domingo, agosto 07, 2016

Astucia festiva


























O Marxismo Cultural na Cerimônia de Abertura da Olimpíada do Rio de Janeiro

Gabriel de Castro Arruda para National Review /06 de agosto de 2016





O Brasil deveria ter vergonha de sua pobreza, não exalta-la. A cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos não está sendo prejudicada por terroristas, bandos de criminosos ou um ataque maciço de Zika. Ela foi razoavelmente divertida. A simbologia que o Brasil escolheu para se apresentar ao mundo, no entanto, foi falha. O show da noite sexta-feira começou com uma representação do movimento da história do país desde a chegada do Português. Mas logo depois ficou claro que para os organizadores, este foi apenas um preâmbulo para o que consideravam apoteose do show: meninos da favela que executam uma versão de Terceiro Mundo de break dance e um duo rapper - um deles, de apenas doze anos – falando do poder feminino. Nenhuma surpresa. Um dos cérebros por trás da cerimônia foi Fernando Meirelles, o cineasta responsável pelo show, aclamado com o filme Cidade de Deus, eleito a joia da estética das favelas. A ‘intelligentsia’ do Rio é fascinada pela própria pobreza da cidade, como se as favelas sejam algo que o Brasil deve se orgulhar, ao invés de se envergonhar. Imagine se os Jogos Olímpicos de Atenas destacando a corrupção da Grécia contemporânea em vez da mitologia do país, ou se Pequim decidisse mostrar a sua poluição do ar, em vez de a grandeza da China. 
A pobreza não é o Brasil. Felizmente, não haverá nem pobreza nem favelas no Brasil do futuro. Mas a partir de onde, então, os marxistas culturais tropicais poderão obter sua mitologia? Assim como a violência contra os negros (reais ou imaginários) é parte integrante da narrativa cultural continuada da esquerda dos EUA, a pobreza desempenha um papel semelhante para a esquerda no Brasil. Não é por acaso que a cerimônia não fez nenhuma referência a qualquer coisa que possa ser visto como erudita ou de alguma forma ligados à tradição europeia (por exemplo, a magnífica arquitetura de Aleijadinho, as óperas de Carlos Gomes, ou a música clássica moderna de Heitor Villa- Lobos). Os discípulos brasileiros da Escola de Frankfurt só conhecem suas leis: O único tipo de cultura que importa é a cultura popular. A cultura popular se encaixa na luta ideológica de construção de um "novo mundo" [e do novo homem]. É por isso que, na cerimônia de abertura, o tipo mais popular de música no Brasil foi completamente ignorado. A música sertaneja, que nasceu nas áreas rurais e ainda é a única forma de música apreciada em todas as regiões desse país continental, não teve qualquer referência. Apesar de ter sido adulterada pela indústria da música nos últimos anos, a música sertaneja ainda é a melhor representação da alma do povo brasileiro que é basicamente cristã, feita pessoas trabalhadoras que dão valor à família e a tradição. Desculpe, mas o brasileiro médio não é um boêmio que bebe uma caipirinha em Copacabana. As cerimônia poderia ter apresentado um dos mais populares cantores do país, o Sergio Reis, que canta sobre um pobre pai que cuidou e manteve seis filhos, bem como um filho adotivo. Nos dias finais do pai, o filho adotivo acaba por ser o único que se preocupa mais sobre ele: “Que Deus proteja meus sete filhos amados Mas era meu filho adotivo que ajudou esse velho Poderia ter destaque.
 "Romaria", uma canção popular do cantor Renato Teixeira que retrata a devoção espiritual profunda do homem católico comum. Disseram-me, no entanto, que eu deveria vir aqui solicitar, através de peregrinação e oração Paz na dificuldade. Desde que eu não sei rezar eu só queria mostrar o meu olhar.”

 Em vez disso, o que o mundo viu esta sexta-feira foram performances de um apologista da maconha conhecido (Marcelo D2), a Beyoncé-wannabee cujas canções raramente tocam em nada, mas a ‘sexy’ Anitta e Gilberto Gil, um antigo discípulo da escola da esquerda que ao menos tem algum talento. Adicionar em algum ponto a pregação da mudança climática, completou a noite. MAIS JOGOS OLÍMPICOS BLAME IT ON RIO OS JOGOS OLÍMPICOS RIO: TRAVE A FEBRE! FAÇA A OLIMPÍADA GREAT AGAIN. (...)Enquanto isso, no mundo real, as autoridades locais não conseguiram despoluir as águas da Baía de Guanabara para torná-lo razoavelmente seguro para os atletas. E, adivinha? As favelas, que os esquerdistas querem ter certeza de permanecer sempre favelas, são a principal razão para isso, uma vez que é impossível oferecer saneamento decente nessas condições. O Terceiro Mundo cultural marxista quer certificar-se o Brasil nunca será grande.

