sábado, setembro 09, 2006

A Dinastia do Novo

O que não muda
é a vontade de mudar.
Charles Olson

Mudanças geram insegurança, provocam entraves, prejudicam alguns grupos sociais beneficiando outros e também despertam soluções originais. Nos últimos vinte anos a arte passou por alterações consideraveis obtendo maior difusão e circulação de dinheiro, fruto do triunfo das tecnologias da informação, da redefinição da economia e do mercado. A isso somaram-se surpresas como: o resguardo das atitudes contestadoras, capitulações ao explicitamente econômico, pouco caso pelo esmêro e pela dedicação criteriosa ao trabalho pautato no esforço, no compromisso e na qualidade.
Hoje, um consideravel numero de artistas acha que a longa permanencia dos eventos/manifestações/instalações é reflexo da quebra de paradigmas,da diversidade e do abandono das referências artísticas do passado.
Outros veêm nesse predominio muitas questões.A amplitude e a complexidade do problema engloba vários setores da produção cultural.Nesse texto reduzirei meus comentários ao setor das artes visuais,mais precisamente a determinadas manifestações das artes plásticas nos últimos vinte anos.Tomando como ponto de partida uma exposição que aconteceu ha um ano numa galeria norte americana tentarei tecer algumas considerações sobre aspectos invisíveis dos embates artísticos da atualidade .Como artista adepto da liberdade de expressão evitarei juízo de valor estético ou comentérios sobre os aspectos sensíveis das obras ou gestos artísticos.Me limitarei a comentar o contexto ideológico que hoje afeta o circuito artístico.
A mostra a qual me referi - uma instalação inspirada na dieta alimentar a base de batatas inglesas, a qual foi submetida a artista na cura da doença que a acometeu - era composta por um conjunto de batatas inglesas enfileiradas, algumas enfiadas em meias multicoloridas, outras protegidas por cachecol e outras mais dispostas nos degraus de uma escada, sugerindo a dinâmica dos movimentos descida/subida de degraus. O despojamento do evento despertou minha curiosidade.
Talvez pelo fato de ter sugerido um corte com as variadas instalações,interferências ou manifestações as quais me habituei ver nas bienais e outros acontecimentos artísticos.O registro estritamente autobiográfico do evento com as batatas me levou a considerar o radical desligamento da artista dos códigos que atualmente conectam de alguma forma as muitas instalações que vemos por aí. Por isso fui levado a considera-la a mais representativa mostra do que se convencionou chamar de pós-modernidade. A ausência de traços de construção formal, um assumido pouco caso pela composição estética, a desprentensiosa utilização de materiais e a natureza estritamente biografica do evento, não fosse o título da exposição, a assumida autoria e a analogia com registros da história que revelam que o Papa Pius IV recuperou-se de uma doença por volta de 1570 após lhe ter sido prescrito uma dieta de batatas, essa instalação seria a mais significativa demonstração do abandono dos vínculos com o mundo das artes e a mais expressiva manifestação de um fenomeno artístico transitório.O que impede tais manifestações de ir fundo no abandono radical do campo da arte?
Diante dessa questão um curioso paradoxo se apresenta.A desconfortavel falta de sentido apontada pela maior parte do público frente as manifestações artísticas da atualidade e os comentários críticos dos inimigos que as classificam como fenomenos resultantes da ideologia dominante se confundem com a repercursão dessas produções nos grandes centros cosmopolitas.É comum vermos na mídia nacional notícias sobre os feitos e os preços dos artistas contemporâneos no circuito internacional.É lamentavel que a visão idílica que tudo consome e o preconceito que enxerga apenas o equívoco do entendimento da história no que tange as produções atuais, se referindo a elas de maneira jocosa e desprezível, acabem sendo atitudes similares que apenas recalcam questões importantes.É fato incontestavel que a fascinação pelos feitos transitórios se reflete em eventos e objetos igualmente efêmeros comuns a vários artistas e celebridades que transitam no ambiente artistico atual.Porém,isso é apenas uma pequena parte do problema.Relevante de fato é a permanencia de um movimento mundial que já dura cerca de vinte anos, ou seja, ele se mantém dentro da média de vida de quase todo estilo internacional de arte.Diante dessa constatação os segmentos culturais que integram e apoiam os mais propalados movimentos da atualidade ainda parecem insatisfeitos.A insistência em não admitir o esgotamento das suas propostas estéticas está levando grande parte da produção contemporãnea a procedimentos quase mecânicos e a ostensiva banalidade.Por sua vez as instituições culturais que as abriga tornaram-se um circo de atrações melancólicas.A Bienal de São Paulo é um exemplo.Na falta de um tema próprio para a edição 2006 escolheu o titulo Como Viver Junto, inspirado em seminários de Roland Barthes no Collège de France realizados em 1976-77 . O que essa escolha nos revela? Dentre as muitas vicissitudes a falta de parametros apropriados ao tempo presente, o oportunismo e uma certa preguiça de empenhar-se na busca de formas expositivas capazes de revelar uma parte da crise e a diversidade da produção artística da atualidade.Reflexos objetivos dessa política podem ser vistos na perda da visibilidade pública da pintura e outras expressões estéticas sobre suportes tradicionais comprometidas com o rigor conceitual e a fatura artesanal.Na sua extensão mais objetiva são autoritários e excludentes,prejudicam a difusão dos produtos artísticos na mídia e no mercado de arte impondo uma visão única sobre a arte da atualidade.Além do mais a relutante resistência da Bienal de São Paulo de permanecer surda às criticas contra a idéia de reunir obras de arte em torno de um tema tornou-se uma teimosia típica das dinastias.Quem quiser se aprofundar nos domínios reservados dos diretores e curadores das grandes mostras pode começar dando uma olhada rápida no calendário das correntes estéticas do século XX. Verá uma descontinuidade de estilos que pode esclarecer muita coisa. A pop art que surgiu na Inglaterra de meados dos anos 50, realizou todo o seu potencial na Nova York dos anos 60.O expressionismo abstrato dominou as décadas de 1940 e 1950.O minimalismo desenvolveu-se durante os anos 50/60 etc...Essas tendências que descortinaram novas experiências se atacavam reciprocamente e criticavam, uníssonas, o regime estético do modernismo. Entretanto, suas referencias eram o proprio modernismo.É, portanto, no minimo curioso que a produção artística atual que se auto denomina plural e transitória, desvinculada de regimes ou sistemas seja tão longeva.Tal constatação vem suscitando suspeitas.Dentre elas a que identifica os destacados movimentos atuais com as idéias de uma cultura mundialista dominante.
A atualidade é rica em estimulos que nos deixam perplexos.Hoje, esse sentimento invade o juizo de muitas pessoas que veem as manifestações artísticas contemporâneas como experiências desprovidas de sentido e nem por isso deixam de frequentar as exposições e de se excitarem com o glamour dos eventos culturais. Porém,para aqueles que contestam a banalização da arte as coisas se tornaram difíceis.Hoje,eles podem ser vistos como conservadores rancorosos . Essa polarização é expressão da ideologização que hoje submete o ambiente artístico cultural e que poucos admitem existir.
A partir dessas considerações podemos entender uma parte da lógica que nos levou ao abandono dos critérios estéticos e a precipitação constante de novos paradigmas circunscritos apenas na singularidade de cada produtor.Ainda bem que o predominio do dinheiro sobre as demais atividades não conseguiu impedir que muitos contestem a diluição de critérios como conseqüência do esquecimento da crítica e da política. Visto pelo foco dominante, discutir ou contestar as produções atuais é apenas uma chateação inútil. O silencio parece conveniente, ainda que represente a mantenção do predominio cultural e econômico sobre todas as demais formas de produção.É contra essas velhas e recondicionadas iniciativas que muitos artistas ainda reagem na tentativa de resistir ao reducionismo que nos torna produtores/consumidores sem vínculos ou compromissos duradouros com os diversos segmentos sociais e com a própria cultura.

Adriano de Aquino
Set.de 2006

terça-feira, agosto 29, 2006

"Fazendo Política..."?

