Sempre que leio artigos bombásticos(link no post) sobre os rumos da cultura na atualidade, me vem a lembrança o excelente livro -que já citei aqui algumas vezes- intitulado 'A Cultura Inculta' escrito há trinta anos pelo filósofo e professor norte americano Allan Bloom.
Um pequeno trecho do artigo de Laura Gullar, publicado em agosto de 2017 na Revista Ideias, toca em aspectos da visão crítica do pensador sobre os motivos e as consequências do colapso da educação moderna no Ocidente.
Diz ela: "Há livros seminais que deveriam voltar ao centro dos debates. Um deles, que acabo de revisitar, é o de Allan Bloom, professor de História das Ideias na Universidade de Chicago, tradutor de Platão e Rousseau, que escreveu uma obra que é fundamental para entender nosso tempo de degradação cultural. “A Cultura Inculta” é um ensaio sobre o declínio da cultura geral e de como a educação superior fraudou a democracia e empobreceu os espíritos das gerações que hoje estão no comando."
Concordo!
'Cultura Inculta' é um livro seminal!
É um farol na escuridão porque esclarece os pontos nevrálgicos que soam como prefácio | epitáfio do que hoje é a cultura geral. Quem tiver interesse em ler a resenha da autora, acessa o link no box comentário.
Voltando ao tema bombástico inicial, o 'levante' tardio de intelectuais, políticos e professores franceses contra a exportação do modelo de 'esquerdização' das universidades norte americanas e sua absorção nas universidades do país, soa para mim como um 'rap' nostálgico.
Hoje, duas décadas vencidas do século XXI, ver políticos, intelectuais proeminentes e acadêmicos franceses clamarem por emancipação do "esquerdismo fora de controle e da cultura do cancelamento na América" é, no mínimo, constrangedor.
Alertar os franceses de que essa vertente ideológica "está minando a sociedade francesa e que é um ataque à herança francesa" é lamentável, quando todos sabem -sobretudo os franceses- que nomes ilustres da cultura, que hoje se apresentam como denunciantes, estiveram por décadas em silencioso e confortável conluio com as ideias que agora denunciam.
Parece evidente que sem esses apoios, a influência americana sobre vários setores da vida francesa não seria uma ameaça tão significativa quanto hoje ressentem e alardeiam.
"O presidente francês Emmanuel Macron em outubro advertiu contra "certas teorias das ciências sociais inteiramente importadas dos Estados Unidos(...)Seu Ministro da Educação também alertou sobre uma 'batalha travada contra uma matriz intelectual das universidades americanas" e por aí afora.
Em meados dos anos 80, fui atraído pelos ecos da Revolução Digital que incitou a Terceira Revolução Industrial, já consolidada em pequenas mas cruciais mudanças nos modos de produção, alterando significativamente o antigo sistema de tecnologia eletrônica /mecânica e analógica para o novo sistema da eletrônica digital.
A travessia, que teve início nos anos 50, me pegou na infância. A revolução em curso agregou no imaginário da minha geração a forte impressão de que o futuro seria totalmente diferente das narrativas clássicas. Esse fenômeno cultural se estendeu por três décadas. No final do século XX, com meios eletrônicos digitais fartamente expandidos, a Cultura Digital se estendeu do campo técnico cientifico especializado para a universalização, digamos assim. Independentemente da bagagem cultural dos indivíduos, toda a sociedade global foi velozmente ‘alfabetizada’ pela inserção digital. Apta a decifrar seus códigos básicos, criar seu avatar eletrônico e digitar sua senha num terminal bancário,docs e infos,a maior parte da população do mundo atravessou o portal da Cultura Digital.
Um dos marcos dessa universalização foi o impasse do ‘bug’ do milênio que disseminou um certo pânico de que toda memória e informações acumuladas e processadas eletronicamente poderia ser irreversivelmente apagada. Esse impasse atravessou para o século seguinte. Superado o impasse técnico, o novo século (XXI) nasceu sob a égide da Era do Conhecimento.
Essa introdução visa estabelecer as conexões que me levaram a refletir sobre as perspectivas da criação artística em uma Era marcada pela fluidez da informação, a gigantesca profusão de imagens anônimas, a efemeridade dos eventos que espocam em um segundo, atinge milhões de pessoas e desaparecem na mesma rapidez. Mas, permanecem registrados como ‘bits’ no ciberespaço, onde nada perde ou se apaga.
Esse novo mundo, repleto de sinais embaralhados e “propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível”(Z. Bauman),provocou uma mudança de mentalidade que não poderia deixar de tocar o processo criativo em sua ampla concepção, frente a ideia de ‘tempo presente’.
Foi o que aconteceu comigo.
2 . Entre 2005 / 2007 meu trabalho começou a desviar para pesquisas sobre a sutil ‘ruptura’ entre cultura analógica e cultura digital. Apesar de não ser uma ruptura que teve origem no ambiente estético/artístico, não ter sido bombástica e estilosa, fundada em manifestos polêmicos e exuberantes provocações artísticas contra os métodos acadêmicos e a tudo que reverenciasse o passado a elegância e o ‘mau gosto’(sic) dos burgueses, mudou substancialmente a mentalidade artística.
Os vanguardistas históricos consideravam um atraso, prejudicial ao desenvolvimento humano e social, o congelamento estético submetido ao padrão neoclássico.
Transgressão, a palavra de ordem de todos os movimentos radicais da modernidade, chocou os conservadores e, no correr do tempo, se banalizou.
A título de fazer o 'novo' vigorar, contestações recalcadas ganharam corpo como expressão individual.O mundo das causas pessoais colaram em si o rótulo de Arte.
“Tudo é Arte/Arte é Tudo” se tornou um mantra pós-moderno.
É curioso que alguns artistas dos dias atuais, paradoxalmente apelidado de ‘pós-moderno’, ainda creem nesse postulado.
Todavia, ao penetrar nos corredores da matrix, meu ponto de vista sobre as atitudes, gestos e coisas ‘pós-modernos’, correntes nos dias de hoje, focadas nas recorrentes propostas teóricas e estéticas inspiradas na Vanguarda Histórica, hoje se tornaram uma ‘escola’- quase uma doutrina estética que modela modos de fazer similares e repetitivos.
Em vista desses desafios teóricos me vi enredado na dicotomia do ‘mundo das referências’ cujas as partes geralmente opostas e complexas se converteram em lugar comum.
Como escapar da arapuca de uma ‘arte de citações’, prenhe de referências restritas aos estilos consagrados no mundo da arte, agora consolidada na tendência global rebocada por temas político-sociais de gênero, grupos, minorias e particularidades étnicas e pessoais – autobiografias estetizadas - se instalou no ciclo intermitente do ‘valor’ estético contemporâneo, reciclado do referencial com o passado e nos múltiplos ‘ismos’, camuflados de novidade?
3 , Essas reflexões me levaram a encarar uma mudança radical no meu processo pictórico para escapar do ciclo de oferta de ‘mais imagens’ num mundo superpovoado delas, e voltar a me encantar e surpreender com um fazer que desbravasse um novo viés do fenômeno criativo.