segunda-feira, julho 11, 2016

Vazios da matéria






As infinitas interações subjetivas,autônomas  ou  embasadas em vetores do conhecimento especializado como a psicanalise,a sociologia,  a antropologia cultural,a filosofia,a física quântica,as ciências naturais e exatas e etc, contribuem para  a amplitude e a intensidade do nosso contato com a arte . 
Todavia,os 'insights', fundados nesses saberes, quando usados como linha condutora para a elaboração de uma proposta estética, faz com que tudo se reduza à ilustrações que agem no sentido inverso,reduzindo e limitando o horizonte da experiencia criativa,das ideias e da fruição de uma obra de arte. Os embustes são em geral bem ancorados na interpretação por temerem o vazio onde se amalgamam os elementos que elevam ao infinito o mistério da arte.
Uma historinha para quem ama ilustrações: Ernest Rutherford não foi um artista. Ele era um físico (1871-1937)que realizou  experiências com o modelo atômico conhecido até então. Rutherford tomou como ponto de partida o principio de Thomson que entendia  o átomo como uma esfera de carga elétrica positiva, incrustada de elétrons (negativos), de modo que sua carga elétrica total seria nula.
A experiencia cientifica de Rutherford consistia em bombardear uma  folha-de-ouro com um feixe de partículas alfa (α), partindo de uma amostra de polônio contido num bloco de chumbo com um orifício por onde  sairiam apenas as emissões de partículas alfa. Para complementar o conjunto foram colocadas placas de chumbos com orifícios em seus centros, a fim de orientar o feixe na direção da lâmina de ouro. Atrás da lâmina de ouro ele colocou um anteparo recoberto com sulfeto de zinco. O sulfeto é uma substancia que se torna fluorescente quando alcançada por partículas alfa.
Ao final deste experimento, Rutherford notou que a maioria das partículas alfa atravessava a lâmina de ouro. Poucas partículas alfa se desviavam e muito poucas retrocediam.
O resultado dessa experiencia levou Rutherford a conclusão  que, ao contrário do que Dalton e Thomson pensavam anteriormente, o átomo não poderia ser maciço.Na verdade, grande parte do átomo é vazio contendo um núcleo muito pequeno, denso e positivo. 
O que essa historia tem a ver com arte,interpretação e a experiencia criativa?
Aparentemente,nada.
Tirante a característica cientifica,o objeto que dá corpo a essa experiencia dispõem  de materiais dispares que juntos formam uma imagem sugestiva que pode ser apreciada pelos leigos apenas pelo contexto estético.    
Porem,quando um artista plástico/visual se apropria do objeto  concebido para uma experiencia cientifica,como a do Rutherford,por exemplo,ao modo do 'aproprianismo'-estilo artístico que tem suscitado algumas teorias que vagam no circuito de arte - revestindo-o de um simbólico ausente,ele gera um produto anódino. 
No fundo, dá corpo a uma interpretação fora de lugar. 
A interpretação, que serve de modelo para produção de obras de arte que ilustram questões sociais,ecológicas, ambientalistas e etc, usam desse recurso com objetivo de se apresentarem como arte de contestação/denuncia, quando,de fato, não passam de ilustrações obvias,facilmente constatáveis pelo senso comum e esvaziadas de potencia critica.  
Susan Sontag ,no seu ensaio "Contra a Interpretação"  lança luz  sobre esse equivoco que ainda perdura e rende incontáveis subprodutos . Para ela, a interpretação 'não é um valor absoluto,um gesto do espírito situado em algum domínio atemporal das capacidades humanas. A interpretação deve ser avaliada, dentro de uma concepção histórica da consciência humana'. 
Em certos contextos a interpretação cultural pode ser um ato libertador quando tem como objetivo rever, transvalidar  e ,assim, escapar dos modelos do passado. Em outros contextos culturais,inclusive na produção de objetos estéticos/artísticos,esses recursos se mostram oportunistas e reacionários, desprovidos de ousadia e esvaziados de espirito.

sábado, junho 04, 2016

Arte e o Tempo



































A cultura é coisa do homem que mora num certo lugar e num certo tempo
Gerardo Mello Mourão

