.

sábado, agosto 28, 2010

Marketing – A seita tecnicista do Século XXI

Cabeça de alho, crucifixo, amuletos arcaicos, bíblia, mandinga, elefante branco e outros símbolos de proteção divina perderam a validade diante da maior seita do século XXI – O Marketing.

Você, artista amigo, está deprimido, enfrentando dificuldades para dar visibilidade à sua obra? Acha que merece ser reconhecido internacionalmente e tem ambição de estender sua dadivosa criação estética por plagas distantes? Não se apoquente. Hoje, existe uma seita tecnicamente bem equipada capaz de lançá-lo na Lua, se assim desejar.

Você, político obscuro, de fala intrincada, inescrupuloso, sem idéias, prontinho para aceitar qualquer cambalacho e que, por principio, não aceita submeter-se à ética e outros fundamentos de convívio social da antigüidade, essa é a hora para afiar as garras e lançar-se na vida publica.

Você, modelo/atriz, não têm mais motivos para sofrer! Pra que abrir as pernas para um diretor de telenovelas, um agente de modelos tarado ou uma colega falsa.

Hoje, por motivos profissionais, só sofre quem é masoquista.

A solução de todos os problemas - da difusão de produtos estéticos, idéias de qualquer natureza à ascensão de talentos hipotéticos - está ao alcance da mão.

Como puderam notar, acordei outro homem. Por que resisti tanto à sabedoria popular?

Quanta bílis espalhou pelo meu organismo nos confrontos com os harmoniosos itens da ideologia do “vale tudo” hoje dominante. É inútil me atazanar com o desprezo por critérios baseados em fundamentos sólidos e abertos a especulação dos sentidos e do intelecto quando o “gosto” pessoal - essa dádiva divina - tudo pode interpretar, admirar e difundir.

Vade retro sofrimento inócuo que só prove o isolamento e a frustração.

Em minha apologia à “nova onda” não desprezo a importância da rede de relacionamento interpessoal. Considero-a importante, porém, confeccioná-la demanda certo esforço. E, convenhamos, esforço é um troço démodé. Coisa dos derrotados. O bacana é acordar num sábado e ser reconhecido como o talento do ano por todos os jornais e revistas do ocidente, quer dizer - do eixo Rio/São Paulo - sem ter feito muito esforço para isso. A seita do marketing o protege e o protegerá para todo sempre.

Além disso, costurar uma rede de relacionamento interpessoal exige tempo e muito trabalho. E, o tempo, companheiros, é precioso. Quem deseja ficar famoso e ser reconhecido pelos garçons quando tiver 65 anos de idade? Só um otário!

Fico feliz quando observo que a provocação de Wahrol –o prestígio do artista recluso é o Velho. O Novo é o brilho das celebridades” - se tornou o aforismo mais coerente da pós – pós- modernidade –

É maravilhoso receber de manhã mais um convite para o lançamento de uma edição de luxo das Obras Completas de um artista que integrou o circuito das artes nos últimos três anos. Mais excitante ainda é o catalogo das edições de uma instituição publica que lista uma serie de livros sobre arte contemporânea. É magnífico perceber o cuidado da curadoria em organizar uma nova coleção. Orientada por uma obscura intelectual da academia de arte essa nova coleção reedita as mesmas imagens dos mesmos artistas anteriormente publicadas pela mesma instituição federal. O ineditismo dessa nova edição é o fato das obras desses expoentes das artes de nossos dias serem acompanhadas de um texto de um curador com 13 anos de idade .

Meu Deus! Como é comovente quando tudo no mundo se torna pleno de sentido.

Bom dia a todos! Vou agora pesquisar qual a igreja dessa seita é mais próxima de meu ateliê.

O marketing politico no jogo democrático

A proximidade das eleições requenta o debate político, levanta poeira e embaça a visão do eleitor, relativizando a importância do voto. De saco cheio com a pasmaceira algumas pessoas propagam a anulação do voto em todas as instancias. Todavia, no conjunto dos fundamentos democráticos o voto é a prerrogativa individual mais eficaz. O voto era o bicho papão do político profissional. Deixou de ser! Os políticos não temem mais nem Deus nem o Diabo. Eles temem apenas o Ibope.

O gigantesco poder do marketing político tudo mudou. As campanhas políticas travam seus combates no território do marketing. O esquema é simples e funciona muito bem. O conceito de que a voz do povo é a voz de deus, levado aos extremos, eleva a aceitação popular de um personagem político ao nível de Verdade. A estratégia mais comum do marketing político é grudar nesse aforismo. É a versão política do toque de Midas. Essa estratégia se baseia na convenção de que tudo que é popular é bom e representa o bem. Tudo que daí deriva é Verdade. Tempos atrás a propaganda de um fabricante de eletrodomésticos produziu uma campanha promocional baseada nesse artifício e obteve grande êxito propagandístico. Divulgação gratuita e espontânea das massas. Quem não quer? O slogan empolgou de tal forma o público que se tornou uma forma popular de avaliação de coisas e mesmo pessoas. A frase era simples e eficaz, pois conferia ao público consumidor o ilusório poder de qualificar coisas, produtos e pessoas da mesma maneira que se anuncia uma lavadora automática: “Não é nenhuma Brastemp”. Esse slogan foi copiosamente utilizado até por pessoas dos níveis médio/superior de instrução. A ardilosa armadilha agregou ao departamento de vendas do fabricante, sem nenhum custo adicional, uma multidão de garotos propagandas. O sucesso do slogan se confirmou na empatia popular pela frase, ainda que a maioria dos repetidores não tivesse condições financeiras de comprar o produto.