As inconseqüentes manifestações sobre os nefastos episódios e as lamentáveis conseqüências do mensalão, caixa dois, dólares na cueca, sanguessugas etc, não partiram dos figurões da classe política, elas apareceram nas recentes declarações de dois artistas: Paulo Betti e Wagner Tiso. Paulo Betti disse que:... Não dá para fazer política sem botar a mão na merda e Wagner Tiso afirmou:...Não estou preocupado com a ética do PT ou com qualquer tipo de ética. Para mim, isso não interessa. Eu acho que o PT fez um jogo que tem que fazer para governar o país, entendeu?
As infelizes opiniões surgiram após a reunião dos artistas vinculados a campanha para reeleição do Lula na casa do ministro Gilberto Gil.No calor dos abraços e na excitação produzida pela proximidade com o candidato/presidente, as declarações me pareceram resultantes de um êxtase de fidelidade.Na mesma semana o presidente Lula declarou:...Meus adversários podem fazer quantas denuncias quiserem.Eu não moverei uma palha, porque sei que vocês moverão o paiol inteiro contra eles.
Essas três frases abalaram meus sentidos produzindo um efeito desolador.De inicio tentei minimiza-lo, atribuindo aos fatos uma conotação circunstancial.Afinal, em período eleitoral somos obrigados a ouvir muitas besteiras.Para escapar da inércia conjeturei alternativas.Porém, a sensação de ter sido atingido e ameaçado pela violência verbal das declarações não se dissipou.Até agora não vejo justificativas para agressão. Afinal,as pesquisas apontam o candidato Lula como favorito.
Nos jornais e revistas os malfadados eventos foram tratados pelo aspecto objetivo, quer dizer, pelo lado das finanças.Para a grande imprensa as citadas atitudes levantaram suspeitas sobre o compromisso, para além do político, de alguns artistas.Comentaristas ligaram as histriônicas declarações aos generosos patrocínios do governo ou das empresas públicas para os espetáculos teatrais, musicais e cinematográficos daqueles que, apoiando explicitamente o governo, exteriorizam suas opiniões de forma simplista e irresponsável sobre complexos problemas sociais, a fim de defender o governo a qualquer custo.Em conversas com artistas e intelectuais que nas eleições passadas votaram no Lula mas que hoje se opõem ao governo e combatem a sua reeleição, a aliciação é indecente,contudo, mais preocupante é o afundamento dos artistas numa espécie de fé cega.
As três declarações dispararam controvérsias e não acrescentaram inteligência ao debate político.Só atiçaram a revolta e a proliferação de xingamentos.Há algum tempo atrás o ministro Gil tornou-se alvo de ofensas quando declarou a um jornal do Rio que: a corrupção não é uma invenção petista.Gil tratou com naturalidade os episódios de suposta corrupção envolvendo grandes nomes do governo,colocando como salvaguarda o fato de o PT não a ter inventado.O comentário de Gil gerou a repulsa de vários artistas e intelectuais.As reações hostis a sua desastrada declaração parecem não ter surtido efeito no meio artístico simpático ao governo.As declarações de Betti e Tiso refletem teimosia e arrogância,tornam a arena política mais tensa e o debate mais burro,se é que isso é possível.Além disso essas manifestações endossam os argumentos conservadores que consideram a vida pública brasileira e a política nacional como um todo, instancias indissociáveis de um real perverso e corrupto ao qual estamos condenados a viver eternamente.Apesar desses argumentos contradizerem radicalmente os slogans da campanha anterior que anunciava, entre outras coisas, mudanças e combate frontal e diuturno a impunidade a corrupção e a injustiça.Bem, se levarmos em consideração que muitos artistas criam verdades usando mentiras ao contrario dos políticos que falam mentiras usando verdades, quem sabe Paulo Betti esteja nos propondo uma paródia para o atual momento político nacional com referencias especificas na realidade/verdade mostrada por Pasolini em seu filme a Republica de Saló?Pra quem não sabe e para os de rala memória, o polemico filme ambientava-se na mais radical experiência social do regime fascista, implantada no norte da Itália em 1943 e extinta em 1945. Pasolini focou as varias formas de degradação humana-escatológica inclusive-a que foram submetidos os cidadãos/vitimas de um vilarejo.Após o veredicto de Betti surge a pergunta: como você ataca a corrupção?Combatendo-a, ou espalhando seu fedor pra todos os lados?
Já a despreocupação e o desinteresse de Tiso por qualquer tipo de ética pode ser entendido como metáfora esclarecedora para as contradições que ainda torturam os cidadãos que conduzem suas vidas de forma ética.Ora, se a pouco tempo o presidente Lula desafiava qualquer cidadão brasileiro a provar que era mais ético que ele, qual será então o significado da frase do musico petista?Muitos entenderam que ao dizer o que disse Wagner Tiso revelou conhecer ou pelo menos admitir, que membros do PT participaram de um jogo que tem que fazer para governar o país e que praticas espúrias(não éticas) na gestão pública não é motivo para preocupar nenhum brasileiro.Menos ainda seu candidato a presidente da republica que,aliás, sabe com quem contar quando precisar... mover o paiol inteiro contra eles(eles quem?).
ilustração
cuecas,dólares,congresso,mão na merda e Dança da Morte na Republica de Saló

quarta-feira, agosto 23, 2006

O Martírio da Modernidade 2




... Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique e
ninguém que não entenda...
Cecília Meireles

Romanceiro da Inconfidência

2ªParte Arte e Cultura Liberdade e Clausura
.....................................Realidade e Simulação

As sucessivas mudanças, oriundas do processo ininterrupto de construção e desconstrução de conceitos que se encontram no núcleo da comunicação na era dos meios eletrônicos, expandiram consideravelmente o conhecimento. No entanto, ainda nos perguntamos como esses vetores estão contribuindo para as liberdades individuais. As anunciadas quebras de padrões nas artes e no comportamento trouxeram maior autonomia para os artistas? Muitos acham que sim, outros acreditam que apenas presenciamos, de forma passiva, o poder econômico atuando de forma mais sutil. Os fatos do dia a dia, a crescente violência cotidiana e o crescimento de ações hostis à liberdade individual e o fim da mais elementar noção citadina de segurança, não combinam com a idéia de que vivemos no melhor dos mundos possíveis e, avançamos. Nesse mundo plural, supostamente livre e tolerante onde todo mundo pode fazer o que bem entender sem precisar se preocupar muito com as conseqüências.É nesse ambiente que proliferam os pactos do vale tudo dominante.

Um mundo em que é permitido um indivíduo comer cadáver de bebe natimorto, degustando vinho num cálice contendo pênis humano amputado, enquanto assiste a uma autopsia e dizer que é arte. Esse conjunto macabro não é parte de um conto. Não pense o leitor que os personagens e as ocorrências brotaram da mente de um escritor e habitam o imaginário onde tudo é possível acontecer sem que se cometam diversas violações. Nada disso! Zhu Yu, artista chinês (não foi o único, juntei seu ato ao do degustador de penis vinhático, um artista inglês que felizmente não guardei o nome) apareceu em dezembro de 2002 num programa da televisão britânica, comendo pedaços do cadáver de um bebe natimorto. Na ocasião ele afirmou que sua intenção era explorar o espaço entre a moralidade e a lei. Segundo ele: ‘Nenhuma religião proíbe o canibalismo. Também não encontrei nenhuma lei que nos proíbe de comer gente. ”
Seu discurso me pareceu uma tentativa de ajustar a seu conceito pessoal a virtude da liberdade criativa. É importante que tenhamos em mente que esse item é menos importante. O que interessa avaliar são as intenções de tangenciar paradigmas libertários pressionando os interstícios da ética, da estética e da moral de uma sociedade onde tudo é permitido em arte e, assim legitimar-se como um artista a frente de seu tempo. A declaração de Yu sobre religião e leis teve o efeito cênico de uma cortina de fumaça que torna difuso o gesto do ator ao puxar para si a visibilidade e a audiência nos meios de comunicação de massa, difusão e impacto no ambiente artístico e no mercado de arte. Blefe? Verdade? Segundo alguns ele teria comido carne de porco ao invés de carne de bebe. Pouco importa! O que questiono é o significado da atitude. Seria ela apenas uma simulação e como tal mais um produto artístico espetacular?

Os movimentos artísticos dos anos sessenta propunham uma dimensão concreta para inserção de suas obras no real, confrontando as regras formais de representação. Hoje, a interação entre as manifestações artísticas e o real se dá de forma diferenciada, maior parte das vezes, apenas chocantes. As simulações propostas por artistas desse naipe são percebidas por alguns como uma critica a hipocrisia e não deleite estético do autor. Por quê? Aporrinha-me a persistência do culto romântico aos artistas idealizados num plano sublime. É uma mentira deslavada. Assim como tem público-leia-se: seres ansiosos por perversidades- tem artistas dispostos a saciar as suas próprias e a dos outros. Essas pequenas réplicas medíocres do Marques de Sade não pretendem nada mais que chocar. Se pretendessem fazer uma critica social profunda teriam antes que fazer uma critica a si próprios. Isso é o mínimo que se espera que um artista culto, supostamente avançado. Se não o fez é apenas um idiota que cultua as atitudes mais escandalosas de um aristocrata do século XVIII. Ah! Quer saber?Não vale a pena ir adiante.