O contemporâneo é sempre heterogêneo,fértil e inquietante.
Esses fatores impulsionam sua dinâmica. Outrora, contida por modos mais rígidos e limitada pelo conhecimento,técnicas e disciplinas circunscritas à cultura de cada época,tal dinâmica permite aquilatar que a característica primordial do contemporâneo é ser - em essência - um tempo em suspensão, onde germinam incertezas.É certo que nunca houve de fato um meio capaz de assegurar experiencias similares compartilhadas simultaneamente entre os contemporâneos.
Não falo aqui de um modo pessoal e subjetivo de interpretar o tempo.Falo da constatação de que nesse tempo incerto tudo é relativo,sobretudo, no que tange as diversas modalidades de percepção.  
Ainda que para inserir-se na sua fugidia natureza, insista-se em moldar narrativas sequenciais, presumivelmente aceitáveis, recorrendo-se à historia como uma panaceia para dirimir a insegurança ou planejando-se o futuro de curto prazo, o fato é que a contemporaneidade sempre impõem questões desafiadoras. Em síntese;o que é seguro para economia não é uma baliza para os desafios da existência. Ao menos, até que se imponha uma 'Economia da Vida' que espero nunca triunfe.
Por essas e outras,sempre considerei uma discrepância falar-se em 'cultura contemporânea'.
Datar o contemporâneo e rotula-lo como 'estilo'(s) é um artificio recente. O contemporâneo, propriamente dito, não se reduz a registros pré definidos.
Além de ser um equivoco, utilizado frequentemente por quem investe nas intensões dissimuladas de reduzir o complexo mosaico contemporâneo que move-se continuamente, nota-se,nesse procedimento o intento de infundir ideologias e métodos,consagrar tendencias e,finalmente,controlar politica e culturalmente esse período incerto do tempo.
Os fenômenos temporais não são determinantes a ponto de conduzir toda a sociedade a compartilhar de uma mesma época,no sentido existencial,intelectual,cultural e social que caracteriza um período. Um paralelo desse equivoco pode ser visto nas resenhas jornalisticas que partem do pressuposto de que personalidades da mesma geração tem - 'algo mais' - em comum, além da década em que nasceram e viveram.  
O advento da cultura digital,a interatividade entre realidade real e realidade virtual, em tempo real, perturbou a noção um tanto absurda de contemporaneidade,desorganizando a verticalidade com que se hierarquizava as camadas do tempo, nelas situando supostas rupturas entre a alta cultura e os diferentes costumes das elites pensantes em contraposição ao mundo dos 'leigos'.
O que anteriormente se classificava como classes econômica e intelectualmente privilegiadas, em contraposição ao povo em geral, ainda persiste,apesar das transformações substanciais geradas por uma nova cultura,agregada ao complicador inerente às mudanças que se apresentam a cada dia. Dinâmicas velozes levam muitas pessoas a se sentirem inseguras num mundo sem chão e sobre o qual se sustentava anteriormente uma cultura de valores pré definidos.Tudo de repente se tornou liquido,incerto e mais difícil de ser percebido.O fato é que,na realidade, as premissas da 'era do saber e da informação' focam exatamente na quebra do padrão que se equilibrava precariamente numa linha hierarquizada de valores que marcaram a modernidade.  
A contemporaneidade,assim estendida, subverteu radicalmente a dinâmica cultural, quebrando incessantemente a linha hierárquica da distribuição dos saberes em contraposição direta às concepções pre estabelecidas de mundo,cidadania,participação politica e do pensamento dominantes na modernidade. 
Hoje,ainda que analises dos fatos em curso busquem nos situar frente as inserções de eventos atuais no contexto de um tema ou questões especificas, as tentativas de consolidar analises sobre o contemporâneo,como um dado determinante, se diluem em respostas que não encontram eco na sociedade. Quanto mais se insiste no método, mais se dilata a sensação de estranheza sobre a vida contemporânea.
Enquanto muitos pensadores se aprofundam em analisar esses fenômenos, a maioria investe na vida regular,interagindo em grupos com os quais trocam códigos e valores e,claro,se protegem das vicissitudes da vida contemporânea que,convenhamos,não é tão amigável quanto outrora.
Essa proteção, ainda que gere algum conforto, tende a trazer muitos dissabores.
Qualquer hipótese que critique a convergência de grupos sociais sobre as escolhas do momento é motivo de mais incertezas.A gradual perda de consistência da ideia clássica de maioria (religiosa/politica) e a crença no protagonismo do individuo como força politica transformadora contribui para complicar ainda mais o espectro contemporâneo. A premissa de avançar mais sobre as conquistas sociais tem levado a confrontos que se potencializam na sociedade como ameaças terríveis.
No campo especificamente artístico, as contradições contemporâneas,em contraposição as atitudes, ações e obras da vanguarda do modernismo histórico,refletem uma realidade não muito questionada mas que merece ser pensada.Ainda que a contemporaneidade se mostre distante das experiencias sócio culturais daquele período,as ideias que levaram à ruptura da vanguarda histórica ainda permanecem como um modelo estético predominante no sistema cultural,nas escolas de arte e no circuito artístico geral.
As tentativas de consolidação de tendencias estéticas, seguidoras da matriz da vanguarda histórica do seculo XX, se mostram vulneráveis,esvaziadas que são de potencia criativa em dialogo com o processo cultural em curso.
Ainda que não explique o fenômeno,as auto biografias estetizadas, o 'artistismo' das teses exóticas de antropologia cultural,da proto filosofia,dos sociologismos,dos conceitos politicamente corretos, das expressões do senso comum convertidas em arte e etc, se tornaram fontes de inspiração,uma especie de 'espirito' que move um corpo sem forma que vaga pelas escolas artísticas da atualidade.
O que se percebe é que não ha um confronto crucial entre uma suposta inovação artística e a cultura geral,como havia na era antecedente a ruptura moderna.
Hoje,uma aparente conivência se instalou como regra geral.Tudo parece permitido.
Contudo,uma pergunta se destaca sobre todas as demais. Maior visibilidade da produção artística contemporânea,circunscrita aos últimos trinta anos, reflete os anseios de uma sociedade mais livre e aberta que a do período moderno antecedente?
Houve,de fato,nos últimos trinta anos,uma mudança radical nos extratos sociais que resultou numa convivência mais harmoniosa de modo a consolidar uma estética mundialista?
Se a resposta for sim,não ha o que se debater. Tudo está nos conformes. Para os seguidores do modelo, vivemos no 'melhor dos mundos'.Pelo menos para alguns artistas e as artes que produzem.
Para os adeptos dessa versão dos fatos, os avanços sociais globais refletem uma interação harmônica com as propostas artísticas que se pretendem radicais. O 'outsider' de outrora se converteu no 'insider' da atualidade.
Se a resposta for não, ha muito o que se debater sobre o fenômeno da mundialização da arte contemporânea.
Para os que consideram a mundialização artística em curso uma alternativa artificial a batalha é árdua.
Em tudo diferente das propostas de internacionalização da arte defendida pelos modernistas,a mundialização estética da atualidade parece atender a uma demanda crescente por novidade. Mas,onde encontra-la?
As instalações,nascidas da ruptura modernista da metade do seculo XX, se tornaram um modelo dominante nas grandes mostras contemporâneas.
Em alguns aspectos,esse modelo de exposição parece atender a lógica da massificação, técnica muito comum num tempo em que a informação agigantou o consumo cultural em escala global. 
Não conheço recorte histórico em que se deu tamanha sinergia entre artistas,curadores,investidores, consumidores,instituições,agentes,mídia,marketing.   
Por isso, não é de se estranhar, que nos domínios da arte, o modo de ver o contemporâneo seja questionado por muitos artistas que enxergam nessas modalidades uma interação conservadora entre as pontas da produção artística e das curadorias.
Se a contemporaneidade é marcada por incertezas,onde encontra-las na veloz e estratégica inserção da produção estética da atualidade nos museus e no sistema de arte como um todo? 
Nesses ambientes o que se enxerga são consagrações fundadas na presunção de uma certeza quase 'histórica',digamos assim,sobre as obras e os artistas que exibem e difundem.
Se o mundo real reflete insegurança e incertezas,o sistema de arte contemporâneo,ao contrario, reflete certezas estéticas e econômicas a dispor do grande público.
Algo não confere, já que nesse ambiente tudo está moldado para atender à 'espetacular' demanda de produtos artísticos jamais visto na historia.
Sabemos que para uma estrategia se consolidar no meio social é fundamental que se reduza o campo das incertezas,substituindo-as pelo poder afirmativo dos agentes e intermediários(marketing cultural,mídia,instituições e mercado) de maneira a conferir credibilidade,projeção social e econômica a uma corrente estética aparentemente plural mas,de fato,agregada ao modelo mundialista .
Essa fórmula permitiu que se projetasse um salto de etapas, amparado na inserção internacional da produção artística antes periférica, nos centros hegemônicos de arte e cultura.
Assim,o que antes exigia um longo processo de decantação crítica e temporal,cujo perfil era traçado por critérios rigorosos de aferição da obra de arte de maneira a legitima-la institucional e socialmente(museus,institutos,industria editorial) hoje,pode ser feito por uma equipe de marketing,curadores,agentes promocionais,mídia cultural e dealers. Os paradigmas surgidos na pós modernidade,fundados no pressuposto do 'salto de etapas',na liberação e aceitação estética imediata na rede de instituições de arte, dá vazão à produção estética contemporânea suprindo a contento a demanda de um público mais 'ilustrado', avido por novidade.
Entretanto,as investidas de muitos artistas,agentes e curadores que tentam ajustar tecnicamente a nova 'démarche' temporal (salto de etapas + inserção global)entre experiencia criativa,obra e observador, mostram distorções quando recorrem a procedimentos tradicionais a fim de legitimar precocemente os movimentos estéticos da atualidade.Esse 'É' o maior dilema herdado pela réplica contemporânea do que foi a ruptura da 'vanguarda histórica'.
Esse artificio tornou mais problemática a argumentação do triunfo da arte contemporânea ao mesmo tempo em que desmantelou a ideia de que o pluralismo criativo 'vencedor' enterrou o velho preconceito contra a periferia.A produção artística contemporânea foi pacificada pelo formato mundialista hegemônico que conciliou o irreconciliável,abrandando as diferenças e tonando-as palatáveis. Pode-se dizer que um dos 'triunfos' da arte na pós modernidade é de caráter econômico. Nesse tocante não ha duvidas!  
Ainda que um oportuno relativismo se apresente como o modo mais ajustado para difundir a arte do nosso tempo,o 'modus operandi' persiste o mesmo dos velhos tempos.
Sobretudo quando deparamos com os conceitos que regem as grandes mostras de arte a moda antiga, como as bienais que focam parte da produção contemporânea e não refletem a complexidade do tempo presente. Dar consistência a um conjunto de obras contemporâneas é uma forma de conter a profusão estética de modo simplista através das escolhas subjetivas dos curadores. Esse modo aparentemente novo é tão velho quanto as propostas que visavam dar ordem ao 'caos', com a pretensão de diagnostica-lo pelo viés da leitura especializada. Uma pretensão sempre frustante. 
Não ha como substituir o frescor do contemporâneo pela rigidez da hierarquização pautada na intermediação dos curadores e suas narrativas complementares, sem profundidade de campo. 
Tudo pode ser juntado num pavilhão. Até mesmo lapsos de contemporaneidade.Basta se ter um projeto e dinheiro para realiza-lo. 
Mas,esteja certo,lá terá de tudo,menos o contemporâneo.
A tentativa de canalizar a criatividade de um tempo em um determinado sentido e, finalmente, controlá-lo,visa,sobretudo, acelerar a legitimidade social das manifestações estéticas de modo a lhes aferir sustentação nos segmentos culturais,institucionais e de mercado.
As incontáveis tentativas de controlar a singularidade da arte, revestindo-a de uma aparência de globalização estético/artística ,desprovidas de confrontos e passivamente assimilados em todos as quadrantes do globo, é um resquício da narrativa conservadora que visa objetivos concretos e não reflete a complexa conjuntura do contemporâneo. 
 

