segunda-feira, março 15, 2010

Capacitação Humana

Esse recente texto de Vargas Llosa, publicado na imprensa brasileira, me entristeceu.
A manifestação publica desse grande escritor agravou meu sentimento de vergonha quanto ao silencio dos intelectuais e artistas brasileiros na violência que vem sendo praticada pelo regime cubano contra seu povo. Vargas Llosa é um escritor consagrado e suficientemente rico para se dedicar apenas a aprimorar sua arte e usufruir os prazeres da vida. Porém, não é isso que esse homem faz. Ele se indigna! Não permanece apenas “literariamente” indignado, ele se mobiliza, participa de seminários a favor da liberdade de expressão e se manifesta publicamente contra a opressão, a tortura e a morte impetrada pelos regimes ditatoriais, onde quer que se encontrem.
Convivi com alguns intelectuais brasileiros de esquerda que se indignavam e manifestavam a favor da redemocratização, escreviam e subscreviam abaixo assinados mobilizando a sociedade civil. Hoje, onde foi parar o protagonismo público dos artistas e intelectuais?
No meu entender, os intelectuais de esquerda, simpatizantes do regime cubano, seriam as pessoas mais indicadas para abrirem um dialogo publico produtivo, que buscasse resultados objetivos e avanços concretos a favor de uma flexibilização do regime castrista. Salvo honrosas exceções, nada nesse sentido é ao menos cogitado. A maioria parece acreditar que o socialismo cubano é uma experiência política frágil que deve ser mantida a custo de muitas prisões e de milhares de mortes. Contudo, o regime castrista já dura mais de 50 anos. É, talvez, o regime político mais longevo e estável da América Latina. Será que esses intelectuais e artistas simpatizantes não percebem que o apoio fraterno indiscriminado vem funcionando como uma “carta branca” para o regime infligir o medo, o silencio, a dor, a prisão e a morte aos cidadãos que pensem diferente do governo?
As miseráveis crianças abandonadas nas ruas das grandes capitais brasileiras não recebem nem uma vírgula de apoio às suas causas. Contudo, quando qualquer individuo manifesta repudio ao que vem ocorrendo em Cuba, os simpatizantes do regime se perfilam na tropa dos apedrejadores dos “burgueses”, “imperialistas”, “colonialistas”, “capitalistas sanguinários”, “máfia de Miami”, e toda a lenga lenga constante do manual doutrinário, para justificar os horrores do regime.

Com a palavra:

MARIO VARGAS LLOSA
A decepcionante visita de Lula
O ESTADO DE SÃO PAULO – domingo- 07/03/2010

Minha capacidade de indignação política atenua-se um pouco nos meses do ano que passo na Europa. Suponho que a razão disso seja o fato de que, lá, vivo em países democráticos nos quais, independentemente dos problemas de que padecem, há uma ampla margem de liberdade para a crítica, e a imprensa, os partidos, as instituições e os indivíduos costumam protestar de maneira íntegra e com estardalhaço quando ocorrem episódios ultrajantes e desprezíveis, principalmente no campo político.
Entretanto, na América Latina, onde costumo passar de três a quatro meses ao ano, esta capacidade de indignação volta sempre, com a fúria da minha juventude, e me faz viver sempre temeroso, alerta, desassossegado, esperando (e perguntando-me de onde virá desta vez) o fato execrável que,provavelmente, passará despercebido para a maioria, ou merecerá o beneplácito ou a indiferença geral.Na semana passada, experimentei mais uma vez esta sensação de asco e deira, ao ver o risonho presidente Lula do Brasil abraçando carinhosamente Fidel e Raúl Castro, no mesmo momento em que os esbirros da ditadura cubana perseguiam os dissidentes e os sepultavam nos calabouços para impedir que assistissem ao enterro de Orlando Zapata Tamayo, o pedreiro pacifista da oposição, de 42 anos, pertencente ao Grupo dos 75, que os algozes castristas deixaram morrer de inanição - depois de submetê-lo em vida a confinamento, torturas e condená-lo com pretextos a mais de 30 anos de cárcere - depois de 85 dias de greve de fome.
Qualquer pessoa que não tenha perdido a decência e tenha um mínimo de informação sobre o que acontece em Cuba espera do regime castrista que aja como sempre fez. Há uma absoluta coerência entre a condição de ditadura totalitária de Cuba e uma política terrorista de perseguição a toda forma de dissidência e de crítica, a violação sistemática dos mais elementares direitos humanos, de falsos processos para sepultar os opositores em prisões imundas e submetê-los a vexames até enlouquecê-los, matá-los ou impeli-los ao suicídio. Os irmãos Castro exercem há 51 anos esta política, e somente os idiotas poderiam esperar deles um comportamento diferente.
DESCARAMENTO
Mas de Luiz Inácio Lula da Silva, governante eleito em eleições legítimas, presidente constitucional de um país democrático como o Brasil, seria de esperar, pelo menos, uma atitude um pouco mais digna e coerente com a cultura democrática que teoricamente ele representa, e não o descaramento indecente de exibir-se, risonho e cúmplice, com os assassinos virtuais de
um dissidente democrático, legitimando com sua presença e seu proceder a caçada de opositores desencadeada pelo regime no mesmo instante em que ele era fotografado abraçando os algozes de Zapata.
O presidente Lula sabia perfeitamente o que estava fazendo. Antes de viajar para Cuba, 50 dissidentes lhe haviam pedido uma audiência durante sua estadia em Havana para que intercedesse perante as autoridades da ilha pela libertação dos presos políticos martirizados, como Zapata, nos calabouços cubanos. Ele se negou a ambas as coisas. Não os recebeu nem defendeu sua causa em suas duas visitas anteriores à ilha, cujo regime liberticida sempre elogiou sem o menor eufemismo. Além disso, este comportamento do presidente brasileiro caracterizou todo o seu mandato. Há anos que, em sua política exterior, ele desmente de maneira sistemática sua política interna, na qual respeita as regras do estado de direito, e, em matéria econômica, em vez das receitas marxistas que propunha quando era sindicalista e candidato - dirigismo econômico, estatizações, repúdio dos investimentos estrangeiros, etc. -, promove uma economia de mercado e da livre iniciativa como qualquer estadista social-democrata europeu.
Mas, quando se trata do exterior, o presidente Lula se despe de suas vestimentas democráticas e abraça o comandante Chávez, Evo Morales, o comandante Ortega, ou seja, com a escória da América Latina, e não tem o menor escrúpulo em abrir as portas diplomáticas e econômicas do Brasil aos sátrapas teocráticos integristas do Irã.
O que significa esta duplicidade? Que Lula nunca mudou de verdade? Que é um simples mascarado, capaz de todas as piruetas ideológicas, um político medíocre sem espinha dorsal cívica e moral? Segundo alguns, os desígnios geopolíticos para o Brasil do presidente Lula estão acima de questiúnculas como Cuba, ou a Coreia do Norte, uma das ditaduras onde se cometem as piores violações dos direitos humanos e onde há mais presos políticos.
O importante para ele são coisas mais transcendentes como o Porto de Mariel, que o Brasil está financiando com US$ 300 milhões, ou a próxima construção pela Petrobrás de uma fábrica de lubrificantes em Havana. Diante de realizações deste porte, o que poderia importar ao "estadista"
brasileiro que um pedreiro cubano qualquer, e ainda por cima negro e pobre, morresse de fome clamando por ninharias como a liberdade? Na verdade, tudo isto significa, infelizmente, que Lula é um típico mandatário "democrático" latino-americano.
Quase todos eles são do mesmo feitio, e quase todos, uns mais, outros menos, embora - quando não têm mais remédio - praticam a democracia no seio dos seus próprios países, mas, no exterior, não têm nenhuma vergonha, como Lula, em cortejar ditadores e demagogos, porque acham, coitados, que desta maneira os tapinhas amistosos lhes proporcionarão uma credencial de "progressistas" que os livrará de greves, revoluções e de campanhas internacionais acusando-os de violar os direitos humanos. Como lembra o analista peruano Fernando Rospigliosi, em um artigo admirável: "Enquanto Zapata morria lentamente, os presidentes da América Latina - entre eles o algoz cubano - reuniam-se no México para criar uma organização (mais uma!) regional. Nem uma palavra saiu dali para exigir a liberdade ou um melhor tratamento para os mais de 200 presos políticos cubanos." O único que se atreveu a protestar - um justo entre os fariseus -foi o presidente eleito do Chile, Sebastián Piñera. De modo que a cara de qualquer um destes chefes de Estado poderia substituir a de Luiz Inácio Lula da Silva, abraçando os irmãos Castro, na foto que me revoltou o estômago ao ver os jornais da manhã. Estas caras não representam a liberdade, a limpeza moral, o civismo, a legalidade e a coerência na América Latina. Estes valores estão encarnados em pessoas como Orlando Zapata Tamayo, nas Damas de Branco, Oswaldo Payá, Elizardo Sánchez, a blogueira Yoani Sánchez, e em outros cubanos e cubanas que, sem se deixarem intimidar pelas pressões, as agressões e humilhações cotidianas de que são vítimas, continuam enfrentando a tirania castrista. E se encarnam ainda, em primeiro lugar, nas centenas de prisioneiros políticos e, sobretudo, no jornalista independente Guillermo Fariñas, que, enquanto escrevo este artigo, há oito dias está em greve de fome em Cuba para protestar pela morte de Zapata e exigir a libertação dos presos políticos.
O curioso e terrível paradoxo é que no interior de um dos mais desumanos e cruéis regimes que o continente conheceu se encontrem hoje os mais dignos e respeitáveis políticos da América Latina

