segunda-feira, outubro 16, 2006

Critica:O Novo Coletivismo On-line

Esse post reproduz parte do ensaio intitulado MAOISMO DIGITAL: Os perigos do novo Coletivismo on-line de autoria de Jaron Lanier www.well.com/~jaron sobre o qual anexei alguns comentários.
Num trecho do ensaio Jaron diz: "...testemunhamos a ascensão alarmante do mito do coletivo infalível. Várias organizações da elite se colocaram aos pés dessa ideia, inspirados pela ascensão do Wikipedia, pela riqueza de Google e pelas arremetidas milionárias dos empreendedores dos negócios virtuais. Foram as agências de governo, os departamentos superiores de planejamento incorporado e as universidades que deram inicio a esse erro."

Sabemos que muitos achados coletivos podem ser tão bobos ou ameaçadores  quanto algumas invenções individuais. 
Além do mais, é um problema adicional dispensável tentar definir qual dos dois procedimentos é o mais sábio.

Hoje em dia somos compelidos a deslizar sobre uma grande onda coletivista.
Na internet esse fenômeno vem direcionando as buscas para o Wikipédia e outros sítios coletivos semelhantes.

Outrora buscávamos subsídios de forma diversificada.
Hoje, a expansão dos nichos que agregam informações anônimas, resultante de uma cultura que visa resultados imediatos, dispensa o aprofundamento em temas, despreza compromissos com as ideias e com o trabalho dedicado e se destaca como uma força do saber coletivo. 

A critica de Jaron expõe com clareza algumas variantes do método. O que nos revela é inquietante.
Para aqueles que como eu consideram os anti-spans e outros procedimentos que autorizam terceiros o bloqueio de mensagens como um fator limitador do vasto horizonte navegável da Internet é possível duvidar da correção dos tópicos editados no Wikipédia. Diante desse quadro não é um disparate fazer uma analogia com temor medieval pela vastidão dos oceanos mal assombrados que entranhava a mentalidade dominante da época.
Essa analogia é uma espécie de alerta contra o mito de um infalível saber coletivo. 
Já falei muito sobre uma nova cartografia que redefine as fronteiras de convívio para as elites cosmopolitas internacionais, que buscam aventuras em paisagens exóticas domesticadas e adaptadas nos parques temáticos que se espalham pelas regiões do planeta e que desprezam a riqueza das falas e culturas locais que, no fundo, revelam uma outra face do mesmo problema.
Essa nova onda coletivista afogou as artes, o pensamento e vem submetendo as projeções estratégicas contemporâneas dos mais diferentes setores.

Uma onda de criação coletiva voltou a excitar o ambiente artístico contemporâneo e trabalhos dessa corrente tem aparecido em muitas mostras internacionais de arte. 
Isso é mais uma das pontas do mesmo artifício. 
A complexidade dos elementos em jogo: estética, sociologismos, sobreposição de camadas desconexas de formas e códigos e a relação dessa produção com o mercado de arte me obrigam a dedicar um exame especifico sobre o assunto que será apresentado brevemente nesse HiperBlog. 
As partes do ensaio de Jaron. que escolhi(quase todo) expõe a extensão desse tsunami nos planos tecnológico, econômico e cultural.
Quem quiser ter acesso a integra do texto deve consultar o link do autor que colei nas primeiras linhas desse post.
Quem se interessar em dar os primeiros passos pode ir adiante com as palavras do próprio Jaron. 

Num trecho ele nos diz : "..a beleza da Internet está em conectar pessoas reais e seu valor está na troca entre elas. Se nós acreditarmos que a Internet é em si própria uma entidade que tem algo a dizer nós estaremos desvalorizando as pessoas e nos tornando idiotas."

Ao indagar por que o Wikipedia -fetiche do coletivismo on line -foi velozmente elevado ao nível de referência contemporânea, ele nos alerta para o brilho das armadilhas que podem capturar e usurpar o talento dos indivíduos, submete-los a clonagens e difundir erros ou aspectos palatáveis de um texto, extraindo a substancia autoral de uma obra literária, sem que ninguém se responsabilize por isso. 
Jaron descreve seu caso particular como um exemplo.
Ele reconhece como verdadeiro "... ter realizado um filme curta metragem experimental há aproximadamente uma década e meia atrás."
Contudo, segundo suas palavras:."..Era uma experiência baseada num conceito terrível. Eu imaginei Maya Deren agindo com mofina www.myspace.com/mayaderen. Esse filme foi mostrado uma vez em um festival, nunca foi distribuído e acho que seria mais confortável que ninguém mais o visse. 
No mundo real é fácil não ser cineasta, basta não realizar filmes.
Ocorre que mesmo tendo me restringido a uma película, o universo alternativo que é a Wikipedia insiste em me apresentar como cineasta.
Cada vez que corrijo minha entrada na Wikipedia eliminando esse dado dispensável de minha biografia, 24 horas depois ressurge alguém repondo essa informação e me tornando um diretor de cinema outra vez. 
Eu não posso pensar numa punição mais apropriada do que a Wikipedia me impõe por ter realizado esse velho filme. Somente essa semana repórteres me perguntaram duas vezes sobre minha carreira de cineasta. É possível que as pessoas que colam esses erros em minha Wikipedia bio (pelo menos antes da publicação deste artigo) pensem que estão me lisonjeando.

À medida que se impõe a sabedoria do coletivo:"... Ler uma entrada de Wikipedia é como a ler uma próxima bíblia. Os fracos traços das vozes dos vários autores e editores anônimos, embora dedicados, elevam a perspectivas de erros. 
Em meu caso particular, parece que os 'goblins' são provavelmente membros ou descendentes da velha cultura do Mondo 2000 que ligam a experimentação psicodélica aos computadores.
Eles parecem dar grande importância em relacionar minhas ideias àquelas de algumas celebridades psicodélicas. 
Editam espontânea e gratuitamente como similares coisas em tudo diferentes das ideias impares da subcultura. 
Isto só faz sentido se imaginarmos quem se ofereceria para pagar por tal dedicação e o porque de todo esse trabalho?