O marketing político, baseado em técnicas específicas consolidou sua estratégia a partir desse nexo. A inconsistência da política parlamentar movida, na grande maioria, por interesses alheios a coisa pública, fez desaparecer a oposição combativa. Os políticos que divergem do governo o fazem de forma lerda, insossa e solitária. Afinal, a oposição tem que seguir seu roteiro de marketing. Os políticos menos volúveis sonham com o dia em que surgirá no seio da sociedade, quer dizer, de uma pequena fração de cidadãos indignados, o apoio político que os manterá no poder por mais uma legislatura. Nesse ínterim, cidadãos insatisfeitos, espantados diante de tamanha mediocridade, assistem a destruição paulatina da ética e a perpetuação da gênese dos conchavos políticos mais vergonhosos.

Esses itens não estão agregados nos formulários de pesquisa.


domingo, agosto 22, 2010

Aventura entrevada

“È muito excitante estar cercada por predadores maravilhosos!”

-Há mais de uma hora o episódio da série Semana do Tubarão tinha encerrado e essa frase continuava nadando na minha mente. Imagens submarinas são para mim cenários atraentes. O silencio subaquático e as maravilhosas formas de vida marinha me encantam. Eu apreciava os documentários do Cousteau. Hoje, é tudo diferente. Um novo foco tomou conta das produções. O pesquisador deu lugar ao homem comum nas aventuras pseudocientificas. A idéia de que tudo é possível a qualquer pessoa tornou-se o modelo de varias produções atuais. Invés de um pesquisador treinado para desafios arriscados, os documentários apresentam pessoas sem nenhum conhecimento especifico entrando em vulcões, atravessando uma geleira infindável ou um deserto árido cheio de bichos venenosos. Um casal chato é o centro de aventuras arriscadas. Uma loura bonita e seu parceiro bonitão mergulham nas profundezas do pacifico, invadem o habitat da vida marinha e vão encher o saco dos “predadores maravilhosos”. Realizado em tecnologia high definition e recheado de comentários idiotas a maior parte desses documentários revelam, sobretudo, o grande potencial humano para a chatice. Roteiros aborrecidos suprem apenas a curiosidade superficial. Depois de duas doses tornam-se atrações requentadas. Irrita-me constatar que nem mesmo os animais que vivem nas profundezas dos mares conseguem escapar da tolice humana. Após esgotarem o repertório de bobagens humanas na superfície terrestre os produtores de documentários sobre a natureza resolveram esgotar a paciência dos tubarões. Durante alguns segundos torci para que um “predador maravilhoso” engolisse a lourinha vestida em trajes subaquáticos cintilantes que alegremente alimentava os tubarões com pescados mortos e devidamente limpos, tripas e cabeças retiradas, contidos numa sacola amarela. Enquanto alimentava os tubarões a atriz soltava gritinhos excitados e comentava sobre a violência da mordida dos animais. Os gritinhos da moça e o abastecimento de atuns mortos e limpos aos tubarões esgotaram minha paciência.

O significado da aventura foi tão aviltado que deixou de ser um desafio ao conhecimento e uma narrativa inquietante dos mistérios do mundo e da vida ou uma epopéia sobre o medo do homem. Tornou-se, de um tempo para cá, uma mesmice e apenas mais um item na vitrine do consumo inútil. Aliás, as farsas insípidas sobre os medos do homem tornaram-se ícones banais, desprovidos de conteúdo capaz de mobilizar nossa consciência sobre o lado obscuro das coisas. Um tubarão num tanque de formol, exposto numa galeria de arte, é apenas um estimulo superficial para o deleite dos freqüentadores dos ambientes cosmopolitas internacionais.

-Oh! Como são formosos, elegantes e assustadoramente belos os predadores vorazes! Exclama uma grã fina enrolada no seu casaco de pele de 50 mil dólares, diante da fera imóvel, aprisionada num container transparente sobre um branco piso de mármore de Carrara. Afinal, não é apenas um tubarão - é uma obra de arte. Isso é, em si, assustador. Um susto tão agradável quanto uma cócega, desprovido da consciência do medo.

-Ontem sonhei que um casaco de vison se vingou da sua proprietária. Ao chegar à mansão a senhora X tentou retirar a veste de pele e não conseguiu. Chamou o marido, um milionário esquálido, que também não obteve êxito. Veio a arrumadeira, o mordomo, o cozinheiro e até o jardineiro fortão e nada do casaco sair. Acordei quando os paramédicos tentavam salva-la do aquecimento global, quer dizer; pessoal, enfiando-a, com casaco e tudo, num freezer, disse Salomé.