Essas questões me levaram a confrontar o âmago das transformações em curso. O que observei é que não se tratava mais de um debate ‘fechado’ no velho contexto da ‘arte pura’ em torno da estética da erudição e da alta cultura artística já que –para mim – as mudanças em curso arrastaram tudo, se estendendo ao amplo campo da cultura geral em efervescente ebulição.
Aos poucos fui percebendo que a sutil sobreposição de uma nova cultura geral, paulatinamente revolucionava o modo de ver o mundo, as mentalidades e as trocas sociais.
Como essas mudanças aconteciam nas artes sem serem provocadas pelo inconformismo dos artistas e intelectuais?
4 . Muito se fala das mudanças oriundas das tecnologias digitais e do encantamento das pessoas pelos artefatos multifuncionais, designer elegante e acesso ilimitado ao universo dos dados, conceitos e imagens que inundaram o ambiente da cultura geral.
Porém, pouco se fala sobre o que está abaixo da superfície reluzente dos equipamentos digitais. De fato, a revolução digital não é apenas mais um movimento tecnológico, como os que ocorreram sucessivamente desde os primórdios da civilização. Isso é o que aparece no toque das superfícies dos meios digitais. Porém, a ‘deep web’, vanguarda da ruptura cultural, em contraposição à cultura analógica - que trançava e protegia o conhecimento na esfera 'cult' e intelectualizada ancorada nas correlações e referencias consolidadas na era moderna, inundou indiscriminadamente o sistema de informações que antes só transitavam em ambientes específicos, revelando que as coisas mudaram de fato, disponibilizando indistintamente um acervo gigantesco de infos para um grande e plural contingente de usuários. Sem grande estardalhaço, a Cultura Digital contundentemente penetrou nos hábitos e costumes da sociedade global.
Já convencido que a vitrine tecnológica era mais do que uma ‘onda’ passageira –era, de fato, um tsunami cultural, - inicialmente desprezado por grandes figuras da intelligentsia e adeptos da erudição enciclopédica do velho mundo, que a criticavam como usina de ‘gadgets’ para formatar medíocres, reconsiderei essas transformações no plano estético propriamente dito. Minhas interações no ambiente digital foram diluindo a cortina de fumaça do conservadorismo erudito. Percebi, desde então, que não havia condições concretas de resistir ao empuxo do tsunami cultural que varreu o mundo, soprando uma brisa renovadora.
Essas reflexões foram vitais para a virada no meu processo de trabalho.
Em 2007 fiz uma grande exposição no Paço Imperial com obras da Série Divisões Internas. Obras dessa serie eram realizadas em superfícies sintéticas, mas ainda submetidas à tradição pictórica- com referências esparsas entre as formas geométricas, o gesto sensível, a caligrafia das pinceladas, as sutilezas das texturas cromáticas que no meu caso particular aconteciam no dialogo hipotético com as fontes do Concretismo e do Neoconcretismo históricos. Até então, esses movimentos eram para mim um porto seguro, cheio de tesouros referenciais, que há tempos eu desejava deixar para traz.
Minha visão crítica sobre as sequelas do colonialismo cultural e seus desdobramentos no tecido social nativo não se dá apenas em relação à demarcação- interna e externa- do Brasil como ‘exportador’ de commodities agrícolas e minerais, de abundante exotismo naif mercantil e um território aberto à fácil disseminação de réplicas dos arrojados modelos culturais internacionais. A frágil constituição da nossa modernidade artística não é um garrote que nos condena a ‘autodeterminação’ cultural. Em vista disso, para mim, eleger estilos modernos consagrados como ‘alma nacional’ – se tornou uma contradição danosa ao conhecimento e o pensamento estético. Somos arrojados e mais complexos do que isso!
Como tentativa de escape desses paradigmas, nessa exposição dediquei uma sala para a projeção de um trabalho experimental intitulado Imagem & Memoria(link).
As obras dessa serie não existiam concretamente, versavam apenas em manipulações digitais compartilhadas na memória do programa do computador que me impulsionaram a criar imagens imateriais manipulando dados coletados a esmo nas interações no ciberespaço. Há um pequeno filme sobre essa experiência e um texto que fala das intenções da proposta.
5 . Em 2008 realizei duas exposições na Caixa Cultural. Uma no Rio e outra em São Paulo, que foram divisor de aguas no meu processo pictórico. As mostras mesclavam pinturas em técnica e suporte tradicionais e obras realizadas sobre superfícies sintéticas, interfaces magnéticas e metais –aço carbono e alumínio, revestidos com pigmentos especiais e substratos (resinas) sintéticas de tecnologia de ponta– PU / Poliuretano Uretane.
Esses insumos de alta tecnologia, não produzidos especificamente para a produção artística se mostraram compatíveis com a experiência que me dedicava. Recondicionando a técnica industrial chamada ‘fechamento de filme’ – ao meu proposito estético, apanhei o substrato básico – uma resina sintética, mais transparente que a clara de ovo usada no processo da tempera- desenvolvi uma fórmula de diluição de pigmentos translúcidos sucessivamente aplicados em finas camadas sobrepostas com objetivo de puxar o croma predominante para superfície onde as cores eram aplicadas, trazendo à tona a fisicalidade do suporte revestido pela cor –aço carbono ou alumínio espelhados.
6 . A partir de 2008 – depois de muitos erros e acertos- adotei em definitivo esse tipo de procedimento pictórico para todas as obras que produzo desde então.
Nota: o que mais me surpreendeu nessa exposição (2008) foi ter ouvido de diversas pessoas que essa experiência escapava do ‘campo da pintura’. Era outra coisa, não mais pinturas! Alguns achavam que era um processo de reprodução digital de ponta -metacrilatos e similares - comuns nos dias atuais. Como senti os comentários como autênticos, sem conotação pejorativa a minha obra, guardei como um elogio gratificante. Eureca! ‘Transgredi’(ops) com êxito os limites impostos à pintura e conclui: pinturas únicas, feitas à mão, muitas vezes dadas como ‘mortas’, se desdobram em múltiplas e sensíveis aparências no mundo das ‘coisas’ reais.
5 . Em 2012, fiz uma pequena exposição só com obras com essa técnica na Galeria Gustavo Rebello. Depois (2014) fiz outras. Uma no Rio (Mercedes Viegas) e duas no exterior.
7 . O conceito que reveste essa série - em processo - tem duas pegadas. As duas relacionados ao ‘tempo da pintura’. Um tempo é o do próprio processo pictórico em si (in compartilhável). O outro (compartilhável) é o tempo do objeto pintado frente ao observador eventual. Essa fatura pictórica dispensa o gesto sensível, a textura pictórica marcada pela caligrafia autentica e inconfundível do pintor, para dar vida autônoma à superfície pintada em relação ao observador que nela se vê refletido enquanto aprecia e se movimenta frente à obra. Esse conceito tem intima relação com o ‘tempo presente’ e o transito das informações em diversas camadas, eixo da cultura digital.