Outra questão recorrente, porém, mais grave, e que paira sobre as cabeças pensantes é o caráter nacional da arte. Sobre esse assunto Adam Weinberg, diretor do Whitney Museu de Nova York deu uma explicação sui generis para a conexão internacional da Bienal Americana de 2006: “Quanto mais eu olho, menos eu sei o que é arte americana.” Frase típica de um piadista erudito!
Se não fosse uma piada Adam Weinberg teria muito trabalho para explicar porquê existem barreiras solidas que dificultam a projeção dos artistas latino-americanos nas instituições culturais norte americanas. Para mim ela é só mais uma declaração descartável bem ao paladar do momento. Os curadores da Bienal do Whitney falam também da confusão que se estabeleceu entre ficção e realidade, dizendo que isso é expressão do atual momento. A ambigüidade vivida pelos artistas atuais é resultado das incertezas geradas por uma zona de crepúsculo, onde tudo está sendo posto em dúvida. Pronto!Tudo explicado! Chrissie Iles, uma das responsáveis pela curadoria do big show, atravessa a fronteira entre o político e o estético como se tivesse atravessando a 5ª Avenue. Segundo ela, o clima apocalíptico da mega exposição é fruto da raiva contra a guerra do Iraque. Oh!Deus! Até um sargento trapalhão sabe que numa zona crepuscular os passos devem ser muito cuidadosos. Ela fala como se estivesse tomando um drink ao meio dia num verão escaldante. A confusão generalizada entre ficção e realidade é um sintoma mais complicado do que a raivinha contra a guerra do Iraque. Os rituais artísticos desse evento, por mais confusos que possam parecer, aludem aos riscos encravados nas intenções camufladas pela cruzada entre as forças do bem contra as do mal, de conseqüências imprevisíveis para integridade territorial dos países e uma absurda imposição para as democracias do Ocidente. Mas, como na arte tudo parece festa,a guerra do Iraque pode virar uma rave. Num dos eventos paralelos, intitulado Down by Law (Fora da lei) faz-se uma simpática referencia aos heróis darks do sonho americano. Uma seção da mostra põe lado a lado Saddam Hussein, Unabomber e George Bush. Numa sala cartazes e fotos de foragidos estão expostos próximo a um mapa das leis de sodomia nos Estados Unidos. Outra sala exibe um vídeo com uma longa entrevista de um paquistanês preso logo depois do 11 de Setembro. Um dos organizadores da mostra disse:- “Não tomamos posição. Apenas exibimos a luta dos Estados Unidos entre a ordem e a desordem”.
A liberdade é caótica. (sic). Fugi desse núcleo da mostra com a impressão de ter participado de uma conclamação à luta. Uma luta em que o inimigo era o espectador atento e critico às manipulações políticas ali exibidas.
Pra finalizar esse relato macabro serei um pouco otimista, Todos parecem concordar que atravessamos uma zona crepuscular. Esse é um momento do dia em que a luz incide sobre as coisas produzindo estranhas variações. Através de um foco difuso é licito vislumbrar que as bienais e os megas eventos internacionais não são mais importantes para as artes e para os artistas. Hoje, esses eventos nos despertam a sensação de esgotamento dos princípios estéticos porque estão norteados por mensagens criptografadas enviadas para além da arte. Essa intenção também enfia o publico na confusão entre realidade e ficção. Os mais saudáveis saem do museu certos de que a insanidade mental ha muito deixou de ser um sintoma limitado aos hospícios. Exposições como essa tornam visível a dramática situação dos artistas atuais diante da imprevisibilidade em relação ao futuro. Nos seus aspectos mais objetivos a historia nos ensina que advertir sobre a premência por pactos de convivência planetária confiável é sinal de sanidade. Onde encontrá-los, é a questão. Essa Bienal Americana, pretendendo oferecer meios para reflexão, criou paralelos falsos entre o Whitney, o Pentágono e Cabul .

Em tempos críticos assim, a arte em qualquer forma que se apresente, seria a mais cáustica manifestação dos anseios humanos. Porém, isso não parece suficiente para os curadores. Eles necessitam de uma mensagem que agregue todos em torno de um tema maior. Quem hoje ousaria se opor à liberdade criativa dos curadores sem correr o risco de ampliar a celeuma entre avançados e reacionários?É crível para alguém que a contestação estética a invasão do Iraque é uma garantia para a sobrevivência das democracias do Ocidente? Há os que apostam que a destruição e a morte que paira sobre tempos incertos, percebidos como apocalípticos, são oportunidades para mudanças. Há outros que consideram nosso tempo um sinal severo sobre a ineficácia dos esforços para obtenção da paz. O que significa dizer que muitos não a desejam de fato.
Agora, distante do campo de combate travado no Whitney penso, que para os agentes culturais, o que importa de fato é um grande causa. Pouco importa o quanto custe para a arte e para o público.


Entre a Cultura e o Mercado



A insuficiência da estrutura de museus e galerias, por mais avançadas que sejam, é hoje em dia flagrante e trai em muitos casos, o sentido profundo, a intenção renovadora do artista, (Hélio Oiticica) com o triunfo do mercado de arte, esta insuficiência que nos fala Oiticica passou do estrutural, do físico para o cultural. Os espaços destinados ao trânsito dos objetos de arte são sinalizados por outros códigos que até desprezam a arte como um fazer mental. O mundo dos patrocinadores, do público das vernissagens é dominado pelo olhar do turista que viaja em busca de estereótipos, para uma rápida relação de divertimento, de algo que agrade e alimente um status. Um ambiente de amenidades, de rara descontração, solene, afasta o público que poderia ter uma compreensão mais natural dos processos simbólicos. O espaço social / cultural é restrito, contornado pelo mundano. No que tange a circulação e divulgação, a arte acabou sendo condenada às regras e aos mecanismos do mercado, com seus espaços seletivos, cujos critérios se limitam aos da sociedade de consumo. Muitas vezes vai-se a uma exposição por um compromisso extra cultural, uma obrigação social. E do ponto de vista do mercado a obra é apenas uma opção de investimento.
A arte trabalha o inconcebível a experiência sensorial recalcada nas operações mercadológicas. Esta extravagância de transformar um produto destinado ao pensar em fetiche cultural de um público privilegiado economicamente, (sua condição de mercadoria levada ao extremo), faz da arte por uns momentos, um produto descartável, fora do valor de troca. É o mercado que financia a publicidade do trabalho, paga a crítica e sustenta o artista numa sociedade dominada pelo capital, neste caso não podemos negar sua importância. O ambiente do mercado de arte, pouco fascinante para quem busca o essencial da cultura, afasta o pequeno público mais ligado ao saber, sem dispor de poder aquisitivo indispensável para o consumo de obras de arte. Mas nada impede a quem dispõe de um mínimo de capital intelectual de ver uma exposição, a entrada é franca, e com sentimento de “penetra” é possível se apropriar através do olhar de um bem ou meio de conhecimento, a princípio endereçado ao outro.
Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)

quarta-feira, agosto 16, 2006

Um Réquiem para Newton Cavalcanti

O artista plástico Newton Cavalcanti morreu sábado 12 de agosto em Santa Tereza, bairro onde morava. Segundo noticiou a imprensa ele foi aluno de Goeldi e um dos mais importantes gravadores brasileiros, credenciais que não impediram que a morte, ainda segundo a matéria- o encontrasse em “relativa obscuridade”. Essa consideração me despertou maior atenção.

O que é relativa obscuridade?

Uma obscuridade social sujeita a lampejos esporádicos de visibilidade?

Vai entender!

A síntese objetiva e aparentemente cruel dessa nota deu pouca relevância à trajetória do artista me levando a ponderar sobre a grandeza com que as alegorias vencedoras ocupam o imaginário contemporâneo. Se a pretensão do articulista era provocar a tristeza do leitor em relação a um personagem “esquecido”, comigo falhou. Não me despertou “piedade” em relação ao artista, ao contrario, me confirmou a vitoria de uma vida dedicada à arte, apesar dos tropeços e dificuldades inerentes a função. Tive dó da sociedade! É ela a grande perdedora. Perde dia a dia a reverência à existência humana e a criação artística.
Todos os dias somos levados a encarar noticias de episódios sensacionais envolvendo centenas de mortes, volumosas corrupções e impunidade generalizada lado a lado com matérias sobre os sedutores sinais de riqueza e prosperidade de um personagem high das artes, em destaque na mídia. Algumas pessoas me telefonaram se manifestando sentidas pela forma com que as duras palavras lhes tocaram. Confesso que não me surpreendi. Para mim o deslumbramento pelo glamour “fashion” que seduz os freqüentadores do ambiente artístico contribuíram para criar dois tipos de caricaturas artísticas: as “celebridades e os “relativamente obscuros”. Também pudera, para um mundo desprovido de critérios, fama e fortuna valem mais que talento, dedicação e mestria.
Newton nasceu em 1930 na cidade de Bom Conselho em Pernambuco. De origem humilde e dono de grande talento não permaneceu por muito tempo em sua cidade natal.