terça-feira, março 09, 2010

A Fabula do Lobo e da Ovelha - versão pós -pós moderna


Desde o fim da IIª Grande Guerra, quando a hegemonia cultural se transferiu da Europa para os Estados Unidos, os europeus tentam retomar a liderança perdida.
Sabemos que toda perda impõem conseqüências psicológicas complexas.
Lutas duras e investimentos vultosos não conseguiram dar sustentação a ambição européia de retomar o centro do debate artístico/cultural. As tentativas mais objetivas, realizadas pelas políticas de estado europeias  transitaram, nos últimos 60 anos, entre a implantação de novos equipamentos -Beaubourg, New Tate,novos museus alemães,etc- e o crescente incentivo fiscal para a participação do capital privado nos negócios de arte e cultura.
No âmbito do mercado as ações mais agressivas visando alçar as alturas o preço da arte européia encontrou em Saatchi um agente eficaz. Às vezes imagino que esse brilhante homem de negócios é um agente secreto tipo 007. Ele se destaca de todos os demais. Sua potencia econômica e suas investidas táticas são tão bem feitas que lembram um plano estratégico elaborado pelos serviços de inteligência das agencias do governo britânico. Esse negociante inglês viu com clareza que a New Art inglesa seria  mais eficiente se tomasse de assalto o mercado norte americano, começando o ataque pelo foco central da arte contemporânea- Nova York. Foi o que fez. Aliou-se a Gagossian -outro agente secreto- e, montados em grosso volume de capital, deram inicio a uma nova fase da arte britânica em escala global.
Xinguem à vontade mas, até agora, o plano está dando certo e rendendo milhões. Saatchi inaugurou uma colônia artística britânica overseas muito influente e poderosa a contragosto dos artistas, críticos e marchands norte americanos. Contudo, o esforço europeu de centrar o foco no velho modelo das bienais continua afundando. Argumentos de lá e de cá não configuram nada que valha a pena comemorar. Tentativas de incluir a arte de países considerados periféricos até agora não surtiram resultados que abonem as 154 bienais espalhadas por todo o mundo. Ficam na mera ação de mostrar,mostrar e mostrar,porém, a integração cultural além fronteiras geográficas permanece um entrave real.
Segundo Carolyn Christov, a nova curadora de Kassel, “as bienais possuem uma certa independência territorial e independência enquanto laboratórios de experimentação para novas praticas artísticas e novos modelos de sociedade”. Só por essa afirmação amalucada já da pra sentir a bobagem que vem por aí. Pretender que, nos dias de hoje, um evento de arte seja o laboratório onde se processam as “novas praticas artísticas” e, pasmem, “novos modelos de sociedade” é um delírio juvenil. Nem os hippies de outrora, com a cabeça cheia de maconha, diriam tal sandice.
Pois, é! Será nas mãos e na cabecinha dessa moça que os alemães pretendem dar o novo recado estético ao mundo. Vocês não esperam que eu contra argumente o laboratório de uma doidona. Processar, em circuito fechado, uma nova arte, lembra doutrina de estado fascista. Paro por aqui!Não vale a pena ir adiante, pois, qualquer movimento que exclui o que esta sendo processado aqui fora, no real e no cotidiano, é tema para agentes da KGB que, alias, já encerrou sua missão no fim da guerra fria.
Nesse conjunto de fatores as ações mercantis, desavergonhadas e ultra agressivas de Saatchi soam como algo mais eficiente, compatível com o tempo de predominância econômica sobre todas as coisas e, portanto, passível de ser discutido,contestado e atacado.
Já, os “bonzinhos” gestores das Bienais, protegidos por paradigma falso e mentiroso, de interação radical com a cultura e,supostamente, desvinculados do mercado, praticam o mal maior para as artes de nossos dias.

domingo, fevereiro 28, 2010

A partilha do sensível*


Adriano de Aquino

Venho, há algum tempo, rebatendo a pratica de alguns autores de ensaios sobre a produção estética da atualidade. As recorrentes citações de trechos do pensamento de importantes intelectuais ligados ao modernismo me mobilizam. No Brasil, essa é uma pratica corrente. A maioria nem ao menos se esmera em tecer considerações mais profundas sobre os aspectos das citações utilizadas. Apenas as adéquam a qualquer obra que elogiam. Em geral as transcrevem na forma em que se apresentam. Essas considerações não se dirigem aos pesquisadores sérios que investigam as idéias de notáveis pensadores do passado. Elas permanecem tão importantes quanto necessárias É bom deixar claro que admiro inúmeros pensadores do modernismo. Suas idéias foram e são ainda fundamentais para o entendimento de um período histórico que deu enorme contribuição ao pensamento e resultou em avanços consideráveis no campo do conhecimento, do fazer e da percepção da arte. Consolidaram-se no tempo as férteis leituras das obras de ilustres pensadores, dando margem, inclusive, a uma série de analises sobre as obras e as idéias mais influentes no período que se comprime entre as ultimas três décadas do século XIX até os anos 60/70 do século XX.
Também é compreensível que artistas e pensadores vinculados à década de 60/70 ainda tenham um embate produtivo com a matriz modernista e seus desdobramentos. Contudo, não é compreensível que autores atuais insistam em reprisar sem um acréscimo, as idéias de alguns pensadores da escola de Frankfurt, por exemplo. Nesses casos o que me parece claro é o objetivo de cobrir teoricamente a produção estética contemporânea com algo alheio a ela, porém, de qualidade inquestionável. Isso me parece um disparate. Varias razões me levam a supor que esse procedimento tem uma intenção estratégica fundada em equívocos fatais. Um dos mais evidentes se encaixa no que chamo de apoplexia funcional.
Não precisa ser um gênio para ver que as relações entre estética e política, nos últimos trinta anos, são em tudo diferentes dos litígios e dos recursos disponíveis no modernismo. Acho desnecessário explicitá-los.
A autonomia da arte e a rejeição desse axioma eram dois focos do discurso da modernidade e integravam o mesmo processo histórico. Esse embate se apresentava para os artistas do período como uma questão original e muito importante. Todavia, para os artistas da atualidade, essas premissas não encontram eco.Ainda que os pensadores mais importantes da modernidade tocassem em outros aspectos igualmente importantes da arte, as questões relativas à autonomia ou a vinculação da criação artística ao meio sociocultural e às ideologias políticas, eram foco constante de suas preocupações. Walter Benjamim, o pensador mais citado em textos sobre arte contemporânea, adentrou esse campo. Suas teses tangenciam aspectos dessa autonomia. Escritas há 74 anos evidenciam feitos multiplicadores do fazer artístico ao mesmo tempo em que afirmam que “as massas adquirem visibilidade graças à aparição das chamadas artes mecânicas – respectivamente a fotografia e o cinema”. É licito entender nessa afirmação uma assertiva de cunho social transformador o que torna compreensível, décadas depois, a pontificação de Joseph Beyus: "Todo mundo é um artista."