Do ponto de vista poético, essas obras reativaram em mim a alegria da experiência desbravadora que se lança numa viagem sem rota- projeto/croqui ou estudos- tendo em vista que um ‘projeto’ de pintura é incompatível com o meio. Isso me levou também a um novo encontro com os fenômenos da natureza sem ter como base as ilustrações naturalistas/ desfiguradas ou abstraídas, pela vontade do autor.
As alusões aos fenômenos da natureza dizem respeito à incidência da luz ou ausência dela, sobre as coisas do mundo. Ao evitar representa-las artisticamente –os fenômenos naturais da luz, cores e formas em movimento - acontecem aleatória e singularmente. As difusas e mutáveis aparências formais dessas obras sobrevêm a cada ‘visão’ do objeto.
Não trato de representa-las como tal, mas sim torna-las em si –intrinsecamente- pinturas ‘espelho d’agua’ em posição anômala -porque vertical - aos espelhos d’água horizontais espalhados na natureza que desde a infância me encantavam por amalgamar em um só elemento os mistérios da profundidade à platitude, como fenômenos espelhados nas superfícies reluzentes.
terça-feira, dezembro 31, 2019
DÉCADAS & DÉCADAS
Como coleciono décadas, decidi planejar o resto da minha existência
sob o prisma das reflexões e significados sócio/político/ culturais das décadas
passadas.
Não conheço mais ninguém vivo capaz de ter clareza e sobretudo
saco para se prestar a fazer críticas comparativas entre os anos 20 do século XX e as
possíveis repetências dos mesmos erros nos anos vinte do século XXI que agora se inicia.Então, decidi recorrer ao
excelente livro “ A Sagração da Primavera’ do historiador Modris Eksteins,com
tradução de Rosaura Eichenberg, publicado pela editora Rocco em 1992 e-lamentavelmente-
esgotado nas livrarias.
Do capítulo ‘PARA QUE NÃO ESQUEÇAMOS’(pags. 323>333) extrai
esses trechos(fotos).
As preocupantes circunstancias atuais,marcadas por extremismos tanto em esfera nacional
como global é um castigo recorrente à espécie
humana que se submete à formas perversas para retardar, recalcar e prejudicar as conquistas e avanços decorrentes do processo civilizatório, repetindo - com estupida convicção- suas mais devastadoras certezas.
No alvorecer dos anos 20 do século XX, o poeta Paul Valéry disse uma verdade que vale por mil certezas.Passados quase cem anos, ainda pulsa o paradoxo então vigente frente ao vasto acervo de certezas: “ A mente na verdade foi cruelmente ferida...Duvida profundamente de si mesma."
Os movimentos artísticos culturais que espocaram no inicio do Século XX e que culminaram nas rupturas com o velho sistema,posteriormente estudados como Vanguarda Histórica, foi o ponto de partida do historiador para analises e reflexões sobre os cenários onde se desenrolaram os combates estéticos 'novo versus tradição',estopim da Primeira Grande Guerra.
Nesse livro, Eksteins reúne as peças do jogo de motivos,recalques e confrontos que poucos anos depois voltaria a ameaçar a civilização com a versão mais avassaladora, mortífera e atroz da Segunda Grande Guerra.
Pretendo continuar acreditando na civilização! Que os anos 20 do Século XXI - maioridade da Cultura Digital,da Era do Conhecimento e das tecnologias da informação-inspirem as mentes à pensar, estimulando um maior numero pessoas a se tornarem protagonistas das mudanças que se estenderão em benefícios aos remanescentes do atraso, sempre lembrados pelos arautos da hipocrisia mas,, de fato,por eles providencialmente 'esquecidos' nos grotões do passado
terça-feira, novembro 05, 2019
A conta, por favor! Enquanto cientistas políticos ensaiam explicar os motivos das manifestações no Chile,a máquina registradora já contabiliza os prejuízos. Caia o governo - o que parece improvável- ou siga adiante, todo mundo sabe quem vai cobrir os prejuízos. Não é preciso dizer quem vai pagar, não é verdade? Esse é um ‘detalhe’ cruel que os analistas parecem não dar a devida importância. Alguns analistas preferem recorrer à teses nostálgicas e vitimistas, preferidas dos intelectuais latino americanos, para confirmar que na região os 'sonhos de futuro' são sempre frustrados pelos pesadelos da realidade. Já li de tudo um pouco, sobre os movimentos explosivos no Chile. Claro que não poderia faltar alusões à greve de 1972, que mobilizou os caminhoneiros chilenos e durou 26 dias. Na ocasião foi considerada o ato inicial que culminou com a posterior derrubada do governo Salvador Allende. Pera lá, companheiro! Na ocasião, apontou-se a CIA como a principal financiadora do movimento que derrubou o governo de esquerda. Agora, o quadro é radicalmente diferente! Quem financia os movimentos explosivos no Chile? O que eles querem derrubar, alem das estações de metrô? É certo que nem todos os problemas humanos são de ordem econômica. Porém,a pobreza e a falta de oportunidades, oriundas de políticas econômicas desastrosas, pioram muito, dificultam ainda mais, que um maior número de pessoas possa alcançar o bem estar social, que possibilite uma vida menos dura e infeliz. O Banco Mundial aponta o Chile como único país sul-americano com uma economia de alta renda. A fórmula que superou os atávicos problemas do Chile e desempenhou um papel fundamental na recuperação econômica, nada tinha de especial ou exótico . Ao contrário; desde o princípio, o Chile adotou com firmeza a descentralização econômica. Restringiu a mão do Estado no setor produtivo e assim reverteu a histórica pobreza, promovendo uma verdadeira revolução econômica. Em curto espaço de tempo,o Chile passou da estagnação econômica mantida por uma estatização da economia para a produtividade crescente do setor privado seguindo um modelo de liberalismo que removeu impostos, reduziu as regulamentações excessivas, a burocracia e as tarifas protecionistas. Diversas estatais foram privatizadas.Pequenas e médias empresas, em determinados segmentos, passaram a usufruir de maior liberdade fiscal.O poder aquisitivo cresceu e se distribuiu na compra de matéria-prima,ampliando a capacidade produtiva. O desemprego caiu drasticamente. Novas empresas surgiram. O setor privado prosperou e se tornou mais competitivo a nível internacional O PIB quintuplicou. A qualidade de vida se elevou a ponto de por várias edições do IDH/PNUD latino americano, o Chile se manteve na primeira colocação -seguido pela Argentina e Uruguai e na 44º posição no índice global. Nos anos 1980, o país se encrencou em difícil crise financeira e hiperinflação, como consequência da malsucedida política econômica ministrada pelos ‘Chicago Boys’ que, entre outras coisas, renunciou às taxas de câmbio flutuantes como referência para a estabilidade monetária. Essa medida, combinada com a hipervalorizarão do peso chileno em relação ao dólar americano, abriu caminho para a pior recessão que o Chile experimentou desde os anos 1930. Essa experiência malsucedida não abateu os chilenos. O passo seguro do liberalismo econômico adotado trouxe robustez, abundância e eficiência ao sistema, o que ajudou o país a reverter a crise com segurança. As medidas que se seguiram ampliaram as reformas econômicas e solidificaram a economia, concedendo amplas liberdades à livre iniciativa, fomentando a geração de riquezas. Resultados positivos, um sobre outros, fortaleceram a expansão das políticas liberais, previamente estabelecidas. Este é um dos motivos pelos quais o Chile, depois da experiência malsucedida dos anos 80’ não ter tido mais nenhuma recaída que fizesse retornar a estagnação econômica dos velhos tempos. Tenho certeza que um país que passou por tudo isso, enfrentando corretamente as dificuldades,não se abaterá com a manifestações de agora. A geração que hoje se rebela nas ruas de Santiago é herdeira desses sucessos. Como não há sucesso econômico que teses de sociologia política não possam desconstruir, não me espanto que a velha e reincidente ´paixão’ latina, em sintonia com o populismo arcaico, que esparrama pelo continente o bolorento odor das tumbas do peronismo, impulsionado pelos ventos insalubres do bolivarianismo, reencarne nos jovens, ávidos por aventura, um anarquismo ‘caliente’ escancarado nas manifestações explosivas de viés globalista. Abarrotadas de ‘causas’ as mais diversas, o que de fato os manifestantes pretendem mudar? Uma coisa é certa! A estética Anonymus dos movimentos globalistas da WallStr, Londres, Paris etc, mudou o visual dos manifestantes de Santiago! Doravante, serão 'visualmente' integrados aos movimentos de jovens rebeldes dos países mais ricos do Ocidente. Um salto 'estético'.Sem pobres e descamisados.. Com uma pequena diferença: adotaram o vermelho como traje de combate. É, mais uma vez, a recorrente explosão da 'paixão' latina pelo sonho vermelho encarnado!