A obra de Newton Cavalcanti se insere entre as mais importantes da gravura contemporânea. O artista era senhor de um repertorio único na arte moderna brasileira. Sua representação do mundo foi motivada pela inquietude frente aos mistérios da vida e construída nos moldes de uma epopéia sobre os medos do homem. É um alerta contra as farsas insípidas e banais, desprovidas de conteúdo e incapazes de mobilizar nossa consciência sobre o lado obscuro das coisas.

As obras que compõem seu Réquiem se erguem eloqüentes sobre corpos aparentemente inertes numa espécie de transgressão ao silencio imposto aos mortos. Sua arte totaliza visualmente o horror infringido pelos vivos e discorre sobre a vida dando voz aos mortos. Segundo palavras de Flavio de Aquino seu “diabólico pedaço do inferno, com seus gênios do mal, seus diabos e até com a Morte Rubra surgindo em meio aos cadáveres e fantasmas”, o destacou - ismos à parte - entre os artistas de sua geração.

Newton estudou com Raimundo Cela e Goeldi na Escola de Belas Artes da Universidade Federal. Durante muitos anos se dedicou a gravura em preto e branco. A partir de 1969 intensificou sua inclinação para o desenho e a pintura. O artista teve um diversificado desempenho artístico, expôs em Barcelona, Londres, Estocolmo e Tóquio, na Bienal de Paris, no Chile e na Itália. Com o prêmio de viagem ao exterior, obtido no Salão Nacional de1972, foi para Inglaterra onde morou por dois anos. Em Portugal executou inúmeros desenhos, gravuras e selos. Num ritmo que tudo envolvia participou em filmes de Paulo Cezar Sarraceni, Rogério Scanzela, Mario Carneiro e Vítor Lustosa e criou cartazes para alguns filmes de Glauber Rocha. Seu talento se espalha por incontáveis coleções particulares e públicas no Brasil e no exterior. Esse gravador, desenhista, pintor e professor, alheio ao modismo e distante dos artifícios do circuito de arte, se dedicou, de corpo e alma, aos desafios a que se propôs. Graças a sua eloqüência e imbatível dedicação ao trabalho, podemos fruir um imaginário esplendoroso que só poderia ser transposto para o real pelo poder do talento e do seu amor à arte.