domingo, maio 29, 2016

Tão longe e só e... tão longe e só, mesmo.




"Quando encontrar meu corpo, por favor, avise meu marido George e minha filha Kerry. Seria uma enorme gentileza informá-los que eu morri e onde fui encontrada - não importa quantos anos isso leve". O Epitáfio de Geraldine Largay, que desapareceu em 2013 na Trilha dos Apalaches no estado americano do Maine, seria um fato esquecido caso não estivéssemos em plena era do conhecimento e da informação. Geraldine morreu enquanto esperava por uma equipe de resgate que nunca veio. Seus restos mortais foram descobertos por uma equipe de filmagem do canal Animal Planet para o reality show 'North Woods Law',dois anos após seu desaparecimento.
O cinegrafista capturou a cena angustiante que mostra um policial do Maine descobrindo o acampamento improvisado onde Geraldine Largay morreu solitária.
Na era da comunicação global as façanhas humanas mais impressionantes,para o bem ou para mau, viraram um show global. Um estupro cruel de uma menina do Rio, o terror que leva a morte de milhares de pessoas na Síria,centenas em Paris,dezenas em Bruxelas, as meninas sequestradas pelo Boko Haram,a morte solitária em uma floresta do Maine,a conquista de Marte e a entrada do homem no espaço interestelar, viajando "mais do que ninguém, ou nada, na história", quando a nave Voyager 1 penetrou no espaço interestelar. Seu espectrômetro de plasma deve fornecer as primeiras medições diretas da densidade e temperatura do plasma interestelar.
Nós, do lado oposto do monitor protagonizamos tudo isso em tempo real. A era do conhecimento atravessou - ou realizou?- na realidade virtual o que antes era domínio da ficção. E o homem continua indo e irá cada vez mais longe em busca de algo que faça sentido, em meio a tudo que criou para si mesmo.

segunda-feira, abril 25, 2016

Ah! Essas 'almas sensíveis'