Arte,Cultura e Estado
Um velho e tortuoso tema que,na maioridade do Seculo XXI,ainda atormenta artistas e intelectuais brasileiros.
Censura não se debate, se combate’, recomenda a ministra Cármen Lúcia aos artistas presentes à audiência pública no STF. Sendo o STF a última instância de justiça que os cidadãos-artistas ou não- recorrem para preservar e garantir seus direitos, a 'recomendação' da ministra aos artistas presentes é prosaica, sem efeito legal concreto para estancar a censura 'governamental' denunciada pelos artistas presentes e punir, na forma da lei, os censores. Se levada ao pé da letra a recomendação da ministra pode ser entendida de duas formas. A primeira é midiática: A sessão foi bacana. Vai repercutir na imprensa. Certo! Repercutiu, a frase da ministra foi lida por mim,copiada e colada do lide de uma matéria de O Globo. A segunda,como deboche com os presentes que foram ao STF denunciar, 'debater' e pedir providências do tribunal contra "uma nova forma de censura governamental." Ao dizer que 'censura não se debate,se combate', os artistas presentes devem ter se frustrado. Os que viveram sob o tacão da censura e sofreram consequências pessoais e profissionais por suas posições em defesa da democracia e da liberdade de expressão nos anos de chumbo,não precisam ir tão longe,se dispor a preparar e expor suas denúncias para ouvir da ministra o que deveriam saber por experiência própria. Mas, se porventura,o centro da denúncia dos artistas presentes à audiência diz respeito a uma aludida CENSURA econômica e ao 'desmonte' das instituições estatais, como fator de retrocesso cultural,cresce meu espanto com a posição de notáveis e talentosos artistas da minha geração. A crença num Estado passivo e justo,não sobrevive a nenhum governo. Se para garantir o aparelhamento estatal, tendencias ideológicas no poder promovam politicas culturais de aparente inserção, é uma ilusão 'útil' ao sistema acreditar que elas atendam e reflitam os 'avanços' sob a égide de uma democracia cultural. O Estado não dá conta de suprir massa crítica cultural. Apenas 'financia' o que uma comissão considera oportuno investir. Quantos de nós,durante a ditadura, debatemos sobre as possíveis consequências nefastas da tutela estatal, quando da implantação da estratégia dos governos militares -sob a ótica Golbery - das fundações de arte,agencias e empresas públicas de arte e cultura, patrocinadas por um Estado mecenas? Incontáveis textos e reflexões primorosas foram produzidas na ocasião sobre a temível ilusão de que o Estado seria o 'mecenas' justo em oposição às tendências variáveis do gosto e do incipiente e 'injusto' mercado de arte, cultura e entretenimento. As ditaduras 'estáveis'(sic) onde o voto é um ornamento secundário "pra inglês ver", o financiamento estatal de arte e cultura é ferramenta de poder que serve,entre outras coisas, para adoçar possíveis e desagradáveis dissidências,financiado uma arte 'oficial', ainda que pareça contestatória e insurgente, contra os artifícios do sistema. Isso seria o 'justo'? O correto? Todavia, nas democracias, onde se conta o voto da maioria, o poder muda de mãos. Quando isso acontece o Estado segue a orientação política do vencedor. Coisas simples assim, várias vezes comentadas em prosa,verso e textos esclarecedores sobre a insidiosa parceria Estado/ Cultura, acabar sendo debatida nas dependências da Corte Suprema,desperta em mim a melancólica sensação de sentir de novo o gosto amargo da decepção de que não basta uma 'ideologia para viver'. Parte expressiva da categoria precisa mais que isso. Precisa de um Estado para prove-la. Em resumo; uma variante 'artística' das necessidades do povo pobre, submetido à cultura do Estado forte,onipresente. PS Não é apenas ingenuidade. Ha algo mais preocupante na insistente e prejudicial formula da comunidade artística nacional empurrar para baixo do tapete questões que se evita abordar em profundidade. Não ha como evitar que os modos de intermediação Estado/Cultura,plantados no país durante o regime militar, que mais tarde se desdobrou em diversos subsídios culturais que atingiram o ápice com a bem intencionada Lei Rouanet, por xs criticada por selecionar 'beneficiados' com grande visibilidade e muitos recursos obtidos nos ramos da industria cultural, um dia viria à tona. Não creio que esse governo tenha ideia clara sobre a importância do assunto, pela maneira descuidada com que o está tratando. Até mesmo a ministra Carmem Lucia que acolheu as denuncias dos artistas, se confunde. E como se confunde! Fala no mesmo tom sobre "Censura e Constituição”. Para ela - a “Constituição deve prevalecer sobre as dificuldades.” Convenhamos, isso não ocorre nem com matérias menos complexas abordadas pelo STF. Rouanet, um intelectual sério,que quando ministro criou a lei que leva seu nome e Capanema que em 1937, por sugestão de Mário de Andrade e Rodrigo Melo Franco, criou o Iphan,duas Politicas de Estado, que deveriam se sobrepor as vontades dos governantes, certamente não previam,sequer imaginavam, que essas politicas sofreriam adulterações de viés politico administrativo nas sucessivas gestões que os sucederam..Considero a 'resistência' -de um lado e de outro -prejudiciais ao bom debate que a Cultura brasileira,por sua importância,ha muito merecia encarar e desenvolver.Mas, como no titulo do seu livro,Mércio Gomes nos alerta que sempre que se abre um clarão de oportunidades - 'O Brasil Inevitável'- surge com virulenta reação que teima em 'buscar' o futuro no passado recente e, muitas xs, na velha tradição patrimonialista.