Não podemos desprezar o fato de que Beyus foi consagrado na segunda metade do século XX.Suas interjeições dialogavam com a própria modernidade. Hoje, entretanto, seria ridículo repeti-la. Não teria nenhum efeito sobre a produção estética ou mesmo sobre o publico de arte.
Bem, apesar disso, os escritos sobre arte contemporânea continuam citando trechos de Walter Benjamim como se fossem profecias cumpridas, edificadas e visíveis nas obras da atualidade.
Será implicância não enxergar paralelos concretos entre a produção contemporânea e o pensamento de Benjamim?
Ou, as apropriações indébitas se servem da grandeza alheia somente para permear suas vazias explanações?
Qualquer resposta só disfarçaria a intenção.
Um olhar atento ao interior dessa pratica revela o intuito de reduzir a noção de modernidade.
Uma pena! Nessa estratégia todos perdem. Perde um grande pensador, o amante de arte e o leitor interessado.
Todavia, há alguns anos, pensadores sérios vêm trabalhando intensamente sobre a transição cultural que se impõem no tempo presente.Jacques Rancière (n. 1940, Argélia) é um deles. Professor Emérito de Estética e Política na Universidade de Paris VIII é um pensador dedicado ao estudo do nosso tempo. Num trecho do seu livro A partilha do sensível* ele dispõe suas idéias sobre uma arte que “afirma a pura potência de arte explorando os poderes próprios do seu médium específico”. Mais além ele aponta o discurso sectário da utopia pós-moderna que intenta diluir a arte na vida.
No capitulo intitulado "Das artes mecânicas e da promoção estética dos anônimos" Rancière estabelece paralelos com o clássico ensaio de Walter Benjamin “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”. Contudo, evidencia uma contraversão sobre certos termos da tese benjaminiana.

Poderia dizer que se trata de uma critica contundente à famosa tese de Walter Benjamim. Nesse intento Rancière acrescenta algo ao que antes havia nas analises sobre as idéias de Benjamin que falam do assombro que as novas técnicas geraram na modernidade: “as massas adquirem visibilidade graças à aparição das chamadas artes mecânicas, respectivamente a fotografia e o cinema”.
Rancière não só discorda dessa relação como é peremptório ao afirmar que, nesse ponto, “é preciso que se tome as coisas ao inverso”.
A partir daí podemos vislumbrar um pensamento que, referindo-se criticamente a alguns paradigmas caros a modernidade, cria um novo patamar para o observador e estabelece relações mais perceptíveis sobre as atitudes e obras contemporâneas e o tempo em que são produzidas.
Em síntese, abre uma nova perspectiva para o exame dos objetos, ícones e signos estéticos que hoje transbordam para a realidade.
Usei esses dois parágrafos com o objetivo de salientar os efeitos da apoplexia funcional contida nos escritos da arte contemporâneas mais influentes em nossos dias. Eles sequer imaginam as contradições produzidas pelo tempo. As idéias dos mais célebres pensadores do modernismo estão aprisionadas em redomas de cintilante mediocridade. Servem,para alguns críticos da contemporaneidade, como replicas carbono desbotado das idéias produzidas no alto modernismo.
Em suma, nada de novo se acrescentou as idéias precedentes. Apesar disso, do outro lado da vitrine, parte da vanguarda contemporânea acredita ter virado a mesa do modernismo ou uma pagina da historia. Ela parece satisfeita com o que lê. Porém, o leitor mais atento sabe que as idéias enunciadas não confirmam nenhum fato diferente.
Estou certo de que existe aqui, entre nós, pensadores sérios e interessados em aprofundar suas analises sobre o fenômeno estético contemporâneo à luz de novos conceitos. Entretanto, infelizmente, essa vertente não tem a visibilidade necessária para se fazer ver.
Complementando: Existe um pensamento contemporâneo original?
Creio que sim!
Apenas, não encontrou visibilidade.


sexta-feira, fevereiro 26, 2010

A marcha dos templários

O hiperbolismo tornou-se a maior tortura da vida contemporânea. É impossível visitar uma grande exposição sem ser invadido por musicas temáticas intermináveis, vídeos, documentação iconográfica que, a partir da Grécia clássica, pretende explicar o processo de trabalho de um artista moderno. Textos longos, preenchido de citações intermináveis, impossíveis de ler em pé, colados nas paredes, etc. Essa mania, a titulo de museografia contemporânea, invadiu a vida atual de tal forma que mesmo o simples ato de ir a uma churrascaria comer um naco de carne te obriga engolir contra a vontade, produtos audiovisuais, jogos de futebol, programas de auditório, BBBrasil e todo lixo da comunicação empresarial que berra dos aparelhos de TV espalhados pelos botequins,bares e restaurantes.Não ha digestão que agüente!Um fenômeno similar envolve o individuo que vai a uma grande mostra de arte. Ele sai de lá tão exausto que mal consegue lembrar as obras que viu, admirou ou criticou. Se conseguir sair com os neurônios intactos o visitante dá de cara numa lojinha do museu oferendo réplicas das obras mais consagradas da exposição na forma de souvenir e nos suportes os mais bizarros. Cinzeiros com a estampa de Mona Lisa, candelabros inspirados nas esculturas de Brancusi, porta livros tipo Richard Serra, prendedor de gravatas Salvador Dali e por aí afora.

Silencio!

Ah! Como eu gostaria de voltar à sociedade humana. Onde os indivíduos transitavam soltos por entre os objetos de arte e as coisas do mundo. Sentavam-se nas praças em busca do simples prazer do passeio e para observar pessoas, bichos e vegetação, sem a obrigação de escutar anúncios religiosos ou rádios estridentes. É musica por toda parte!Pior, nenhuma delas ouviria por vontade própria. Não te perguntam se gosta ou se quer ouvir musica naquele momento, afinal você está num shopping center – o mundo é um shopping center! O ambiente seguro e climatizado dos corredores limpos e aromatizados, cercado de vitrines cintilantes, transfere ao individuo a sensação de segurança e o estimula a percorrer os labirintos infindáveis e se deliciar com armadilhas do desejo. Lá fora, distante, as ruas fedorentas e perigosas.

Os museus seguem o modelo. A musica funcional, uma espécie de facilitador para o entendimento do contexto no qual a exposição se insere, se espalha por entre corredores e cantina. Hoje, tem o poder de um pacto do qual você jamais foi consultado.

Gostaria de voltar a sentar num bar pelo prazer da conversa e da boa bebida, sem ser intimado a saber o resultado da ultima rodada. Poder ir a uma exposição, ver obras de arte pelo encanto que a experiência visual me proporciona. Ir a uma grande mostra e ter a possibilidade de me perder e me achar através dos meus próprios olhos. Poder confrontar a riqueza da diversidade criativa sem ser impelido por sons, vozes e orientações onipresentes.

A cultura hiperbólica desintegra o individuo. O que interessa são as mensagens e a eficácia do comandos.

Mundo chato!

domingo, fevereiro 14, 2010

Riqueza Ostensiva - Prazer & Punição








Adriano de Aquino


O que se passa na alma dos artistas de grande visibilidade e alta cotação de preço?

As declarações dos mais notáveis “stars” das artes plásticas me lembram diálogos dos filmes hollywoodianos de quinta categoria.

Tornaram-se celebridades e hoje são ricos. Poderiam apenas dar um bye bye pra plebe e seguir adiante pintando e gerando produtos estéticos variados. Mas, não! São criaturas boas, imbuídas de nobre causa pública. Que merda! Os filmes de quinta categoria não têm grana para pagar o cachê da Bete Davis. Não há perversos na arte pós moderna! Se fossem ao menos espirituosos, tratariam com ironia a fama, a fortuna, seus currículos artísticos e saldos bancários. Ora, diria Dali, não esqueça que a mediocridade intelectual de alguns artistas não lhes permite nem mesmo abandonar a velha culpa cristã. Eles podem ser enormemente ricos e famosos, porém, continuam se sentindo miseráveis e rejeitados pela mãe. Eles clamam por reconhecimento para curar o maldito ser abandonado que habita seu interior. Jamais trepariam diante da cúpula do Vaticano?(dizem que Dali adorava trepar olhando campanários cristãos).

