domingo, fevereiro 19, 2012

Pérolas & Porcos


Produzir bens duráveis,gerar conforto e suprir as demandas de consumo são itens  que se tornaram imprescindíveis à vida contemporânea.  Cada dia que passa aumenta o arsenal de produtos disponíveis no mercado. Com isso o refugo se amplia enormemente e as técnicas de descarte não conseguem acompanhar o ritmo. Nos paises mais ricos esse contraste se agrava a cada dia,nos paises pobres, onde o consumo é mais reduzido,o problema também é grande e  não pode ser desprezado. Até que as campanhas de reciclagem surtam efeitos concretos e a cultura da seleção criteriosa e o tratamento correto dos dejetos se torne uma realidade seremos obrigados a conviver lado a lado com as pocilgas.Além disso,a tendencia em acumular novos problemas sem solucionar problemas do passado é uma  característica humana a ser considerada.Desde o lançamento do Sputnik -o primeiro objeto a entrar em órbita em 1957 - a evolução tecnológica permitiu que naves, foguetes e outras centenas de satélites explorassem o espaço tranquilamente.Atualmente, cerca de 17.000 destroços com mais de 10 centímetros giram em torno da Terra. Por volta do dia 20/09/2011,  a Nasa informou que um satélite americano desativado de 6,3 toneladas ingressou  na atmosfera terrestre e se desintegrou, provavelmente sobre o oceano Pacífico, no oeste dos Estados Unidos.A agencia não sabe exatamente aonde caíram os destroços.Tempos atras um satélite russo colidiu com outro americano. Esses fatos reacenderam  o debate sobre os riscos do acúmulo de lixo espacial para quem vive aqui embaixo. Os avanços do conhecimento humano não tem preço mas, enquanto os buracos negros não provem o contrario, a vida humana sobre o planeta é um fenomeno precioso que merece ser preservado.Quando medidas concretas serão efetivamente aplicadas? Para quem vive aqui embaixo é uma incógnita.  
Adriano De Aquino

terça-feira, fevereiro 14, 2012

Faíscas civilizatórias



Adriano de Aquino
fevereiro de 2012
A importância da internet e das redes sociais na vida contemporânea transcende os recursos técnicos e o seu alcance global. Tanto isso é um fato que o físico Michio Kaku e o biólogo da evolução Mark Pagel divergem radicalmente sobre aspectos do sistema que em certa medida, são invisíveis aos milhões de usuários da rede mundial de computadores. O único ponto que os dois têm em comum é o fato de que estamos vivenciando um importante processo de transição cultural. No resto, é só confrontação. Ótimo que esse confronto de ideias ocorra à luz dos refletores e não no ambiente fechado dos titulares e doutos em alta especialização sobre temas complexos da atualidade.
Concordo.Não ha duvida de que estamos no limiar de uma nova cultura. A ponta visível dessa nova cultura é extremamente atraente e sedutora. Ela oferece ao público sistemas complexos de processamento de dados em meio à transição da metodologia analógica para a digital. Se isso já é, em si, um mega desafio, acrescente-se o fato de que ao mesmo tempo processa-se a substituição de plataformas tecnológicas. Tudo de modo rápido, direto, ultra eficiente e quase imperceptível para o usuário. Os novos desenhos de produtos motivados por essa indústria se sucedem velozmente. Quase todo dia novos equipamentos, cada vez mais velozes e fáceis de operar, surgem nas vitrines. Além disso, numa rápida olhada, a cultura digital é pródiga em facilidades. Nela os meios e os fins cabem na palma da mão e são sensíveis ao toque dos dedos. É claro que além da utilidade e beleza dos objetos, os preços praticados pela indústria eletrônica de ponta é cada dia mais acessível a uma maior gama de  consumidores.Um fator preponderante para o sucesso desse setor é que esse meio de comunicação encurta a distancia não apenas entre amigos e serviços, mas,também, entre o individuo, os fatos e as celebridades, em tempo real, mundo afora.O brilhantismo ou deslize de um personagem político e a gafe de uma celebridade podem ser rapidamente compartilhados por milhares de seguidores. Essa maravilha da comunicação em rede dá ao usuário a sensação de que todos que transitam no ciberespaço são protagonistas dos fatos mais importantes da atualidade o que, inexplicavelmente, lhes confere uma espécie de poder de desviar consciências e alterar a realidade. Centenas de Viral Vídeo Chart em prol da democracia na Síria, posts sobre os resultados do último Grammy, álbuns de fotos de amigos da juventude 'quando o mundo era muito melhor', copy/paste de matérias jornalísticas, textos, trechos bíblicos, filosóficos, manifestos políticos, etcetera, transitam na rede num tal volume de dados que seria possível montar uma biblioteca de Alexandria a cada 24 horas.  As redes sociais despertaram milhares de ativistas políticos que transferiram a velha pratica dos comícios relâmpagos para o ambiente cibernético onde conclamam o povo a aderir as mais variadas formas de ação política e,em casos mais prosaicos, a uma salvadora orientação espiritual em prol do sucesso pessoal,rumo a felicidade, através da devoção cibernética a Deus.Contudo, os aplicativos das redes sociais servem, de fato, às trocas de ideias,talentos,fatos e mexericos na esfera virtual. Os posts e comentários são curtidos em alguns casos, apenas por uma dezena de amigos. Ver mais que isso é cultivar a esperança no surgimento de uma nova utopia. Uma utopia virtual que se disseminaria por entre postagens, conclamando a participação do internauta em causas libertarias que empolgam multidões, ultimam revoluções vitoriosas e propõe libertar presos políticos na China, em Cuba e nos mais remotos cantos do planeta onde grassa a opressão.
Michio Kaku é um entusiasta da internet e das redes sociais. Ele está agora no Brasil participando de alguns eventos no Campus Party. Ontem, numa entrevista ao site de VEJA ele se revelou um adepto da transformação que vem sendo propiciada pela internet. Na ocasião chegou a afirmar que o destino do Facebook é crescer e que seu papel na sociedade é o mesmo exercido pela fogueira ao longo do processo civilizatório: "se, no passado, o ser humano se reunia em torno do fogo para contar e ouvir histórias, hoje, as pessoas usam a plataforma para compartilhar o que sabem e se informar. Ainda trocamos informações sobre quem fez o quê, quem está se destacando, quem está seguindo tendências, quem está se envolvendo em escândalos".
Mark Pagel,ao contrario de Michio Kaku,acredita que estamos sendo amansados por grandes coisas sociais que acontecem na Internet, como o Facebook. Segundo ele estamos sendo domesticados por esses meios e, com isso, dia a dia, exigimos menos de nós mesmos e abandonamos aos poucos a inovação para sobreviver.
Embates dessa natureza não ilustram apenas a adaptação e o desempenho operacional das pessoas frente às novas tecnologias. Eles dizem muito mais que isso, pois, é do confronto de ideias que nos habilitamos a inserir as nossas duvidas no fluxo dos litígios que movem o processo de transformação cultural. A história nos alerta que negar enfaticamente ou aceitar passivamente as novas tendências artísticas, culturais e comportamentais não é sinal de acuidade intelectual ou argúcia pragmática. Ainda que os extremos delineiem territórios inconciliáveis que nos demanda esforço de compreensão, é no bojo do confronto entre os extremos que se move o processo de inovação cultural. As inovações tecnológicas criam ferramentas e protocolos, porém, sozinhas, não consolidam transformações culturais. Olhar com desdém as partes do jogo em curso pode parecer uma atitude de superioridade cultural fundada num passado glorioso, mas, de fato, nada mais é que um modo ingênuo de encarar as contradições mais importantes do nosso tempo.
O protagonismo é uma ação consciente. Ao contrario das reações intempestivas é o protagonismo atuante que nos leva a refletir sobre as forças em jogo e nos permite olhar para dentro das áreas cinzentas de uma proposta, colocando, frente a frente, as ideias e métodos das diversas correntes do pensamento. É essa conjetura que faz da cultura um foco determinante tanto no plano econômico como político.
No meu entender o protagonismo é mais influente quanto mais se manifesta em atitudes e ações respaldadas em ideias originais, advindas da reflexão criteriosa sobre aspectos plurais das questões em jogo. Afinal, a gênese da inovação não é monopólio de um só pensador.   
O embate entre o entusiasta Michio e o pessimista Mark Pagel não é confronto destinado apenas aos especialistas. Ele é tão importante que deveria ser configurado como videogame e baixado gratuitamente.