Adriano de Aquino
agosto de 2006

quinta-feira, agosto 10, 2006

O Martírio da Modernidade

1ªparte>Politica e Economia

No seu livro Uma Breve Historia do Homem o professor inglês Michael Cook afirma que a modernidade é uma questão de cultura e que uma vez surgida em um lugar; pode ser imitada em outros.
Através desse prisma as coisas parecem simples.
Para os artistas e intelectuais ligados ao modernismo artístico europeu do século XIX e XX esse era um paradigma cristalino quando preconizavam a expansão dos diálogos artísticos para além das fronteiras nacionais.Essa atitude não lhes obliterou a consciência de que a consolidação dos postulados do novo regime estético se daria às custas de longos embates contra os segmentos culturais conservadores,para quem qualquer mudança representava enorme ameaça.
Porém, apesar das reações contrarias, a extensão planetária dos movimentos modernos em arte, não obstante os descompassos cronológicos ocorridos entre os paises, confirmam o êxito mundial do modernismo.Contudo, no plano social, a modernidade engendrou complexos problemas sociais induzindo as instituições a se reestruturarem para fazer frente a uma nova dinâmica produtiva e a inéditas formas de trabalho.Nesse contexto produziu-se graves contradições.
Admitindo-se que o surgimento dos tempos modernos lá onde se deu -na Inglaterra dos idos de 1760, inicio da Revolução Industrial (historiadores contemporâneos acolhem a idéia de que o berço da Revolução Industrial foi a Holanda) não só difundiu novas técnicas e ferramentas como redefiniu prioridades -concedendo grande destaque aos avanços tecnológicos e redimensionando a escala de produção –alterando significativamente a redistribuição das riquezas pela sociedade local.Nesse sentido a Revolução Industrial e seus efeitos modernizantes, absorveram e consolidaram, lenta e gradualmente, as posições das novas categorias de trabalhadores envolvidos na nova engrenagem produtiva.
Se houve percalços eles foram impotentes para deter a marcha e impedir a magnitude do processo modernizador.Conduzida de maneira voluntária pelos empreendedores ingleses, independentemente da impertinência dos nobres e das agruras e incertezas geradas pela Speenhamland Law que levou a sociedade inglesa do final do século XVIII a se debater entre duas influencias opostas: a que emanava do paternalismo e que protegia a mão de obra dos perigos de um sistema de mercado, e a que organizava os sistemas de produção, inclusive a terra, sob um sistema de mercado, afastando a gente comum se seu status anterior, compelindo-a a ganhar a vida oferecendo seu trabalho à venda, enquanto ao mesmo tempo privava esse trabalho do seu valor de mercado, segundo as palavras de Karl Polanyi. Ainda segundo ele esses vacilos ocorreram durante o mais ativo período da Revolução Industrial, portanto entre 1795 e 1834, e dificultaram enormemente a criação de um mercado de trabalho.Mesmo tendo sido o mercado de trabalho o ultimo dos mercados a ser organizado a modernização dos meios de produção foi se agigantando superando aspectos inumanos, transpondo as fronteiras e proporcionando melhor distribuição da riqueza, que por volta de 1850 já se podia perceber pela elevação real de rendimentos e no maior investimento do Estado no bem estar dos cidadãos. Cook entende como um sinal do sucesso da modernidade a transposição do processo modernizador para além dos territórios nacionais.Para melhor explicar ele dividiu essa expansão em três grupos principais...O primeiro aconteceu nos territórios ultramarinos britânicos. O segundo grupo é dos europeus continentais e o terceiro grupo é o dos asiáticos orientais ou em alguns daqueles paises... Ele diz ainda que:... os países latinos americanos que a adotarem se sairão melhores que no passado.Essa chicotada sobre o lombo surrado dos povos desse martirizado continente demonstra o desprezo que boa parte dos doutos europeus devotam ao esforço dos paises latinos no empreendimento de modernização dos seus sistemas produtivos e das instituições sociais.
Por que?
Na tentativa de responder essa questão é possível que eu cometa inúmeras incorreções ou despreze alguns aspectos relevantes.Por isso antecipo minhas desculpas ao leitor que seguir adiante.
A chamada América Latina engloba trinta e três paises com passado de submissão colonial, na sua grande maioria escravocrata e que ainda permanece uma região marcada pela impunidade a exploração social e uma enorme desigualdade. Boa parte desses povos ainda sofrem mazelas inconcebíveis numa sociedade moderna.
Para Cook nós latinos não estamos sozinhos nesse buraco, mais abaixo, no fundo do abismo dos tempos encontra-se a África subsaariana, com exceção da África do Sul, mas não de Angola, que,segundo ele, são regiões onde não se ouve falar da modernidade com otimismo, caso similar também aparece no mundo islâmico.Restringirei minhas considerações ao panorama que ele destinou os países latinos americanos. Nesse contexto, a visão internacional é de certa forma coincidente.Para a maioria dos habitantes dos paises desenvolvidos os países sul americanos são recantos bucolicos que sofrem as conseqüências de uma absurda passividade administrativa e precaria racionalidade.
Eu, ao contrario, entendo que a elite brasileira não sofre de passividade,assim como o povo simples é trabalhador.
Então ,onde reside o problema?
Se a elite local não é passiva e muito menos ignorante como explicar tantos obstáculos para a implantação da modernidade. Concordo que as elites foram e continuam sendo as principais responsáveis pelos descompassos ao nosso desenvolvimento.Contudo,ela não é a única culpada.Por isso torna-se necessário uma avaliação mais detalhada.
Sem querer contrariar a tese do professor Cook, penso que a mundialmente famosa facilidade de nossa deslumbrada elite em espelhar-se na soberba e no orgulho das altas rodas internacionais e copiar modelos externos fracassou de forma espetacular ao negar estender, com o mesmo entusiasmo, a imitação dos benefícios da modernidade pelos vários setores sociais.Embalada por desmesurada ambição privou e continua privando os pobres de recursos essenciais a subsistência, guardando para si, de forma primaria e arriscada, o poder e as riquezas da nação.Se tal desventura não é sinal de ignorancia pode ser entendida como uma atitude de complascente irresponsabilidade e uma forma de condução que ruma em direção à tragédia.Uma caricatura grotesca disso são as cidades grandes brasileiras onde convivem, lado a lado, palácios nababescos e casebres insalubres.
Dizem alguns que essa atitude das nossas elites são resultantes da vassalagem que de bom grado praticavam nos contatos com o colonizador.Por algum misterioso motivo tal sintoma permaneceu mesmo depois que outros regimes o sucederam.Discordo dessa opinião.Tenho duvidas sobre essa logomarca de fazendeiro pachorrento, preguiçoso e ignorante,tipica dos filmes produzidos por cineastas cosmopolitas sobre personagens da região.
O problema é mais profundo que a rudeza de modos,a aparencia boçal e o linguajar chulo de um capataz.Entre nós se disseminou uma cultura extrativista, hoje facilmente identificavel no oportunismo desmesurado que se derrama por todos os setores da sociedade.O modelo do gestor latino é um protótipo comum a quase todos os paises da região e pode ser achado em qualquer categoria social.Um sindicalista ou um coronel de estância, rico ou pobre, tornam-se semelhantes não só nos trajes janotas com que se apresentam,mas,sobretudo na atitude arrogante e na postura paternalista que espelham quando assumem um poder.Introjetam automaticamente uma postura similar sem a qual não seriam reconhecidos, admirados e temidos pelos companheiros e rivais políticos.
Talvez por isso as repetidas tentativas de mudanças de rumo da nossa sociedade resultaram em rompantes sincopados, de abrangência social restrita e altamente custosa. A parte raros e elogiáveis personagens a vida publica brasileira é coalhada de figuras horripilantes.Acredito que a empatia que temos pela representação dantesca é oriunda de uma visão difusa, imprecisa e episódica que encobre uma fatal atração pelo desastre.
Aqui cabe um exemplo recente pois ele revela o confinamento da sociedade brasileira ao brejo da irracionalidade.Dos inúmeros impactos econômicos e sociais ocorridos nos últimos cinqüenta anos destaca-se o ocorrido no setor das comunicações.Esse setor agregou aos parcos meios locais um abundante instrumental tecnológico de ultima geração, permitindo que as comunicações eletrônicas cobrissem rapidamente um vasto território e atingissem uma enorme população,fazendo prosperar empresas milionárias sem, contudo, reduzir significativamente as desigualdades sociais e o analfabetismo.Para um observador atento e racional tal contradição é manifestação de um delírio esquizóide, entretanto, vista sobre o foco nacional essa discrepância é facilmente entendível e pior, aceitável.
Os marcos da modernidade social e econômica, emblemas da vitória da racionalidade dominante no século XIX e XX, aqui se tornaram só mais uma forma de martírio.Sabemos o quanto é difícil para um país atrasado se opor ao sistema global, contesta-lo e ainda assim progredir.
A recente fartura de recursos disponíveis no mundo desenvolvido vem produzindo curiosos fenômenos.Visando expandir a rede de distribuição de seus produtos, serviços e capitais os paises de sólida economia construíram pontes com os paises de farta e crescente população.Novos teóricos, sobretudo do setor econômico defendem teses que aparentam oportunas e promissoras para os paises que ficaram para traz, esmagados por grandes problemas sócios econômicos, que arrastam volumosas dividas, secular desrespeito pela coisa publica e inaptidão para empreendimentos privados. Uma dessas teses que obteve grande divulgação propõe saltos de etapas.A Coréia é um excelente exemplo de êxito da tese.
O salto de etapas me lembra as modernas pedagogias no trato dos alunos retardatários.Contudo, para o êxito do programa é vital que o retardatário invista sobretudo no desenvolvimento educacional e cultural.No Brasil educação é retórica eleitoral e cultura é assunto pra mídia.Além do mais,como no mundo atual as coisas andam muito mais rápido, é bom saber se os economistas pós-modernos já divulgaram teoria mais recente que devera ser experimentada nos paises periféricos.Quer dizer, todos que não integram o G7.
Novos critérios de avaliação econômica contam hoje com a anuência de importantes agencias internacionais, coisa inadmissível até poucas décadas atrás.Isso é bom mas não é tudo pois um diagnostico pode conscientizar o doente porém não tem o poder de cura de um medicamento adequado.Alguns teóricos da economia moderna e doutores em engenharia financeira crêem que os paises subdesenvolvidos podem saltar etapas e integrar-se mais rapidamente ao fluxo tecnológico e econômico global se adotarem as políticas publicas adequadas.Para eles o país em desenvolvimento que reformar suas instituições publicas direcionando-as para o mercado, atrairão capital e grandes empresas internacionais dispostas a participar de empreendimentos capazes de alavancar o desenvolvimento a partir do domínio dos saberes e das técnicas contemporâneas. A isso se impõe a abertura do Estado a participação das empresas privadas nos setores infra-estruturais, na exploração de matéria prima, produção e distribuição de energia e outros insumos, bem como no sistema de transportes urbanos, nos portos, aeroportos e nas bases e suportes de mercado exterior etc. Os adeptos da globalização acreditam que essas reformas viabilizam novos pactos.É bom lembrar que os governos brasileiros já vêm operando assim desde 1992, contudo, o crescimento brasileiro vem de revelando medíocre de ano para ano.Os vencedoresconsideram isso um detalhe irrelevante.Segundo eles isso ocorre mesmo em paises de sólida estrutura econômica onde os lucros astronômicos do sistema financeiro alcançaram a estratosfera com indicadores jamais alcançados em modelos antecedentes.Por isso eles identificam nosso tempo como uma era de prosperidade.Os altos índices de desemprego e a recessão industrial são entendidos como questões menores que podem ser amenizadas através de um programa assistencialista de governo.Coisa que no Brasil vem sendo feito há muito tempo e que atingiu absoluta mestria no atual governo.
Bem!Se tudo até agora descrito sugere um plano perfeito justifica-se nossa insônia, insegurança e preocupações.
Não só os brasileiros, mas todo o país latino americano conta com quase duzentos anos de independência política, entretanto, continuam sofrendo a opressão cabotina de seus dirigentes.Só podemos lamentar nossa impotência diante da vigência de uma cultura política paternalista, populista e demagógica que atravessa os tempos.Esses métodos devastadores marcam profundamente nosso caráter.É surpreendente e motivo de inexplicável orgulho que tenhamos chegado até aqui com relativa integridade territorial e poucas guerras.Nossas histórias são no mínimo intrigantes, mesmo diante do poder destrutivo das elites e da classe política da região, responsáveis pelas mazelas que sofrem as nações desse pobre continente.Uma danada tradição faz com que os críticos de nosso atraso se encham de razão quando afirmam que só poderemos obter êxito quando tivermos modernizado nossas sociedades, extinguido nocivos e antiquadas manobras eleitoreiras, enfrentado corajosamente os problemas sociais dando um fim ao paternalismo, as políticas clientelistas, a impunidade e aos favoritismos e nos graduado em autonomia econômica. Bem, se depender de todos esses fatores as coisas começam a descer ladeira em velocidade vertiginosa.
Não possuo conhecimento academico sobre economia.Só conheço Havard por fotografia , porém , me sinto pleno de pureza angelical para tecer comentarios sobre o assunto.Além do mais a finança sucedeu a magia e a religião se constituindo o novo Deus que rege o mundo contemporaneo.
Sobre Deus todos temos ignorancia similar.
O extraordinário poder da economia moderna despertou uma nova categoria de hereges com os quais me identifico.E,é bom lembrar que os economistas brasileiros conhecem muito pouco sobre a sua propria matéria. David Landes narra uma historia interessante envolvendo um economista latino.Ele relata uma conversa que teve sobre o ...insuportavel fardo da divida externa antiga e da vexatória e mesquinha insistencia estrangeira quanto ao reembolso.Ele sugeriu ao interlocutor que o seu país não pagasse o debito sublinhando: ...uma nação soberana pode sempre recorrer ao não reconhecimento da divida ...diante do que o economista retrucou ...mas a quem então iremos acudir para mais empréstimos? Para ele a questão essencial dos altos débitos dos governos latino americano está no cerne da cultura da maioria dos paises que querem permanecer tomando emprestimos, nem que seja para pagar os juros dos emprestimos mais antigos.Essa doida mentalidade ainda perdura na mente do politico local, mesmo diante das restrições impostas pelo rigor do importado recurso da responsabilidade fiscal.
(continua na próxima semana)
Imagem
O Caipira Picando Fumo de Almeida Júnior (1850-1899) na frente de uma pintura de Mondrian( 1872–1944)