É constrangedor ver "stars" das artes plásticas se justificando na mídia: - “minha obra é expressão artística original e não apenas preço. Minhas obras não são decorativas - a maioria não é mesmo, são feias pra cacete - ou arranjos florais, etc. A tietagem que cerca as celebridades – críticos de plantão, marqueteiros, assessoria de imprensa etc.) põe a língua pra fora e faz careta pra multidão:- Vocês são uns invejosos! Não conseguem aceitar o sucesso alheio!

Em minha opinião as celebridades se estressam demais quando se metem a dar declarações éticas sobre seu sucesso na imprensa. Parece uma síndrome aristocrática oriunda da extrema visibilidade à execração publica na Praça de La Bastille.

Esforçam-se em explicar o sucesso como conseqüência inesperada, oriundo apenas do próprio talento. Nesse ponto da entrevista tombo em lagrimas. A ambigüidade da mídia provinciana em relação às celebridades é interessante. Alguns ícones são atacados mesmo sem abrir a boca, outros, cultuados por falarem as maiores asneiras. Todo poder tende a querer fazer justiça com as próprias mãos. Há casos em que a armação é tão aparente que me nego tocar no papel jornal temendo jamais conseguir remover as manchas. Lide, foto e texto são puro marketing. Perguntas e respostas transitam na ordem do banal, O fazer artístico e as idéias são abordados como coisas corriqueiras. Pra finalizar, com tom dramático, levantam um tema polemico (?) -na imprensa brasileira a mais leve discordância é uma polemica- sobre a possível critica de artistas e público a obra do consagrado autor.

Ora, quem se importa com isso? Já que críticos fantásticos - alguns nomes estrangeiros desconhecidos do repórter além de referencias a obras espalhadas em coleções milionárias mundo afora, prêmios, comendas etc. que tem muito mais valor que a consciência, publica ou privada.

É! Dali tem razão.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Exercicio de relativismo cultural


Adriano de Aquino
Jan-2010
Sob o manto das artes alguns personagens falam sobre suas idéias e obras insinuando que falam de uma verdade, um fenômeno singular, próprio ao individuo e a criação. Atestam que fora a sua verdade, a verdade não existe. Essa velha astúcia relativista, que serviu durante um período como fator desestruturante para antigos regimes ideológicos, tornou-se um princípio para a contemporaneidade. Pronunciamentos assim infestam os discursos artísticos. É impressionante ver artistas falarem de conceitos complexos sem nada saber sobre o que estão falando. Bem, por isso são artistas. Podem se apropriar “esteticamente” de discursos filosóficos e políticos sem saber nada sobre seu significado histórico social. Afinal, para alguns, a única verdade que sobrevém do caos é a verdade do artista. Ninguém ira lhe questionar. Ou melhor, ninguém vai perder tempo com isso!
A arte é meu campo de atividade por isso afasto para longe a falta de paciência e me proponho a levantar a poeira que se acumula sobre o acervo de bobagens que se instalou no ambiente artístico.
Na ultima palestra que participei tive a infelicidade de ouvir, de novo, a repetitiva, exaustiva e desinteressante versão particular da verdade. Foi longa e extenuante, se fosse mais curta seria apenas chata. Não reproduzirei aqui para não cansar o leitor. Também, seria desnecessário, é uma retórica bastante comum no meio artístico. Infelizmente, nesse dia fatídico meus neurônios não estavam propícios ao estado alfa. Ouvi, do principio ao fim. Num determinado ponto da dissertação, o tom blasée, típico dos indivíduos que se sentem enfastiados de comunicar a outros suas tramas mentais superiores, me irritou. Não foram as idéias, tenho certeza, era pura tolice, foi seu tom altivo, vaidoso e cheio de si.
Não resisti. Ao final da sua explanação o microfone voltou para a mesa e, não sei porque, pedi a palavra. Já havia falado antes, porém, a verborragia pedante do individuo funcionou como um interruptor nos meus miolos.
Disse eu:
-Sim, entendo! Segundo sua lógica, a verdade não existe. Certo?
-Sim, respondeu ele
-Bem, nesse caso, o que aconteceu com a mentira?
-Ahn!!!???
-Você nunca se colocou essa questão?
-Não!
-Então, seguindo seu raciocínio, se a verdade não existe logo a mentira também deixou de existir. Concorda?
-...!
-Seria incorreto pensar que, para você, a verdade e a mentira têm o mesmo valor?
-...!
-Nesse caso, se são iguais, nada me impede dizer, sem te ofender, é claro, que sua verdade é uma mentira.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Planta baixa dos sentidos artisticos contemporâneos

Adriano de Aquino

Termos arcaicos guardam mistérios encantadores para quem gosta da "onda" do pensamento. Uma das melhores coisas da vida é penetrar labirintos nos quais só se percebe algumas pistas quando já esta dentro dele.
Ah!Que prazer teria se as instalações fossem assim!Templos/labirínticos multi dimensionais que proporcionassem experiências únicas e estimulantes. Porém, na atualidade, os espaços míticos perderam a graça. Uma planta e indicações de percurso desviam o individuo para um trajeto projetado. Textos teóricos, miríades de citações das mais diversas correntes do pensamento moderno se fixam na entrada das instalações pós modernas. É uma espécie de mapa mental.Quase esqueci as placas de honrarias:Pavilhão Walter Benjamim;Pavilhão Merlau Ponty;Pavilhão Adorno(gostando ou não, de rituais consumistas). Seguindo as indicações curatoriais especialmente criadas em laboratório, o visitante não corre o risco de se perder, mas, também não tem nenhuma chance de achar, ou melhor, encontrar algo além da sensação de êxtase coletivo. Algo similar a um culto religioso arcaico, do qual o fiel só conhece os milagres.Na marcha, os "cordeiros" compartilham códigos, não descobertas. O fenômeno é a marcha em direção as Mona(s) Lisa(s) renascidas. Por muito menos Cristo expulsou fariseus do templo. Deus morreu para que a ciência triunfasse. Uma causa nobre, diria. Hoje, uma orda de templários Bienalicos (sic) faz o percurso da mesma forma que multidões de muçulmanos se dirigem a Meca. Celebrações coletivas. Nem Deus, nem Ciência (conhecimento) nem Arte.
Afinal, pra que?


quarta-feira, fevereiro 10, 2010

29 ª Bienal de São Paulo:Mais do mesmo!