"...O Wikipedia é apenas uma experiência que ainda tem muito a mudar e crescer. É fato que quando revela o que as pessoas on line estão pensando carrega informações interessantes.Esse ensaio não é sobre o Wikipedia em si, ele pretende levantar o problema de como ele vem sendo usado e como foi subitamente distinguido por um elevado status.Apresentando como uma forma de coletivismo on line, que não é nada mais nada menos que o ressurgimento da velha idéia que o coletivo é sábio, o Wikipedia revela uma concentrada influência em um acesso que canaliza o coletivo e se apresenta como uma força da maioria. Isto é em tudo diferente da democracia representativa ou da meritocracia. Esta idéia não é nova e já teve conseqüências terríveis quando empurrada em cima de nós em vários períodos históricos. O fato novo é que agora sua re-introdução é movida por tecnologistas e futuristas proeminentes, pessoas que em muitos casos conheço, o que não torna o problema menos perigoso. Um estudo publicado no ano passado compara a exatidão do Wikipedia à Enciclopédia Britânica. A lentidão dos resultados desse estudo vem adiando um debate sobre sua validez. Os artigos selecionados para a comparação foram escolhidos à sorte.Dessa forma coube a Wikipedia tópicos da ciência sobre os quais o coletivo não se importa muito. “O Efeito Cinético do Isotope” ou “Vesalius-Andreas” são exemplos dos tópicos que fazem a Britânica dar duro para encontrar os autores certos para pesquisar e rever contradições de grandes volumes de tópicos diversos.Para Wikipedia esses são tópicos perfeitos. Nela há pouca controvérsia em torno desses artigos porque a rede fornece o acesso pronto a um número razoavelmente pequeno de estudantes competentes, graduados e especialistas, imbuídos da maníaca motivação da juventude.Uma opinião do núcleo do mundo do wiki é que o que os problemas que existem no wiki serão corrigidos e incrementados através do processo unfold (aberto). Isto é um processo análogo às reivindicações dos Hyper-Libertarians que põem fé infinita em um mercado livre, ou dos Hyper-Lefties que de algum modo torcem pelo sucesso dos processos de tomada de decisão por consenso. Em todos estes casos, parece-me que a evidência empírica rendeu resultados difusos. As atividades coletivas às vezes frouxamente estruturadas podem render melhorias contínuas, porém, maior parte das vezes não.Ocorre que não viveremos o suficiente para comprova-las.Primeiramente, é importante não perder de vista os valores apenas porque a pergunta sobre a sabedoria coletiva é muito fascinante.A exatidão de um texto não é o bastante. Um texto desejável é mais do que uma coleção de referências exatas. É também uma expressão da personalidade.Por exemplo, a maioria da informação técnica ou científica que está no Wikipedia já estava na correia fotorreceptora antes que o Wikipedia tivesse nascido.Usando o Google ou outros serviços de busca podíamos encontrar a informação sobre os artigos que são agora wikified. Em alguns casos observei que textos específicos do Wikipedia foram clonados dos locais originais em universidades ou em laboratórios.Quando isso acontece o texto perde parte de seu valor. Desde que os motores de busca começaram a apontar versões wikified, a correia fotorreceptora perdeu muito de seu sabor que surgia através do uso ocasional.Quando você vê o contexto em que algo foi escrito e reconhece traços do autor não apenas pelo nome, você aprende mais do que quando encontra o mesmo texto colocado de forma anônima, embasado por falsa autoridade e colocado de maneira anticontextual, preparado especialmente para o Wikipedia. A pergunta não é apenas sobre a autenticação e confiabilidade, embora importantes, o que perguntamos é algo mais delicado que diz respeito a uma voz detectada no todo. É bom ter sempre a possibilidade de detectar uma personalidade com sua fala plena de sentido, como são os casos de algumas Web pages pessoais que funcionam como os jornais ou livros.Até mesmo a Britânica tem uma voz editorial, ainda que alguns critiquem como sendo demasiado vaga, oriunda de Dead White Men “homens brancos inoperantes”.Se um Web site irônico dedicado ao cinema brincasse com meu personagem filmmaker seria uma estória diferente, engraçada e criativa ao contrario do contexto de minha bio no Wikipedia que se transformou em puro nonsense. Myspace é uma outra experiência recente que vem se tornando dia a dia tão influente quanto o Wikipedia. Como o Wikipedia, adiciona poucos dados aos atuais disponíveis na correia fotorreceptora.A diferença é que ela o faz insinuando o uso de um inspirado deslocamento dramático.Sendo basicamente composta por textos de autores Myspace não finge ser sábio. Você pode dizer pelo menos um pouco sobre o caráter da pessoa que fez uma página de Myspace. Mas é muito raro uma página de Myspace inspirar a mesma confiança e o mesmo deleite que uma publicação onde o autor é uma autoridade de reconhecido mérito.Contudo, concedo um ponto para Myspace nessa contagem! Myspace é mais rico por se tratar de uma fonte mais multifacetada de informação que o Wikipedia, embora tópicos similares se sobreponham nos dois serviços. Se você quiser pesquisar sobre um programa de tevê e saber o que as pessoas pensam dele, Myspace revelar-lhe-á mais do que as entradas análogas e enormes do Wikipedia.
E continua: O Wikipedia não é o único fetiche on line do coletivismo. Um frenético grupo de pessoas vem operando para ir além tornando Meta as rubricas on line.Tudo começou de forma inocente com a noção de criar diretórios de destinos on line como os que existem no Yahoo.Depois surgiu o AltaVista que tornou possível realizar buscas usando uma base de dados invertida ao índice da correia fotorreceptora. O Google adicionou algoritmos a suas páginas. Então vieram os blogs, que variam em termos de qualidade e importância. Isso conduziu aos meta-blogs como Boing Boing que funcionam através das pessoas identificadas que ali agregaram blogs. Em todas estas formulações as pessoas reais estão inseridas.Nesses casos um indivíduo ou indivíduos apresenta uma personalidade e fazem declaração de responsabilidade. Era de entendimento comum que a correia fotorreceptora estava ligada a pessoas e que o valor ascendia a partir da grandeza das conexões entre seres humanos reais fruindo coisas geradas por seres humanos igualmente reais. O Google hoje, ainda não é Meta o bastante para se constituir problema, mesmo quando estabeleceu ranking de suas páginas ainda permaneceu vinculado a alguma forma de autoria, porém, o acumulo dos procedimentos Meta pode vir a criar um murk (escuridão) sem sentido. No ano passado, ou nos dois anos anteriores, uma tendência de remover características pessoais ou a autoria vem sendo tratado com forte desempenho por inúmeros agentes.A remoção das características individuais visa chegar o mais perto possível da simulação da aparência no índice que emerge fora da correia fotorreceptora.Caso isso se concretize estaremos próximos de uma conversa com um profeta supernatural.Neste lugar a Internet cruza a linha da alucinação.Kelly Kevin um dos fundadores da conferência dos Hackers, editor executivo e fundador do Wired http://www.kk.org , é um amigo e alguém que tem pensado sobre o que chamam a mente Hive(quando os objetos não têm o estado individual são mais fáceis de combinar junto… e agregar serviços para dar forma a serviços mais poderosos...segundo Howard Lewis- nota adicionada por mim ao texto de Jaron ).Num Web site chamado www.fresco.org que é uma cruz entre um blog e o Whole Earth Catalog os contribuintes, incluindo eu próprio, não são hive porque são identificados. Em março Kelly reviu uma variedade de filtros de consenso como Digg e Reddit e notou uma miríade de locais agregados a correia fotorreceptora onde constatou características Meta em grande parte desses locais.Ali nenhuma pessoa real faz apreciação ou se responsabiliza no que nele aparece, o que se vê são apenas algoritmos. A intenção lhe pareceu ser a de que a maioria dos locais Meta se imponham como guardiões que zelam a passagem do gargalo por onde escoara desdobramentos infinitos.Em abril Kelly revisitou popurls agregados a correia fotorreceptora e constatou uma nova maioria Meta. A partir daí a equação revelou que um algoritmo coletivo se deriva de outros algoritmos coletivos que por sua vez derivam do outros coletivos que carregam trechos de textos ou textos inteiros de escritores profissionais reconhecidos que foram posteriormente agregados aos popurls por escritores amadores anônimos...Raramente os popurls incluem referencias sobre os dados que agregam.Tais referencias estão enterradas dentro das notícias que lhes deram origem,agregadas no Google, por exemplo.As noticias ou textos originais só podem ser descobertos se você escavar varias camadas agregadas para encontrar as fontes que são as raras entradas criadas realmente por escritores e por editores profissionais que assinam seus nomes.Por isso nos popurls os dados são no melhor dos casos iguais, sem contexto ou autoria.Kevin diz que através dos popurls podemos entender a mente hive. Para ele quando se perfura as camadas a mente hive se revela estúpida.Por que então tanta atenção à ela?