Ao assistir o documentário " The Price of Everything" ( tb legendado em português nos canais HBO) tive o impulso de compartilha-lo aqui por dois motivos. O primeiro motivo foi a lembrança imediata de uma matéria publicada ha tempos no NYT com o título:"A Arte está embriagada pelo dinheiro" que, surpreendentemente,na ocasião, não obteve repercussão à altura da provocadora insinuação. O segundo motivo é que, em se tratando de Arte, visibilidade, fortuna e fama, qualquer crítica ao pileque generalizado, reunindo artistas,curadores,colecionadores,investidores e o dinheirão fluindo pelo sistema,tendem(as críticas)serem encaradas como lamúrias dos ressentidos e invejosos ao sucesso dos 'eleitos' ou mais uma torpeza reacionária e conservadora contra a liberdade de expressão. Como,por outro lado, a pobreza e o ostracismo de alguns artistas, tende a ser entendido como fatores inerentes ao destino dos que escolheram a liberdade criativa e pagam seu preço com a exclusão do mercado. É maçante ter que repetir que confundir aclamação do mercado com credenciamento artístico cultural é uma característica marcante nos néscios Dois blefes que,paradoxalmente, se nutrem na mesma fonte. Assim, o debate se encerra com as 'sensíveis' declamações: Arte é Vida & Vida é Arte, em voga na atualidade. O dinheiro,onde quer que prolifere,tem o poder de abrandar discordâncias. Esse documentário descortina essas discrepâncias, concede protagonismo especial ao "esquecido,quase morto" pintor Larry Poons,para se aproximar dos supostos critérios do mercado e o retumbante aplauso aos 'vencedores' do circuito. Porém, quase ao final do filme, o galerista novaiorquino Brow, ao lado do crítico Jerry Saltz, usam discretamente o sentido do olfato para descrever a euforia que eles vêem espalhar nas artes visuais como um alerta; "sentem cheiro de fumaça" no ambiente glamouroso e milionário da arte contemporânea norte americana. Cabe destacar que o diretor do documentário dispensou os fatores estéticos,teorias e fundamentos e a relação entre Arte e sociedade,qualidade e valor intrínsecos das obras de arte por ele focadas. Longe disso, preferiu enfatizar, com sutil ironia, o 'espetáculo' do dinheiro na Arte,onde todos os demais atores - juntos e misturados- são coadjuvantes do sistema.
Na ficção, a aspiração de
gerar um ‘novo homem’, tem aspectos críticos que apontam para a tragédia e a
destruição e servem de estimulo parta se pensar sobre o potencial mortífero de uma
‘boa ideia’.
Mas, a teoria política, fundada na ideia do ‘novo
homem’, quando colocada em prática, a
ideia se apresenta como engrenagem de uma máquina terrível que produz mortes em
profusão, destrói o tecido social e deixa sequelas terríveis, difíceis de serem
superadas por várias gerações. Já se acreditou na saga marxista da ditatura do ‘newman’ ,oriundo do proletariado, sujeito solidário,
igualitário, tolerante e comunal, que brotou na Rússia nas primeiras duas décadas
do Século XX.
Mas, em 25 de fevereiro de
1956, Nikita Kruschev, três anos à frente do Partido Comunista da União Soviética
como Primeiro Secretario, subiu na tribuna e fez um discurso demolidor, que
viria a mudar a história da URSS.
Em 2019, se comemorou 60 anos
do discurso do Kruschev no politburo da URSS.
Ao fim da sua histórica
narrativa, milhões de russos adultos choraram como nenéns de colo. E, Kruschev,
apenas abriu uma das pastas do volumoso arquivo de atrocidades cometidas por
Stalin, “guia genial de todos os povos” e bispo supremo do sanguinário culto que
se espraiou pela União Soviética.
Dentre milhares de fatos hediondos, Kruschev
se concentrou com mais ênfase em seis pontos: “Expurgos” ocorridos entre 1937 e
1938.Nesse ponto ele registou que 1.500.000 pessoas foram presas, mandadas para
campos de concentração onde milhões sucumbiram e, os poucos que tiveram alguma
sorte, conseguiram se exilar. “Execuções”: 690.000 pessoas foram executadas (entre
os condenados à morte estavam todos os companheiros de Stalin que lutaram na
revolução de 1917 e alguns “fundadores do comunismo soviético”. Kruschev afirmou
ainda que todos os executados eram inocentes. ”Paranoia e Tirania Oficial” tirante
ele próprio, para Stalin, todos que o cercavam eram inimigos da URSS. “Desastrosa
Estratégia Militar”, Kruschev, discorreu sobre os imensos erros de Stalin na
condução da Segunda Guerra. Os expurgos no Exército, eliminaram 85% da cúpula
militar deixando as fronteiras da URSS desguarnecidas. E, pior, esse erro
grasso, que aumentou o número de russos mortos, aconteceu porque Stalin confiava
no seu acordo com Hitler, mesmo diante dos persistentes avisos de que a
Alemanha atacaria. Esses “erros” de Stalin provocaram a imensa perda de vidas
que poderia ter sido evitada, só nas primeiras duas semanas da invasão alemã de
21 de julho de 1941 a Wehrmacht fez seis milhões de prisioneiros, dos quais
dois milhões pereceram em pouco tempo por maus tratos e execuções. “Calamidade agrícola e fome” a desastrosa política
agrícola de Stalin, se abateu sobre o povo, dizimando 10 milhões de camponeses forçados
à coletivização das fazendas. A produção de trigo caiu vertiginosamente matando de fome outros tantos milhões. Como Kruschev
era engenheiro agrônomo, suas críticas ao modelo agrícola de Stalin, deixam
transparecer que se tratou de uma ação punitiva intencional, uma espécie de
guerra civil do Stalin contra os camponeses que se opuseram à loucura coletiva
imposta pelo regime tirânico. “Política Externa” stalinista foi um desastre
completo. Pretensamente internacionalista, de fato, se revelou isolacionista e
impositiva, trazendo enorme desgaste para a URSS, mais miséria para o povo e enormes
dificuldades para o pais no âmbito do comercio internacional, na diplomacia e convívio
com outras nações.