sexta-feira, dezembro 23, 2011

sábado, novembro 19, 2011

A aflição do novo


Adriano de Aquino
novembro de 2011

Parecer novo é a mais nova aflição da atualidade.
Excitante mundo novo, vida nova, tudo novo. Seria surpreendente se esse aforismo refletisse uma tendência generalizada, entretanto, aceitar o novo não é uma disposição tão consensual quanto gostariam os especialistas do marketing e da publicidade. Ele é cercado de dúvidas e indagações. Por um lado é estimulante, por outro, é suspeito e assombroso. O novo versus o velho é um duelo constante em nossa vida intima e afetiva e nas nossas mais importantes escolhas. Ainda que eu não pretenda divagar sobre os aspectos mais densos desse conceito, ao tocar no assunto acabo aproximando de algo que, ainda que não percebamos com clareza, nos mobiliza todos os dias.
Para ir direto ao objetivo, ou melhor, ao ponto que pretendo abordar nesse texto, afastarei a tentação de divagar sobre as investidas contemporâneas recorrendo a três citações admiráveis que expõem com mestria a complexidade da matéria:
A primeira de Brecht: Alegrem-se com o Novo, envergonhem-se do Velho!
A segunda de Charles Olson: O que não muda é a vontade de mudar.
Devo acrescentar que minhas considerações, ainda que não toquem em contextos filosóficos, tangenciam despretensiosamente as fronteiras da reflexão existencial.
O que nos vem à mente diante da questão: as mudanças que acontecem em toda parte podem ser apreendidas como um novo paradigma sócio cultural? 
Parte da resposta advém do impasse diante da nossa atitude em favor do novo. Em alguns casos, interagir com o novo pode ser relegado a um segundo plano e lá permanecer resguardado até que ele se torne habitual e seu impacto seja neutralizado por força do tempo e do imperativo de adaptação. Por outro lado, a aceitação instantânea, que nada questiona, também não é um passo decisivo em direção ao novo.
A astúcia do relativismo cultural serviu durante um período como um fator desestruturante do longo predomínio das ideologias sobre o pensamento. Nesse aspecto teve um efeito curiosamente objetivo que permitiu descortinar novas perspectivas intelectuais há muito tempo recalcadas. Contudo, ao sedimentar-se como regra deixou de ser uma alternativa dialética para se tornar uma fórmula fácil, adaptável a qualquer circunstancia. Hoje, é o cabeçalho da contemporaneidade, lamentavelmente, perdeu o viço e a graça que tinha na sua origem nitszchiana.
Niezstche, Freud e Marx, considerados pilares da modernidade desvendaram, cada um a seu modo, um novo mundo. Suas idéias atravessaram grande parte do século passado e ainda são referencias ao pensamento contemporâneo. Todavia, o pensamento científico desbravou outras fronteiras do conhecimento. Uma nova cultura, aparentemente mais tecnicista e pragmática, confrontou as bases do humanismo clássico e se espraiou pela sociedade.   
A limitada difusão cientifica de meados do século passado deu lugar a um protagonismo mais atuante. Hoje, pode-se dizer; já estamos acomodados e convivemos bem com avanços científicos. Os avanços das tecnologias da informação, por exemplo, se tornaram tão rotineiros que mesmo um menino de dez anos em alguns minutos se habilita a interatuar com programas difíceis e compartilha infos na rede global de computadores. Se perguntarmos se ele sabe o que está operando, se ele conhece o sistema e as entranhas da máquina, certamente teremos como resposta um não.
Todavia, ainda que convivamos superficialmente com as mais inquietantes tecnologias do século XXI, como a informática, a transferência em rede de dados digitais, a robótica, a engenharia genética e a nanotecnologia podemos intuir o quanto o conhecimento científico e o desenvolvimento tecnológico têm agido e transformado nossos hábitos cotidianos e nossas vidas.
A utilização das mídias digitais ao mesmo tempo em que interage com todas as modalidades do fazer, se destaca de todos os demais itens, serviços e produtos hoje disponibilizados no mundo.
Pode-se dizer que os artefatos digitais e os recursos da rede global são, em síntese, o que há de novo na atualidade.  
Talvez porque, no correr da historia muitas possibilidades do novo acabaram se parecendo com nada, ou pior, se revelaram idéias 'geniais' que findaram em preconceitos, perseguições, mais restrições, controle social e guerras. Em casos menos graves, em desígnios pouco substantivos que resultaram em novas convenções. A precaução de algumas pessoas, às vezes exagerada, os leva a questionar o valor real dessas tecnologias digitais para os avanços humanitários.  
Porém, esses não são motivos fortes o bastante para nos colocar em posição antagônica a tudo que é novo. Ao contrario, é uma boa oportunidade para avaliarmos as muitas possibilidades que o novo nos apresenta.   
Não compartilho da empolgação consumista pela gigantesca oferta de novas tecnologias. Porém, o fato é que o novo tem se manifestado através desses meios. Impossível contestar. O que antes cabia aos movimentos políticos, estéticos, artísticos, ao saber canonizado, à indústria e ao arsenal de bens, serviços e produtos de uso corrente nas sociedades modernas, hoje, se agrupa em torno da tecnologia digital. Essas tecnologias não são as responsáveis exclusivas por todas as transformações que atravessamos, contudo, me pergunto; sem elas tais mudanças seriam possíveis?
Entendo que uma resposta rápida a essa questão reduziria as propriedades dessa nova modalidade de saber e comunicação e limitaria muito as nossas especulações sobre a complexidade das experiências humanas.
Desde episódios triviais do convivo entre pessoas reclusas numa casa, transmitida em rede, até multidões que se manifestam contra regimes autoritários, passando pela vida dos astros da mais valia em justaposição aos seres desprovidos de recursos mínimos de sobrevivência, o que se confirma, dia a dia, é que todos, celebridades e anônimos, se tornaram atores de um tempo distinguido pela transversalidade das novas tecnologias.
Como uma folha em branco, elas aceitam qualquer esboço. Divulgam e compartilham, sem restrições ideológicas, religiosas etc. uma volume colossal de informações. Vimos recentemente, revoluções, fatos, desgraças e sucessos serem transmitidos para a rede global a partir de um celular.
O que antes estava circunscrito aos órgãos de imprensa, rádio e TV, ao gosto dos editores e limitados pela mobilidade, senso de oportunidade, foco jornalístico, interesses políticos, econômicos e empresariais, hoje, está disponibilizado na palma das mãos. É leve, veloz e, de certa forma, onipresente.
Um telefone celular é uma estação multifuncional pronta para transmitir um fato de forma direta, quer dizer, na sua conformação real, no momento em que acontece. 
Por esse prisma, a velha fábula da força do individuo contra o esmagador poder do sistema ganhou outro contorno. O mito da célula que converte o todo ganhou vida própria e reacendeu a chama do imaginário humano. Curiosamente, isso aconteceu na ultima década. Década essa reconhecida como um período dominado pelo pragmatismo. Se isso não configura em si uma mudança, confirma que o processo é agora inexorável.
Conectado às redes móveis em status de acessibilidade, transferindo velozmente voz e dados e sintonizado no ciberespaço, o celular tornou-se uma ferramenta poderosíssima, seja nas vielas da Rocinha, nos esgotos de Sirta, nos arranha - céus nova-iorquinos, nas festas, nos combates, nas cerimônias de batismo, crimes, sepultamentos,poemas,sons,cores e formas.
Nos primórdios dessa tecnologia eu supunha que os melhoramentos eram de caráter pessoal. Tratava-se, então, de mais um confortável utilitário da vida moderna que, dispensando fios e artefatos físicos confinados a um ponto, nos conectava com o mundo através das ondas eletromagnéticas de transmissão bidirecional de voz e dados.
A aparência do novo que se esconde nesse ultimo parágrafo, estreita o ciclo que nutre a aflição diante do novo na medida em que o dilui entre as coisas imediatas, visíveis e materiais. Ao atinarmos que o novo exige de nós uma atitude em sua direção, a aflição se dissipa e nos tornamos contemporâneos.
A terceira citação desse texto é de Giorgio Agamben e fala do tempo onde o novo se aloca: Contemporâneo é aquele que tem o olhar fixo no seu tempo, para nele se aperceber não das luzes, mas da escuridão. 