Reedição ampliada do texto
Bienal de São Paulo: Um morto barulhento
Postado em 04/10/2006 no HiperBlog
Controvérsias reaparecem a cada nova edição da Bienal São Paulo. Elas se originam do esgotamento das formas de mostragem de arte, conceituação e modelo de gestão dos grandes eventos. Muitos afirmam que as mega-exposições há muito deixaram de ser um elo ativo entre a pluralidade das experiências estéticas e o publico. Essas opiniões coincidem com os protestos de vários grupos contra a investida mercantil sobre os produtos artísticos, associados a esse tipo de evento.
Críticos das feiras de arte e das grandes mostras internacionais focam suas ofensivas sobre os métodos do marketing cultural que enfiou turismo, antropologia, divertimento, arte e cultura num mesmo saco, melhor dizendo, num mesmo ambiente refrigerado e lacrado contra ruídos da cultura contemporânea que acontecem do lado de fora.
As grandes mostras tornaram-se paquidermes em processo de desintegração. Os curadores investem sobre o que resta de orgânico num material em decomposição.
As sucessivas mudanças artísticas, provenientes, entre outras coisas, da dinâmica da era dos meios eletrônicos, expandiram consideravelmente as formas de expressão.Qualquer pessoa minimamente informada sabe que a variedade de informações hoje disponibilizadas, produziu um enorme impacto na vida social. Acreditar que a criação artística ficou imune, protegida no casulo da genialidade criativa é tolice. Para quem enxerga para além da propaganda o que se evidencia na manutenção do velho sistema é uma estratégia que beneficia grupos de interesses mercantis e econômicos.
Porém, os curadores não vêem isso e se prontificam a salvar os restos mortais da instituição reabilitando-a como uma espécie de zumbi transglobal.
Será que acreditam poder voltar no tempo e nos surpreender, reeditando as polêmicas bienais dos anos 60 e 80?
A Bienal de Veneza de 1980, que serviu de vitrine à versão de Charles Jencks para o pós-modernismo, decretou o fim desse modelo de exposição. Essa Bienal foi o último elo de ligação efetivo das grandes mostras com as questões mais radicais da arte e que teve como resposta o entusiasmo do público.
Como esse fato histórico não é uma advertência contra a mesmice, o publico é coagido a assistir as repetições infindáveis do mesmo show, com pequenos cortes particulares. Lamentavelmente, mais medíocres.
Os cientistas, em coro com alguns artistas, acham melhor isso do que nada.
Francamente, sem querer estragar a festança nem sujar a vitrine, prefiro o nada. É mais estimulante.
Se o sopro criativo dos curadores, ou melhor, dos atuais “cientistas da criatividade” conseguisse superar os feitos do passado marcando uma diferença crucial com o sistema de arte dominante eu não seria tão incrédulo. Porém, não é o que vemos. As grandes mostras de arte da atualidade são como rituais arcaicos que orbitavam em torno dos curandeiros. Os cientistas da criatividade são hoje cultuados e temidos como os curandeiros do passado remoto. Essa nova espécie de “meteur em scene” vem perturbando o sono de muitos artistas. De um tempo para cá o mundo das artes foi envolvido numa atmosfera artificial carregada de ansiedade.
Motivos não faltam.
O mais significativo tem origem nas vertentes da vanguarda contemporânea que, ao contrario da vanguarda histórica, derreteu o outsider no insider.
As obras que não se encaixam no esquema em voga não são nem outsider nem insider, portanto, não merecem atenção dos cientistas da criatividade.
Eles não almejam apenas organizar uma mostra de arte, pretendem isso sim, precipitar-se à história.
As atitudes artísticas que antecederam os últimos trinta anos, marcadas pela transitoriedade, romperam barreiras e descortinaram conceitos, trazendo à tona novas formas de expressão. Uma enorme variedade de estilos coincidiu com a atração generalizada pelo efêmero, despindo as obras de arte das características outrora reconhecíveis como “arte burguesa”.
Porém, tais atitudes resultaram num paradoxo que parece não preocupar alguns artistas e gestores das instituições culturais. Dentre as inúmeras questões a mais aparente é a consolidação de um estilo mundial de arte inscrito nas performances, instalações, intervenções coletivas, grafites, pichações e outros gestos identificados como formas de arte mais representativas da atualidade.
Ocorre, entretanto, que tais gestos já duram mais de vinte anos, ou seja, se projetam acima da média de vida de quase todo estilo internacional de arte. A história é farta em exemplos que nos confirmam que a longa permanência de um modo de arte conduz ao esgotamento levando grande parte da produção a procedimentos quase mecânicos e a ostensiva banalidade. É inconcebível, mesmo para um leigo, que artistas, diretores e curadores desconheçam o calendário das correntes estéticas da segunda metade do século XX, quando a Bienal de São Paulo passou a existir.
Uma rápida olhada sobre a descontinuidade de estilos pode esclarecer muita coisa. A pop art que surgiu na Inglaterra de meados dos anos 50 realizou todo o seu potencial na Nova York dos anos 60. O expressionismo abstrato dominou as décadas de 1940 e 1950. O minimalismo desenvolveu-se durante os anos 50/60 etc.
É, portanto, no mínimo curioso que as diversas variantes da produção artística atual, ligadas às referencias artísticas que antecedem os anos 80, sejam tão longevas.
Além disso, a relutância da Bienal de São Paulo em permanecer surda às criticas contra a idéia de reunir obras de arte em torno de um tema (2010- Arte Política –por exemplo) é uma teimosia típica das dinastias do passado. Na edição 2006, a falta de inspiração da cientista da criatividade responsável pela organização da Bienal, a levou a se apropriar de um “mote” de outros campos do saber para conferir substancia a sua proposta de vinculação da arte a teses de antropologia cultural. Foi nesse nicho que a cientista da criatividade escolheu o titulo Como Viver Junto, inspirado nos seminários de Roland Barthes no Collège de France realizados em 1976-77. O que essa escolha nos revela? Dentre os muitos tropeços, a falta de parâmetros apropriados ao tempo presente e uma enorme incompetência frente à diversidade da produção artística da atualidade. Reflexos objetivos dessa política podem ser vistos na perda da visibilidade pública das expressões estéticas comprometidas com a tecelagem de tramas simbólicas, ou seja, narrativas. Em resumo, na sua extensão mais objetiva essa política impõe uma visão “única” da arte da atualidade.Atitude velha e comum ao autoritarismo. Seja em São Paulo, Kassel, Lisboa, Madri, Istambul ou Turquistão Oriental.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Neurônios Ágora- O lugar do afeto



-Pai, por que a obra de um artista fica mais cara depois que ele morre?
O flash de respostas automáticas para filhos estava prestes a ser disparado quando a sensação de que algo mais poderia ocorrer se eu consentisse, tomou conta dos meus sentidos. O acesso ao diálogo aparece veloz como um raio, se não for apanhado pela cauda desaparece tão rápido quanto surgiu. A Ágora, para os gregos da Era clássica, o lugar da palavra, local de múltiplas atividades onde as pessoas conversavam sem que houvesse uma voz dominante, acontece em nossa vida a todo instante sem que às vezes percebamos. Isso porque, no meu entender, a matriz de Ágora se transmutou no correr dos séculos convertendo-se num valioso patrimônio da espécie humana. Por não possuir os contornos físicos de outrora, muitas vezes o acesso aos seus domínios parece invisível. Não vamos mais para Ágora, não trilhamos os caminhos e partilhamos incidentes para chegar a ela. A Ágora se moldou em nossos neurônios e, muitas vezes, não lhe damos a devida atenção.
A pergunta do Antonio atravessava as colunas de Ágora e quase escapava em respostas pré-concebidas quando fui alertado pela enorme banalidade contida no ato de restringir as respostas a sua idade cronológica. Vencida essa premissa iniciamos o dialogo que aqui reproduzo.
_Antonio, existem várias respostas para sua pergunta. Vou me fixar em duas opções para tentar te passar como entendo sua dúvida: a primeira opção é curta e grossa e se reduz ao fato de que hoje em dia o preço das coisas se confunde com valor.