-Coitada! Ela despertou a ira da natureza e acabou indo morar pro resto da vida numa geleira artificial. Quem me dera pudesse programar um sonho onde a atriz do documentário da Semana dos Tubarões fosse devorada por uma fera aquática. Falou Frederico.

-Sobre essas vestimentas caras feitas com peles de animais, me contaram uma historia que parece verdadeira. Numa cidade do nordeste do Brasil, onde o calor alcança 50º à sombra, varias senhoras da alta sociedade possuíam casacos de pele caríssimos. Ocorre que nos trópicos essas vestimentas são proibitivas. Porém, no inverno – para os pirados a designação das estações do ano autoriza qualquer arbritariedade – essas senhoras pediam aos anfitriões das festas e recepções que regulassem o ar condicionado para 10º. Quando a sauna natural dos trópicos atingia 15º as madames surgiam nos salões como Cinderelas glaciais, cada uma portando um casaco de pele mais caro que o outro.

-Ah! Isso é piada, Salomé.

-Não!É um fato! Isso acontecia nas décadas de 50/60. Não sei se continua acontecendo. Soube disso através da filha do cônsul da Itália que durante três anos morou numa capital do nordeste.

-A soberba desconhece fronteiras. Ocorre nos salões refrigerados do nordeste brasileiro e numa galeria sofisticada em Knights Bridge. A estupidez é uma moléstia global. Completou Frederico.

quinta-feira, agosto 19, 2010

A Ilusão do Vassalo

Quando Timothy sentou-se na platéia o professor Frederico Nimbus já havia iniciado sua conferencia.

Timothy estava de péssimo humor. Não era um sujeito de meias palavras e tinha passado uma noite péssima. Eram muitos os motivos para estar puto. A fim de entender e tentar domesticar sua ira resolveu criar uma hierarquia de aporrinhações. Por alguma razão que desconhecia, achou que o motivo principal de seu ódio fora a exclusão de seu nome na listagem de artistas divulgada pelo novo curador do Museu de Arte de Sacramento. Que merda! Porque li o jornal logo depois do almoço. Resmungava Timothy pra si próprio. Ele desprezava o sujeito. O considerava um anêmico mental, um serviçal de dois mestres da Universidade Católica de Cancun.

- Ser subalterno de dois mentores é submissão em dose dupla. A que ponto chegamos! Conjecturava Timothy.

A rebeldia intelectual de Timothy era progressiva, Se não reduzisse o fluxo sanguíneo no cérebro seria capaz de cometer uma loucura. Diabos! Sou obrigado a reconhecer que os incompetentes têm uma puta capacidade de articulação. Sozinhos não se garantem, não representam nada, porém, agregados numa rede de afamados tornam-se poderosos. Lótus Caminha é o protótipo mais perfeito e acabado da escravidão mental. A fim de estimular sua vocação subalterna freqüentou os cursos de historia do professor Paulino e sentava na fila do gargarejo, embasbacado com as palavras do intelectual free lancer Brutus . Os dois são os maiores expoentes da maquiavelice cultural. Seus cursos na católica são muito concorridos. A freqüência é ultra selecionada. A mulher do diretor de um grande jornal é mais que uma aluna, é uma militante convicta, disposta a tudo para difundir as idéias e apoiar os planos culturais dessa parelha de intelectuais. Certamente, por influencia deles, a madame Debuxe conseguiu empregar Lótus Caminha, seu colega de mestrado, no jornal A Província, uma das empresas de seu marido. Lótus é um sujeito sem idéias próprias. Na universidade cumpriu mediocremente o currículo e conseguiu se graduar. Seus textos são chatíssimos. Porém, uma coisa é inegável, Caminha tem a qualidade básica para galgar cargos importantes. É obediente como uma mula e um servidor dócil que cumpre à risca as determinações de seus tutores. Lótus sempre foi um subalterno opaco. Um big ass!Todavia, Lótus está no comando do Museu de Sacramento e Timothy está puto da vida.