Certamente porque existe... uma conexão pedagógica entre a cultura da inteligência artificial e o estranho fascínio pelo coletivismo anônimo on line. Maior parte dos usuários do Google e do Wikipedia mencionam freqüentemente serem memória introdutória para que as IA (inteligências artificiais) se desenvolvam. Um popurls que visitei esta manhã especulava que IA pôde aparecer dentro do Google daqui a alguns anos. George Dyson quis saber que se tal entidade já existisse na rede como percebe-la no Google?No meu ponto de vista não cabe discutir a existência de entidades Metafísicas mas sim enfatizar como prematuro e perigoso que tais expectativas aprisionem intelectos humanos.
A partir do principio de que o agregador é mais rico do que agregado não fica difícil entender a elevação artificial do Meta e muito menos perceber porque o mito do coletivismo se tornou popular nas grandes organizações: O sucesso desse princípio dispensa responsabilidade individual sem correr riscos.Vivemos uma época de tremendas incertezas acopladas a uma enorme fobia por responsabilidade, devemos funcionar dentro das instituições que não são leais a nenhum executivo e muito menos aos membros de níveis mais baixos.Os indivíduos estão receosos de dizerem coisas erradas sobre a sua ou em sua organização, por isso é mais seguro se esconder atrás de um wiki ou de algum outro ritual de agregação Meta...
ultimamente tive possibilidade observar resultados curiosos quando participei de um wiki sobre wikis. O que eu vi é perda da introspecção, a negligência para as nuances de opiniões e o crescimento de uma tendência que preserva a opinião oficial ou normativa de uma organização.Por que não se grita sobre a recente epidemia de usos impróprios do coletivo? Parece-me que a razão é que as velhas e más idéias quando refrescadas e empacotadas pela nova tecnologia reeditam um certo encantamento.
Mais adiante ele diz:... O coletivo nem sempre é estúpido. Em alguns casos especiais pode ser brilhante. Por exemplo, há um ritual demonstrativo apresentado freqüentemente aos estudantes que iniciam em escolas de negócio.Uma das versões desse ritual coloca um grande frasco de jellybeans na frente de uma sala de aula. A cada estudante solicita-se quantos feijões estão dentro do pote. É um mistério, porém, a média das suposições revela, geralmente, um certo grau de exatidão.Este é um bom exemplo do tipo especial de inteligência que se pode obter de um coletivo.Esse traço peculiar foi comemorado como uma sabedoria das multidões, embora eu pense que a palavra sabedoria foi aí colocada de maneira equivocada. Tal ritual se assemelha a mão invisível de Adam Smith e pode ser uma das razões do surgimento dos algoritmos do rank da página do Google....O fenômeno é real e pode ser útil. Mas não infinitamente útil pois o coletivo pode ser também demasiadamente estúpido...A razão que o coletivo pode ser valioso é que seus picos de inteligência e estupidez não são os mesmos do que os geralmente produzidos por indivíduos. Ambos os tipos de inteligência são essenciais. O que faz um mercado trabalhar, por exemplo, é a união da inteligência coletiva e individual. O mercado não pode existir somente na base de preços determinados pela competição. Necessita também dos empreendedores que enxergam acima dos produtos em competição. Ou seja os indivíduos inteligentes, homens do mercado que fazem as perguntas que serão respondidas pelo comportamento coletivo.São eles que põe os jellybeans no frasco. Há determinados tipos de respostas que não podem ser fornecidas por um indivíduo. Quando um burocrata do governo ajusta um preço, por exemplo, o resultado é freqüentemente inferior à resposta que viria de um coletivo razoavelmente informado que consiga escapar dos efeitos das variadas formas de manipulações...Aqui devo fazer um comentário ao esforço do Linux e similares. As várias formulações sobre software livre são diferentes do Wikipedia e dos Meta. Os programadores de Linux não são anônimos e o sucesso pessoal é uma motivação que mantem tais empresas em movimento. Mas há algumas similaridades, uma delas é a falta de sensibilidade, ou voz, no sentido estético do projeto.Essa é uma característica negativa comum aos softwares abertos e ao Wikipedia...O coletivo é bom para resolver problemas que exigem resultados que podem ser avaliados por parâmetros de desempenho alheios a controvérsias, porém, são ineficientes quando o gosto e o julgamento são dados importantes....eu penso que é importante demarcar o limite entre o pensamento e a mentira coletiva: O coletivo é provavelmente mais clarividente quando não está definindo suas próprias perguntas e quando a integridade de uma resposta pode ser avaliada por métodos simples (tal como um único valor numérico) e quando o sistema de informação nos revela a filtragem através de um mecanismo de controle de qualidade onde os indivíduos têm um grau elevado de responsabilidade. Sob essas circunstâncias um coletivo pode ser mais argucioso do que uma pessoa. Ao se quebrar qualquer dessas circunstâncias o coletivo torna-se errático e ruim.
Diante de exemplos autênticos da inteligência coletiva percebi que os bons resultados são em parte guiados ou inspirados por indivíduos de bom-senso que dele participam. Essas pessoas ajudam o coletivo a focar argumentos e a corrigir falhas comuns à “mente hive”. Equilibrar a influência entre pessoas e coletivos é o coração do projeto das democracias, das comunidades científicas, e de muitos outros projetos de longa duração. Algumas velhas idéias podem despertar novo interesse quanto mais aprimorado seja o uso da “mente hive”.O mundo pré-Internet fornece bons exemplos de controle que pode melhorar o desempenho da inteligência coletiva. Por exemplo, a imprensa independente publica uma notícia atraente sobre políticos escrita por repórteres de reputação, como o relatório de Watergate de Woodward e de Bernstein.No correr dos fatos muitos outros escritores fornecem revisões do produto, tais como Walt Mossberg do Wall Street Journal e David Pogue do New York. Esses jornalistas informam com determinação e critério os percalços, os resultados e o preço da eleição. Sem uma imprensa independente, composta de indivíduos com idéias próprias e responsabilidade autoral o coletivo torna-se estúpido e equivocado, como foi demonstrado em muitos exemplos históricos. (eventos recentes na América refletem enfraquecimento da imprensa, em minha opinião).As comunidades científicas também conseguem do mesmo modo manter a qualidade com um processo cooperativo que inclue verificações e contrapesos. Tais procedimentos se constituem filtros de retenção ou uma “cortina”, no sentido ideal qualquer um pode ter acesso, desde cumpram as exigências da meritocracia.O coletivo não melhora o processo acadêmico onde os indivíduos apresentam suas idéias originais bem construídas, para o mundo acadêmico esses são os dados que realmente importam.Um outro exemplo: Os empreendedores não são os únicos “heróis” do mercado. O papel de um banco central em uma economia não é o mesmo de um oficial do partido comunista em uma economia centralizada de planejamento...Nenhum mecanismo é perfeito, porém ainda nos beneficiamos das velhas instituições. Certamente sempre houve abundância de péssimos repórteres, cientistas acadêmicos iludidos, burocratas incompetentes, corrupção e assim por diante.A pergunta que se faz é como percebe-las e reduzir as possibilidades de erros reincidentes? As experiências acumuladas do mundo pré-Internet nos revelam que “sim”, somos capazes de perceber e corrigi-los identificando os responsáveis.Porém, a mente hive seria capaz de percebe-los e revelá-los?
Aqueles que até aqui partilharam as idéias de Jaron se informaram sobre as questões que pairam e as duvidas que permeiam os setores de ponta na chamada pós-modernidade.Aqueles que quiseram ir mais fundo recorrendo a versão original do ensaio tiveram oportunidade de se informar sobre outros textos do autor . O melhor disso tudo é que podemos constatar vozes autonomas e originais rompendo o silencio e atravessando a cortina de fumaça que encobre as decisões consensuais, os equívocos ocultados pela fé cega no novo coletivismo on line, o glamour envolvente do ambiente cosmopolita internacional e os laboratórios das novas tecnologias da informação adentrando a dimensão dos interesses, as mentiras e as verdades do mundo em que vivemos e as razões da atração generalizada pelos ícones da contemporaneidade, tanto no plano das pessoas reais quanto numa misteriosa,e por isso mesmo atraente,dimensão Meta."