Anos depois, Gorbachev,oitavo e
último líder da União Soviética, assim como Kruschev, foi Secretário-Geral do Partido Comunista da União
Soviética de 1985 a 1991. Como chefe de
Estado, de 1988 a 1991, Gorbachev revelou ao mundo sua inclinação à social
democracia. Foi ele que em 1986, deu a
virada política na Rússia com a Glasnost, um dos pontos principais do seu governo tumultuado
por conflitos nacionalistas e insatisfação social. Sua proposta consistia na
abertura política, que tinha por objetivo trazer ao país a transparência e a liberdade
de expressão.
Anos depois, surge Putin, um modelo
laboratorial da extinta KGB.O líder, há 20 anos no poder, foi moldado na
tradição czarista, com pitadas de stalinismo.
quarta-feira, abril 24, 2019
A
CULTURA INCULTA
Que ilação é possível fazer entre um abaixo assinado por + de
1000 alunos da Universidade de Artes (UArts) Filadélfia, exigindo o expurgo da
professora Camille Paglia dos quadros da universidade com a grade de
programação cultural do Watson Institute,Pensilvânia e dos doutos de Harvard?
Recentemente, o Watson Institute realizou palestra show da funkeira
brasileira,feminista de exquerda, MCCarol(vídeo).Logo em seguida, Annita se
apresentaria em uma conferência sobre o Brasil,em Harvard.
O que essas inebriantes aberturas da elite acadêmica norte americana ao ‘pop’ e
à massificação da arte da cultura e do pensamento em Terra Brasilis pode nos
oferecer como reflexão sobre o mundo e nós mesmos,brasileiros?
Tempos atras, o intelectual norte americano,Allan Bloom,em seu excelente
ensaio, escrito em 1987 “ A Cultura Inculta”(titulo do post em referencia ao
autor) já apontava as universidades norte americanas como celeiro para a
disseminação da crise social e política do Ocidente no século XX . No ensaio,
ele aborda temas como: falta de objetivos das universidades à falta de
conhecimentos dos estudantes, desde os clichés da libertação à substituição da
razão pelo embuste supostamente criativo em prejuízo da crítica livre e bem
fundamentada.
Revela, também, como a democracia ocidental acolheu irresponsavelmente as
ideias vulgarizadas de niilismo, desespero e de relativismo disfarçado de
tolerância.
Seu ensaio,hoje me parece uma profecia realizada!
Estariam os ‘acadêmicos’ norte americanos exauridos do farto acervo de produtos
artísticos, intelectuais e culturais de excelência?
Estão empanturrados de Sócrates , Platão e Aristóteles e ávidos por menus
filosóficos preparados por exóticos pensadores pós modernos,carregados de
temperos progressistas, politicamente corretos?
Estão de saco cheio de tanto ver/ouvir espetáculos públicos primorosos de 3
grandes tenores.
Se sentem condenados a ouvir Bach? Serem torturados pelo som de Mozart?
Ter que aturar,ainda hoje,em pleno seculo XXI, as sofisticadas e profundas
sonoridades de Miles Davis,Coltrane, Thelonious Monk?
Estariam eles em tédio? Renitentes e avessos ao consumo de mega shows e
produções milionárias? Estariam reagindo politicamente à 'obrigação' de ouvir
as lendárias gravações de seus ícones ‘pop’, como Prince, que criaram poderoso
repertório que influenciou, melhor dizendo, se converteu em modelo a ser
seguido pelas gerações subsequentes, na forma de cultura replicante, calcada
grotescamente na rebeldia, nas mensagens e no swing da world music, funk, punk
e caterva, virilizadas mundo afora e no Brasil em particular?
A primeira coisa que me passa pela cabeça é que a elite acadêmica progressista
de exquerda, dos EUA, lidera e difunde uma enxurrada de propostas que, no
fundo, se bem esmiuçadas, revelam que o objetivo estratégico desses 'lordes',
no papel de cruzados da Incultura, é reafirmar ao mundo sua liderança e
supremacia global, nos campos das artes, do pensamento e da incultura
contemporâneas.
Senão, vejamos!
Só esse ano li, sigo lendo, ótimos ensaios de professores e escritores
brasileiros, com visões originais e propostas inéditas para abordar os impasses
que afetam a cultura e o pensamento nacional.
Por que os acadêmicos ianques não enxergam os artistas, escritores e pensadores
brasileiros originais que, por não acolherem os cânones ‘pop’ da arte norte
americana e reproduzi-los na formula ‘copy/paste’, com pitadas de regionalismo,
seguem ‘não lembrados’ para palestras e apresentações nos antros da exquerda
norte americana?
Por que suas obras, em síntese, expressam qualidade intrínseca e autonomia
ideológica, estética e formal? Por que essa parcela de pensadores e artistas
não espelham o 'exotismo' sedutor dos trópicos, que enche os olhos dos eruditos
norte americanos e europeus?
Por que nossos pensadores emancipados já reverteram a submissão neo
colonialista?
Há muitas perguntas que permanecerão sem respostas. Até o dia que a boa Arte e
Pensamento original e profícuo de um grupo de brasileiros pensantes, mandem
esses 'doutrinadores' à PQP.
Claudia Roth Pierpont, escritora e jornalista, colaboradora do The New Yorker, apesar da semelhança do sobrenome, não é parente do escritor que morreu hoje. Em 2013 ela publicou um ensaio intitulado ‘Roth Unbound: A Writer and His Books, na edição brasileira da Companhia das Letras tem o título: “Roth Libertado — O Escritor e Seus Livros”. Para penetrar nas sutilezas da vida de um escritor polemico como Roth, Claudia não poderia deixar de lado temas delicados e profundos como a decisão do escritor em abdicar de escrever. Saber os porquês de um autor potente como Roth tomar uma decisão como essa é irresistível sobre vários aspectos. Para mim, como artista, é uma decisão existencial profunda. No meu caso particular, não pensar na possibilidade de abdicar de pintar, como expressão de vontade e potência diante das vicissitudes da vida ou mesmo para desviar intencionalmente da mecânica compulsiva de produzir mais objetos estéticos, apenas por temer os males da falta do que fazer ou, pior, cumprir compromissos dolorosos como suprir o mercado de produtos artísticos culturais, sempre me pareceu uma fraqueza diante das grandes interrogações da vida. A 'compulsividade sensivel' me desperta muitas suspeitas.Na maior parte das vezes, as suspeitas se confirmam na visão ou leitura de alguns artefactos estéticos de grande sucesso midiático,palatáveis ao gosto geral. Dito isso, li com atenção redobrada as colocações de Claudia sobre a radical decisão do escritor sobre o medo de acabar deprimindo com a falta de ocupação e inábil para enfrentar a vida sem a dedicação diária à escrita. Entretanto, para espanto geral, Claudia informa o leitor que o próprio Roth se sentiu surpreso ao constatar que a decisão o levou a se “sentir livre”. Apenas esse aspecto da sólida estrutura mental de Roth desperta incontáveis reflexões. Afinal, o que não falta no mundo são obras de arte e produtos culturais inócuos que servem, sobretudo, para encher estantes, paredes,instituições museológicas e espaços performáticos