-... A crise ética das sociedades contemporâneas do ocidente não se restringe apenas a esfera econômica. O setor cultural, sobretudo, o campo da arte, vem sendo manipulado de forma venal e indecente por indivíduos inescrupulosos, alheios e insensíveis a complexidade da arte de nossos dias. As instituições culturais foram o foco inicial de uma ação política sem precedentes na historia da arte. O que hoje assistimos teve inicio nos anos 80 e agora - em 2010 - atingiram o clímax da desfaçatez. Ao afirmarem que os jogos sócio - culturais são partes integrantes e inseparáveis da realidade, alguns intérpretes da atualidade desviam o enfrentamento do problema e evitam pensar sobre qualquer assunto grave e complicado no campo da arte. Parece um bando de jogadores em campo ensaiando jogadas de efeito para um jogo com resultado combinado de antemão. As instituições culturais não respondem e certamente não responderão tão cedo à pergunta: os jogos culturais da atualidade estão sendo praticados com signos culturais? Qualquer míope sabe que não! Porem, não existe o menor interesse por parte de um curador, por exemplo, de responder essa pergunta. De um tempo para cá, o curador se tornou o dono da bola, do campo e do resultado do jogo. Um jogo viciado! Recentemente, um artista me confidenciou que foi excluído de uma exposição do acervo de um Museu que possui varias obras suas. O mais grave nesse episódio, ainda segundo o artista, é que a exposição era voltada para um período em que ele estava em visível atuação. A exclusão ocorreu por determinação do curador da instituição. Entendo que o curador não tenha por obrigação trocar simpatias com quem quer que seja. Essa é uma hipótese possível e ate certo ponto um procedimento freqüente e tolerável, nas relações interpessoais. Contudo, que autoridade superior se arroga um curador para negar ao público - friso, negar ao público - a possibilidade de contemplar obras que não gosta ou, em casos extremos, obras de um artista pelo qual não tem nenhuma simpatia? Mais absurdo ainda é o fato que, se o curador excluiu as obras desse artista por desconhecer totalmente o período sobre o qual organizou sua curadoria, deveria, então, ser demitido por justa causa. Se não conhece um período que pretende trabalhar deveria, no mínimo, estudar o que não sabe antes de apresentar ao publico a mesquinhez da sua visão da arte de um período. Ou, então, voltar para escola e reclamar o dinheiro que investiu na sua precária formação. Desse episodio execrável podemos deduzir que a política institucional da arte está sujeita as idiossincrasias dos seus gestores. Isso é uma aberração!

Qual o baralho que está sendo usado no jogo da arte contemporânea? O tarô? Não, nada disso! O jogo cultural da atualidade está sendo jogado com dados afetivos e mercantis e pautado em estratégias alheias ao campo da arte. Tornou-se um jogo de cartas marcadas onde apenas o cassino ganha. As instituições culturais tornaram-se cassinos, o curador o corrupie e o comando superior da instituição, ainda que não pertença à máfia, é apenas uma instancia representativa, alheia as questões da arte e irresponsavel no que tange o atendimento ao público. Ocorre, todavia, que o desenho de uma instituição cultural é traçado pela imparcialidade, a excelência profissional e a clareza de princípios. São esses fatores que alicerçam a instituição cultural num grau de Verdade, verdade no sentido de honestidade cultural e legitimidade, não uma Verdade cientifica,é claro. Como podem ver, estamos diante de uma crise ética de proporções arrasadoras... “

Antes mesmo desses três pontos da conferencia de Nimbus, Timothy já era senhor dos seus sentidos, O mundo das idéias, da ética, da inteligência e coragem ali apresentado havia resgatado sua alegria, revelando, ao mesmo tempo, o esplendoroso poder do homem de reverter as veleidades do destino.

quarta-feira, agosto 18, 2010

O Bem e a Verdade



-O bem ou o mau, assim como a verdade ou a mentira são, no entendimento de quem está no comando da ação prática e sob os efeitos do relativismo cultural apenas - o Bem e a Verdade. A adoção geral e irrestrita dessa mentalidade é tão confortável quanto os assentos da primeira classe deste avião de carreira. Aliás, se perguntarmos para os passageiros que só viajam na primeira classe, certamente as opiniões serão relativas. Alguns dirão que o conforto oferecido merece melhorias. Falarão que as aeronaves precisam ser aprimoradas tornando as viagens internacionais menos sofridas e desgastantes e que os vinhos e o serviço de bordo precisam melhorar, assim como os toaletes devem ser maiores e mais iluminados. Outros dirão que se sentem privilegiados por viajarem em condições similares a dos anjos. Para mim, essa poltrona da classe turística é terrivelmente desconfortável, o avião uma merda e a tripulação parece aflita e despreparada para atender tantas solicitações.

-Por favor, Frederico! O que está havendo? Por que está reclamando tanto do avião desde que partimos? Foi você que quis embarcar nas condições que te ofereceram.

-Não tinha outra alternativa, Salomé. A minha palestra é amanhã à noite. Ontem, quando telefonei para agencia, fui informado que a classe executiva estava lotada. O que eu podia fazer? Essa universidade só paga passagens na classe turística para os palestrantes. Devem pensar que um palestrante é alguma espécie de turista. Intelectual não é turista nem quando viaja a passeio para um país exótico. Ele chega ao povoado sabendo mais da vida e da cultura nativa que os próprios habitantes.

-Querido, à parte o seu mau humor eu adorei a estocada no relativismo. Já deu pra perceber que esse seminário vai pegar fogo. Li anteontem que Carlos Sacii, o mais destacado pilar do relativismo cultural, vai fazer uma palestra fartamente ilustrada sobre as correntes estéticas contemporâneas.

- Eu sei! Li trechos do paper dele. Embora Sacii não seja um relativista autentico, está mais para um oportunista inescrupuloso, é um esgrimista ligeiro e talentoso com as palavras. Sua língua é diariamente lubrificada com manteiga de cacau, escorregadia e pronta pra convencer gregos e troianos a comprar armas na Pérsia. Além disso, para confirmar sua incerteza no relativismo cultural,Sacii aposta na loteria mais do que investe em arte e cultura. Já ganhou fortunas no jogo e vive reclamando da loucura de preços que sacode o mercado de arte, apesar de apenas vender,jamais comprar.Sua rápida ascendência na carreira acadêmica é só um detalhe. Alías, um detalhe rebuscado, já que foi projetada pelas mais ambiciosas mentes do marketing cultural e apoiada por muitos partidários de aluguel. Numa mesma frase Sacii é capaz, sem pausa para o diafragma se recuperar, de submeter tanto a reitoria como comprometer o governo e subjugar os professores e funcionários, se os lucros forem promissores.