Adriano de Aquino
Outubro de 2006

O Nome do Belo




De um objeto sem nome não sabemos o que fazer.
Maurice Blanchot

O homem carrega dentro de si o medo do desconhecido; para disfarçar este medo, ele atribui um nome ao fantasma que não conhece. A fala toma conta da coisa, uma espécie de abrigo onde o homem se protege, negando a coisa e reconstituindo-a longe do terror do real. O objeto, depois de nomeado, passa para o mundo da linguagem. Como um ser atravessado pela palavra, o homem se aproxima ou se distancia do mundo e das coisas, apropria-se do real e tenta dominar o desconhecido. A coisa e o mundo tornam-se imagens e conceitos, longe daquilo que o homem não desejava ver: as suas obscuras existências que ameaçam o seu saber organizado. Para se tornar mestre dos animais, Adão lhes impôs um nome aniquilando suas existências, (Hegel citado por Blanchot). Na busca da cômoda ilusão de ver um mundo ordenado e deter o incômodo do desconhecido, o homem usa do poder da palavra, subtraindo do ser a sua existência, mergulhando-o no nada da linguagem. Retendo enigmas inexplicáveis. A compreensão equivale a um assassinato da coisa, o conceito é a ausência do ser. Por mais que a fala se aproxime do objeto, há sempre um abismo entre o que se vê e o que se enuncia. O objeto é sempre diferente dos inventários das percepções possíveis. O medo nos esvazia, causa pânico. É preciso encontrar um lugar, um conceito, para se depositar o que não se entende. É impossível para o homem suportar a coisa sem nome. O acesso mais fácil ao objeto ocorre a partir do que se pode falar sobre ele, condição imposta pelo desejo de conhecimento. Para isto é preciso nomear o desconhecido, submetê-lo à lei da fala. O inexplicável é sempre um fantasma que angústia o homem. Ao se defrontar com a arte e sua maldição do incompreensível, ele procura se defender atrás de um nome. É como se o objeto sem uma designação ferisse o olhar.

"Je ne peins pas une famme, je fais um tableau¨.

Matisse

O artista inventa a ilusão de uma obra para transgredir a linguagem, ou como queria Bataille, para pensar o impossível. Ao acumular um sistema de signos perverso, o olhar do artista vem reclamar a presença de um sujeito angustiado no conhecimento do mundo, um sujeito que desafia o desconhecido. A arte não pretende explicar o mundo, mas transformar sua imagem e aprofundar seu enigma. Ela tem como tema a essência da linguagem, uma linguagem inquietante e contraditória, cercada de incertezas, que são as próprias incertezas do homem diante de seu destino. Com a experiência moderna, a arte mergulhou num túnel atrás do novo, de possibilidades desconhecidas de olhar. Momentos do belo que assumiram designações, uma mania do ocidente de tudo regulamentar e encaixar num determinado lugar. Todo movimento tinha um nome, gerando um desencadeamento de "ismos", que fazem a história do belo moderno. O homem recorre à palavra para esconder seu medo de não entender esse objeto silencioso, que projeta uma sombra desconhecida e provocadora. A materialidade da arte poderia ser um fato sem explicação, embora ela garanta sua existência independente de conceituações; o homem precisa explicá-la, nomear sua intimidade, para se sentir seguro do terror daquilo que não faz parte do seu modelo de conhecimento. É interessante ver, como exemplo, as origens de certos nomes do belo moderno: A ironia de um crítico ao jovem pintor francês George Braque, ao afirmar que este reduzia o mundo a cubos, veio dar nome ao movimento de onde saiu as principais tendências da modernidade: o Cubismo. O Dadá veio de uma palavra tirada por acaso do dicionário "Larousse", que significava "Cavalo", na linguagem infantil. Palavra que não definia nenhum programa, a não ser, a estranheza e a irreverência de um grupo de artistas com a sociedade e a própria arte. Não se fala para dizer alguma coisa, mas para dominar o mundo e as coisas, para evitar o fantasma que não se sabe de onde veio e para que serve. Ou para negar a natureza da obra de arte, torná-la legível e estabelecer uma retórica da ordem cultural. Mas a fala não é suficiente para deter o complexo de "problemas" e "segredos" que envolvem uma obra de arte. Merleau-Ponty nos fala de um olhar interior, um terceiro olho que vê a obra de arte, que vê o nada que ela acrescenta ao mundo para celebrar o enigma da visualidade. Depois de mais de cem anos de arte moderna marcada de rupturas e cortes com a história, era preciso se livrar da angústia do novo contra a tradição, encerrar este tempo moderno e fazer retornar o que foi esquecido. O que poderia vir depois do desencanto com o moderno e seus estilos, para dar conta dos novos procedimentos na linguagem da arte, só poderia ter um nome: Pós-Moderno, e encerrar definitivamente o difícil desejo de esquecer o passado e voltar o sonhar com ele, sem o complexo de culpa de não ser moderno. A realidade da obra de arte não se limita à realidade definida por um conceito; qualquer definição não passa de tautologia. A arte vive este drama do lugar incerto, da necessidade de um nome que não a define. Ela não busca nem a verdade, nem a utilidade, ela imita realidade imaginárias, para estabelecer novas relações simbólicas com o mundo. Se não há falas sem respostas, a obra fala para demandar de quem a olha, respostas silenciosas. Sustenta a fala do outro mas não se deixa seduzir pelas verdades contidas nela. O desejo de dar nome, classificar o estilo, explica-se pelo fato de que a percepção é condicionada por costumes e convenções. "Só se vê o que estamos preparados para interpretar'", diz Peirce. Como o sábio que se limita dentro de seu próprio saber, vê o que está ao seu redor a partir do que sabe. Por ser enigmas, as obras de arte irritam a teoria da arte (Adorno) e incomodam o olhar desavisado. Elas se resumem em questões insolúveis, porque, se respondem alguma coisa, respondem para si mesmas, falam de suas inquietações particulares. A designação pós-moderna é também mais um lugar incerto para acomodar um outro momento incompreensível da arte, às custas de novas explicações. A identificação serve para fingir uma percepção a respeito da estranheza da arte com o cotidiano, ou escamotear o medo diante do silêncio da obra, que resiste aos conceitos, ao tempo e ao riso do contemplador. O sintoma pós-moderno faz retornar a nostalgia da tradição diante de um espelho moderno que reflete o velho desacordo entre o conceito e a obra de arte. Este objeto escorregadio, onde o homem sublima sua violência primitiva, muda de forma, muda de cor, troca de matéria e recebe outros nomes.