O ato terrorista que destruiu o WTC levando junto mais de três mil vidas chocou o mundo ao mesmo tempo em que inspirou ‘almas sensíveis’. Além das manifestações de louvor à beleza dos atos para glória de Alá, ocorridas em regiões do Oriente Médio, as análises de cientistas políticos, o luto e a comoção das nações do Ocidente, ouviu-se muitas declarações demandando retaliação militar pesada dos EUA contra Bin Laden e a devastação das populações e territórios onde os serviços de inteligência achavam que se concentrava o poder de decisão da al Qaeda. Nas palavras do presidente Bush " Hoje somos um país que despertou para o perigo e que foi conclamado a defender a liberdade. Nosso pesar se tornou ira, e nossa ira se tornou determinação. Quer tragamos nossos inimigos à Justiça ou quer levemos justiça aos nossos inimigos, saibam que a justiça será feita. " Na ocasião, o compositor Karlheinz Stockhausen,considerado um dos maiores compositores do final do século XX, autor de obras ambiciosas como o "Quarteto de Cordas com Helicópteros " (Helikopter-Streichquartett) ficou tão impressionado com a grandeza e a ousadia do ataque que não se furtou de expor ao mundo seu espanto ao comentar que estava diante: "da maior obra de arte de todos os tempos" ou "a maior obra de arte de Lúcifer". Após a reação global ao seu comentário rapidamente retirou a sua declaração e pediu desculpas: “acho que eu deveria ser perdoado”,disse ele. Os amigos do compositor tentaram justificar o 'encantamento' do arista diante do maior espetáculo de destruição compartilhado na rede mundial de computadores, tecendo elogios à sua música e justificando que as manifestações do artista deveriam ser entendidas como uma reação natural pelo fato da sua musica ter sido negligenciada nos últimos anos. Para eles, o artista tem uma obra que precisa ser ouvida. Acho que não sou o único artista que não tece ilusões quanto a aceitação definitiva das suas obras dentro das complexas conexões sócio/ políticas/culturais que elegem personagens das artes e sua produção. Um artista que dedique tempo e atenção,siga um planejamento de marketing que coloque sua produção em vários eventos ,usufrua de visibilidade midiatica e situação financeira confortavel ,que o inserem no gosto das altas esferas do negócio da arte e aplausos do senso comum,muitas vezes se esquece de refletir sobre as viradas do sistema e a decadencia de estilos.Não posso afirmar que Stockhausen não deu atenção a esse dado.Porém,seus amigos e admiradores dizem que ele sofre com o ostracismo. Caso isso seja um fato,é um fato mediocre.Artistas que atingem o sucesso e não refletem sobre as voluveis oscilações do gosto geral, só vão se dar conta de que o ostracismo existe quando dois aviões se chocam contra duas torres, ocasionando milhares de mortes e nenhum jornalista lhe telefona para pedir sua opinião sobre a trágica ocorrência. Já os artistas que enfrentam do sol nascente ao poente,as circunstancias concretas da sua jornada criativa, reações adversas da crítica,da mídia e a volatilidade do mercado, convivem desde a aurora com o horizonte do ostracismo. Essa perspectiva é uma porta sempre aberta na sua alma inquieta. O ideário pop star e o 'laises faire' são manuais que artistas dedicados a difusão constante dos seus egos lhes permite respirar e viver uma vida inteira bafejada pelo sucesso. Quando isso esmorece, por qualquer motivo, a noite cai e escurece seus sonhos. Aí podem acontecer coisas ruins,que o fazem sofrer, sem uma explicação que o console. Se seus admiradores estão certos, foi isso que despertou Stockhausen o levando a se expor a luz dos holofotes para opinar sobre as funestas explosões no WTC. Contudo,para mim, a declaração de Stockhausen, nem é tão patética. Mais patético é seu arrependimento. Do ponto de vista cultural, sua declaração é só espetacular nada mais que isso. E mais, sua desculpa é uma rebordosa emocional que o coloca de volta no foco da comunicação. Nos dois casos são declarações inócuas que demonstram que Guy Debord sabia o que estava falando quando escreveu 'A Sociedade do Espetáculo', livro precursor de toda análise crítica da pós moderna sociedade de consumo e suas implicações na comunicação de massas e na formação da mentalidade 'artística' e política do século XXI. A declaração de Stockhausen é Inócua por se tratar de palavras para expressar uma ideia confusa e inadequada, em contraponto à comoção mundial que se abateu sobre o mundo. Se ele tivesse optado por compor uma Sinfonia para Dois Boeings, talvez não recebesse em troca tanta ira. Mas não, optou pela 'palavra' ou opinião, se preferirem esse termo. Aqui, entre nós, brasileiros, vejo muitas 'almas sensíveis' se revoltatarem com palavras mais do que com fatos e ações malévolas concretas,realizadas. Imagino o que algumas 'almas sensiveis ' sentem quando absorvem promessas irrealizaveis de politicos inescrupulosos ou leem versos obscenos vindos da criação poética contemporânea. Na esfera provinciana,um elogio tosco do deputado Bolsonaro ao Ustra,como réplica a outro elogio estúpido do deputado Renato Simões (PT-SP) que em 2014 , proferiu um discurso no plenário da Câmara que nada mais era que uma ode ao terrorista Carlos Marighella. Os dois episódios grotescos detonaram um debate também estúpido nos meios de comunicação. Ora,mutatis mutandis, os dois discursos em nada tem serventia, exemplo e conselho para quem preza a democracia,acima das premissas de correntes ideológicas e partidárias. Ainda que as duas falas, enquanto retórica parlamentar, cultuem a memória de um proto ditador e um torturador, nesse contexto,não tem o mesmo peso concreto de um jato se chocando contra o prédio do Congresso ou uma horda de deputados de direita torturando ao vivo e a cores gente de esquerda. Fico abismado que num país de subletrados tanta gente se espante com palavras, quando o fato real e grave é que nesse caldo de toxinas verbais é que a classe politica afoga os possiveis avanços da sociedade brasileira. No tocante a arte,onde supostamente reinaria a liberdade de expressão, o mínimo que se espera de um artista,cuja obra se concentre em quebrar paradigmas e descortinar belezas inéditas é que ela seja um estímulo para se ir alem do lugar comum. Coisa rara! Por que estou falando isso? Explico: O ambiente artístico da atualidade está saturado do banal e do repetitivo. É comum ver artistas se dizerem preocupados e motivados por temas de cunho social ou político, se colocando como bravo defensor das minorias e dos injustiçados e , reclamando para si o campo da arte,como um Olimpo da sua verdade particular,capaz de salvar o mundo da barbarie. Mal comparando, são Stockhausen's do bem. Hoje, referir-se à assassinatos em massa como arte, como fez Stockhausen, não é mais um ato solitário. Tudo, até mesmo os rompantes em defesa de uma política desastrosa e criminosa se consolidou, em forma e em conceito, como um manifesto que ameaça as 'almas sensíveis'. Confundir palavras com a verdadeira banalidade do mal e as consequências da massificação da arte, revela apenas a extensão e a capilaridade da mediocridade dos dias de hoje. Como não dou crédito a fãs e admiradores de artistas, prefiro aceitar a ideia de que Stockhausen, deu conta da tolice que falou. Voltou atrás e se desculpou. Eu o perdoo! Não o desculpo pela fraqueza de caráter mencionada por seus admiradores frente às agruras do ostracismo. Mas, sim, pelo fato de que ao falar essa asneira não o torna um terrorista de fato e,muito menos, um influencer alucinado que 'inspirou' a Al Qaeda a cometer o bárbaro crime.