-Bem!Nisso ele não é muito diferente de vários colegas. Fred deixa isso pra lá, ainda falta muito para chegarmos. Fale-me mais sobre sua abordagem critica ao relativismo cultural. Vou ficar atenta, juro que não vou cochilar.

- Ora!Salomé, por que não lê o trabalho?

-Porque eu prefiro quando você fala, desdobrando o rigor do texto corrido e inundando a paisagem mental do ouvinte com expressões divertidas.

-Ih!Dando uma de Sacii?

-Nada disso!Você sabe que não é isso.

-Há quanto tempo venho te dizendo que a expansão do relativismo cultural é conseqüência de um largo espectro de idéias que ambicionam controle, poder e...lucro,altos lucros. Abordá-lo e desbravá-lo, na sua totalidade, exige do investigador um esforço hercúleo.

-Humm!Humm!Há muito tempo você toca nesse tema.

-À medida que pego uma ponta do sistema, outra surge envelopada dentro dela. Lembra-me uma historia de ficção científica onde um robô auto-programável reconstrói-se indefinidamente. A auto programação robótica é o sonho dos escravos da tecnologia! Ela encerrará, antes mesmo do que se imagina e aqui mesmo na Terra e ainda no século XXI, o frenesi humano de uma guerra futurista e intergaláctica do homem versus máquina.

-Meu Deus! Espero que esse avião não tenha esse recurso tecnológico adaptado nos seus vários computadores de bordo. Brincou Salomé.








-Os procedimentos relativistas estão preparando as mentes para o paraíso robotizado, onde os homens serão escravos da técnica em troca de um conforto pré - programado pelas maquinas humanizadas. Se você me perguntar se existe uma estratégia nesse processo eu, de imediato, responderia que sim. Porém, temo que ao afirmar tal suposição meu pensamento tangencie equívocos sucessivos e danosos. Pra me prevenir, escapo por outra saída. Penso sobre o “boom” das atitudes politicamente corretas, o sumiço da critica apurada, o desprezo por critérios bem fundamentados,a desvalorização do trabalho humano bem realizado e o pouco caso com a especulação intelectual sobre a vida e o homem.Curiosamente, esses acontecimentos surgiram simultaneamente, na fronteira dos anos 80/90. O que essa conjunção de fatores pode nos dizer? É isso que me anima a investigar as razões que tornaram possível a predominância do tecnicismo, do pragmatismo e do imediatismo no pensamento contemporâneo. O fato é que, ainda que não se delineie como um método visível, tais procedimentos se incrustaram de tal forma na mentalidade atual que tentar abordar o problema já dá uma trabalheira danada. Quem hoje ousaria contestar que a ética e o conhecimento tornaram-se valores tão estranhos a ponto de se antagonizarem?

-É mesmo!Em todos os cantos da vida contemporânea esse se tornou um comportamento padrão. Retrucou Salomé.

-Na política, na cultura e nas atividades humanas mais banais a relação entre ética e conhecimento se dissipou por completo.

A corrupção e a degenerescência proliferam em ritmo veloz. As inverdades e incertezas cotidianas e o amesquinhamento da alma humana, tornaram-se circunstancias, atitudes e sentimentos passivamente tolerados. Basta que um indivíduo tenha os meios para realizar seus objetivos e os obstáculos desaparecem num passe de mágica. Numa sociedade extremamente técnica, meio é o que não falta. Uma idéia brilhante (sic) é rapidamente apresentada como mais uma retumbante realização da mediocridade. O relativismo cultural protege o medíocre. Afinal, pra que serve o dispositivo politicamente correto? Como ninguém vai criticar, o produto se basta. Esse modelo “genial” pôs pra funcionar uma espécie de justiça cultural que, anulando os critérios que dificultavam a ascendência da mediocridade no circuito artístico, defende a inclusão de qualquer afoito, não importando o que façam, pensem ou produzam. O pacto deve seguir em frente. Os produtos são para ser expostos à venda. Dinheiro e um esquema de marketing são capazes de inflar o ego de qualquer aventureiro desprovido de um grama de talento e honestidade. Basta isso, para termos diante dos olhos mais um fenômeno das artes, da política e dos negócios. Quem ousará contrariar uma maquina com poderes estupendos de criar mitos da noite para o dia. A instrução subliminar é muito eficiente e vem estampada na compra do figurino politicamente correto. A instrução número 1 consiste em obliterar, denegrir e achincalhar qualquer critica através da argumentação simplória de que todos têm liberdade para fazer o que bem entender. A instrução número 2 informa que toda critica é uma forma de coerção. Quem quer ser, num mundo padronizado, um estranho no ninho? Um chato de galocha! É mais fácil ser sedutor e agradável e assim se integrar a massa dos contentes. Sou obrigado a reconhecer que nesse laboratório o robô auto - programável vem realizando uma façanha digna de um Titã. Milhões de mentes são tragadas, processadas e devolvidas aos seus portadores humanóides todas as manhãs. No dia seguinte as pessoas não sentem nenhuma diferença substancial do que eram no dia anterior. Apenas notam que seguem com mais entusiasmo para a fila de produção e consumo. Não há queixas, lamurias ou decepções, apenas uma frustração estonteante que serve de estimulo para produzir mais, ganhar mais dinheiro e comprar o que ontem parecia impossível. Quando nada se ajusta as necessidades, o crime é uma opção viável ao alcance da mão. Não se assuste, já existe uma solução justa para essa circunstancia: para os ladrões de galinha, traficantes, assaltantes e pobres; a morte ou a cadeia. Para os gatunos de alta estirpe e os políticos escroques as manchetes dos jornais e algum aborrecimento na hora do almoço. Uma úlcera, em casos extremos.