_Mas, pai, não é a mesma coisa?
_Não, valor e preço são dois fenômenos distintos. O preço das coisas está ligado a um mecanismo que reúne uma gama de fatores vinculados ao sistema produtivo e ao lucro. Esse mecanismo, fundado nas necessidades de troca de produtos e serviços entre as pessoas, deu origem a complexos conceitos econômicos no correr da historia humana. Por força do habito aprendemos a lidar com esse engenho sem saber muito bem como ele foi construído ou como funciona.Muitos pensadores esmiuçaram esse mecanismo.Um filosofo alemão elaborou uma critica a esse sistema que deu origem ao termo "mais valia",ainda hoje muito debatida. Mas, o que importa é que o poder desse sistema, a tradição arraigada, a falta de tempo ou paciência reduzem a questão para o cidadão comum a dois pólos: caro ou barato. Se for caro, porém, precisarmos ou desejarmos muito, pode-se possuí-lo através do financiamento. Mas, ainda que o financiamento altere a composição do preço falar sobre ele nos levará para longe do objetivo de nossa conversa. O fato é que a formação do preço, via de regra, se basea em procedimentos, formulários, planilhas e indicadores que circundam a rede produtiva e definem seu custo e margem de lucro. Hoje, na pratica você vivenciou o fenômeno do preço versus valor quando ficou em dúvida se comprava o livro que acabou comprando, lembra? Venceu a decisão de comprá-lo porque, gostando do que aquele escritor escreve você resolveu pagar o preço.
_Claro!Só fiquei em dúvida porque estaria com menos notas na minha carteira.
_Exatamente!E, você só comprou porque entendeu que o que aquele escritor escreve tem valor para você, já que o que está escrito numa nota de dinheiro nunca te interessou ler, não é verdade?
_É mesmo!Nem sei o que está escrito numa nota. Só vejo cor e números.
_Pois então, o preço das coisas que rodeiam nosso dia a dia só se torna complicado em circunstancias especificas, sobretudo, aquelas que, ao contrario dos produtos industriais disponibilizados no comercio, tem características únicas. Por exemplo, parte da formação do preço do livro que você comprou tem características similares a de todos os livros fabricados por todas as editoras. Porém, algo de especifico o diferencia dos demais e pode explicar uma parte da questão; seu autor. Os segmentos, industrial e comercial, de um livro são mais ou menos iguais,dependendo, é claro, da qualidade de impressão, do papel usado e demais itens que entram na fabricação e divulgação do livro. Isso significa que acolá do talento do escritor e, em diferente dimensão, o fato de que o preço que ele cobra por sua criação ser um item específico, todos os demais que formam o preço final do livro depende de métodos produtivos mais ou menos parecidos. Depois de pronto e colocado na estante das livrarias a única coisa que o diferencia dos demais, afora o preço e o volume de vendas, é a qualidade literária. Esse predicado não é adicionado a um livro pelo fato de ter bom ou mau acabamento industrial, da popularidade ou a fama do escritor. Um escritor muito famoso tende a vender mais livros que um menos reconhecido, contudo, esse fato não quer dizer que o que vende muitos livros é um escritor esplêndido, superior aos demais. Porém, a grande vendagem de um autor aumenta a quantidade de livros a serem impressos e distribuídos. Esse procedimento torna um determinado livro um objeto com maior visibilidade e, por conseqüência, mais ambicionado que outros. Mecanismos alheios a qualidade da escrita podem subitamente tornar um livro de baixa qualidade literária em best- seller atraente para o publico e lucrativo para as editoras. Contudo, nenhum desses fatores é expressão inconteste do valor de uma obra literária.
_Por que não?
_ No inicio da conversa disse que preço e valor são coisas diferentes.
_É, disse!
_Você entendeu meu comentário de como o preço se cola sobre as coisas?
_Entendi!
_O vinculo dos escritores com a indústria editorial e as formas de circulação do livro desenham a fronteira na qual o escritor ganha seu sustento. É nesse lugar onde se organiza o preço de seu trabalho. Se carecer de mais grana para viver ele terá que escrever em jornais, revistas, dar aulas ou fazer conferencias. Na maior parte dos casos, fazer tudo isso numa só vida. Isso quer dizer que o resultado econômico de seu trabalho principal, ou melhor, o preço de seu trabalho criativo, estará sempre ligado ao contrato com seu editor e a venda dos seus livros. Os escritores não produzem objetos que escorregam para uma alternativa que admita uma oscilação, para cima, dos preços praticados pelas livrarias e do qual seja o único beneficiado, Alguns exemplares de uma edição magnífica podem até se tornar raridades e,quando adquiridos por colecionadores, atingir grandes somas. Todavia, os escritores não estarão vivos ou, se estiverem, não receberão nem um tostão por isso. Espero que essas considerações sobre a formação do preço tenham sido claras.
_Entendi sim!
_Já o valor da obra de um artista independe dos fatores relacionados ao preço. Digo isso porque o valor, ao contrario do preço, é gerado dentro nós, se processa no cerne da nossa consciência e é fruto das múltiplas experiências que vivenciamos desde o nascimento. Nossa visão do mundo se reflete numa lente interior, digamos assim, que vai se ajustando à medida que vamos coletando sensações, experiências, talentos e saberes vida afora. Consciência e valor são, portanto, irmãos gêmeos, poderia dizer que são extensões de um mesmo ramo molecular. As causas externas são fatores cruciais na formação de valor de uma pessoa porque agem diretamente no desenvolvimento da própria consciência. A consciência que nos possibilita escolher o que avaliamos como precioso se expande à medida que nos emancipamos das normas herdadas, da tutela de terceiros e das fórmulas consagradas . Num sentido figurado, consciência e valor atingem melhor desempenho quando se fundem na forma de uma fita circular, sem rupturas ou emendas. No ambiente onde se desenvolve o valor/consciência a fusão preço/valor se desintegra e as doutrinas dos arautos da verdade absoluta tornam-se ecos distantes,parecidos com os gestos e berros dos feirantes. A arte, a ciência, a filosofia, a religião, a ideologia, a historia, a política e todas as abas do pensamento se acumulam num dique que chamamos cultura. Nas fissuras da parede de contenção vivem os artistas. É lá que surgem as belas e inquietantes obras de arte. Quando um artista morre um desses vazamentos se fecha. Suas obras se tornam raras e, por uma serie de razões, mais cobiçadas. Essas coisas acontecem porque a matriz que as gerou não mais existe. Como nunca sabemos o que fazer quando algo que nos abastecia deixa de existir, abrimos um gargalo automático a fim de substituir de modo simplificado nossa admiração. Então, a obra do artista morto é cultuada de diversas maneiras, dentre elas a do preço que se torna mais alto do que quando ele vivia. Eu diria que isso é nada mais que um culto onde se tenta mesclar coisas díspares a fim de transferir significado elevado para o dinheiro e dar prosseguimento a um código simples que exprime um conceito equivocado: quanto maior o preço melhor a arte. Como o ser humano é um bicho fascinado por cultos e o culto ao dinheiro hoje é soberano, essa pratica persiste. Deu pra entender?
_Um pouco, estava prestando atenção em outra coisa.

terça-feira, dezembro 22, 2009

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Brincando de Deus


Copenhagen- Segundo informa um grande jornal carioca, nessa madrugada surgiu o esboço de um documento que define em 2 graus centígrados o aumento da temperatura global. De inicio pensei que a informação havia sido produzida por algum estagiário e despachada para publicação enquanto o editor dormia. Consultei outras fontes e verifiquei que esse dado não era destaque nas demais redes. Supus, então, que o dado era pautado no estilo reality show do matutino. Mas, imaginemos que o jornal informou corretamente o que esta rolando nas reuniões em Copenhagen Bem, nesse caso, minha preocupação sobre a sobrevivência da espécie se agrava.Alguns cientistas trazem à baila um dado importante: o fenômeno climático esta sujeito a um enorme conjunto de fatores que vão da utilização inadequada dos recursos naturais, industrialização crescente e descontrolada, uso de fontes de energia suja, poluição, desmatamento, etc.(hoje abrigados na sigla CO2) até fenômenos naturais devastadores; como atividade vulcânica, deslocamento das placas tectônicas, magníficas explosões solares, altas emissões radioativas e outras atividades cósmicas. É compreensível que o homem possa intervir em fatores criados por ele, reduzindo e substituindo os meios de produção industrial convencional e a poluição gerada pelo consumo humano. Porém, suponhamos que os cientistas que criticam o conceito da maioria presente em Copenhagen estejam certos? Eles afirmam que os ciclos climáticos são fenômenos naturais poderosíssimos que submetem o planeta de tempos em tempos, a transformações radicais e sobre as quais o ser humano ou qualquer outra espécie viva, não tem poder de conversão. Bem, nesse caso, a reunião de Copenhagen deveria trazer os participantes de volta para Terra. Se o objetivo é criar um novo pacto global que redirecione os meios de produção e consumo, que isso seja claro. Lula disse que: “O Brasil não veio barganhar, nossas metas não precisam de dinheiro externo, planejamos fazer tudo com nossos recursos”. Só não disse por que o país não consegue ter até hoje uma rede sanitária minimamente civilizada que beneficie todos os brasileiros. Certamente, ele entende que isso é culpa do FHC. Tudo bem, em parte ele tem razão, o país esta atolado historicamente em sujeiras. De sua fala uma citação merece destaque: “Eu acredito em milagres”. Até agora foi o único presidente que humildemente, coisa rara no personagem, entregou a Deus o destino climático do planeta.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Estamos salvos!