                                 






 



domingo, novembro 06, 2011

Quanto pesa uma biblioteca?


Quando penso em mudar meus livros de lugar logo aparece o problema que envolve embalagem,tranporte e acomodação. Quem gosta e dá valor aos livros se preocupa em conserva-los bem,ter uma boa estante que facilite as consultas e suficientemente robusta para  suportar seu peso.
Se na escala pessoal isso ja é um problema,imaginem nas grandes bibliotecas públicas mundo afora. Toneladas de livros são publicados todos os anos,além,claro, de outras publicações que precisamos ou gostamos de guardar. Afinal, os livros tem um "peso".Um peso que se estende  em diversas dimensões  e que não gostariamos de perder.     
Como preservar o acesso aos livros, reduzir seu peso fisico sem a perda experimental que a leitura proporciona? Eu me incluo entre as pessoas que apreciam o livro como um objeto de transferencia imprescindivel no jogo entre a obra e o leitor. Porém, é inegavel que seu custo industrial, recursos,matéria prima e sistema de distribuição o encarecem consideravelmente. Nesse sentido, o "peso" de um livro se estende para além das  minhas escolhas pessoais .Por outro lado, a internet vem  ampliando o acesso à leitura de livros,textos,escrituras,imagens e etc.
Curiosamente, nunca me perguntei quanto essa transferencia significa.Alguma vez você já se perguntou  quanto pesa a Internet?
Afinal, a Internet é enorme. Mas, a maioria das pessoas assume que a Internet, está ao nosso redor, é imponderável e chega a qualquer lugar na velocidade da luz. E luz, é um elemento que não tem um peso facil de medir.

A surpresa é que não! De acordo com Michael de Vsauce, teoricamente a Internet pesa alguma coisa,ou melhor,tanto quanto um morango de 50gr.
Michael diz que, de acordo com Russell Seitz, a Internet pesa 50 gramas. O que explica 50 gramas de massa da Internet? De acordo com Vsauce, "a informação é armazenada em binários que existem fisicamente porque os elétrons que carregam os transistores portam uma carga flutuante. Isso porque os elétrons têm massa. "Em outras palavras, eles pesam alguma coisa, embora seja uma quantidade muito pequena pode ser quantificada  em aproximadamente 50 gramas."
Russell Seitz diz  que chegou ao resultado de  50 gramas baseado nos 75-100000000 servidores que operam para fazer funcionar a Internet. Mas quanto é que as informações na internet pesam? De acordo com Vsauce, menos ainda que 50gr. Michael informa que  os relatórios que reunem todas as informações contidas na Internet  pesam apenas 0,2 milionésimos de uma onça, algo próximo a um grão de areia.
Isso significa que nas prais do conhecimento existem zilhões de  grãos disponiveis.
Confiram  no vídeo abaixo os argumentos de Vsauce.


sexta-feira, outubro 21, 2011

Pêsames ao desvario pós humano




Assistir nos noticiários os vídeos do linchamento de Kadafi, entremeado por discursos dos líderes mundiais que celebraram sua execução, confirmou minhas piores expectativas para o futuro. Do futuro não apenas da Líbia, mas, dos valores elementares da civilização.
As declarações de Obama, Sarkozy e Cameron, líderes de três poderosas nações do Ocidente são ofensivas, covardes e criminosas.
Até os ratos dos esgotos de Sirtia, cidade natal e ultimo refugio de Kadafi, ficaram espantados diante da violência da execução sumaria do ditador.
Entretanto, seres pós - humanos, supostamente sensatos, qual milicianos em festa, procederam de forma deplorável. Só faltou, após os discursos, saírem atirando pro ar celebrando uma manifestação de extrema brutalidade como se fosse um ato de justiça.
A morte de Kadafi não foi um ato de justiça, foi um assassinato.
Muito antes do conflito dos últimos oito meses eu já torcia para resistência rebelde
líbia destituir Kadafi do poder e dar inicio a uma nova etapa política, regida pela democracia e pelo estado de direito que trouxesse alegria e prosperidade para o povo daquele país.
Temia que as forças em jogo tendessem para soluções extremas como a adotada na morte e desaparecimento dos restos mortais de Osama Bin Laden. Infelizmente, foi o que vi acontecer. Se esse método prevalecer, dois episódios próximos nos alertam para isso, retornaremos ao tempo dos justiceiros do velho oeste. Imaginar que a morte de Kadafi evitaria um julgamento que poderia constranger o Ocidente é uma desculpa esfarrapada que confirma  a liberação indecente e inaceitável  da pratica de crimes bem adequados.  
Celebrar um método inumano, adotado, alias, pelo próprio ditador Muamar Kadafi nos seus 42 anos de tirania, é  afirmar sua validade, melhor dizendo, legitimá-lo.
Sarkozy, Cameron e Obama, irmanados na hipocrisia, fizeram a guerra contra Kadafi. Assistimos a invasão da Líbia, porém, nunca se pronunciou uma declaração formal de guerra. Tal procedimento só poderia ocorrer com a autorização dos Parlamentos desses países. Sabemos que tal prerrogativa não seria fácil de obter. O que vimos foi uma manobra vil em que a OTAN, desrespeitando descaradamente a resolução da ONU que autorizava uma “intervenção humanitária”, matou indiscriminadamente e promoveu, em nome da paz e da democracia, crimes contra a vida, as instituições do direito e aos valores mais caros da humanidade.
Para quem deseja a liberdade e a extinção do terror imposto ao povo libio pelo cruel ditador o que assistimos foi um show de terror,  igualmente apavorante. 

sexta-feira, agosto 26, 2011

domingo, julho 31, 2011

Azul sobre verde /Blue on Green




Informação técnica/ Technical information
Dimensão/dimension: alt. 3mt / larg. 23mt 
Suporte / support base : fibra de vidro /fiberglass
cor e substratos/ color and substrates:polyurethane urethane


Azul sobre verde 2011
Blue on Green
Mural externo em residência no  Rio de Janeiro
Exterior painting in residence in Rio de Janeiro
photos include
Architect: Índio da Costa
Sculpture: Franz Weissmann