sexta-feira, abril 08, 2016

Assoreamento criativo & Contabilidade realista


Festeja-se as cifras alcançadas pelo mercado de arte.
Aplausos!
O mercado é o nicho final no intercâmbio entre produtos e dinheiro. Enquanto o mercado apresentar números atraentes a perspectiva de retorno ao método arcaico do escambo permanece longe do horizonte das trocas sociais.
Ainda que meu saldo pessoal não melhore como reflexo indireto dos altos preços divulgados por uma operação do mercado de arte, não faço considerações morais sobre o preço de uma obra de arte.
Parto da premissa de que o preço, em si, não é uma questão da arte. Sequer uma confirmação do valor cultural e artístico de uma obra de arte. O valor de uma obra de arte não é concedido simultaneamente ao certificado de venda. O alto preço alcançado por uma obra de arte fala sobretudo do poder afirmativo do dinheiro pago na transação. A comunicação e a mídia adoram fatos espetaculares. Por isso, os preços das obras de arte da atualidade se tornaram fenômenos mais ‘espetaculares’ que as próprias obras. Por essas e outras, os produtos que alcançam patamares altos se encaixam na vitrine mais visitada da mídia. Entretanto, subestimar, desferir imprecações contra os preços altos demais de um artista que o indignado despreza é o mesmo que ficar decepcionado com os preços baixos demais de um artista que o mesmo ‘amante’ de arte admira. O mercado é absolutamente indiferente a esses detalhes de natureza subjetiva.
Com a crise, o emocional se agiganta e aparece ‘neguin’ dizendo que não daria 1 vintém por uma obra vendida por milhões.  Dessa forma, um episódio financeiramente positivo do mercado fomenta a cizânia num ambiente cultural empobrecido pela dinâmica do dinheiro e pela falta dele.
Tanto assim que os que se opõem ao esplendoroso fato de uma venda milionária, promovem um julgamento estético e moral do artista bem-sucedido. Tudo inútil, dado que a questão é de natureza mercadológica. Isso quer dizer que tanto pode ser uma ação puramente especulativa quanto representativa do gosto do comprador que tendo dinheiro em abundancia, realizou um sonho de consumo comprando um objeto de arte com o qual pretende conviver por um longo tempo.
Na escala macroeconômica - industrias/centros de desenvolvimento e pesquisa e setor financeiro – ajustam perspectivas contendo gastos e evitando riscos. Com isso, a redução das pesquisas e desenvolvimento de produtos sofrem retração e o mercado de trabalho é penalizado. O resultado é o que vivenciamos.
No tocante ao autônomo, não vinculado ao trabalho assalariado formal e que depende de fatores oscilantes do mercado, a crise estendida tem graves consequências. No meu caso particular, em que os insumos, suportes e substratos utilizados, com preços fixados em dólar e custos variáveis, acrescidos de impostos extras, advindos da crise fiscal e cambial, disparam o alarme. A primeira medida é reduzir o ritmo de produção. A segunda é demitir metade de mim mesmo reduzindo, a exemplo do que fez maduro na Venezuela, a atividade produtiva a quatro dias da semana. Tal medida evoca o assoreamento do processo criativo. As consequências disso podem ser bem definidas por um aforismo do Millôr Fernandes:  “O desespero eu aguento. O que me apavora é a esperança”.    
     


terça-feira, abril 05, 2016

Refuto a ideia de que existe uma poderosa central programadora de cérebros. Uma especie de Big Brother ancestral.
Mesmo contestando argumentos de que uma 'força estranha'(cultura) conduziu códigos programadores de cérebros para dentro dos agrupamentos sociais no correr da historia humana, alguns fatos recentes me levam a admitir que o PONTO D (Ponto Deus)identificado em nossos cérebros pelos neurocientistas ajuda a explicar a expansão das crenças e a explosão das guerras religiosas em pleno Seculo XXI.
Neurocientistas estão debruçados em pesquisas comparativas entre os cérebros dos crentes e os dos céticos para avaliar a frequência e o diferencial dos impulsos cerebrais quando uma pessoa está rezando,meditando ou simplesmente divagando por entre abstrações,contemplando ou imaginando um mundo só seu.
Ainda se conhece pouco sobre esse campo.Porém, algumas pistas começam a surgir na escuridão do nosso cérebro. 
Em especial no que diz respeito as áreas cerebrais. 
Dados coletados e analises aprofundadas estimam que o córtex pré-frontal medial está associado a nossa capacidade para entender os pensamentos e sentimentos dos outros. Curiosamente,alguns estudos revelam que esta região do cérebro está especialmente ativa entre os crentes e religiosos, especialmente quando estão rezando.
Já o lobo parietal, de acordo com estudos,pode estar envolvido em experiências religiosas, especialmente aquelas caracterizadas com a dissolução do ego.
Todo dia,ao acordar,tateio regiões no meu cérebro  que insistem em permanecer dormindo. Entendível,o mundo dos sonhos,tirante os pesadelos,é um lugar muito melhor para se perder tempo. Perder o precioso tempo existencial com a alta ansiedade que move o mundo competitivo é uma asneira compulsória para alcançar a gloria que muitos confundem com realização existencial. 

Eis o pecado original!  
Sou tolerante com meus pecados.  
Por isso a pesquisa sobre o Ponto D  me  desperta especial interesse no momento.
Creio que essa pesquisa vai ajudar a elucidar algumas questões intrigantes como aquelas que tocam na estranha dependência que provoca um certo grau instabilidade emocional que  resulta em debilidade intelectual.Muitas pessoas que supomos emancipadas e inteligentes mas que depositam fé cega numa liderança politica,ainda que os fatos comprovem que se trata de um farsante corrupto,sofrem dessa insanidade.
Outro dado interessante dessas pesquisas ajudarão a esclarecer porque mesmo nas sociedades que reprimiram as religiões como a Russia na era stalinista, a China de Mao,a Coreia do Norte da dinastia Kim e a Cuba da irmandade Castro, o Ponto D(ponto Deus)tem sido usado com a polaridade redirecionada para os ícones(lideres) que tomaram o lugar de deus,instalando-se no imaginário popular através do culto a um líder ou ao Estado.Algo incompreensível para as mentes emancipadas e modernas,porem,comum aos fiéis.Sejam eles comprometidos com as ideologias religiosas ou politicas.