Almandrade
artista plástico, poeta e arquiteto

quarta-feira, outubro 04, 2006

Bienal de São Paulo:Um morto barulhento

Controvérsias reaparecem a cada nova edição da Bienal São Paulo. Ela se origina na crise das formas de amostragem de arte, conceituação e modelo de gestão dos grandes eventos. Muitos afirmam que as mega-exposições há muito deixaram de ser um elo intermediário ativo entre a pluralidade das experiências estéticas e o publico. Essas opiniões coincidem com os protestos de vários grupos contra a investida mercantil sobre os produtos artísticos, associados a esse tipo de evento.

Críticos das feiras de arte e das grandes mostras internacionais focam suas ofensivas sobre os métodos do marketing cultural que enfiou turismo, antropologia, divertimento, arte e cultura num mesmo saco, melhor dizendo, num mesmo ambiente refrigerado e lacrado contra ruídos da cultura contemporânea que ficam do lado de fora.

As grandes mostras tornaram-se paquidermes em processo de desintegração. Os curadores investem sobre o que resta de orgânico sobre um material em decomposição.

As sucessivas mudanças artísticas provenientes da dinâmica da era dos meios eletrônicos expandiram consideravelmente as formas de expressão.

Qualquer pessoa minimamente informada supõe que a variedade de informações hoje disponibilizadas produziu um enorme impacto na vida social, Achar que a criação artística ficou imune, protegida no casulo da genialidade criativa é pura tolice.

Porém, heróicos curadores, se prontificam a salvar os restos mortais da instituição e reabilitá-la, transformando-a num zumbi transglobal.

Será que acreditam poder voltar no tempo e nos surpreender, reeditando as polêmicas bienais do passado, realizadas entre os anos 60 e 80.

Quem não se lembra da controvertida Bienal de Veneza de 1980, que serviu de vitrine à versão de Charles Jencks para o pós-modernismo.Esse foi o último elo de ligação efetiva das grandes mostras com as questões expressas pela arte, a reflexão e o entusiasmo do público. A partir de então assistimos a repetição do mesmo show com pequenos cortes particulares.
Esses cortes são resultantes do sopro criativo dos curadores. Muitos concordam que as grandes mostras tornaram-se rituais que orbitam em torno dos curadores. Cultuados e temidos, essa nova espécie de “mecenas” vem perturbando o sono de muitos artistas. De um tempo para cá o mundo das artes foi envolvido por uma atmosfera artificial carregada de ansiedade.
Motivos não faltam.
O mais significativo tem origem nas vertentes radicais dos movimentos estéticos para além da vanguarda modernista.
As atitudes artísticas que antecederam os últimos vinte anos, marcadas pela transitoriedade, romperam barreiras e descortinaram conceitos, trazendo à tona novas formas de expressão. Uma enorme variedade de estilos coincidiu com a atração generalizada pelo efêmero, despindo as obras da contemporaneidade das características outrora reconhecíveis como “arte burguesa”. Porém, tais atitudes resultaram num paradoxo que parece não preocupar alguns artistas e gestores das instituições culturais. Dentre as inúmeras questões a mais aparente é a consolidação de um estilo mundial de arte inscrito nas performances, instalações, intervenções coletivas, grafites e outros gestos identificados como formas de arte mais representativa da atualidade.

Ocorre, entretanto, que tais gestos já duram mais de vinte anos, ou seja, se projetam acima da média de vida de quase todo estilo internacional de arte. A história é farta em exemplos que nos confirmam que a longa permanência de um modo de arte conduz ao esgotamento levando grande parte da produção a procedimentos quase mecânicos e a ostensiva banalidade. É inconcebível, mesmo para um leigo, que artistas, diretores e curadores desconheçam o calendário das correntes estéticas da segunda metade do século XX, quando a Bienal de São Paulo passou a existir. Uma rápida olhada sobre a descontinuidade de estilos pode esclarecer muita coisa. A pop art que surgiu na Inglaterra de meados dos anos 50, realizou todo o seu potencial na Nova York dos anos 60. O expressionismo abstrato dominou as décadas de 1940 e 1950. O minimalismo desenvolveu-se durante os anos 50/60 etc.

É, portanto, no mínimo curioso que as diversas variantes da produção artística atual, ligadas à idealidade e a estética de muitos artistas do período que antecede os anos 80 e que se autodenomina livre plural e transitória desvencilhada de regimes estéticos ou sistemas, seja tão longeva.

Além disso, a relutante insistência da Bienal de São Paulo em permanecer surda às criticas contra a idéia de reunir obras de arte em torno de um tema tornou-se uma teimosia típica das dinastias do passado. Na edição 2006 por exemplo, na falta de um mote próprio, apóia-se em distintos campos do saber que lhe confiram substancia. Persistindo no equivoco escolheu o titulo Como Viver Junto, inspirado em seminários de Roland Barthes no Collège de France realizados em 1976-77. O que essa escolha nos revela? Dentre as muitas vicissitudes, a falta de parâmetros apropriados ao tempo presente e uma certa preguiça de empenhar-se na busca de uma configuração capaz de revelar uma parte da crise e a diversidade da produção artística da atualidade. Reflexos objetivos dessa política podem ser vistos na perda da visibilidade pública das expressões estéticas comprometidas com a tecelagem de tramas simbólicas, ou seja, narrativas. Em resumo, na sua extensão mais objetiva essa política impõe uma visão “única” da arte da atualidade.

Coisa velha e decadente, aqui em Kassel, Lisboa, Madri ou Istambul.