sábado, junho 25, 2011

Brasil – Uma perspectiva

Europalia Press Conference -21th June 2011 -11.00 am
Egmont Palace - Brussel

Brasil – Uma perspectiva
Adriano de Aquino
15/06/2011

Os países americanos são tributários de uma herança cultural oriunda da Europa. Mas, não nos bastou herdar seus postulados civilizatórios, a arte e a cultura. Coube a nós uma grande responsabilidade: formar nações capazes de retornar à humanidade uma contribuição que refletisse outros aspectos do saber e da experiência humana. Esse esforço de constituição de uma cultura própria, singular, é expresso no Brasil de jeitos diversos.
O primeiro deles nos remete ao século XVII, quando o crescimento do investimento clerical implicou a introdução da arte barroca. A partir desse momento, começam a ser identificadas em terras brasileiras as primeiras manifestações artísticas, tais como compreendidas pela cultura européia. No início do século XIX, quando a corte portuguesa aporta no Rio de Janeiro, transferindo para o território brasileiro a administração do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves ocorre um primeiro corte com relação à tradição religiosa que espraiava nos mais distantes recantos da antiga colônia.
A Coroa portuguesa trouxe consigo a intenção de implementar no Brasil os métodos e costumes da metrópole. No processo de consolidação desse reino, a ciência, a cultura e o saber são tratados como primazia: é criada a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, a Real Biblioteca, o Real Teatro de São João, a Missão Francesa e o Horto Real. De 1822 a 1889, após sua  independência, o Estado brasileiro   constitui-se como o Império do Brasil e assim “o Império do Sul torna-se uma experiência política e social sem igual no Ocidente”.
Na virada do século XIX para o século XX, com a proclamação da republica, tem início a busca do caráter íntimo da cultura brasileira: todo um movimento em direção ao interior, ao que se supunha ser a origem primária da nação, aponta um novo caminho na busca de uma identidade cultural. Uma nova burguesia letrada e cosmopolita, em geral educada na Europa, olha para o país com o ânimo redobrado para remexer as tradições, os mitos e fazeres populares à procura de algo que oferecesse significado consistente para as bases de uma cultura brasileira moderna. É assim que os pensadores, os artistas, os poetas e os compositores começam a cantar um Brasil profundo, misterioso e fascinante que espreitava por entre as influencias das culturas hegemônicas. 
No fim da Segunda Grande Guerra Mundial, o Brasil, como muitos outros países das Américas, já possuía um grande contingente de operários nas suas manufaturas. A cultura brasileira incorpora, nesse momento, uma vontade de intervir de maneira mais objetiva na vida social. Os movimentos artísticos se multiplicam, mobilizando um grande número de pensadores e artífices que se esmeram em ampliar o campo estético agregando não só elementos da busca de valores próprios da emoção e da sensibilidade, mas, também, a inserção da razão e da critica no repertório criativo.
Os anos 60 e 70 repercutem e disseminam essa vontade de construção expandindo o imaginário para além dos códigos de representação tradicionais. Essas vertentes, divisadas pelos contrastes entre as feições rurais e urbanas da nação, se inter-relacionam nas artes plásticas, na arquitetura, na literatura, no teatro, no cinema, na música e no design, entre outras áreas. Tais fronteiras de criação visavam investigar sua própria atualidade, ou seja, o tempo em que se inseriam e a capacidade de exercer leituras do Brasil e do mundo.
Nessa ocasião, o país atravessa um longo tempo ditatorial e grande parte da arte desse período é produzida como uma forma de resistência ao arbítrio e à violação dos direitos e das liberdades individuais. Ao desafio da busca de linguagens próprias somam-se  atitudes radicais de militância política associada às ações estético-artísticas
Após a redemocratização do país, novos desafios se apresentaram. 

A globalização em curso é um dos desafios que hoje se impõem não só à organização econômico social das nações, mas, também, à arte, ao pensamento e a cultura dos nossos dias. No campo artístico-cultural, essa circunstância produziu um enorme impacto independentemente das condições sócio- econômicas e culturais dos países que se esforçam para acompanhar as velozes demandas globais. Na produção artística da atualidade as mudanças foram tão grandes que muitas pessoas alegam dificuldades  para definir fronteiras que possam distinguir a origem e a  identidade  da  arte produzida na Europa daquela feita na China, na Índia ou nas Américas.
Apesar das diferenças - e, sobretudo por causa delas -, as Américas marcaram posições muito específicas na constituição da cultura de um novo mundo, e por que não dizer de um novo tempo?
Há muitas décadas, os brasileiros têm se inspirado no intenso poder de contágio social oriundo de manifestações culturais fundadas, a um só tempo, na razão e nas derivações da busca de felicidade, rumo a um futuro sem dúvida incompleto, porém renovado pela força de viver. Em seu conjunto, os eventos e as exposições apresentados ao publico belga no Festival Europalia. Brasil visa descortinar o empenho da alma e do pensamento brasileiros na consolidação de suas contribuições aos campos da arte e do conhecimento no âmbito de um horizonte hoje global.

domingo, junho 05, 2011

Princípios inflexíveis do relativismo cultural.


   Os 10 passos que conduzem a completa complacência


  1. A complexidade da cultura contemporânea é só  ilusão.
  2. Arte é vida e vida é arte. Tenha sempre em mente que desde a consagração desse aforismo pode-se afirmar que toda pessoa é um artista,assim como, todo acontecimento que se insere no campo da antropologia cultural é Arte.
  3. Principio,critério e mérito são artifícios seletivos. São refugos da elite decadente e do velho autoritarismo. Não se deixe seduzir pela beleza, não de importância à crítica,muito menos a razão e o rigor,ou melhor, esqueça o que é bom e o que é ruim, esses adjetivos  tinham sentido no passado,hoje,são apenas  preceitos  abolidos,não prestam pra nada. 
  4. Não se acanhe diante dos assuntos complexos nem da autoridade intelectual dos sábios.Cite, na forma de adoração ou desprezo - no fundo é a mesma coisa – as mais  complexas   reflexões de célebres pensadores do passado. Afinal, se voce não sabe a origem de tais pensamentos é bem possível que os demais interlocutores também não saibam.
  5. Discorra com ardor sobre suas experiências. Seja incisivo, estampe suas emoções, frustrações e contradições diante da vida que é, antes de tudo, Arte. Só isso importa
  6. Enalteça sua biografia, torne-a ARTE .
  7. Certifique-se  de que tudo que produz tenha muita visibilidade na mídia especializada  bem como nas publicações de moda,realeza,celebridades,culinária,decoração, mecenas ricos,mulheres famosas etc..Esteja atento,acompanhe com afinco  a escalada de preços dos últimos leilões da Christie's & Sotheby's, são lições fundamentais para o exito  de uma  estratégia no mercado global. 
  8. Pouco importa que não possuas um pensamento próprio sobre os temas mais complexos da atualidade. Manifeste-se,mesmo assim! Exponha sua confusão, mesmo que seja apenas para marcar  posição de contestador de qualquer coisa que pareça importante. Tenha em mente que desde o advento do pós modernismo todo mundo é artista e,portanto,  um protagonista da historia.   
  9. Um militante diuturno do relativismo cultural tolera as diferenças que se enquadram nos códigos estéticos da atualidade, sobretudo, aqueles mais convenientes à sua estrategia.
  10. Na atualidade existem as celebridades e os anônimos. Entre eles o  tempo oscila, complacente e revolto.   

Sindrome do Mito


 O sucesso dos clichês libertários e da condescendência disfarçada de tolerância  acabou por silenciar a manifestação crítica. Vultos surgiram das sombras e no papel de opositores da razão se ajeitam como ardorosos defensores da "criatividade". O cenário é a cultura. Diante dele desfilam atores repetindo entediantes enredos  politicamente corretos. Nesse ambiente  brilham a arte e artistas que se enquadram na ação. Pouco importa o que produzam!O que os enaltece  são os indicadores financeiros e a  visibilidade midiática. Esse é o objetivo.A  falência da razão critica fez desaparecer qualquer desígnio de valor.
Adriano De Aquino