com ‘mais do mesmo’, sem qualquer atributo intrínseco de real valor. A sensação de ter realizado o que se pretendia como criador e, ainda, ter potência suficiente para estancar o que deixou de ser um fluxo criativo original e surpreendente para o próprio autor, é a máxima das liberdades disponíveis na nossa curta existência.Tudo indica que Roth exerceu em plenitude essa liberdade. Como disse, sendo essa uma questão crucial de um artista, procurei o 'contraditório' entre a crítica especializada e 'outras' interpretações sobre a decisão de um excelente escritor como Roth de não mais escrever. Em 2014,Joshua Cohen, colaborador do The Gardian, publicou uma critica ao livro da Claudia. Nela,Joshua, esmerilha o escritor no modo de quem cava fundo a fim de encontrar um diamante falso. Num trecho ele escreve: “Isso sugere que Roth Unbound pode ser ainda mais do que suas promessas de publicidade sem fôlego; na verdade, pode ser a façanha mais virtuosa de Roth. Imagine Roth se aproximando de seu aniversário de 80 anos carregado de prêmios e títulos honoríficos, traduzido globalmente, lido universalmente, seu talento triunfando sobre todas as adversidades: colapso mental, doença cardíaca, ortodoxia rabínica, feminismo. Como um artista que sempre prosperou na transgressão, ele deve ter discernido sua mortalidade no sentido de que não havia oposição a ser superada. Mais uma vez, ele teria que inventar uma, uma perseguição não romântica ou erótica desta vez, mas última o suficiente para flertar com o póstumo, e assim ele concedeu acesso a um biógrafo, e fingiu se aposentar. Previsivelmente, a perspectiva opressiva de ter um estranho narrar sua vida revigorou Roth e fez com que ele reafirmasse a proeminência de seu trabalho, realizado por uma ‘ghostwriting’ na forma de um estudo. A negligência da prosa, então, deve ser atribuída não à senescência de Roth, mas às exigências de escrever sob uma identidade assumida. Incapaz de suportar não receber crédito por esse feito, e por ter concluído sua carreira na voz de uma mulher simpática, Roth escolheu um pseudônimo - "Claudia Roth Pierpont" - apenas tolo o suficiente para trair a verdade. Roth, parece, está de volta, e mais uma vez ele está implorando para ser punido.”
Em 1929, o magistral filme "Un Chien
Andalou", Luis Buñuel registra uma sequência de imagens que penetrou fundo
no imaginário dos artistas da Vanguarda Histórica do início do século XX.
Tamanha potência se tornou um ícone, uma parábola
visual impactante, durante o longo percurso da modernidade.
A sequência de quatro frames do filme, foi
uma centelha que explodiu um paiol de sentimentos contidos,liberando milhares de especulações sobre Arte e Sociedade, transcendendo inclusive a
proposta estética do movimento Surrealista ao qual, na ocasião, Buñuel se
alinhava.
Esses momentos de rara inteligência e beleza se confrontam com a mesmice
da atualidade que, vez por outra
-frequentemente- por conta de uma cegueira coletiva me fazem
retroceder, retornando a um tema exaustivamente burro que insiste em guinchar,
rebocar e induzir artistas incautos e o público de arte a focarem nas obras de
arte ‘pautas’ das agendas da comunicação social.
Essa tolice vem de longe.
Teóricos e críticos de arte há muito imprimem
cacetadas de hipóteses que visam relacionar a criação artística aos campos da
psicologia, da sociologia, da etnia, da luta de classes e gêneros, engajamento
e,até, faixa etária – arte para a Infância/Adolescência e Senilidade- e outros
adornos que lotam as manchetes da realidade objetiva.
Entre o conjunto de subprodutos agregados ao fazer
artístico, a política tem pauta especial.
Em período de amplo relativismo Estético/Ético, a Política e Arte, formam uma dupla temática imbatível que se usa
para se encher o papel impresso com tolices.
Ontem, inaugurou mais uma feira de NEGÓCIOS focada
em produtos artísticos.
Pelo teor das notícias em torno do
evento, o que se constata é que nos dias de hoje em uma feira de arte, a
última coisa que se deve pensar é negócio.
Apesar de termos atravessado a
vanguarda e aberto espaço para manifestações estéticas radicais, o ambiente
cultural permanece impermeável e conservador, embebido em romantismo piegas que
coloca em segundo plano a ambição da categoria em fazer dinheiro.
O relativismo estético/cultural colocou
lado a lado o protagonismo artista/público - seja em uma feira de arte, em uma
visita a um museu ou a mostras contemporâneas temáticas, organizadas por
curadores.
Se há alguma transgressão nessas
órbitas, ela ocorre na vã tentativa de camuflar o objetivo do negócio de gerar
dinheiro e promover artistas, a fim de movimentar a máquina negocista em um
evento de arte.
Ao ler: “A feira de arte contemporânea
de São Paulo junta no mesmo espaço artistas e colecionadores, duas comunidades
que politicamente podem estar muito desencontradas. Com o seu público classe
média-alta, a SP-Arte pode não ter o público mais favorável a Lula da
Silva(...)Menos de uma semana depois da prisão de Lula da Silva, o
ex-Presidente do Brasil condenado a 12 anos de prisão por corrupção passiva e
lavagem de dinheiro, começa em São Paulo a feira internacional de arte
contemporânea (SP-Arte). Mas ao contrário do que se passou na última Bienal de
São Paulo, que coincidiu com a tomada de posse do Presidente Michel Temer
depois do impeachment de Dilma Rousseff, não se esperam
grandes protestos na feira de arte que dura até domingo no edifício do Parque
Ibirapuera, desenhado por Oscar Niemeyer(...)bem como a secção performance, que
abordavam temas ligados à escravatura e à descriminação racial, o que foi
possível ver em poucas horas no primeiro dia”.
Ora! Se uma feira de arte serve para
promover e colocar em debate as tendências artísticas em voga na
atualidade, os demais segmentos da cultura se tornam periféricos. Quer
dizer, tornam-se apenas repetidores do 'mainstream', focado nos fatos
cotidianos e de olho na grana.
Esse texto não é um manifesto, sequer
um protesto.
É apenas uma indagação: Se a
realidade não nos basta, a Arte, que nos abre
perspectivas existênciais mais amplas, impulsionada pelo frescor do
novo, se torna apenas um cosmético seco e inóspito, que
transforma beleza em feiura sob a premisa de refletir uma
'face' do Real? Uma feiura, mas, Real!
Então, recortes da realidade objetiva da
comunicação social se impõem, soberana.
Ela demanda e estimula a criação de cenários irreais, inundados de
autobiografias estetizadas, discursos e expressões individuais egóicas que manifestam
- na aparência de fugaz realismo – o objetivo de enaltece-lo , não
transcende-lo. Miau! Au!Au!
Tanta coisa transborda da
internet que até minha memória está se tornando preguiçosa. A introjeção da
inteligência artificial nos afazeres diários transformou nosso modo de agir e
pensar e, quem sabe, até lembrar coisas do passado.