sábado, setembro 09, 2006

A Dinastia do Novo

O que não muda
é a vontade de mudar.
Charles Olson

Mudanças geram insegurança, provocam entraves, prejudicam alguns grupos sociais beneficiando outros e também despertam soluções originais. Nos últimos vinte anos a arte passou por alterações consideraveis obtendo maior difusão e circulação de dinheiro, fruto do triunfo das tecnologias da informação, da redefinição da economia e do mercado. A isso somaram-se surpresas como: o resguardo das atitudes contestadoras, capitulações ao explicitamente econômico, pouco caso pelo esmêro e pela dedicação criteriosa ao trabalho pautato no esforço, no compromisso e na qualidade.
Hoje, um consideravel numero de artistas acha que a longa permanencia dos eventos/manifestações/instalações é reflexo da quebra de paradigmas,da diversidade e do abandono das referências artísticas do passado.
Outros veêm nesse predominio muitas questões.A amplitude e a complexidade do problema engloba vários setores da produção cultural.Nesse texto reduzirei meus comentários ao setor das artes visuais,mais precisamente a determinadas manifestações das artes plásticas nos últimos vinte anos.Tomando como ponto de partida uma exposição que aconteceu ha um ano numa galeria norte americana tentarei tecer algumas considerações sobre aspectos invisíveis dos embates artísticos da atualidade .Como artista adepto da liberdade de expressão evitarei juízo de valor estético ou comentérios sobre os aspectos sensíveis das obras ou gestos artísticos.Me limitarei a comentar o contexto ideológico que hoje afeta o circuito artístico.
A mostra a qual me referi - uma instalação inspirada na dieta alimentar a base de batatas inglesas, a qual foi submetida a artista na cura da doença que a acometeu - era composta por um conjunto de batatas inglesas enfileiradas, algumas enfiadas em meias multicoloridas, outras protegidas por cachecol e outras mais dispostas nos degraus de uma escada, sugerindo a dinâmica dos movimentos descida/subida de degraus. O despojamento do evento despertou minha curiosidade.
Talvez pelo fato de ter sugerido um corte com as variadas instalações,interferências ou manifestações as quais me habituei ver nas bienais e outros acontecimentos artísticos.O registro estritamente autobiográfico do evento com as batatas me levou a considerar o radical desligamento da artista dos códigos que atualmente conectam de alguma forma as muitas instalações que vemos por aí. Por isso fui levado a considera-la a mais representativa mostra do que se convencionou chamar de pós-modernidade. A ausência de traços de construção formal, um assumido pouco caso pela composição estética, a desprentensiosa utilização de materiais e a natureza estritamente biografica do evento, não fosse o título da exposição, a assumida autoria e a analogia com registros da história que revelam que o Papa Pius IV recuperou-se de uma doença por volta de 1570 após lhe ter sido prescrito uma dieta de batatas, essa instalação seria a mais significativa demonstração do abandono dos vínculos com o mundo das artes e a mais expressiva manifestação de um fenomeno artístico transitório.O que impede tais manifestações de ir fundo no abandono radical do campo da arte?
Diante dessa questão um curioso paradoxo se apresenta.A desconfortavel falta de sentido apontada pela maior parte do público frente as manifestações artísticas da atualidade e os comentários críticos dos inimigos que as classificam como fenomenos resultantes da ideologia dominante se confundem com a repercursão dessas produções nos grandes centros cosmopolitas.É comum vermos na mídia nacional notícias sobre os feitos e os preços dos artistas contemporâneos no circuito internacional.É lamentavel que a visão idílica que tudo consome e o preconceito que enxerga apenas o equívoco do entendimento da história no que tange as produções atuais, se referindo a elas de maneira jocosa e desprezível, acabem sendo atitudes similares que apenas recalcam questões importantes.É fato incontestavel que a fascinação pelos feitos transitórios se reflete em eventos e objetos igualmente efêmeros comuns a vários artistas e celebridades que transitam no ambiente artistico atual.Porém,isso é apenas uma pequena parte do problema.Relevante de fato é a permanencia de um movimento mundial que já dura cerca de vinte anos, ou seja, ele se mantém dentro da média de vida de quase todo estilo internacional de arte.Diante dessa constatação os segmentos culturais que integram e apoiam os mais propalados movimentos da atualidade ainda parecem insatisfeitos.A insistência em não admitir o esgotamento das suas propostas estéticas está levando grande parte da produção contemporãnea a procedimentos quase mecânicos e a ostensiva banalidade.Por sua vez as instituições culturais que as abriga tornaram-se um circo de atrações melancólicas.A Bienal de São Paulo é um exemplo.Na falta de um tema próprio para a edição 2006 escolheu o titulo Como Viver Junto, inspirado em seminários de Roland Barthes no Collège de France realizados em 1976-77 . O que essa escolha nos revela? Dentre as muitas vicissitudes a falta de parametros apropriados ao tempo presente, o oportunismo e uma certa preguiça de empenhar-se na busca de formas expositivas capazes de revelar uma parte da crise e a diversidade da produção artística da atualidade.Reflexos objetivos dessa política podem ser vistos na perda da visibilidade pública da pintura e outras expressões estéticas sobre suportes tradicionais comprometidas com o rigor conceitual e a fatura artesanal.Na sua extensão mais objetiva são autoritários e excludentes,prejudicam a difusão dos produtos artísticos na mídia e no mercado de arte impondo uma visão única sobre a arte da atualidade.Além do mais a relutante resistência da Bienal de São Paulo de permanecer surda às criticas contra a idéia de reunir obras de arte em torno de um tema tornou-se uma teimosia típica das dinastias.Quem quiser se aprofundar nos domínios reservados dos diretores e curadores das grandes mostras pode começar dando uma olhada rápida no calendário das correntes estéticas do século XX. Verá uma descontinuidade de estilos que pode esclarecer muita coisa. A pop art que surgiu na Inglaterra de meados dos anos 50, realizou todo o seu potencial na Nova York dos anos 60.O expressionismo abstrato dominou as décadas de 1940 e 1950.O minimalismo desenvolveu-se durante os anos 50/60 etc...Essas tendências que descortinaram novas experiências se atacavam reciprocamente e criticavam, uníssonas, o regime estético do modernismo. Entretanto, suas referencias eram o proprio modernismo.É, portanto, no minimo curioso que a produção artística atual que se auto denomina plural e transitória, desvinculada de regimes ou sistemas seja tão longeva.Tal constatação vem suscitando suspeitas.Dentre elas a que identifica os destacados movimentos atuais com as idéias de uma cultura mundialista dominante.
A atualidade é rica em estimulos que nos deixam perplexos.Hoje, esse sentimento invade o juizo de muitas pessoas que veem as manifestações artísticas contemporâneas como experiências desprovidas de sentido e nem por isso deixam de frequentar as exposições e de se excitarem com o glamour dos eventos culturais. Porém,para aqueles que contestam a banalização da arte as coisas se tornaram difíceis.Hoje,eles podem ser vistos como conservadores rancorosos . Essa polarização é expressão da ideologização que hoje submete o ambiente artístico cultural e que poucos admitem existir.
A partir dessas considerações podemos entender uma parte da lógica que nos levou ao abandono dos critérios estéticos e a precipitação constante de novos paradigmas circunscritos apenas na singularidade de cada produtor.Ainda bem que o predominio do dinheiro sobre as demais atividades não conseguiu impedir que muitos contestem a diluição de critérios como conseqüência do esquecimento da crítica e da política. Visto pelo foco dominante, discutir ou contestar as produções atuais é apenas uma chateação inútil. O silencio parece conveniente, ainda que represente a mantenção do predominio cultural e econômico sobre todas as demais formas de produção.É contra essas velhas e recondicionadas iniciativas que muitos artistas ainda reagem na tentativa de resistir ao reducionismo que nos torna produtores/consumidores sem vínculos ou compromissos duradouros com os diversos segmentos sociais e com a própria cultura.

Adriano de Aquino
Set.de 2006

terça-feira, agosto 29, 2006

"Fazendo Política..."?