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Homens & Feras


Para aliviar as tensões e o cansaço do trabalho intenso  das ultimas duas semanas decidi que este fim de semana seria dedicado apenas ao prazer. Solo feminino - amor e desacerto, romance de Lívia Garcia-Roza, estava à minha espera. Epa! Isso é promessa garantida de momentos de prazer. Já na primeira página entrei no banheiro e na intimidade de Gilda. Fui, passo a passo e silenciosamente, espionando, qual um agente secreto, as dúvidas os temores, as angustias e sensações de liberdade que emanavam dos relatos de Gilda. Devagarzinho, fui penetrando na intimidade do desejo feminino que, para mim, é um ambiente tão misterioso e atraente quanto um ritual de magia ancestral. Num determinado ponto da historia, não sei por que razão, o nome Gilda acendeu a minha mente com o intenso brilho de um anuncio em neon. Esse nome é um emblema. Na infância e adolescência eu tive uma vizinha com esse nome. Era uma menina misteriosa. E o filme?Quem não se lembra do filme?Na juventude me excitava com a idéia e tremia só de pensar que poderia encontrar uma Gilda hollywoodiana, perversa e dominadora, escondida no interior das mulheres que um dia eu amaria. O perigo, quando belo e sedutor é extremamente excitante. Encantado por essa demanda seria previsível que, mais cedo ou mais tarde, a encontrasse na figura de mulheres belas, desafiadoras e indomáveis. Não deu outra! Na puberdade fui levado a imaginar que o maior desafio seria possuí-las. Santa ilusão! Só quando adulto percebi que o verdadeiro temor se escondia na possibilidade de uma Gilda se interessar demais por mim. Please, Gilda!Antes de seu strip tease preciso recobrar a razão!Pensei. Há mais de duas semanas, antecipando os afazeres que me cercam, vasculhei algumas caixas de livros guardados no sótão. Numa delas reencontrei  o magnífico álbum das touradas do Picasso. O coloquei no canto da estante para folhear quando tivesse um tempo disponível. Essa era a hora!Num salto o alcancei. A fantástica dança caligráfica de Picasso envolvendo touros e homens  encheram meus olhos de beleza. São desenhos fabulosos que descortinam os gestos elegantes da esbelta figura de um toureiro em contraponto aos contornos sólidos dos touros voadores. Essas feras, revestidas de músculos poderosos e arrobas de fúria e desatino, impressas em negro cintilante sobre o branco incólume do papel, se contorcem de dor diante dos meus olhos. A arte é o canto da cultura onde o mistério se processa por inteiro. É ali que se instala com perfeição o maior dom da humanidade. Quando nos entregamos aos devaneios  percorremos caminhos sinuosos de encontro ao inesperado. Com a mente divagando sobre Gilda's, Picasso, toureiros e touros, fui sendo gradativamente despertado para realidade na voz do locutor do UFC anunciando que, em cinco minutos, teria inicio a luta de Anderson Silva contra Vitor Belfort. Numa espécie de link ininterrupto ou escritura de um hipertexto, comecei a divagar sobre o combate tradicional entre homens e feras. Lembrei da primeira e única tourada que assisti. Meu deus, aquilo era um espetáculo de loucura e tristeza. Ainda que os antropólogos coloquem aspas em tudo que é tradição cultural e alguns artistas encontrem significado e beleza na tortura e na dor, aquele espetáculo me impressionou pelo enorme poder que emanava do martírio. Foi uma impressão tão inexplicável que na segunda corrida, para espanto dos vizinhos de arquibancada, eu torcia pelo touro. Recordo que sai da Plaza de Toros puto da vida. Joguei a culpa da minha ira nas apologias estéticas de Picasso e no romance Morte ao Anoitecer de Ernest Hemingway que tanto me impressionara. Não, Hemingway, a tourada não é a única arte em que o artista expõe a vida. A arte,quando grande,acontece nos extremos. O artista que a pratica expõe sempre a própria vida. Depois de alguns minutos, diante de uma taça de um delicioso xerez e abrandadas as impressões das mórbidas visões, caí em mim e lembrei que a escolha de ir e vir, independente dos meios que as estimulam, é responsabilidade exclusiva do individuo, no caso das touradas: eu! Ah!Gilda. Não se trata aqui de um suspiro para a Gilda hollywoodiana, ambiciosa matadora de homens que com um sorriso enigmático consegue ser mais elegante e perversa que um toureiro. Penso na Gilda do solo feminino, uma combatente que procura forças para sobreviver às estocadas das farpas compridas, curtas e de palmo, ao balançar doloroso das bandarilhas e aos efeitos cênicos da capa do matador que antecedem a estocada final da espada mortal. Os combates entre homens são em tudo diferentes. São fenômenos que se ajustam a lógica moderna de forma mais leal, digamos assim. Essa é uma das razões que me faz gostar de boxe e das lutas marciais e detestar as touradas e qualquer tipo de disputa cultural esportiva travada entre homens e bichos. Valorizo a disputa entre iguais, sem armas ou artifícios imorais. Las Vegas, 05 de fevereiro de 2011. O locutor do UFC 126 anuncia a entrada no octógono do desafiante. Vitor Belfort, um grande lutador carioca, senhor de excelente técnica, é o desafiante. No lado oposto do octógono encontra-se Anderson Silva, considerado o melhor lutador de MMA (artes marciais mistas) do mundo. Anderson é um lutador extraordinário. Campeão dos Meio Médios do Shooto, Campeão dos Meio Médios do Cage Rage e atual campeão do cinturão dos Médios do UFC.
Enquanto rolava as apresentações eu recordava o cartel dos grandes lutadores que tanto me impressionaram: Eder Jofre, Muhammad Ali, Sugar Ray Leonard, Roberto Duran, Carlos Monzon, Marvin Hagler, Thomas Hearns, Alexis Arguello, Roy Jones Jr, Mike Tyson, Evander Holyfield, Oscar de la Hoya,Julio Cezar Chávez  e outros mais. Pouco antes do início da luta eu conjecturava, sem nenhuma conotação cívica, sobre a ascendência dos lutadores brasileiros nas arenas internacionais. Se a tourada pode ser considerada uma arte em que o artista expõe a vida, as artes marciais podem ser entendidas como a expressão do talento de vencer o medo que antecede a derrota e a morte. Anderson Silva venceu o desafio, confirmando ser o maior campeão do UFC. Volto agora para outra espécie de desafio capital. Retorno para o solo feminino-Amor e desacerto. 

terça-feira, janeiro 11, 2011

Zangões em Fúria



Sabe aquela revolução sonhada? Aquele desejo íntimo de virar o mundo de pernas pro ar? Aquela fúria contida de gritar pra toda gente sua visão de mundo como uma nova percepção, fundada numa metódica instalação do caos, que você tão bem sabe organizar. E aquela "idéia genial" que você teve na adolescência? Vai abandoná-la? Não faça isso! Reelabore a inspiração que tanto te mobilizou. Reveja os inúmeros recortes de antropologia cultural que te entusiasmaram na universidade e que resultou em muitos estudos para obras que um dia sonhou realizar.
O que você está esperando?
A hora é essa! Libere-se!Vai fundo!
As instituições públicas e privadas de arte e cultura evoluíram muito. Hoje, tudo é aceito e nada mais obstrui as ações estéticas de ponta. Nunca na historia da cultura, tirante, é claro, períodos totalitários, a arte, as instituições oficiais, a economia e o mercado resultaram em almagama tão consistente. Portanto, meu caro, não se faça de vitima da prosperidade. Ninguém escutará suas lamúrias! Mexa-se, corra atrás, procure amanhã mesmo um bom produtor, um divulgador, um agente de marketing. Sistematize seu projeto, se associe a um curador, invista nos contatos com os negociantes de arte, faça tudo que for possível, não importa o que, mas, faça alguma coisa.
Lembre-se: aprimore sua atuação na política acadêmica, produza teses, some títulos vetustos, inclua na apresentação de sua obra, citações fundamentais da arte. Cite, cite muitos nomes da vanguarda histórica, da escola de Frankfurt, de filósofos incompreendidos, mas, muito estimados, dos mitos e signos da rebeldia estética do modernismo, do pós modernismo e tudo mais que te pareça revolucionário, inquieto e transformador. 
Se toque, tudo está ao alcance da mão. Ou melhor, ao alcance da oficialidade cultural, da consciência mediana e, claro, da economia.
A escalada das vanguardas contemporâneas ao topo do sistema de arte é um fato incontestável. Se inteire e participe desse avanço!
A predominância de grupos de artistas contemporâneos nas agendas curatoriais e institucionais é um marco da enternecedora conivência entre arte e sociedade. Essa maravilhosa circunstância decretou o fim dos confrontos entre liberdade criativa e preceitos coercivos de intermediação social. Não cace pêlo em ovo! Nem se abata com críticas rigorosas e bem fundamentadas contra sua obra, as despreze, pois, são apenas reações rancorosas dos conservadores.
Abandone qualquer intenção de buscar significado e beleza, esses quesitos são irrelevantes para um trabalho que objetiva expor com clareza, sem hipocrisia, a carne crua, as fezes e os berros da fauna oprimida e as entranhas da verdade e da vida.  
Aproveite! O caminho está aberto, só te resta explorá-lo.
Observe atentamente os movimentos sociais de ponta, fundados nas premissas do multiculturalismo, da diversidade, da pluralidade, da multiplicidade, da heterogeneidade e variedade, na comunhão dos contrários, na intersecção de diferenças ou ainda, na tolerância mútua. Se as premissas supracitadas não podem ser aferidas na sua totalidade porque, de fato, não se concretizam horizontalmente no ambiente social como um todo, na arte, de um tempo para cá, se tornaram ocorrências sistemáticas.
Acorde, olhe em torno, veja o que seus colegas estão produzindo, siga o fluxo, elabore uma tática, copie e cole os fundamentos teóricos das lutas sociais de ponta e introjete, no fundo da sua alma, as teorias estéticas em voga. Salpique, aqui e ali, retalhos de antropologia cultural e fragmentos autobiográficos. Trace com precisão sua estratégia, arme sua rede de relacionamentos, porém, nunca se esqueça de demonstrar uma atitude contestadora. Sempre que tiver oportunidade critique com dureza todo sistema social, de dicas sobre os temas na pauta da grande imprensa, não faça silêncio, manifeste sempre uma opinião quando solicitado, seja sobre os avanços da física quântica ou educação fundamental. Aproveite qualquer oportunidade para afirmar, peremptoriamente, que sem educação o povo não terá acesso a uma cultura artística transformadora, aliás, a cultura alguma, nem mesmo a que ele próprio produz,vibra e se encanta.
A fúria, meu caro, desconhece limites!  