segunda-feira, julho 24, 2006

Fronteiras Imaginarias

http://pt.wikipedia.org/wiki/Complexo_do_Alemão / Berlim
Os dois séculos passados foram marcados pela contribuição do gênio alemão nos mais vastos domínios do saber.A genialidade impar dos seus pensadores ampliou e aprofundou os significados da razão, da estética, da ética, da lógica, das artes e das ciências.Uma forte determinação e um fluxo original de idéias consagrou escolas e solitários pensadores. F. Nietzsche, para não estender por muitos exemplos. Esse pensador,durante toda sua vida confrontou os cultos ao establishment de sua época.Contra tudo e contra todos sua obra se constituiu, como uma das mais extraordinárias contribuições para o pensamento das sociedades do século XX.Um respeitável numero de escritores, músicos, pintores, a notável arquitetura e o talento especial para concepção técnica de máquinas e equipamentos refletem a complexidade de uma imponente sociedade moderna.Contudo, nem mesmo a poderosa tradição cultural e os aparatos intelectuais e morais de que dispunham conseguiram deter o avassalador crescimento de uma liderança populista messiânica que fortalecida pela paixão, conduziu as massas à intolerância, ao terror e a violência.Mesmo a extraordinária historia de lutas entre povos, que outrora integravam o Império Romano e que se consolidou mais tarde na nação alemã, foram impotentes diante do poder avassalador e destrutivo da segregação e do ódio.Apesar dos desatinos que conhecemos,antes mesmo do inicio do século XX, os alemães ja exerciam influencia política em alguns paises latinos americanos.No México por exemplo, treinaram e equiparam o exercito nacional para enfrentarem as forças Zapatistas e conter o poder expansionista do poderoso vizinho do norte.Se resultado de suas armas e estratégias, ou não, o fato é que Zapata jamais chegou ao poder, porém, lamentavelmente, os mexicanos que se tornaram soldados ao estilo germânico perderam suas vidas sem impedir a tomada de suas terras pelos ianques.Com o score de 1x1 os conselheiros militares alemães voltaram para casa. Nos dias atuais as divisões de força são bem diferentes. Recentemente uma revista internacional de política externa publicou um ensaio do ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda no qual nos apresenta uma curiosa analise sobre as novas tendências da esquerda na América Latina.A leitura me suscitou paralelos com desenhos de fronteiras imaginarias, bem ao estilo do realismo fantástico latino americano, cabíveis no jargão que hoje identifica a luta entre as forças do bem contra as do mal.Para quem desconhece ensaio,colo aqui um breve resumo: dentro de uma lógica (não germânica) o ensaísta nos propõe a diferença crucial entre os lideres latinos de esquerda, hoje no poder.Nesse panorama, Castañeda coloca o presidente brasileiro Lula e a presidente chilena Bachelet como os representantes da banda do bem ficando para os presidentes Morales da Bolívia, Chaves da Venezuela e Khirchner da Argentina a banda do mal.
Diante da inovação pergunto: porque tantos duvidam da liderança espontânea do presidente Bush sobre a política das Américas? Digo espontânea pelo fato de que o presidente norte americano não precisou de armas para convencer alguns intelectuais latinos de que a guerra do bem contra o mal é uma realidade e não um artifício hipócrita e mentiroso para justificar a invasão do Iraque.
Comecei de fato a me preocupar com o efeito Castañeda quando li os artigos de alguns cientistas políticos nacionais avaliando positivamente o populismo latino do bem.A principio pensei tratar-se apenas de mais um artifício eleitoreiro.O velho e persistente oportunismo.Afinal,os pensadores "partidários" necessitam de substancia teórica para justificarem as praticas assistencialistas do governo a fim de fortalecerem a campanha de Lula nos setores sociais mais preparados, visando o grosso dos votos das regiões urbanas.Esse é um ponto sensível e crucial na eleição que se aproxima.Nesses dias de violência muitas pessoas aceitam as praticas assistencialistas,mesmo sabendo de suas graves conseqüências para a vida política nacional.Partem da lógica de que o mediocre crescimento econômico não consegue atender as necessidades preementes por empregos e associam os crescentes bolsões de miséria que invadem as ruas dos grandes centros urbanos, com focos potenciais de crime e violência.
Seguindo a tradição os personagens do circo político nacional permanecem se lixando para as conseqüências das tais praticas populistas e iniciaram a pregação de idéias inspiradas em lendas políticas carismáticas que dedicam toda uma vida a causas em prol do povo sofrido.Os mais delirantes propõem a redefinição de uma nova estética para o tradicional culto a personalidade e o restabelecimento da crença popular da - "mão caridosa" - porque aparentemente democrática, dos governos populistas do bem.Trata-se de mais um movimento renovador da tradicional e abundante mediocridade continental.
Nesse quadro bizonho proliferam os fungos e o cheiro de bolor tornou o ambiente irrespirável. Os mais tímidos se sentem pouco à vontade quando justificam sua adesão ao governo através do aforismo de que a corrupção escachada que presenciamos é um fenômeno natural, um processo indissociável da cultura política latina americana.Dedicados que são devem estar gestando uma teoria para encaixar a corrupção do bem em oposição à do mal.Os mais discretos partidários do governo já  alegam há algum tempo que a corrupção é um mal endêmico, como a malaria, abundante nos trópicos, e com a qual teremos que nos habituar a conviver. Sobre a alegação de que aqui sempre houve corrupção, não se inventou nada, o ministro da cultura Gilberto Gil assim definiu para um jornal carioca as malfadadas ações dos membros do governo e diretores do PT, suspeitos de corrupção, próximos ao presidente da republica .
O ministro Gil é um músico reconhecido e tem um nome a zelar.A sua opinião,sempre clara,objetiva e precisa teve a força de um raio sobre minha consciência.De maneira tranquila,pausada e segura o ministro me transmitiu a fisicalidade de uma muralha ao volátil conceito de imponderabilidade.
Mais grave contudo são os elementos desprovidos de caráter.Eles olham mais longe quando afirmam que a insignificância econômica da corrupção justifica o desinteresse em se investigar e punir.Arrogantes exibem uma tabela para mostrar que os desvios financeiros da corrupção são inexpressivos se comparados ao volume dos benefícios sociais que o governo vem transferindo para os pobres através das bolsas contra a fome.
Também não deve ser tratada com desdém a argumentação dos grupos ligados a mais importante frente de luta do PT que é a reeleição do presidente Lula.No foco dessa luta encontramos o núcleo paz e amor e sua lógica de difícil assimilação.Como eles não demonstram nenhum pudor em revela-la acredito que ela será o tema central e slogans de campanha.Ela parte do principio de que nenhum crime ficou patente e ninguém conseguiu provar o envolvimento de parlamentares e membros do governo com a corrupção.Segundo essa lógica inexiste, portanto, corrupção do bem no governo do populismo do bem.As CPIs confirmam essa assertiva e por isso se tornaram programas cômicos de grande sucesso popular.
Costumamos não dar atenção quando pessoas irresponsáveis falam bobagens.Aí reside o perigo. Começamos a nos preocupar quando intelectuais sérios se metem em aventuras irresponsáveis.Talvez porque então as coisas ja desandaram demais .Não desprezo o fato de que alguns cientistas políticos honestos sejam simpatizantes do governo.As pessoas costumam admirar o mundo que inventam.O que me preocupa é quando eles começam a se manifestar publicamente de forma irresponsável.Recentemente, entusiasmado pelas idéias de Castañeda ou não, o cientista político Luiz de Fiori anunciou que estamos vivendo uma nova onda nacionalista mundial.Ele entende que as renegociações por “preços justos” com as petroleiras são reflexos de uma nova atitude politica. Dentre outras explicações sugere que estamos diante de um revival nacionalista mundial.Fiquei surpreso com a ideia.Num texto ambíguo sobre questões energéticas o ilustre cientista político afirma que somente a idiotia conservadora considera como populismo latino americano o que é um reflexo coerente dos governos da região sintonizados com uma nova onda nacionalista mundial.
Em seu artigo ele alude a ocorrências dispersas, identificadas pelo New York Times como a ressurgência mundial das políticas nacionalistas.O diário nova-iorquino serve pra tudo.
Nesse caso serviu para credenciar na mídia local a lógica do autor.Seus argumentos sobre as atitudes dos novos governos da região interagindo com uma vanguarda politica mundial me pareceu absurda e ingênua para servir como fundamento de um novo nacionalismo em oposição à economia global e a cultura mundialista.Para os prepotentes é sempre bom lembrar que a idiotia conservadora,dementes e mentecaptos também foram vitimas de um projeto nacionalista absurdo que banhou a Alemanha de sangue. Sabemos desde criancinhas que as discussões sobre reservas minerais, insumos energéticos e preços são, na maioria das vezes, batalhas travadas sobre o fio da navalha, ou melhor, das baionetas.Nem por isso desfralda-se por ai bandeiras de novos nacionalismos.Será que de Fiori tem duvidas sobre o conteúdo e a nobreza de princípios que defende a eternização do populismo do bem nos bucolicos recantos latino americanos?
Adriano DE AQUINO
Imagens GoogleEarth

terça-feira, julho 11, 2006

?Como Viver Junto!