As inconseqüentes manifestações sobre os nefastos episódios e as lamentáveis conseqüências do mensalão, caixa dois, dólares na cueca, sanguessugas etc, não partiram dos figurões da classe política, elas apareceram nas recentes declarações de dois artistas: Paulo Betti e Wagner Tiso. Paulo Betti disse que:... Não dá para fazer política sem botar a mão na merda e Wagner Tiso afirmou:...Não estou preocupado com a ética do PT ou com qualquer tipo de ética. Para mim, isso não interessa. Eu acho que o PT fez um jogo que tem que fazer para governar o país, entendeu?
As infelizes opiniões surgiram após a reunião dos artistas vinculados a campanha para reeleição do Lula na casa do ministro Gilberto Gil.No calor dos abraços e na excitação produzida pela proximidade com o candidato/presidente, as declarações me pareceram resultantes de um êxtase de fidelidade.Na mesma semana o presidente Lula declarou:...Meus adversários podem fazer quantas denuncias quiserem.Eu não moverei uma palha, porque sei que vocês moverão o paiol inteiro contra eles.
Essas três frases abalaram meus sentidos produzindo um efeito desolador.De inicio tentei minimiza-lo, atribuindo aos fatos uma conotação circunstancial.Afinal, em período eleitoral somos obrigados a ouvir muitas besteiras.Para escapar da inércia conjeturei alternativas.Porém, a sensação de ter sido atingido e ameaçado pela violência verbal das declarações não se dissipou.Até agora não vejo justificativas para agressão. Afinal,as pesquisas apontam o candidato Lula como favorito.
Nos jornais e revistas os malfadados eventos foram tratados pelo aspecto objetivo, quer dizer, pelo lado das finanças.Para a grande imprensa as citadas atitudes levantaram suspeitas sobre o compromisso, para além do político, de alguns artistas.Comentaristas ligaram as histriônicas declarações aos generosos patrocínios do governo ou das empresas públicas para os espetáculos teatrais, musicais e cinematográficos daqueles que, apoiando explicitamente o governo, exteriorizam suas opiniões de forma simplista e irresponsável sobre complexos problemas sociais, a fim de defender o governo a qualquer custo.Em conversas com artistas e intelectuais que nas eleições passadas votaram no Lula mas que hoje se opõem ao governo e combatem a sua reeleição, a aliciação é indecente,contudo, mais preocupante é o afundamento dos artistas numa espécie de fé cega.
As três declarações dispararam controvérsias e não acrescentaram inteligência ao debate político.Só atiçaram a revolta e a proliferação de xingamentos.Há algum tempo atrás o ministro Gil tornou-se alvo de ofensas quando declarou a um jornal do Rio que: a corrupção não é uma invenção petista.Gil tratou com naturalidade os episódios de suposta corrupção envolvendo grandes nomes do governo,colocando como salvaguarda o fato de o PT não a ter inventado.O comentário de Gil gerou a repulsa de vários artistas e intelectuais.As reações hostis a sua desastrada declaração parecem não ter surtido efeito no meio artístico simpático ao governo.As declarações de Betti e Tiso refletem teimosia e arrogância,tornam a arena política mais tensa e o debate mais burro,se é que isso é possível.Além disso essas manifestações endossam os argumentos conservadores que consideram a vida pública brasileira e a política nacional como um todo, instancias indissociáveis de um real perverso e corrupto ao qual estamos condenados a viver eternamente.Apesar desses argumentos contradizerem radicalmente os slogans da campanha anterior que anunciava, entre outras coisas, mudanças e combate frontal e diuturno a impunidade a corrupção e a injustiça.Bem, se levarmos em consideração que muitos artistas criam verdades usando mentiras ao contrario dos políticos que falam mentiras usando verdades, quem sabe Paulo Betti esteja nos propondo uma paródia para o atual momento político nacional com referencias especificas na realidade/verdade mostrada por Pasolini em seu filme a Republica de Saló?Pra quem não sabe e para os de rala memória, o polemico filme ambientava-se na mais radical experiência social do regime fascista, implantada no norte da Itália em 1943 e extinta em 1945. Pasolini focou as varias formas de degradação humana-escatológica inclusive-a que foram submetidos os cidadãos/vitimas de um vilarejo.Após o veredicto de Betti surge a pergunta: como você ataca a corrupção?Combatendo-a, ou espalhando seu fedor pra todos os lados?
Já a despreocupação e o desinteresse de Tiso por qualquer tipo de ética pode ser entendido como metáfora esclarecedora para as contradições que ainda torturam os cidadãos que conduzem suas vidas de forma ética.Ora, se a pouco tempo o presidente Lula desafiava qualquer cidadão brasileiro a provar que era mais ético que ele, qual será então o significado da frase do musico petista?Muitos entenderam que ao dizer o que disse Wagner Tiso revelou conhecer ou pelo menos admitir, que membros do PT participaram de um jogo que tem que fazer para governar o país e que praticas espúrias(não éticas) na gestão pública não é motivo para preocupar nenhum brasileiro.Menos ainda seu candidato a presidente da republica que,aliás, sabe com quem contar quando precisar... mover o paiol inteiro contra eles(eles quem?).
ilustração
cuecas,dólares,congresso,mão na merda e Dança da Morte na Republica de Saló

quarta-feira, agosto 23, 2006

O Martírio da Modernidade 2




... Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique e
ninguém que não entenda...
Cecília Meireles

Romanceiro da Inconfidência

2ªParte Arte e Cultura Liberdade e Clausura
.....................................Realidade e Simulação

As sucessivas mudanças, oriundas do processo ininterrupto de construção e desconstrução de conceitos que se encontram no núcleo da comunicação na era dos meios eletrônicos, expandiram consideravelmente o conhecimento. No entanto, ainda nos perguntamos como esses vetores estão contribuindo para as liberdades individuais. As anunciadas quebras de padrões nas artes e no comportamento trouxeram maior autonomia para os artistas? Muitos acham que sim, outros acreditam que apenas presenciamos, de forma passiva, o poder econômico atuando de forma mais sutil. Os fatos do dia a dia, a crescente violência cotidiana e o crescimento de ações hostis à liberdade individual e o fim da mais elementar noção citadina de segurança, não combinam com a idéia de que vivemos no melhor dos mundos possíveis e, avançamos. Nesse mundo plural, supostamente livre e tolerante onde todo mundo pode fazer o que bem entender sem precisar se preocupar muito com as conseqüências.É nesse ambiente que proliferam os pactos do vale tudo dominante.

Um mundo em que é permitido um indivíduo comer cadáver de bebe natimorto, degustando vinho num cálice contendo pênis humano amputado, enquanto assiste a uma autopsia e dizer que é arte. Esse conjunto macabro não é parte de um conto. Não pense o leitor que os personagens e as ocorrências brotaram da mente de um escritor e habitam o imaginário onde tudo é possível acontecer sem que se cometam diversas violações. Nada disso! Zhu Yu, artista chinês (não foi o único, juntei seu ato ao do degustador de penis vinhático, um artista inglês que felizmente não guardei o nome) apareceu em dezembro de 2002 num programa da televisão britânica, comendo pedaços do cadáver de um bebe natimorto. Na ocasião ele afirmou que sua intenção era explorar o espaço entre a moralidade e a lei. Segundo ele: ‘Nenhuma religião proíbe o canibalismo. Também não encontrei nenhuma lei que nos proíbe de comer gente. ”
Seu discurso me pareceu uma tentativa de ajustar a seu conceito pessoal a virtude da liberdade criativa. É importante que tenhamos em mente que esse item é menos importante. O que interessa avaliar são as intenções de tangenciar paradigmas libertários pressionando os interstícios da ética, da estética e da moral de uma sociedade onde tudo é permitido em arte e, assim legitimar-se como um artista a frente de seu tempo. A declaração de Yu sobre religião e leis teve o efeito cênico de uma cortina de fumaça que torna difuso o gesto do ator ao puxar para si a visibilidade e a audiência nos meios de comunicação de massa, difusão e impacto no ambiente artístico e no mercado de arte. Blefe? Verdade? Segundo alguns ele teria comido carne de porco ao invés de carne de bebe. Pouco importa! O que questiono é o significado da atitude. Seria ela apenas uma simulação e como tal mais um produto artístico espetacular?