domingo, janeiro 02, 2011

So far so close (um roteiro)

                      
As recorrentes proclamas da derrocada da America tem algo de  fábula medieval. Os novos tempos estão a me sugerir que por trás das lamúrias da corte, se articula um esquema terrível, uma estratégia que deixaria Maquiavél embasbacado.
Os repetitivos anúncios do tombo da nação mais rica do planeta, em alguns aspectos, sugerem um conto do vigário em escala planetária.
Essa fábula medieval espoca a partir de um flash. Num dia tempestuoso e lúgubre, envolto por um céu típico de El Greco, surge - plano médio -  numa corrida desabalada – plano fechado- as costas e cabelos desgrenhados do  grão Vizir.A câmara o acompanha,ele  atravessa a toda velocidade os labirínticos corredores do palácio anunciado aos berros: A peste! A peste! A peste chegou.
Nesse ínterim takes aleatórios mesclam- numa edição alucinada - trilha sonora do U2(esses menestréis são os mais cotados para as narrativas tenebrosas). Corte/Seqüência- spots da aldeia global. Cidadãos embasbacados, paralisados diante de gigantescos monitores Leds de ultima geração. Os aldeões exclamam em coro:- Oh!
Corte / seqüência- O Mouro, absorto em seus pensamentos- monologo em off: - Maldito Regan ( info na fita –Regan foi um manda chuva! Ex esposa do duque de Cornualha, depois de trocar de sexo,  tornou-se o amante da primeira Ministra do reino da Grã Bretanha) O que me fizeste? Seu trapaceiro!Enfiou-me goela adentro todas as "cerimônias adulatórias"!
Corte /Editores em êxtase fundem imagens da Virgem Maria com as de investidores se atirando do alto das torres de aço e vidro, em pleno vôo, rumo ao solo, takes do WTC em chamas em fusão com uma tremenda correria na Praça de São Pedro.
Close no Mouro
-O maldito Regan com sua alquimia globalizante me engoliu por completo. Meu reino entrou em colapso. O monstro tomou conta das minhas entranhas e está me devorando.
Plano seqüência intimista. Trilha sonora inspirada no desencanto.   
 Close em Cordélia.
_Ora, querido, veja as coisas pelo lado da razão!
_Razão?Cordélia!Onde está a razão?
_ Onde sempre esteve! Ao lado dos poderosos. Nosso reino deu novo sentido à prosperidade social.Enquanto investíamos pesado na mudança de paradigmas, processávamos simultaneamente uma nova era de incertezas.                
Os povos que libertamos se tornaram, dia a dia, menos pobres. Alguns estão prestes a se rebelar. O que antes anunciávamos como progresso mundial hoje se tornou um problema. Mais que nunca precisamos ser firmes. Ha mais de três décadas que não investimos um tostão em crendices industriais. Desejamos que o mundo volte a ser um paraíso de campos verdejantes.  Hoje,nossos investimentos se concentram em tecnologia de ponta,investigação espacial e conhecimento científico mais avançado. 
Sabemos que o importante é o que virá não o que  está ocorrendo. O Vale do Silício, a NASA e os grandes centros científicos estão aqui, em nosso reino. A administração do tesouro real é ocupação para economistas e contadores, funcionários do sistema. Eles entendem de ordenação e regras, contudo, quem da as ordens são os  banqueiros mais poderosos do mundo. Eles é que mandam de fato no Federal Reserve System e,são eles, que representam a razão pura!
São eles os nossos verdadeiros aliados para a disseminação da sensação de insegurança global de que tanto precisamos. Só nós podemos produzi-la em escala monumental. Nada mais útil para os avanços dos nossos projetos que a quebradeira mundial. Quem,além de nós,  poderia induzi-la? Os europeus?Os africanos?Os latinos?Os asiáticos? Os pobres e desesperados povos do oriente médio?Ora, ora! Esses povos são tementes a deus e,sabemos, fiéis pagadores de promessas. Querido e estimado Mouro, seja paciente tudo está ocorrendo conforme previsto. Nada mais comovente para os desprotegidos que um pedido de ajuda vinda de um rico. O clamor dos pobres, via de regra, é desprezado e  jamais atendido. Nossas contas estão paulatinamente sendo resgatadas, em parte, com o sofrimento do nosso próprio povo que, aliás, me parece uma conseqüência justa. Além disso, algumas aldeias globais estão com os cofres abarrotados com nossas divisas. Pergunto, então: existe sabedoria maior que a razão?Fade black-   

sexta-feira, dezembro 31, 2010

MITOS VADIOS 2: Adriano de Aquino – O valor da Arte

MITOS VADIOS 2: Adriano de Aquino – O valor da Arte: "Conversando hoje com Adriano de Aquino, perguntei se ele identificaria, nestes últimos anos, algum indício de mudança no cenário das artes p..."

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Arremates de uma década - Ano 10/Século XXI


Arte é tudo. Tudo é arte. Exceto a Arte! 
Enquanto singular

sábado, dezembro 25, 2010

A convergência dos extremos – Crendice & Cepticismo




..."não sabia fazer nada mais que adicionar das próprias despesas e subtrair das próprias dívidas".
Don Fabrizio Corbera, Príncipe da Casa Salina - Sicilia final do século XIX inicio do XX.  