Apesar das inúmeras mudanças que vem ocorrendo em todos os setores da sociedade, é lamentável atestar as tímidas variações nas instituições artístico-culturais em nosso país.
A edição 2006 da Bienal de São Paulo insiste em manter ativos conceitos esgotados.Até o momento a polemica em torno do evento está restrita a pretensão de Edemar Cid Ferreira em presidir a instituição.Encarcerado, acusado de crime financeiro - segundo a acusação ele faliu fraudulentamente o banco que presidia - pretende de novo comandar a instituição cultural.Alguns consideram sua posse um ultrage e pretendem tomar atitudes, outros não acham o assunto tão relevante e comentam despreocupadamente.Outros mais, piadistas, admitem que o candidato tem atração por falências.
Entretanto, poucos questionam se as intervenções em espaços consagrados já deram o que tinham que dar.
Uma esquisita rotina nos escaninhos da burocracia cultural exige que os curadores e outros experts funcionais da arte, definam o tema que inter-relacionará os trabalhos artísticos sobre o quais a mostra se organizará. Talvez seja apenas um motivo para convidar artistas ou definir o marketing da mostra, contudo, devo acrescentar que a incessante repetição da fórmula de eleger um tema para as grandes mostras, tornou-se uma pratica enfadonha.
Como Viver Junto, tema da próxima Bienal, me parece um tópico comum nas palestras dos psicólogos de terapias de casais ou pedagogos que avaliam a adaptação das crianças ao sistema escolar. Mesmo sabendo que o referido tema não pretende subordinar a produção artística que reunirá, o método revela a força do hábito de se fazer como sempre se fez.Para que minha crítica não tenha apenas a rudeza do deboche, justifico: se o tema queria direcionar o olhar dos artistas e do publico para as condições atuais do convívio global acho que fracassou.Primeiro porque tornou o foco da proposta por demais difuso e, depois, pelo fato de que as angústias que afetam a vida em comum, sobretudo as geradas pelas múltiplas sensações de insegurança planetária que tencionam a convivência entre Ocidente e Oriente, palestinos e israelitas, cristãos e muçulmanos, homens e mulheres, etc... são mais bem compreendidos quando definidos de forma objetiva,como na recente Bienal norte americana do Whitney, que focou na guerra do Iraque.
Caso a ampla abertura do tema dessa Bienal de São Paulo pretenda abrigar manifestações estéticas que reflitam sobre questões relativas ao convívio conjugal, relações familiares, comunais, profissionais etc... seria prudente que antes de definir seu tema avaliasse uma citação sobre os dias atuais atribuída ao financista George Soros: as pessoas não mais se relacionam, elas transacionam. Assim, estaríamos seguros de que o tema dessa Bienal focaria questões cruciais da atualidade.
Além disso, é licito imaginar que a abrangência do tema permite conceber um país com elevado grau de tolerância capaz de Viver Junto, cordialmente, com o uniforme emporcalhamento da vida política nacional.
Nas sociedades subdesenvolvidas, onde a viscosidade dos velhos hábitos arrasta uma pesada estrutura provinciana, sabemos que as mudanças levarão mais tempo.Porém, quem sabe, numa próxima grande mostra estrangeira um prestigiado curador resolva expor as obras que escolher, simplesmente expondo-as, alheio a temas e outras invencionices.
Será que a partir de então os curadores pelo mundo afora seguiriam a nova tendência?O que vemos hoje são as grandes mostras se adaptarem, circunstancialmente ao padrão, em circuito fechado, dos curadores. Contudo, devo admitir, eles não escondem, o alvo é a mídia e os glamurosos doping’s centers.
Adriano DE AQUINO
Comentários> Jacob Klintowitz sobre as cerâmicas da artista Shoko Suzuki

Para Além das Vanguardas*

Merde d'Artiste
P.Manzoni
maio de 1961

Adriano de Aquino
Uma avassaladora onda de protestos surgiu nos anos 60 e atravessou os 70. As manifestações decorrentes desse período firmaram essas décadas como das mais notáveis do século passado. Foram vinte anos agitados por diversos movimentos políticos, propostas revolucionárias e estéticas. Na América Latina a onda atingiu em cheio o campo político/ideológico transbordando do palco institucional para a disputa social. Os anseios por mudanças tomaram as ruas e uma parte da vanguarda estudantil se inclinou para a luta armada. Golpes fulminantes condensaram-se em ditaduras militares que se espraiaram pelos países do cone sul. No Brasil, o cerceamento das liberdades democráticas imperou durante 21 anos.