Hoje, fazendo uma busca
especifica no oráculo digital, um bit intrometido fez aparecer - do nada, sem
que eu tivesse solicitado - a foto da traseira de um velho Jaguar –com placa do
Estado da Guanabara – estacionado em um tempo distante, numa rua qualquer desse
país.
A surpresa me espantou.
Primeiro porque a consulta não tinha relação alguma com automóveis. Eu fazia
uma pesquisa para atualizar as informações sobre as ilhas gregas que visitei
muitos anos atrás. Dentre as ilhas consultadas estava a de Lesbos. A ilha, assim como as mulheres de Lesbos, ganhou notoriedade através
do tempo devido sua mais ilustre figura, a poeta Safo. Pertencente a alta
sociedade e extremamente culta, Safo organizou a primeira academia de mulheres,
onde ensinava música, dança e poesia.
Safo se inspirou nas grandes obras, como o
Ilíada e a Odisseia de Homero. Seu grande carisma a levou a reunir em torno
de si as mulheres de Lesbos e, com elas, desbravar um novo ponto de vista para a cultura grega: um ‘olhar’ o mundo à partir da própria mulher.
Até hoje Safo encanta mulheres e
homens. Platão a admirava. A chamava de “Musa Sábia”. Os romanos da Roma Imperial a tinham em alta
estima. A conotação pejorativa dada às mulheres que amam e se relacionam
sexualmente uma com as outras, só surgiu muito tempo depois da decadência do Império,
durante a Idade Média. Com o passar do tempo essa conotação ganhou musculatura
se tornando um rígido preconceito. Deixando de lado os feitos maravilhosos e
sedutores da poeta, mas,não sem antes mencionar uma fagulha da sua sensível e ousada consciência: “Alguns homens dizem ser as cavalarias, outros dizem ser os
soldados, e outros dizem ser as naus a coisa mais bela sobre a terra negra. Mas,
eu digo, o mais belo é o que amamos”, volto para a foto do calhambeque conversível branco que, tenho
como certo, pertencia ao meu pai. O lindo Jaguar branco pérola - em perfeito
estado - é exatamente como era e guardo na lembrança o carro do meu pai nos
idos dos anos 50/60.
Naquela ocasião aquele tipo
de Jaguar era raro na paisagem do Leblon. Os pais dos meus amigos de infância
tinham lindos e modernos Cadilac’s, Chevrolet, Hudson, Dodge, Desoto, Buick, Oldsmobile,Ford e
outras marcas americanas. O Jaguar Mark V branco conversível, estacionado em
frente ao número 80 da Rua Afrânio de Mello Franco, era único no bairro.
Foi o Jaguar do meu pai que
me transportou em direção a primeira visão e ao sentimento inaugural do contato
físico e amoroso entre duas mulheres. A retirada do véu, que encobre os mistérios
em torno das relações amorosas entre gêneros, aconteceu no verão de 1956 ou 57. Eu era
muito garoto, tinha dez,onze anos ou pouco mais que isso, quando minha família tomou a estrada a
bordo do magnifico Jaguar Mark V, com destino a região dos Lagos, onde o fato aconteceu. Só tempos depois, já adulto, entendi o impacto que a cena teve sobre mim. Lembro de alguns verões com meus pais e os
casais amigos que iam para a região se divertir, pescar, jogar pôquer, beber,
dançar e fazer coisas de adultos que, para nós meninos, não eram assim tão
interessantes e as quais ,tirante a sensação maravilhosa de liberdade, pouco lembraria mais tarde. Mas, esse caso em particular, teve um destaque especial entre
tantos outros que aconteceram na ocasião.
De dezembro a fevereiro eu,
meus irmãos e amigos deixávamos de lado os limites da vida na grande cidade, as
aulas e os professores e mergulhávamos de cabeça na liberdade de correr pelas
pedras, remar, nadar, aventurar no mar, caçar siris, guaiamuns e mergulhar
entre as rochas, sem tempo para retornar de uma aventura, aguentar advertências
ou reprimendas disciplinares. Calção, camiseta, snorkel, máscara e pé de pato era
tudo que usávamos da manhã à noite. Foi no retorno de um longo dia de aventuras, por volta das 7 da noite, concentrados
numa desculpa esfarrapada para dar ao ‘Comodoro’ Antunes sobre uma desastrosa
manobra que lançou seu barco inflável sobre as rochas, danificando o motor de
popa, que o ‘espanto' aconteceu.
Eu, meus irmãos, Alexandre e Ângelo
e o amigo Álvaro, estávamos tão concentrados na mentira que inventariamos que ao vislumbrar o grande Jaguar em frente a uma porta que supus ser do nosso
quarto não titubeei.
Meti a mão na maçaneta e a escancarei, deparando com a visão frontal de duas mulheres peladas, abraçadas e se acariciando na cama.
Não me recordo se
elas se espantaram mais que nós.
Por longos segundos fiquei agarrado à maçaneta
tentando entender a cena. Ninguém deu um pio, nem se moveu. Todos com olhar
fixo naquela cena. Elas se moveram bruscamente. Deram um salto e agarraram os lençóis
como quem agarra uma tábua de salvação. Dei um pulo para trás, fechei a porta e
saímos em disparada.
Agora, tínhamos dois
problemas para resolver. Explicar para o pai o desastre com o barco do Comodoro
e tentar entender o que tínhamos acabado de ver.
Ora, o que tínhamos acabado
de presenciar era hierarquicamente menos grave que o desastre com o barco do Comodoro.
Além de ser mais fácil de explicar já que não precisávamos mentir. Naquela hospedaria nós não olhávamos os números
dos quartos. Nossa referência era o Jaguar, sempre parado em frente ao nosso
quarto. Por sorte ou azar meus pais saíram enquanto nos aventurávamos no mar.
Quando retornaram estacionaram na frente de outro apartamento. Explicar –mentir
- para o pai sobre o que levou ao desastre
com o barco do Comodoro era o maior dos problemas. Em vista disso, tentar
entender o que tínhamos acabado de ver era moleza. O prejuízo do barco foi
rapidamente resolvido entre os adultos. Não contei para meu pai a cena das duas
mulheres peladas. Mas, contei para minha mãe. A interpretação dela sobre o
ocorrido foi tão natural e convincente que, desde então, o amor, as caricias e
a libido entre as mulheres nunca se tornaram um problema, sequer um fetiche para
mim, como homem. Numa noite, ao entrar no salão inundado pelo cheiro dos
cigarros e do whisky, onde os adultos se debruçavam sobre a mesa da jogatina
que varava madrugada, lá estavam as duas, sentadas na mesma mesa da minha mãe e
do meu pai e outros jogadores. Enquanto falava com minha mãe sobre alguma coisa que fariamos no dia seguinte, eu não tirava os olhos
da morena que eu achava a mais linda das duas. Aliás, eu achava as duas muito
bonitas. Ao me despedir de todos, ela me sorriu e piscou carinhosamente.
Acho
que enrubesci, fiquei quente, mas gostei daquela cumplicidade.