Il Gattopardo - Giuseppe Tomasi di Lampedusa




_Ah! Quer dizer que pra você a demanda do mercado por suas obras, ou melhor; sua inserção econômica no mundo das artes é um tormento?Ora! Não me venha com essa!Não creio que alguém possa ser tão indiferente ao reconhecimento financeiro.
_Engana-se, minha amiga. Não sou um alienado, indiferente as necessidades materiais e financeiras. O que eu disse é que não há nada de espontâneo ou propriamente verdadeiro no mundo dos negócios. Não creio que exista realização nessa troca para além, é claro, da recompensa material, evidentemente.Crer que o reconhecimento financeiro de um artista é parâmetro de aferição qualitativa da obra para além do negocio em si é um tremendo equívoco. Esse é um campo minado que há muito tempo suscita mais dúvidas que certezas. Todos somos,de alguma forma, afetados pela intermediação do dinheiro para continuar vivos. Essa é uma constatação tão sólida quanto a certeza da morte. O ganho financeiro é um meio de se sustentar como individuo e uma ferramenta de fomento para a experiência corpórea e existencial em qualquer atividade humana. Além disso, o cerne da minha crítica não incide sobre esse campo específico. As contradições entre o poder da grana e a liberdade criativa é um capítulo complicado da história humana. Não tenho nenhuma pretensão de estender esse assunto tendo em vista sua complexa interação que se arrasta pelo longo percurso da historia da humanidade. Se por um momento isso apareceu na nossa conversa foi de maneira fortuita. Foi apenas uma citação peremptória de certa impotência diante dos pactos que nos parecem inexoráveis.  
Nas circunstancias atuais, em que a economia é o mais elevado item da vida social, fazer uma crítica ao dinheiro,sem aprofundar nos mecanismos da produção, difusão e consumo, por mais inteligente que seja, soa como falação inútil.
_Ok!Ta bem!Então retorna para sua argumentação anterior.
_ O que me parece relevante no jogo entre finanças e arte é a ridícula simulação de decoro que se apoderou da mentalidade corrente em nossos dias. A complexidade da produção da atualidade não foi compartilhada por avanços nos mecanismos de intermediação compatíveis com os novos tempos.               
O que assistimos aqui e acolá são arremedos grotescos da velha hierarquia mercantil e uma crescente estupidez, convertida em paternalismo,seja de ordem privada ou pública. Tal descompasso pode ser percebido, inclusive, nas atitudes de muitos artistas. O ambiente artístico está impregnado de simulacros e afetações típicas do remoto idealismo boêmio.É espantoso que na contemporaneidade os rituais arcaicos ainda sejam tão influentes.Por força das circunstâncias houve apenas algumas modificações. As mais visíveis são a substituição dos critérios e das analises mais apuradas das obras de arte por operações promocionais e mercantis mais objetivas. Algo similar aos procedimentos e estratégias do marketing politico e dos produtos da indústria da propaganda revestida de aparente resenha cultural. Repare nas fórmulas hoje disponíveis para a difusão da arte. Elas dizem muito sobre o sistema. A visibilidade, um dos fundamentos  da publicidade, tornou-se o preceito básico que faz girar o mundo da arte. Os métodos promocionais são mais eficazes quanto mais a mensagem se repita. Essa regra é capital para vender mais uma marca de sabão em pó do que a do concorrente na prateleira ao lado. Ainda que uma mente ardilosa imagine ser uma grosseria usar a mesma técnica para alavancar as vendas de um produto cultural, dado que um consumidor de cultura possui, supostamente, mecanismos mais apurados,porque cultos,de defesa contra a propaganda objetiva  que o consumidor em geral engole sem pestanejar, o fato é que essa técnica prevalece para tudo. Ocorre, entretanto, que um objeto cultural não é apenas uma caixa de sabão em pó. Não obstante, em circunstancias especiais, uma caixa de sabão em pó pode vir a ser uma obra de arte quando empilhada no "cubo branco" ou num salão de museu.Entretanto,para que tal fenômeno se realize é necessário, antes de tudo, que o objeto se pareça com arte, quer dizer, possua um dom particular, um 'espírito', digamos assim,em contraste flagrante com os mesmos itens da linha de produção industrial empilhados no chão das fábricas.Colunas e mais colunas de objetos que não portam atributos descriminados num glossário das artes,são nada maisque objetos para finalidades especificas.    
Mas,esses mesmos objetos, recondicionados pelo circuito da arte, ganham outros sentidos. Assim, um bife pendurado na geladeira de um açougue é, em tudo e por tudo, diferente de um bife metafórico, artístico, exposto numa instituição de arte. Quando Duchamp realizou seu gesto germinal o mundo se surpreendeu. Hoje, ninguém mais se espanta. Não ha um grande evento de arte em que esse tipo de produção não esteja incluída. Além disso,várias instituições de ensino de arte espalhadas pelo mundo e inúmeras cartilhas dedicam capítulos sobre essa "escola" ou tendência da arte. Se por um lado isso parece positivo para que mais pessoas se expressem "artisticamente", por outro, constitui um complicador que,entre outras coisas, propicia ações difusas no que tange a autonomia criativa.Essas 'representações' são tantas e tão afinadas entre si que não cabe aqui,nesse momento,discuti-las.Porém,posso adiantar, que o novo perfil das instituições se fixa na ideia de que estamos vivendo em plena democracia onde qualquer expressão estética pode ser classificada no mercado especializado de arte como produtos artísticos. Afinal, o bacana da banalidade é a possibilidade de imersão total no banal por todos os segmentos do sistema. Alguns teóricos consideram esse efeito o paradigma de uma revolução estética permanente.
_Ah,ah,ah! De fato, o êxtase com o banal é uma unanimidade global.
_Até aí tudo bem.Contanto que esse paradigma não obstrua o mercado nem paralise a cadeia  produtiva,quer dizer;os artistas e os demais segmentos do mercado. Para reforçar seu status frente aos novos desafios os agentes culturais colocaram em marcha um método aparentemente colaborativo bastante eficaz. Isolaram alguns produtos estéticos da montanha de similares e investiram na visibilidade midiática de um numero reduzido de eleitos.A mídia é uma vitrine cara, todavia,muito eficiente para imprimir no público a sensação de que existe uma escala de valores nas artes dos nossos dias. Nesse contexto, a visibilidade midiática funciona como a agulha de uma bússola que orienta um navegante pouco entrosado nas muitas rotas da cultura contemporânea.Num mundo, sacudido por constantes e velozes transformações, onde a instabilidade é uma sensação constante, uma pessoa mal tem tempo de selecionar, dentre os milhares de informações vazadas todos os dias, aquelas que lhe serão mais úteis.Como exigir dessa pessoa uma leitura crítica apurada sobre as diferentes propostas estéticas do último grande evento de arte global? Leve-se em conta que os jornais e revistas contribuem para embaralhar ainda mais o assunto. Anunciam como polêmicos fatos corriqueiros e expedientes promocionais de um artista, focando o leitor nas labaredas da fogueira das vaidades e nas ambições cretinas, típicas das revistas de promocionais hoje tão em voga. Como se isso não bastasse, os periódicos enchem páginas de entrevistas com curadores que se arrogam a emitir diagnósticos sobre a contemporaneidade.
É esse conjunto de fatores-não a produção artística em si - que mais excita o circuito. Como reverter esse bochicho e tornar o negócio mais atraente e lucrativo? Eis a questão do sistema da arte atual.
Marcar os espaços e pacificar o ambiente tornou-se uma meta dos negociantes mais argutos. A solução mais evidente foi eleger dois ou três nomes de uma enorme safra de artistas e divulgá-los sistematicamente. Entretanto, com essa tática, o jogo se revelou de um simplismo assustador, pois, os demais artistas tornam-se apenas coadjuvantes. Servem para calçar o sistema frente os imprevistos de percurso.
Bem, essa tem sido a forma de atuação dos players do sistema de arte atual. Até certo ponto vem surtindo um efeito pacificador. O ambiente cultural mostra sinais de contentamento e a vanguarda contemporânea tem vibrado de alegria. 
O modelo é permissivo,introjeta imediatamente a contestação marginal a redirecionando para o circuito. Nenhuma experiência anterior de vanguarda artística foi tão generosamente acolhida pelo sistema. Abrigados sob a égide de uma poética do cotidiano, alguns artistas  parecem satisfeitos com os resultados alcançados. 
Cabe, portanto, aos agenciadores de marketing, curadores e marchands dar seqüência ao processo realçando o valor à partir de uma hipotética e quase invisível diferença. Numa vitrine em que tudo é muito igual fica difícil definir de imediato onde a particularidade se projeta. Aliás, esse é um recurso atraente que encontra similaridades com os atributos celestiais que separam os eleitos daqueles que estão sujeitos aos sacrifícios mercantis ou promocionais dos simples mortais.Como quase ninguém tem saco para esmiuçar o assunto,poucos se dão conta dos interesses em jogo nessas operações. Para muitos a palavra talento resume o fenômeno, é o suficiente para convencer alguém de que um tal personagem é um prodígio, um mago. Todavia,para o negócio isso não é o bastante. Para reforçar o aparato e agilizar a vinda de  lucros mais rápidos, um conjunto de experts tem que entrar na roda.Para tocar essa ponta do negócio existem os curadores.       