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Melancolia


Camadas de fuligem, bolor e fungo afixaram na estrutura carcomida onde se aloja o centro decisório do governo e da administração pública brasileira. As coisas mais novas, feitas ontem, quando imersas na cultura política nacional depressa adquirem aspecto decadente. Naquele ambiente o novo surge adaptado ao velho padrão mediano do gosto e do consenso. 
Com isso, as duas últimas gerações de brasileiros são obrigadas a medir a passagem do tempo pela ampliação da defasagem entre a arcaica tradição brasileira e o impulso transformador que move-lá fora- o mundo da atualidade.
A cultura politica brasileira está imersa no caldo da sublimação catatônica das experiências fracassadas do passado, liquefeita aos acontecimentos desastrosos do presente e aditivado pela extrema ideologização das políticas públicas.O objeto resultante desse amalgama foi a edição do populismo de esquerda.Consolidados no poder trataram da imediata substituição dos métodos mais aprimorados de tecnicidade nos campos cruciais para o desenvolvimento como educação, saúde, justiça social e trabalho,pela demagogia paternalista de grandes resultados eleitorais.
No Brasil as políticas sociais são efêmeras porque projetadas para durar uma eleição.
Intencionalmente desestruturadas, as políticas sociais voltam no próximo pleito como nova promessa de campanha. Assim, ‘macunaimamente’ original, o Brasil assiste o tempo passar sem que nada se transforme concretamente.
Até mesmo os debates políticos, ancorados na divisão ideológica do mundo que ocorria em meados do século XX, continuam na pauta das atualidades da vida política brasileira.
Nunca me senti tão Brasil como hoje ao acordar e ler:
“Delfim está com saudade da ditadura” Maria da Conceição Tavares
Oh!Fui catapultado no tempo.
Que barato!
Que puta estranha sensação acordar em outro tempo.
Tirante o cheiro imaginário do bolor fétido dos infrutíferos debates dos anos 60/70/80, a reedição do seriado Delfim & Maria da Conceição Tavares é a cara do governo Dilma e o apogeu da Era petista.

sexta-feira, janeiro 22, 2016

‘Énouement’



Tem manhãs que desperto sacudido por sonhos juvenis.
Creio que todos os sonhos que se desenrolam em nossas vidas são pré-produções infantis,gravados entre a infância e a adolescência e exibido por toda nossa existência.
"Não podemos esmorecer!" 
Este foi o último alerta que vi estampado nas faixas erguidas por uma multidão de jovens alegres na terra dos sonhos. Senti uma certa discrepância entre as imagens e a mensagem. Mas, o mundo dos sonhos é pleno de mistérios e enigmas que misturam tempos que se foram, mas, sei lá porque, permanecem. 
Sequer procuro desvendar. Ao longo do dia sou contemplado com as sensações apanhadas nos domínios dos sonhos e sinto um certo desconforto em compartilha-las na dimensão da realidade real.
Enfim, sou muito egoísta com meus sonhos.
Todavia, depois que o artista John Koening publicou seu "Dicionário das Tristezas Obscuras" me dediquei a achar uma 'nova' palavra- no sentido de genuína - que pudesse expressar as tentativas de conectar as várias dimensões do real. Encontrei na palavra ‘Énouement’, cujo o verbete alude ao advento da “sensação agridoce de ter chegado no futuro, visto como tudo aconteceu, mas não ser capaz de contar para o seu EU do passado” uma significação estimulante.
Era isso que me faltava. 
Que Freud me perdoe, mas sou persuadido a admitir que para além dos traumas germinais o mundo atemporal dos sonhos tem uma espantosa sinergia com o ciberespaço(vice e versa) e os meios virtuais de percepção do mundo.
A cultura digital é forjada no sonho que constrói mundos virtuais tão palpáveis quanto o real. Tangíveis a ponto de nos levar a indagar: Onde acontece a realidade real? 
Como não tenho queda por fantasias surrealistas, minha tendência é considerar o real como o ‘sítio do absurdo’. 
É nele, no real, que tudo é possível.É nele que se processa a fantasia, os sonhos, a vida cotidiana, a mesmice,a opressão e as revoluções.
A convergência da realidade real com a realidade virtual dilatou os canais da percepção e, por conseguinte, ampliou a comunicação interpessoal. 
A vida e o mundo se estenderam para horizontes antes vivenciados apenas por poetas e destemidos aventureiros que habitavam nossos sonhos juvenis de liberdade.
Essa é a revolução que se processa AGORA que poucos tem o dom da graça de perceber e compartilhar em tempo real. 
Caso compartilhem, como contemporâneos do evento, pouco ou quase nada conseguem transferir para o EU do passado que vos fala. 
Diante disso é pura tolice olhar o momento atual com o paradigma que atribui totalidade ética/moral ao fator presencial. Essa virtude imposta ao EU ficou no passado por limitar o entendimento de que a experiência humana só se realiza na materialidade - corpo e a alma fincados no tempo real – que, por tratar-se de uma raridade experimental acontece em fases cruciais da existência como no nascimento, gozo, dor e na morte. 
Entende-la como a única ocorrência digna de uma existência sem ‘vícios’ adquiridos na realidade virtual, é uma recorrência ao passado por temor do presente/futuro.
O duplo SER - um consciente e presencial, outro virtual e alienado - é puro blefe de quem ainda acredita na unidade do SER como estagio mais elevado da consciência.
A realidade é múltipla. Por que o SER não seria também?
As realidades se complementam e o SER que as interpenetra se expande em múltiplas percepções sensoriais. 
Torço para que se instrumentalize mais rapidamente possível as ferramentas tecnológicas para a humanidade alcançar uma terceira, quarta e quinta dimensão do real sem a necessidade de uma mediação mística, uso de drogas alucinógenas ou delírio ideológico/ fundamentalista que, de acordo com a tradição arcaica, finda em servidão, tortura e guerras.
Alcançar esse estágio da evolução levará a humanidade a democratizar o acesso a dimensões hoje intransponíveis para os ‘caretas’ que, lamentavelmente, compõem a massa dos realistas crédulos e obcecados pela economia da subsistência e pelo poder político. 
Tal fenômeno acarreta na mais ousada evolução da espécie.
Induzir um fundamentalista religioso radical ou um militante convicto a atravessar a limitada dimensão condicionada do real é mais transformador que uma guerra sangrenta para derrota-los. 
A realidade ficará mais complexa e rica e o mundo um lugar melhor para se viver.
O diabo desse sonho é que a opção de vivenciar plenamente a realidade me leva direto para os domínios da frustração. 
Talvez, por isso, o alerta: "Não podemos esmorecer!" tenha amplo significado nas muitas dimensões do real.
Ele se manifesta também como resistência objetiva ao corrupto e seu “Poder” de convencer a massa de que ela é impotente para vencê-los.
O fato é que não É!
Estamos em plena transformação. 
Antes do advento das redes digitais,a resposta correta e exemplar da Operação Lava Jato, da PF, do MP e da PGR ao clamor da população, se restringiria ao campo do desejo.Além disso,sem essas ferramentas muitas pessoas sequer saberiam da extensão e malefícios causados pela população de pilantras e corruptos e seus associados que achacam o presente e comprometem o destino das futuras gerações de brasileiros.
Aos poucos os pegaremos! 
Ainda tem muitos deles escondidos que serão progressivamente alcançados