Essa ideologia se tornou um senso comum. A idéia de que fazendo o melhor para você, estará contribuindo para o Bem de todos é um marco de nossa era. Ainda que o objetivo do indivíduo não seja fazer necessariamente o Bem, o milagre desse preceito sobrevém,mesmo contra a vontade do sujeito. Essa instrução vem funcionando as mil maravilhas. Ninguém duvida dessa Verdade. Aliás, ela se tornou a melhor Verdade do império do relativismo cultural.

-Meu Deus! Onde foi parar o meu passado histórico?Brincou Salomé.

- Nesse admirável mundo novo a critica tornou-se um estorvo e os critérios bem fundamentados, assim como a especulação intelectual sobre a vida humana, foram colocadas em segundo plano. As antigas alusões aos valores e princípios perderam o sentido. Algumas pensatas do gênero ainda permanecem agregadas aos portais decorativos das fachadas dos velhos templos do conhecimento por puro esquecimento. As relações entre a ética e conhecimento tornaram-se, de um tempo para cá, códigos incompreensíveis.

O curioso disso tudo é que o desaparecimento da critica apurada deu lugar a fartura de teorias acadêmicas. Nunca na historia se produziu tanta teoria. No campo da estética todo dia lançam uma nova teoria. A publicação de teorias estéticas acelerou. Nesse ritmo,em breve, disputará corrida com as rotativas dos jornais de grande circulação.

-É! Algumas tão inacessíveis à compreensão quanto os testes do Enem. Comentou Salomé.

-Estilos proliferam. O mais recente de que tenho noticia porta o rótulo de Arte Fetiche. Ninguém até agora tem a mínima idéia do que se trata. Porém, se é fetiche, deve ser ao menos pitoresco.

- Fantástico né?Li algumas coisas a respeito. Disse Salomé.

-Mal tomo conhecimento de uma novo estilo no dia seguinte surge outro para lhe sobrepor. A pluralidade criativa está concorrendo com a velocidade de oferta dos produtos de tecnologia de ponta.As inúmeras nominações da arte contemporânea parecem inspiradas num índice de pesquisas científicas. Não é de hoje que sabemos que a ciência é o território da perfeita clareza. As experiências científicas da atualidade são regidas por exigências e metodologias rigorosas de comprovação da Verdade. A legitimação de uma teoria cientifica só é aferida na superação de regras muito bem definidas. Todavia, a aferição de uma Verdade artística é uma ambição sem propósito. Porém, essa mania se infiltrou de tal forma na mentalidade artística de nossos dias que hoje se tornou comum os produtos artísticos se imiscuírem com paradigmas científicos, sem qualquer pudor. Prospecção criativa é coisa do passado. Hoje, uma sacada esperta tem o mesmo valor de uma descoberta. Além disso, pra que esforço? Tudo pode ser rapidamente apropriado nos meios, nas técnicas e saberes complementares. A inspiração, por exemplo, pode surgir, numa consulta superficial a algumas teses da antropologia cultural.

-Essas reflexões me lembram um episodio engraçado que aconteceu num seminário na USP. Lembra?

-Não!

-No meio da sua fala um artista protestou a plenos pulmões: A Arte é vida, a vida é arte!

Ah! Claro que lembro!

-Então! Lembra que a platéia emitiu um zumbido desaprovador e que eu te disse depois que me contorci na poltrona esperando você mandá-lo à merda?

-É mesmo|!

- Qual não foi minha surpresa quando você, incorporado pelo alter ego Dalai Lama, sorriu e respondeu: - Companheiro, não restrinja a arte a apenas um fenômeno. Arte é vida e também é morte. A arte nos ofereceu no correr da historia e ainda nos oferece, obras maravilhosas que mergulham no mistério da vida e da morte. Mesmo hoje, nos dias atuais, muitos artistas tentam sofregamente encarar esses mistérios e nos encantar com sua arte. Alguns obtêm êxito, outros nem tanto. Sempre que reduzimos a arte a um único fenômeno - o da Vida -por exemplo, obliteramos nosso horizonte e reduzimos as experiências artísticas a um só ponto de vista. Afinal, sobre qual aspecto da vida estamos falando? Da vida individual, ou seja, da estetização de uma autobiografia, dos humores pessoais, da vida social e política, da vida das células, da natureza, dos insetos e das plantas ou da vida como tema genérico? Em qualquer dos casos citados e outros esquecidos a vida está presente. Seja atraves da manifestação de uma estética mórbida, hoje na moda, ou, em uma plena de alegria. Concorda? Entendo sua proposição, no entanto, você há de convir que não é necessário mais que quatro neurônios para concluir que seres vivos só podem se expressar através da vida. Todavia, nem toda expressão humana é um fenômeno artístico. Donde, é licito supor que, só através dela, da vida, podemos refletir, criar e produzir arte.