Nos Estados Unidos as idéias da Nova Esquerda empolgavam os jovens que se contrapunham às corporações multinacionais, ao Estado e a academia por considerá-los prisões burocráticas. Os protestos de Malcolm X iniciados nos anos 50, repercutiam nas atitudes e gestos dos Panteras Negras atuantes nos anos 60. O conturbado episódio Rosa Parks (1955 - Rosa, uma negra, se negou a dar seu lugar em um ônibus para uma mulher branca e por isso foi presa) juntou diversas lideranças negras para organizar um boicote aos ônibus de Montgomery e protestar contra a segregação racial em vigor no transporte. O boicote foi encerrado apenas depois da decisão da Suprema Corte Americana que tornou ilegal a discriminação racial em transporte público. Essa manifestação pacifica, liderada por Martin Luther King, foi fecunda para o êxito das profundas mudanças que se seguiram. Em 1968 Luther King foi assassinado. Dois anos antes (1966) Mao Tsé -Tung dava inicio a Revolução Cultural chinesa.Como na China nada pode ser pequeno, essa revolução se chamava na integra A Grande Revolução Cultural Proletária.Entre 1966 e 1976, estudantes e trabalhadores revolucionários investiram contra indivíduos e instituições anunciando um combate sem trégua contra a influencia estrangeira, os tradicionalismos regionais e a burocracia que tomava conta do partido comunista chinês.No curto espaço de 10 anos o povo chinês sentiu na própria pele a grandeza do terror e da intolerância. Na Europa os estudantes ocuparam as ruas contestando as antiquadas disciplinas das instituições universitárias e toda forma de autoridade. Maio de 68, com epicentro em Paris, se alastrou para além fronteiras. A Guerra da Indochina que iniciou em julho 1954 obrigou os franceses a abandonarem o Vietnam em 1960. Foi assumida e redimensionada em dezembro de 1961 pelo Presidente norte americano John Kennedy ao assinar o White Paper, intensificando o crescimento da ajuda militar, técnica e econômica ao regime de Ngo Dinh Diem. Somente na manhã de 30 de abril de 1975, depois de milhares mortes e espantosa destruição, as armas silenciaram no Vietnam. Catorze anos e milhares de mortos não foram suficientes para que os EUA alcançassem seu objetivo. De forma estabanada abandonaram o território que invadiram dando fim à guerra da Indochina. Os russos chegaram atrasados, mas, chegaram. Em 1985 a Perestroika decreta o fim da União Soviética. O povo soviético olha estupefato para as ruínas de um Império erguido sobre fundações utópicas do trabalho descomunal, cerceamento das liberdades individuais e muito sofrimento. Quando dão conta do tamanho do fracasso econômico gerado pelo regime já não tinham mais pão nas mesas. Quatro anos depois, comunistas alemães persistentes caem em prantos ao assistirem a implosão das fundações do Muro de Berlim, erguido em 1961 e destruído em 1989.A ditadura militar brasileira, que teve início em 1964, encerrou-se em 1985, assim como as ditaduras de outros países latino-americanos.
Nesses vinte anos escorraçou-se, matou-se e prendeu-se milhões de indivíduos sob as alegações mais estapafúrdias.
Todavia, os rios de suor e sangue dificilmente se tornam ensinamentos palpáveis. Ainda parecem insuficientes para livrar do autoritarismo, da miséria e da ignorância inúmeros povos e protegê-los contra o rompante de manipular o eleitorado, os parlamentos e as leis para impetrar seu domínio sobre a nação. Um arquivo indecente se oculta por trás do êxito dos indicadores econômicos na tentativa de esconder a omissão diante dos sucessivos fracassos educacionais e das reais pendências sociais. A preleção da prosperidade para todos fez da farsa política uma pratica louvável, reeditando o populismo à condição de unanimidade nacional.
Atravessando a fronteira idealizada que distingue as artes das atividades sociais práticas, adentramos os domínios do imaginário e deparamos com a tela cortada pelo gesto do artista. As vanguardas estéticas sacudiram as convenções. Foi novamente declarada a morte da pintura, agora “definitivamente estrebuchada”, diziam alguns. Iniciou-se o tempo da polivalência estética e da expansão das formas contemporâneas de arte. Um intenso fluxo de estilos espalhou-se pelas artes.O foco sobre as ideias e obras modernistas que já vinham sendo contestadas, ganhou entusiasmo.Sobre a tela se precipitou tal quantidade de códigos e apetrechos diversos que o plano pictórico rompeu-se definitivamente. Foi um período de muitas convulsões seguidas de várias mortes da pintura.Pra quem se comprometeu com o novo, as altas doses de novismo o tornou banal. Acrescente-se a esses fatores os brados e as atitudes radicais da época. A mais emblemática delas, para além das vanguardas, não é uma pintura, uma escultura ou objeto, mas, detrito humano, melhor dizendo, excremento humano enlatado e intitulado Merda d'Artista.Trata-se de uma lata contendo 30 gr. de merda, conservada ao natural, feita e enlatada no mês de maio de 1961. Um produto Piero Manzoni, made in Italy, vendida em grama, segundo a cotação do ouro no dia!Merda d’Artista pode parecer para alguns apenas uma piada, para outros o marco zero da arte contemporânea, e outros mais podem identificá-la como uma critica mordaz a arte moderna chafurdada na merda burguesa. Não pretendo explicar o gesto do artista ou justificar as preferências da cultura de uma época. Porém, é bom lembrar que quando Manzoni fez a Merda d’ Artista a pintura moderna era contestada por ter se destacado nas altas cotações do mercado de arte. Certamente por isso, tornou-se alvo de ataques radicais. Seu êxito econômico era visto por muitos como a corrosão de sua vitalidade artística.
A dinâmica social é a fonte onde bebe a ironia. Anos mais tarde, um dos desdobramentos do gesto de Manzoni, ocorrido em 1989 na galeria Pailhas em Marseille, quando Bernard Bazile procedeu em publico à abertura de uma das latas de merda d'artista. Segundo alguns, ali se realizou um autentico “gesto d'artista” que gerou, de passagem, mais-valia no mercado, porque o preço de uma lata - com valor inicial de centenas de milhares de francos - dobrou, depois do episódio de sua abertura. Não pretendo aqui me alongar em explanações de caráter econômico sobre um fenômeno estético ou discorrer sobre teorias culturais. Acho melhor ir direto aos fatos, ou melhor, descrever o teatro onde os fatos acontecem. O primeiro ato é o gesto de Manzoni. O cenário um cubo branco, o enredo é inspirado num caleidoscópio estético cultural da modernidade e o pano de fundo a historia da arte e do pensamento estético moderno. No segundo ato a platéia é o palco dos acontecimentos. Experts, acadêmicos, colecionadores, historiadores, estudantes de arte, antropólogos, empresários, críticos, jornalistas, artistas in e out, amantes da arte etc.
Um compacto desses atos, com tomada inicial em close up do gesto de Manzoni e em fade out no desdobramento do gesto realizado por Bazile 28 anos depois, independentemente de sua crescente valorização no mercado de arte, afirma, categoricamente, que o gesto do artista é parte indelével do repertorio artístico moderno. Nesse ponto o gesto de Manzoni se funde com a imagem do mictório de Duchamp, tendo ao fundo o monologo: Ser ou não ser... Arte é um negocio de arte.
Ao final do espetáculo a audiência sai comentando sobre a obra. Uns perguntam se o gesto do artista é uma contribuição indelével no conjunto das investigações modernas. Outros comentam em detalhes o gesto de Manzoni e outros mais avaliam seu grau de interferência na percepção do mundo ou sobre a acida contestação ao culto do toque de Midas de artistas como Picasso, por exemplo, que ao assinar um rabisco sobre um guardanapo do restaurante o dono do estabelecimento se tornava possuidor de uma obra de arte mais valiosa que seu patrimônio comercial.
Alguns artistas da vanguarda contemporânea entenderam literalmente o gesto de Manzoni. A merda legitimada como matéria prima artística se tornou meio século depois significado, nas instalações de Paul McCarthy e nas fotos de Andrés Serrano
Nos anos 70 intensificou-se o combate ao autoritarismo e ao arsenal modernista oriundo, inclusive, das rupturas identificadas com a vanguarda histórica, então consagrada. Os artistas mais radicais desse período viram no reconhecimento mercadológico e na consagração publica das obras e dos artistas do modernismo um golpe mortal no coração da vanguarda. Com essa visão muitos contestaram a assimilação das obras modernas nas repartições publicas, nos museus, nas galerias, coleções oficiais, etc.
Jovens artistas, inclusive eu, ironizavam o louvor e a vertiginosa escalada de preços das obras modernas, tornadas objetos fixados no sistema dominante, endossando suas praticas espúrias.
Wahrol com suas reproduções seriadas das celebridades, produtos de consumos e fatos cotidianos colocados num mesmo plano, volta a ironizar o culto à valorização. Tempos depois Wahrol se deixou filmar mijando sobre as telas que estava pintando, colocando uma questão em sua trajetória como pintor e introduzindo, de novo, o excremento humano no repertorio artístico. Quer dizer, reafirmando um moto continuo que se tornou referencia para alguns artistas pós - modernos. Cruel ironia, décadas depois, o próprio Wahrol e suas obras tiveram o mesmo destino.
Talvez se possa dizer o mesmo das idéias, mas não das obras, que nortearam o termo Bad Painting que introduziu pelos idos dos anos 80/90 as pinturas pós-modernas. Nesse ponto retorno à introdução desse texto. Descolando-se do contexto critico/político da modernidade, onde as obras dos artistas acima citados se inseriam, os artistas da Bad Painting fizeram a opção pelo cinismo. Entediados diante de uma realidade inabalável divagavam sobre a inutilidade da criação original, da critica criteriosa e da contestação. Certamente, para eles, a cultura artística era apenas um alvo, um objetivo e a originalidade, coisa do passado. Não é apenas uma coincidência que entre as últimas duas décadas do século passado é onde se fixa o marco fundador do vale tudo artístico e estréia o mercado de arte no formato que hoje se apresenta. Plagiando a ambigüidade característica das atitudes de Wahrol, a intenção do rotulo “bad” era salientar, em tom debochado, a rivalidade com estética elegante e as investigações plásticas e perceptivas dos minimalistas, em voga nas décadas precedentes.
Contudo, o estilo Bad Painting não anuncia nenhuma contribuição notável para experiência pictórica e à expansão da percepção. Esse é o preço do cinismo! Nem mesmo seus espectros superficiais sobre a veleidade humana, os repetitivos e maçantes patchworks neo psicodélicos, pastiches da pop arte, replicas de segunda mão de obras celebres e outros adereços vulgares, elementos caros aos fãs da emotividade criativa, os destacam como relevantes no âmbito da arte. Apesar disso, constituiu, no conjunto, um modelo de rápida assimilação midiática e uma antecipação da escalada grandiosa das ações mercantis. Quadros dos astros desse estilo valem fortunas.
Talvez, a polivalência estética tenha esgotado anteriormente o que restava de radical no fazer artístico, por isso, não se deram ao trabalho de ir mais longe.
A única coisa que até agora se confirma é que as décadas de 60/70 e seus proclamados feitos colocaram uma pedra no caminho do modernismo ao indagar a relação entre o objeto,gesto simbólico e a sociedade. Além disso, adicionaram uma nova dificuldade para os artistas das gerações subseqüentes ao introduzirem, de modo efêmero, qual uma ação clandestina de grande mobilidade, novas modalidades estéticas que, mais tarde, vieram a se consolidar como modelo para os artistas pós - modernos.
Esses, por sua vez, estabeleceram sobre o modelo herdado um padrão estético que prolifera até hoje nas grandes mostras, nas galerias e nas instituições de ensino da arte. A simplificação acentuada da plasticidade, a banalização dos meios, a justaposição e proliferação de códigos e ícones da cultura popular e dos gadgets industrializados, a institucionalização precoce, a sacada esperta e a escalada de preços da banda mais famosa do pós modernismo evanesceram a negatividade dos segmentos de intermediação social, neutralizando a potencia da criação plástica. Ao invés de iluminar suas intenções essa tática as tornou opacas. A aparente supressão dos conflitos entre arte, instituição e mercado é um paradigma forjado em objetivos concretos. Isso levou os críticos mais criteriosos a considerá-los orgânicos ao sistema.
Vendo através do prisma dilacerado da contemporaneidade, percebe-se que grande parte das manifestações estéticas recentes, vaga por entre causas, suplicando por um lugar onde obtenha a anuência do espectador.