Copenhagen- A reunião de ontem tranqüilizou o planeta. Sobretudo os banqueiros e financistas que aguardavam ansiosos os novos acessos ao lucro.Felizes ficaram por saber que seu dinheiro não vai virar CO2.Ja o nosso! Preparem-se, o ar condicionado brasileiro custará a bagatela de US$160 bilhões, incluindo instalação, comissões, jetons e as boquinhas de praxe.
Se essa montanha de dinheiro fosse investida em cérebros e desenvolvimento humano certamente, em 2020, o Brasil respiraria melhor. Porém, o poder de convencimento do profeta Al Gore, escorado por fundamentos econômicos muito sólidos, arrastou para a platéia de seu filme uma horda de poderosos bem intencionados. Estamos salvos! Também, pudera, com esse custo é possível até nascer de novo.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

O músculo mais forte do corpo humano é a lingua


Ontem,retornando de viagem, resolvi dar inicio a um pacto de convivência pacifica comigo mesmo.De cara me impus uma dieta preparatória para a convenção secular do “Ano Novo,vida nova”.Fucei meus hábitos e entre as coisas mais nocivas em minha dieta diária identifiquei  uma que pede providencias urgentes:descartar,no período festivo, o consumo excessivo de informações produzidas pela industria da comunicação. Com os fatos que brotam diariamente em Brasilia essa decisão é difícil de ser cumprida.Naquelas plagas a fartura de infos industrializadas é gigantesca, quando vou para lá carrego um bom suprimento literário.O  livro O Artífice de Richard Sennett é um alimento rico e nutritivo que me manteve bem alimentado durante parte de minha estadia. Contudo,os amigos que la estavam me relatavam os episódios da politica local .Como sou escravo de uma mórbida curiosidade por fenômenos grotescos, acabava abandonando a saborosa leitura e ligando a TV, o mais poderoso ícone da fast info indigesta. Nesses momentos o pico de colesterol nocivo  espalha pelo  organismo desencadeando uma reação física e mental desconfortável prostrando o individuo na cama do hotel com os olhos vidrados no espetáculo da noticia. Sei que isso engorda e não traz nenhum beneficio para saúde.Sou obrigado a reconhecer que o marketing dos maitres da noticia é muito poderoso. Em todos os canais de noticia a “piece de resistence” do momento é O Aquecimento Global.Ha algum tempo uma unica vertente de opinião sobre o fenômeno climático é disponibilizada pelos fornecedores de fast info. Essa fantástica convergência merece,no minimo, uma reflexão mais aprofundada do consumidor de noticia.
No menu nacional a tradição impera. Os pratos mais requisitados são sempre os mesmos.Todos de reconhecida toxidade :Tornedor a la Temer, Tostado de Arruda, MST provençal, Mexilhões ao estudante rebelado,Arrumadinhos do Senado,Posta de Sarney fessandée,Pizza de CPIs, Lula a la Maitre d’hotel. No menu internacional : Cosidos a la Ahmadinejad, Al Gore gratinado etc.Esses pratos, temperados ao gosto do chef de edição, interferem consideravelmente na digestão do consumidor.
Um sinal de alerta me induzia alcançar a mesa onde repousava meu EEBook.Se conseguisse, poderia acessar outras fontes.Reuni forças e abri as páginas virtuais. Penetrei na blogosfera e respirei aliviado ao dar de cara com delicioso artigo de Ivan Lessa- Caetano Veloso e outras curiosidades- no site da BBC, que coloca,qual um Diderot contemporâneo, a influência dos almanaques na formação da minha geração.Se a Enciclopédia de Diderot foi um passo importante em direção ao Iluminismo,porque não admitir que o Almanaque tenha surtido grande efeito na formação da geração pós segunda grande guerra?Num viés diferente,raso e muito objetivo, a cultura dos Almanaques mostra sua potencia na forma de atuação de alguns ícones da pós-modernidade. O grupo de cientistas e intelectuais que contribuíram com Diderot na elaboração da Enciclopédia (aqui Sennett entra na discussão) “pautavam pelo método de experimentação e erro.(...)esse processo seguia um caminho que ia dos muitos erros para número de erros menor,num constante e progressivo aperfeiçoamento através da experiência..(...)”Faça-se aprendiz e produza maus resultados para tornar-se capaz de ensinar aos outros como produzir bons resultados”.Os maus resultados induzirão as pessoas a raciocinar com mais afinco,e assim melhorar.”
Para os companheiros de Diderot, os criadores do Almanaque  
seriam figuras antagônicas   
antagônicas dado que seus verbetes são afirmações peremptórias de verdades inúteis e, maior parte das vezes, inócuas para a formação de um sentido critico sobre si próprio.Porém,é aceitável a ideia de que a cultura do Almanaque consolidou o mito do marketing.
Em síntese: qualquer coisa,objeto ou ideia,independentemente de seu valor intrínseco  tem um preço e comprador certo.
Lessa nos lembra em seu artigo que a controvérsia provocada por Caetano Veloso na entrevista em que chamou o presidente Lula de “analfabeto”, “cafona” e “grosseiro” era um instrumento dessa lógica com objetivo de nos assegurar uma coisa: vem aí lançamento de show, disco ou DVD dele mesmo.
Entre outras curiosidades, Lessa informa que Almanaque divulgou uma pesquisa, sem referências precisas, que conclui: “O músculo mais forte do corpo humano é a língua”.
Depois dessa deliciosa passagem visitei as paginas do Facebook,Twitter e blogs e me voltou a sensação de que o sabor das palavras e das idéias é alimento melhor digerido por consumidor exigente.
postado eeBook Adriano de Aquino

terça-feira, dezembro 15, 2009

A grande farsa do Aquecimento Global 1

O maciço fluxo de informações "quentes" sobre a agenda de Copenhagen (acompanhe debate ao vivo na CNN/ YT com Kofi Anana,Thomas Friedman,somado a milhares de artigos ja produziram um consideravel "congelamento" de ideias.O aquecimento global tornou-se unanimidade global.Nessas horas é bom pensar que nem tudo está tão gelado.Existem opiniões bem fundamentadas que contestam o aquecimento. Postar de novo esse video é uma forma de retardar o derretimento mental.

sábado, dezembro 05, 2009

Oscar versus Al Gore e os achaques da imprensa


O cenário pronto,os detalhes da produção ajustados para a entrada retumbante do super eco man Al Gore.
Um telão fantástico, ferramentas virtuais de ponta e o ancora do show de auditório O aquecimento global abre a tabula rasa do novo milênio: "Uma verdade inconveniente"
O filme foi um sucesso, rendeu milhões de dólares de bilheteria, abocanhou vários prêmios, inclusive um Oscar, agora contestado por dois membros da academia. Esse fato passaria distante das manchetes não fosse o assanhamento de uma corrente do jornalismo que posiciona na direita toda contestação aos “movimentos unânimes”, projetados em laboratório por grupos poderosos e influentes. Assim impresso,todo aquele que contesta, seja cientificamente, politicamente ou economicamente a “verdade inconveniente” é automaticamente fichado como membro ativo da direita. O imaginário popular é afetado, em grande parte, pelos achaques da imprensa. Al Gore, no papel de Noé da “esquerda”, tornou-se o apóstolo do aquecimento global. Amparado por forte esquema empresarial, uma produção de imagem impecável e blindado pela imprensa, Al Gore, o homem verdade, representa o BEM. Os autores de sérios trabalhos científicos contra o consenso do aquecimento global, os depoimentos de políticos envolvidos com a maquinação da “farsa” climática, bolada na Inglaterra dos anos Thatcher, se tornaram invisíveis, representam o MAL para a grande imprensa. Qualquer voz dissonante se tornou uma peça do discurso da direita. Ideologia! É isso que importa. Conhecimento e questionamentos tornaram-se, de um tempo para cá, um empecilho ao grande projeto da nova ordem global.
“Uma manobra da “direita”. Esse é o viés da matéria que divulgou o argumento dos dois membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que pediram que o Oscar concedido ao documentário "Uma verdade inconveniente", de Al Gore, seja retirado. O argumento dos membros da academia que contestam o prêmio concedido ao documentário que se baseia em afirmações sobre o clima que, segundo eles, estariam erradas, não tem nenhuma importância. A matéria nem ao menos pergunta o que estaria errado nas afirmações de Al Gore. Apenas registra que os membros da Academia de Hollywood são ligados a “direita” e se basearam no fato de que cientistas da uma universidade inglesa revelaram ter manipulado dados sobre o aquecimento global. Essa denúncia veio à tona em meados de novembro, depois que hackers roubaram milhares de emails de cientistas de clima que sugerem que houve manipulação de dados.
Quem assistiu ao documentário A Farsa do Aquecimento Global, produzido pela BBC (postado no You Tube) e que passou quase despercebido pelo grande publico, teve oportunidade de conhecer as opiniões bem embasadas de varias personalidades cientificas e políticas que contestam os argumentos expostos como “verdade” por Al Gore. Curioso é que nenhum canal de televisão nos EUA e na America Latina exibiram o documentário.
O espetáculo não pode parar sob o risco de o dinheiro mudar de destino. Por isso o diretor do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC, na sigla em inglês), Rajendra Pachauri, disse que o caso de East Anglia( a instituição envolvida na denuncia) deve ser investigado para que "nada fique sob o tapete". Pachauri, no entanto, disse que mesmo que tenha havido manipulação na universidade isso não muda em nada o conhecimento que se tem sobre o aquecimento global.
Quando o dinheiro é grande, manipulação se torna uma VIRTUDE.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

Como? Poder atômico para todos?