Oriundos das universidades,academias e centros de arte mundo afora e revestidos da autoridade de um general, peito coberto de comendas, esses experts surgem de toda parte para dirimir dúvidas e consolidar o óbvio:Credenciar nomes. 
Ontem um curador dos Alpes suíços, hoje uma curadora de uma bienal germânica, amanhã, outro personagem da alta cultura de um país desenvolvido em visita ao país emergente.Qual reis magos eles anunciam numa entrevista que existe, dentre o enorme contingente de artistas locais,ávidos por espaço, apenas quatro expoentes da arte contemporânea nativa.       
Coincidentemente, os nomes citados são sempre os mesmos e o roteiro,o velho pastiche de sempre: ..."a arte brasileira contemporânea esta bombando nos grandes centros do mundo desenvolvido...blá, blá, blá"  
_É mesmo!Que troço colonizado! Antes esses procedimentos eram um tanto comedidos, tratados com um pouco mais de sobriedade. Hoje é escrachado.Alguns curadores trocam figurinhas abertamente, não vê quem não quer se aborrecer, se desgastar. A dimensão continental e a multiplicidade da produção estética local se reduziram a um joguinho entre colegas. Além do mais, a perversa escassez de recursos, a precária infra-estrutura institucional e um mercado incipiente imobilizam os artistas que não tem fluência no sistema. A mídia contribui divulgando apenas o que considera consagrado. No caso a opinião de curadores ou as altas cifras em jogo no mercado da arte.
_Os curadores, ao enaltecerem seus procedimentos, não deixando claro suas participações nas estratégias de negociação da arte, tornam mais densa a cortina de fumaça que confunde ainda mais as pessoas as levando a focar preferencialmente o fenômeno econômico financeiro em detrimento aos aspectos intrínsecos das obras.
Oh! Estupendo! Dizem alguns. Argh!Pura especulação, dizem outros. E, fica por aí! Nos dois casos, as únicas referências  visíveis são a fama do artista e o preço. Sobre a obra de arte propriamente dita, nada se comenta. O campo das artes tornou-se uma espécie de território interdito. Hoje, se contrapor ou criticar obras contemporâneas tornou-se uma atitude indesejável, proibida mesmo. Nessas circunstancias, o fato dos valores atingirem a estratosfera tornando-se quase uma abstração e as referências se constituírem em vagas citações de intermediários do negocio,seria um contra-senso repreender as pessoas que voltam sua atenção às transações financeiras como quem vislumbra um enigma mais inquietante nas cifras que transitam no mercado do que a própria obra de arte,objeto do negocio. É lícito desprezar a sensibilidade de alguém por ter visto o que é óbvio?
Acrescente-se a isso uma ocorrência singular. De um tempo para cá diluíram-se as fronteiras que diferenciam um trabalho de escola vanguardista de uma obra tradicional, digamos assim.Tornaram-se apenas métodos distintos.Os dois procedimentos encontram abrigo tanto nas instituições quanto no mercado. O que isso significa? Que o mercado e as instituições oficiais tornaram-se mais sábias e tolerantes ou, a arte dos nossos dias tornou-se a tal ponto previsível que se ajusta rapidamente às demandas do público por novidades? Só uma fidelidade extrema nos levaria a crer que as vanguardas da atualidade possuem o poder de impactar a sociedade.Marcar a diferença!Ora!Pra que? Se esse é o ponto que amalgama a produção de vanguarda ao que há de mais reacionário na sociedade de consumo, pra que inventar mais uma fábula infantil?   
As silenciosas disputas pela ocupação dos espaços prestigiosos,como as bienais internacionais, por exemplo, são apenas pretextos para ocultar estratégias midiáticas e mercantis. Essas instituições há muito deixaram de ser locais onde transitam experiências estéticas inusitadas. Se tornarem vitrines mega promocionais de modelos estéticos dominantes.Nesse contexto o dinheiro foi mais poderoso e eficaz na absorção das diferenças do que o tempo, a reflexão crítica e a discussão sobre a arte. 
É isso! O dinheiro produz efeitos ambíguos e curiosos, pois, ainda que transfira importância para um produto, não obstrui a divergência de opiniões sobre a forma de aferição e credenciamento. Você pode falar o que quiser do dinheiro despejado sobre um evento ou mesmo do preço de compra de uma obra de arte, porém, não ouse criticar uma obra ou um tipo de produção estética da escola vanguardista.Isso não!Isso é proibido. Se não é decoro e protecionismo,que titulo daríamos as reações intempestivas dos adeptos desse procedimento?
_Essa constatação me enche de perguntas que não encontram respostas nas atitudes correntes no atual sistema da arte.Por que os artistas das escolas vanguardistas evitam discutir os interesses em jogo no setor cultural e fecham-se em colóquios "especializados" onde só participam os grupos detentores de códigos comuns?Estariam eles participando de uma junta de planejamento estratégico ultra-secreto?Ajoelhar diante dos produtos estéticos contemporâneos é uma expressão sincera e admirável de reconhecimento? Esse troço mais me parece um hábito religioso.Uma obediência servil a uma seita secreta que pretende divulgar mais uma verdade num mundo exaurido de verdades.
Algumas pessoas creem que se opor ao poder do dinheiro na arte é uma ingenuidade. Os mais afoitos afirmam que o antagonismo ao sistema é uma batalha travada por um exército de imbecis, dado que a interação arte/poder (leia-se:dinheiro) se funda num pacto secular. Acreditam, certamente, que até a argamassa que juntou as pedras da muralha do conhecimento e da arte,sabem que as coisas sempre foram assim e nunca serão diferentes. 
_Oh!Deus, diante dessa sentença a sensação de inércia se apodera dos meus sentidos. Enaltecer uma obra de arte a partir do preço é um expediente tão insípido quanto um ataque de euforia verbal para anunciar um gosto pessoal. Contudo, até a histeria das torcidas apaixonadas tornou-se uma espécie de trincheira da contemporaneidade. Quantas vezes já não ouvimos: Oh! Amei tal instalação, caí de joelhos diante da obra do fulano. Exaltações verbais desse teor tornaram-se tão corriqueiras entre os frequentadores do circuito de arte quanto uma cervejinha gelada no verão escaldante. Cair de joelhos diante de um trabalho da vanguarda contemporânea é algo inconcebível para um ente que se beneficiou dos avanços da modernidade, contudo, tal manifestação tornou-se comum. A síndrome do Best Seller e dos Blockbuster  debilita suas vitimas as colocando imóveis ao alcance da mira do marketing das estrelas!
_O que mais choca nessa crendice absurda é a fragilidade crítica de indivíduos supostamente cultos. Parece coisa de maluco! Como um sujeito informado ainda se submete aos códigos dominantes sem sequer se perguntar por quê?
Ao expor de forma tão intensa seus sentimentos diante da arte, esses indivíduos realizam duas operações num só ato. Na primeira obstruem a potencia da pessoa frente aos códigos dominantes e, na segunda, anulam qualquer perspectiva de opinião contraria, pois, a fé é um domínio exclusivo do individuo. Como se contrapor a fé? Com uma guerra santa? Uma revolução cultural?
_Pois,então,essa situação revela o enorme poder dos meios sobre a produção artística. O poder do dinheiro exacerba a desconfiança, inclusive, na própria escolha pessoal. O feitiço se cumpre na prática com o retorno de um tipo de respeito imposto. Algo parecido com uma crença tirânica da antiguidade. Mas, no teatro das ocorrências culturais, é recomendável que os artistas pareçam livres, contestadores e independentes do sistema. Ocorre que incontáveis atividades profissionais do campo da cultura sofreram, nos últimos trinta anos, mudanças consideráveis. Algumas, como a crítica de arte, por exemplo, estão em vias de desaparecer. Outras,como os agenciadores de marketing e os curadores subiram aos céus. Vimos surgir recentemente um tipo de celebridade que chamo de ansioso blasé.
_Han? Ansioso blasé? Como assim?
_Explico. No teatro das artes, onde o artista, além da própria obra, representa um personagem bem definido. Nada mais eficiente para uma performance mistificadora que um artista cético das virtudes divinas da arte e dos meandros pragmáticos da cultura, para fazer emanar poderes supremos em converter fiéis em causa(estética) própria.
Esse procedimento exige um desempenho considerável. A ansiedade e os arranjos mundanos na escalada ao topo do circuito das artes exigem do artista imbuído da missão consagratória uma postura elegante, camuflada por uma atitude aparentemente blasé.
Ainda que todos saibam que uma trajetória bem-sucedida demanda algum tipo de conciliação, seja com os curadores, seja com os colaboradores ligados ‘afetivamente’ ao projeto do artista, seja com o mercado das artes, não é bacana para imagem do vencedor subir ofegante e com a camisa suada no pódio da grande arte. É conveniente, portanto, que essa ascensão ocorra de forma aparentemente divina, envolta por uma atmosfera tão natural quanto um plácido lago povoado de ninfas,sobre o qual paira a imagem do criador.

Natal de 2010.



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