-Lembro! Lembro inclusive que durante os debates o sujeito se esforçou para explicar seu conceito de arte/vida. Enrolou-se todo e achou melhor resumir o assunto afirmando que tudo que uma pessoa faz ou produz é arte. As pessoas riram maldosamente. Eu, confesso, fiquei constrangido. Não me apraz fazer chacota com a dificuldade alheia. Meu respeito pela ingenuidade é sincero. Se ele fosse um petulante, um sujeito rempli de soi meme, eu teria ficado puto. Mas, não era o caso.

-Perdão interromper, disse a aeromoça.

- Pois não!Retrucou Salomé

-Um casal da primeira classe lhes oferece essa garrafa de champanhe.

-Oh! Quanta gentileza. Completou Salomé.

Sobre a bandeja da oferenda havia um cartão de visitas escrito em elegante caligrafia, onde se lia: Com os cumprimentos de Carlos Sacii e Aurora Celeste.

sexta-feira, agosto 13, 2010

Nada que é humano me é estranho

Eu sou homem e nada do que é humano me é estranho. O Carrasco de si
Terêncio - Roma [-185--159]

-Quanto custa um corpo humano? Perguntou Donald Kimberley, o pop star da arte inglesa contemporânea, ao plantonista da madrugada na delegacia do distrito de Bayswater em Londres.

-Depende! Existem inúmeras categorias. Alguns custam mais que outros. Além disso, se você pretende comprar um corpo humano vivo em bom estado é um preço, um mulambo é mais em conta, morto, dependendo da origem, também pode variar de preço. Entenda, por favor, que o preço desses corpos não tem qualquer relação com o valor e a qualidade de vida da pessoa ou da riqueza que desfrutou em vida. Respondeu o sargento O’Hara.

-O senhor é humorista? Instilou debochadamente o star.

-Ora, cidadão. O senhor está com sorte. Se eu não fosse humorista o senhor estaria agora chorando numa cela.

-Engraçadinho! Retrucou Donald

-Não! O senhor é que é um deprimido. Respondeu o sargento.

-Como se atreve dizer tal coisa sem me conhecer? Bradou Donald

-Ora, é simples meu caro. O que um sujeito cheio de pompa, envergando roupas caras, abraçado numa garrafa de champanhe que daria para pagar mais de dois meses do meu salário vem, às 3 horas da manhã, fazer numa delegacia policial? Passear?Buscar diversão em meio à ralé, putas, proxenetas, ladrões, assassinos, viciados e traficantes enclausurados e ferozes? Completou asperamente O’Hara

-Não! Respondeu Donald timidamente, olhando para o piso de mosaico carcomido.Não, sargento. Não é nada disso. Eu sou um artista, acrescentou Kimberley.

Depois de um breve silencio e sob o olhar inquisidor de O’Hara, Donald depositou a garrafa de Perrier-Jouët no piso, pegou delicadamente a mochila Louis Vuitton, abriu e retirou de seu interior três luxuosos livros. O brilho das capas excitou as pupilas do sargento e os títulos em letras de ouro refletiram no fundo das retinas de seus olhos escancarados. Quando o foco se ajustou O’Hara conseguiu ler: Donald Kimberley Complete Works Book I -1988 – 2000 – Donald Kimberley Complete Works Book II 2001 – 2005 e Donald Kimberley Complete Works Book III 2006-2010.

-Nem mesmo o Exército Real possui um prontuário tão luxuoso!Exclamou o sargento. Nunca vi nada igual. Completou.

-Toda minha vida está dentro desses volumes. Disse Donald.

-Como assim?Retrucou O’Hara

-Minha obra artística completa está contida nesses três volumes. Repetiu o artista

-Desculpe perguntar, o senhor me parece bastante jovem. Como uma pessoa tão jovem tem três volumes de obras completas antes mesmo de morrer, perdão, parar de produzir, melhor dizendo, se aposentar?

-Porque sou muito famoso e extremamente rico.

-Bem! Que me conste esses não são valores artísticos. Retrucou O’Hara.O preso da cela 18 é um traficante extremamente rico e famoso. Pelo que sei, não possui nem mesmo um álbum de figurinhas completo.Afinal, cidadão, o que o senhor deseja? A fila de clientes atrás de si está crescendo.Concluiu o sargento

-Eu queria comprar um corpo humano. Quer dizer, dois corpos humanos; um vivo e um morto. É isso que preciso no momento, afirmou o artista.