Ontem, no encontro com a chanceler da Alemanha Ângela Merkel, Lula se embaralhou todo ao tentar desenrolar do cérebro um conceito complexo sobre a ambição nuclear iraniana. Antes, a dirigente alemã lembrou que está tentando negociar a questão nuclear com o Irã há quatro anos, sem sucesso, e que a paciência está se esgotando.Sua fala refletia o que já começa a ser um consenso na União Européia — até a Rússia e a China votaram a favor da censura ao Irã na AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica). Na sua vez de falar, Lula ponderou:- “O melhor é acreditarmos nas negociações e termos muita paciência. E eu espero que aconteça o melhor, sabe? Que não tenha arma nuclear no Irã, que não se tenha arma nuclear em nenhum país do mundo…”
Após a calma introdução Lula se empolgou, elevou o tom e deu assas a sua habitual confusão mental. A gravidade do assunto requer muita prudência, não é um tema para exibição de demagogia populista. Quando a tradução simultânea despertou a chanceler alemã da lenga lenga lulista Ângela Merkel tirou os olhos de Lula e vagou pela audiência,por vezes mirando o chão enquanto Lula,entusiasmado com o que falava, apontado os dois indicadores para Merkel,mandou sua mensagem: “e que os Estados Unidos desativem as suas [bombas], que a Rússia desative as suas, porque a autoridade moral para a gente pedir para os outros não terem é a gente também não ter”.
Realmente!O cérebro de Lula não vislumbra as conseqüências de suas falas. Ele deve crer que o desarmamento nuclear das potencias seria um fato “milagroso” prontamente correspondido pelas nações que hoje desenvolvem um programa nuclear, como a Coréia do Norte e o Irã. Ele deve ter pensado também no plano de desarmamento elaborado por Rubem Cezar e seu Vivo Rio, que gastou milhões de reais num plebiscito que em nada contribui para redução da violência no país. Ao contrario, indicadores revelam um crescimento acentuado do trafico de armas e de crimes.
O pior de tudo na fala de Lula foi o desconhecimento inaceitável de um fato polemico. Em 1975 o Brasil firmou um acordo nuclear com a Alemanha. O acordo determinava transferência de tecnologia e construção de nove usinas nucleares, administradas pela Nuclebrás. Na ocasião os países do hemisfério sul protestaram contra a pretensão atômica dos generais que governavam com mão de ferro o país. É impressionante que os ativistas diplomáticos; Marco Aurélio Garcia e seu subordinado direto Celso Amorim não alertaram Lula para a fortíssima oposição do governo dos Estados Unidos contra o projeto atômico brasileiro. Vejam que naquela ocasião a posição do governo militar foi mais dura,objetiva e determinante contra os opositores do programa brasileiro do que os anúncios inócuos e disparatados de Lula a favor do projeto nuclear (pasmem) do Irã. Em 1977, a posição brasileira em defesa do projeto nuclear se acirrou a tal ponto,dizem alguns, que levou a ditadura a romper o Acordo Militar Brasil - Estados Unidos. Perto desse episodio desafiador as intenções do lado “esquerdo” do cérebro de Lula dão margem a especulações sobre sua simpatia com a escalada nuclear do Irã. Sem duvida trata-se de uma confusão mental temerária e inconseqüente.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Rupert Murdoch: "O bom jornalismo é uma commodity cara"


Na blogosfera, até ontem, o acesso a informação jornalistica era gratuito. É sempre a mesma choradeira quando frente a crise o dinheiro escapa do bolso dos poderosos.Discutir as diversas razões do problema por que passa o sistema de comunicação vem sendo assunto tratado em profundidade por jornalistas serios e comprometidos eticamente com a atividade que desempenham.Empresarios,na sua grande maioria,passam ao largo das inumeras questões que a provocaram e focam na sangria financeira,se distanciando gradativamente de uma solução compativel com a dinamica da informação nos dias atuais.A urgencia de solução economica é compreensivel,contudo, é uma ilusão acreditar que os sites de busca são os motores da crise que atravanca o retorno de leitores e anunciantes aos jornais e revistas. O fato é que, diante das múltiplas possibilidades de acesso à informação hoje disponiveis,as grandes empresas foram encurraladas entre a reinvenção e a recessão.Não me agrada a ideia de que a crise leve a gradual demissão de bons profissionais e a extinção de jornais e revistas.Porém,também não sou simpatico a tendencia de sempre se achar um “diabo” responsavel pelo problema. O diabo da vez se chama Google. Imaginem uma mesa repleta de “anjinhos” gestores das megas empresas de comunicação vociferando para espantar o demônio de suas contabilidades. Depois de muitas noites sem dormir,o papa Murdoch chegou a conclusão que mesmo a união das grandes empresas jornalísticas enfrentaria dificuldades para encurralar o Google e desviar o interesse dos internautas para "o bom jornalismo".Um fato incontestavel é que muitos internautas optaram por novos recursos de acesso a informação porque ja estavam esgotados de pagar por um enorme volume de papel impresso com publicidade só para lerem as noticias do dia.Todavia,para Murdoch, o maior produtor de commodity jornalística do mundo, a crise é culpa do Google.Para dar uma dimensão mais ampla a sua cruzada Murdoch se aliou ao arquiinimigo do Google: Bill Gates. Ora, não é novidade para ninguém que a Microsoft há muito deseja reduzir a expansão do Google. Bing, o “site de busca” da Microsoft, mesmo com todo dinheiro investido, não consegue sair da posição de “site perdido”. Elevar o Bing a posição de concorrente do Google é um dos sonhos de Gates. Não creio que a Microsoft se interesse como Murdoch, em proteger a commodity jornalística. Se o Bing estivesse em posição confortável estaria lutando com todos os argumentos contra imposições dos meios tradicionais de comunicação a limitação do livre transito de informações na internet. Ainda que o assunto seja polemico, o Google resolveu encurtar a discussão aceitando que as empresas jornalísticas que trabalham com conteúdo pago limitem o número de artigos gratuitos que poderão ser acessados por internautas utilizando sua ferramenta de busca. A concessão segue diversas críticas de empresas de mídia em relação às práticas do Google - principalmente a News Corp, de Rupert Murdoch - que argumenta que o gigante da internet lucra dando acesso a sites de notícias. Josh Cohen diretor de produtos do Google disse que a companhia atualizou seu programa "Primeiro Clique Grátis" (First Click Free) para que editores possam limitar o acesso a seus artigos a não mais de cinco por dia. Após esse número, o usuário precisaria se registrar ou pagar uma assinatura pelo produto. "Se você é um usuário do Google, pode ser que comece a ver páginas de registro quando clicar mais de cinco vezes nos artigos de um mesmo site de notícias que usa o "Primeiro Clique Grátis", disse Cohen.O Google News é um serviço que agrega notícias da maioria dos sites jornalísticos do mundo, permitindo uma busca rápida e objetiva. O site fornece títulos e resumos das notícias, com links para o conteúdo original. Vencido essa etapa e alegre da vida Murdoch disse que as empresas deveriam cobrar por conteúdo e proibir agregadores de notícias como o Google de "se alimentar dos duros esforços e investimentos alheios". Espero,porém não creio, que essas providencias salvem as empresas jornalísticas da crise que vivenciam.