domingo, janeiro 10, 2016

Narco Fashion

Relutei por um tempo compartilhar o artigo do link. 
Me negar a replicar, ainda que de forma numericamente insignificante,a maciça visibilidade de mais tolices, além das que já abundam no Brasil, é um procedimento que adotei nas redes sociais. 
Porém, o culto piegas ao ‘marginal justo’ contra o Estado opressor e injusto, mantido por uma sociedade hipócrita, omissa e criminosa denunciada e combatida por bastiões da verdade,como os 'astros' dessa pantomima moralista,é uma babaquice que me desperta repulsa. 
Diante de mais um embuste me sinto na obrigação de revidar a carolice oportunista das celebridades histriônicas, como é o caso dos personagens centrais do artigo desse link. 
“A vida é um negócio. A única coisa que muda é a mercadoria. Você não concorda? ”
É raro ver tamanha platitude para expressar encanto pelo cartel mexicano das drogas. 
Todavia, foi assim mesmo, com essa indagação carregada de admiração que em 2012 Kate del Castillo, uma das atrizes mais famosas do México,fechou um tuíte expressando desconfiança no governo mexicano e admiração pelo traficante El Chapo.
Politica,propriamente dita,Zero!
Justiça social e segurança pública,então,nem se diz.
As sociedades mais pobres não merecem esses benefícios admiráveis que em países onde a lei é um valor inegociável, conferem alguma segurança a sociedade.. 
Para engrossar o caldo de uma mitologia contemporânea eletrizante,como num filme de Hollywood, Kate protagonizará nessa entrevista com o ator Sean Penn, um deslumbrado por personagens engajados em causas dispares que podem ir da militância histriônica por um Chávez a uma rebeldia alucinada sem qualquer causa política aparente.
Esse é o perfil 'outsider' de um ator conturbado pela contradição entre o "negocio" milionário que exerce e o ser humano -tocado pela lucidez- que interpreta na vida real. 
O resultado desse trailer de conflito existencial pode ser lido na matéria em tom de roteiro de blockbuster dramático,em forma de elegia ao tráfico de drogas.
A vida, ao contrário do deslumbramento da dupla, é muito mais complexa que um "negócio", seja ele qual for. 
Ainda que a cultura do espetáculo invista os tubos para formatar a mentalidade do espectador e explodir as bilheterias, a existência, a dor humana e a própria realidade é que definem o mundo, à revelia dos padrões morais, da estética hollywoodiana e das lendas que transbordam a atualidade.
A cabecinha doidivana da Kate e o deslumbre ativista do Penn, se esborracham na medíocre tentativa de converter El Chapo em um Emiliano Zapata.
O artigo é uma fogueira de vaidades.
Uma disputa de narcisismos entre Penn e El Chapo com a doidivana Kate del Castillo como plateia.
Porém,o que transparece como fato inconteste é que um oceano de inteligencia e talento separam Sean Penn de John Steinbeck, responsável pelo roteiro do filme Viva Zapata! do Elia Kazan 
Na verdade, El Chapo sequer tem a estatura de um Pancho Villa, ex-domador de cavalos, ex-bandido e guerrilheiro, que liderava os camponeses do Norte com o objetivo de combater o Exército Federal e os grandes proprietários, conquistando vilas e cidades e que, em determinado ponto da conturbada história mexicana, se aliou a Zapata,dois sinônimos dos maiores líderes revolucionários mexicanos.
Em resumo:"a secreta visita ao homem mais procurado do mundo" é um estardalhaço promocional ridículo que seria mais eletrizante caso os dois protagonistas acompanhassem El Chapo no seu novo domicilio pelo tempo em que lá permanecer.
Até a próxima fuga, rastreada em tempo real por um reality show compartilhado em rede, com Kate e Sean como o casal da missão especial.

Read more: http://www.rollingstone.com/…/fea…/el-chapo-speaks-20160109… 
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terça-feira, janeiro 05, 2016

Um Olhar Entrevista: Adriano de Aquino





Os primeiros dias de um novo ano inspiram mudanças e avaliações sobre realizações de um tempo que passou. 
Rememoriza-los nos induz a rever com um novo olhar não apenas os arquivos físicos mas, também, mentais, ideias, sensações e opiniões que nos mobilizaram num período. 
Os registros de um tempo,quando revistos, abrem novas oportunidades para repensar o momento presente.
A entrevista à Paola Bonelli em novembro de 2014(link) toca em temas que abordo com certa frequência neste blog.
Falar descontraidamente é bem diferente de escrever burilando de forma mais concisa o que penso sobre diversos assuntos.