-Ok! Sente-se naquele banco ali atrás e espere enquanto consulto nosso estoque. Ordenou O’Hara com o habitual sarcasmo que usa no trato com os indivíduos que se entregam à policia por crimes que nunca cometeram.

Sentado no velho banco de madeira Donald deu três largos goles no precioso liquido Perrier-Jouët, abriu a mochila e dela retirou um grosso catálogo. Na capa, de um belo azul profundo, impresso em letras negras, lia-se: The Human Body – The Art of Günter Von Hagens. Donald pousou o exemplar no colo, deu outra talagada no champanhe e abriu o catálogo numa página marcada por um grande recorte de jornal. Repleto de fotos, a página estampava no alto à direita da logomarca do jornal, os dizeres: Critical section of Taxidermy Contemporary Art.

- Son of a bitch! Exclamou Donald. Seu desabafo foi tão alto que o sargento O’Hara retrucou imediatamente.

-Siiihhhhh!Silencio!Isso aqui não é um pub.

-Não posso me calar diante desse roubo!Exclamou Donald.

A jovem russa algemada, sentada a seu lado, deu um pulo do banco e saiu correndo para um canto escuro da delegacia esbravejando:

- Я ничего не делал, я невиновен! До вчерашнего дня был на вечеринке в Москве вчера и проснулась в постели гражданского служащего, где английский язык был удален со стороны полиции. . Боже мой, что происходит? (nota do tradutor: Não fiz nada! Sou inocente! Anteontem estava numa festa em Moscou.Hoje, fui brutalmente acordada pela policia londrina na cama de casal de um alto funcionário publico inglês em Chelsea. Meu Deus! O que está acontecendo comigo?)

-Sem dar atenção ao chilique da moça, como se ela nem mesmo existisse, Donald continuou seu protesto:

-É inadmissível! Eu sei que o estilo taxidermista não me pertence pelo fato de tê-lo criado e tornado sustentável pela critica,curadores e pelo mercado. Também sei que artistas de regiões menos influentes artisticamente adotaram o estilo taxidermista o incorporando a seus precários repertórios. Sou um sujeito generoso e vejo esses seguidores mais pobres do terceiro mundo como uma conseqüência previsível do meu enorme poder criativo. Mas, isso não me obriga a calar diante da desfaçatez. Há mais de dez anos tento realizar minha obra imortal e só tenho esbarrado em dificuldades. Logo depois da exposição de 1989 que teve uma repercussão global, eu venho me esmerando para concluir o diptico The possibility of the Death of the Mind in a living brain (nota do tradutor: A possibilidade da Morte da Mente num cérebro Vivo). Essa será uma obra de rara intensidade.


Será um diptico, onde um corpo humano vivo reproduzirá a mesma posição de um corpo morto. Esses dois corpos em pé, lado a lado, seriam abrigados em um compartimento hi tech protegido por vidros blindados.Dessa forma atravessarão a eternidade.

Nesse ínterim, toda a clientela da delegacia, policiais,escrivãos e faxineiros admiravam atentamente o orador.

Arrebatado pela audiência, procurou na mochila o exemplar do Donald Kimberley Complete Works Book II. Abriu as primeiras paginas e continuou folheando, exibindo para a platéia um verdadeiro zoológico taxidermizado flutuando em líquido colorido.Essa sessão extraordinária proporcionou aos ouvintes embasbacados uma visita guiada as suas obras. Folheava freneticamente as paginas cheias de ilustrações maravilhosas enquanto falava das sensações, dos estímulos e das referencias de cada imagem com a Historia da Arte.

Após a exaltação sentou-se lentamente.Cabisbaixo confidenciou com a voz embargada pela angustia:

-Enquanto isso Von Hagens aparece ao mundo como um astro da arte taxidermista. Uma mentira! Eu fiz tudo muito antes dele ter se curado da frustração de não conseguir nem ao menos ser um anatomista alemão de sucesso. Como cientista é um blefe! Seu controvertido processo de "plastinação", nome de sua invenção dos anos 70, é desprezado pela comunidade científica.Depois de convencer um marchand de Berlim, os curadores, a imprensa e o publico de que o que fazia era arte, tornou-se famoso em seu país. Pior ainda é que esse sujeito ganhou as manchetes internacionais com as exposições que realizou sobre os vários estágios da vida humana que incluía cena de sexo entre cadáveres além de outros 200 corpos inanimados.Miserável!Bradou Donald.

-Sim! Respondeu em coro a audiência. Um depravado, um miserável que impede os corpos de mergulhar dignamente nos abismos da morte.

Donald levantou-se e com os olhos fixados no chão como se vislumbrasse uma trilha nas frestas imundas do mosaico carcomido, atravessou por entre corpos vivos da clientela estupefata,se dirigiu para a porta.Atravessou-a e adentrou o negrume da madrugada londrina resmungando:

-Oh Deus!Que ódio! Esse bosh conseguiu corpos humanos em grande quantidade. E eu, aqui penando para conseguir ao menos um corpo humano vivo e outro morto. Estúpida burocracia inglesa ! Depois não sabem porque os alemães são tão adiantados,ricos e admirados.