Os movimentos artísticos dos anos sessenta propunham uma dimensão concreta para inserção de suas obras no real, confrontando as regras formais de representação. Hoje, a interação entre as manifestações artísticas e o real se dá de forma diferenciada, maior parte das vezes, apenas chocantes. As simulações propostas por artistas desse naipe são percebidas por alguns como uma critica a hipocrisia e não deleite estético do autor. Por quê? Aporrinha-me a persistência do culto romântico aos artistas idealizados num plano sublime. É uma mentira deslavada. Assim como tem público-leia-se: seres ansiosos por perversidades- tem artistas dispostos a saciar as suas próprias e a dos outros. Essas pequenas réplicas medíocres do Marques de Sade não pretendem nada mais que chocar. Se pretendessem fazer uma critica social profunda teriam antes que fazer uma critica a si próprios. Isso é o mínimo que se espera que um artista culto, supostamente avançado. Se não o fez é apenas um idiota que cultua as atitudes mais escandalosas de um aristocrata do século XVIII. Ah! Quer saber?Não vale a pena ir adiante.

Outra questão recorrente, porém, mais grave, e que paira sobre as cabeças pensantes é o caráter nacional da arte. Sobre esse assunto Adam Weinberg, diretor do Whitney Museu de Nova York deu uma explicação sui generis para a conexão internacional da Bienal Americana de 2006: “Quanto mais eu olho, menos eu sei o que é arte americana.” Frase típica de um piadista erudito!
Se não fosse uma piada Adam Weinberg teria muito trabalho para explicar porquê existem barreiras solidas que dificultam a projeção dos artistas latino-americanos nas instituições culturais norte americanas. Para mim ela é só mais uma declaração descartável bem ao paladar do momento. Os curadores da Bienal do Whitney falam também da confusão que se estabeleceu entre ficção e realidade, dizendo que isso é expressão do atual momento. A ambigüidade vivida pelos artistas atuais é resultado das incertezas geradas por uma zona de crepúsculo, onde tudo está sendo posto em dúvida. Pronto!Tudo explicado! Chrissie Iles, uma das responsáveis pela curadoria do big show, atravessa a fronteira entre o político e o estético como se tivesse atravessando a 5ª Avenue. Segundo ela, o clima apocalíptico da mega exposição é fruto da raiva contra a guerra do Iraque. Oh!Deus! Até um sargento trapalhão sabe que numa zona crepuscular os passos devem ser muito cuidadosos. Ela fala como se estivesse tomando um drink ao meio dia num verão escaldante. A confusão generalizada entre ficção e realidade é um sintoma mais complicado do que a raivinha contra a guerra do Iraque. Os rituais artísticos desse evento, por mais confusos que possam parecer, aludem aos riscos encravados nas intenções camufladas pela cruzada entre as forças do bem contra as do mal, de conseqüências imprevisíveis para integridade territorial dos países e uma absurda imposição para as democracias do Ocidente. Mas, como na arte tudo parece festa,a guerra do Iraque pode virar uma rave. Num dos eventos paralelos, intitulado Down by Law (Fora da lei) faz-se uma simpática referencia aos heróis darks do sonho americano. Uma seção da mostra põe lado a lado Saddam Hussein, Unabomber e George Bush. Numa sala cartazes e fotos de foragidos estão expostos próximo a um mapa das leis de sodomia nos Estados Unidos. Outra sala exibe um vídeo com uma longa entrevista de um paquistanês preso logo depois do 11 de Setembro. Um dos organizadores da mostra disse:- “Não tomamos posição. Apenas exibimos a luta dos Estados Unidos entre a ordem e a desordem”.
A liberdade é caótica. (sic). Fugi desse núcleo da mostra com a impressão de ter participado de uma conclamação à luta. Uma luta em que o inimigo era o espectador atento e critico às manipulações políticas ali exibidas.
Pra finalizar esse relato macabro serei um pouco otimista, Todos parecem concordar que atravessamos uma zona crepuscular. Esse é um momento do dia em que a luz incide sobre as coisas produzindo estranhas variações. Através de um foco difuso é licito vislumbrar que as bienais e os megas eventos internacionais não são mais importantes para as artes e para os artistas. Hoje, esses eventos nos despertam a sensação de esgotamento dos princípios estéticos porque estão norteados por mensagens criptografadas enviadas para além da arte. Essa intenção também enfia o publico na confusão entre realidade e ficção. Os mais saudáveis saem do museu certos de que a insanidade mental ha muito deixou de ser um sintoma limitado aos hospícios. Exposições como essa tornam visível a dramática situação dos artistas atuais diante da imprevisibilidade em relação ao futuro. Nos seus aspectos mais objetivos a historia nos ensina que advertir sobre a premência por pactos de convivência planetária confiável é sinal de sanidade. Onde encontrá-los, é a questão. Essa Bienal Americana, pretendendo oferecer meios para reflexão, criou paralelos falsos entre o Whitney, o Pentágono e Cabul .

Em tempos críticos assim, a arte em qualquer forma que se apresente, seria a mais cáustica manifestação dos anseios humanos. Porém, isso não parece suficiente para os curadores. Eles necessitam de uma mensagem que agregue todos em torno de um tema maior. Quem hoje ousaria se opor à liberdade criativa dos curadores sem correr o risco de ampliar a celeuma entre avançados e reacionários?É crível para alguém que a contestação estética a invasão do Iraque é uma garantia para a sobrevivência das democracias do Ocidente? Há os que apostam que a destruição e a morte que paira sobre tempos incertos, percebidos como apocalípticos, são oportunidades para mudanças. Há outros que consideram nosso tempo um sinal severo sobre a ineficácia dos esforços para obtenção da paz. O que significa dizer que muitos não a desejam de fato.
Agora, distante do campo de combate travado no Whitney penso, que para os agentes culturais, o que importa de fato é um grande causa. Pouco importa o quanto custe para a arte e para o público.


Entre a Cultura e o Mercado



A insuficiência da estrutura de museus e galerias, por mais avançadas que sejam, é hoje em dia flagrante e trai em muitos casos, o sentido profundo, a intenção renovadora do artista, (Hélio Oiticica) com o triunfo do mercado de arte, esta insuficiência que nos fala Oiticica passou do estrutural, do físico para o cultural. Os espaços destinados ao trânsito dos objetos de arte são sinalizados por outros códigos que até desprezam a arte como um fazer mental. O mundo dos patrocinadores, do público das vernissagens é dominado pelo olhar do turista que viaja em busca de estereótipos, para uma rápida relação de divertimento, de algo que agrade e alimente um status. Um ambiente de amenidades, de rara descontração, solene, afasta o público que poderia ter uma compreensão mais natural dos processos simbólicos. O espaço social / cultural é restrito, contornado pelo mundano. No que tange a circulação e divulgação, a arte acabou sendo condenada às regras e aos mecanismos do mercado, com seus espaços seletivos, cujos critérios se limitam aos da sociedade de consumo. Muitas vezes vai-se a uma exposição por um compromisso extra cultural, uma obrigação social. E do ponto de vista do mercado a obra é apenas uma opção de investimento.
A arte trabalha o inconcebível a experiência sensorial recalcada nas operações mercadológicas. Esta extravagância de transformar um produto destinado ao pensar em fetiche cultural de um público privilegiado economicamente, (sua condição de mercadoria levada ao extremo), faz da arte por uns momentos, um produto descartável, fora do valor de troca. É o mercado que financia a publicidade do trabalho, paga a crítica e sustenta o artista numa sociedade dominada pelo capital, neste caso não podemos negar sua importância. O ambiente do mercado de arte, pouco fascinante para quem busca o essencial da cultura, afasta o pequeno público mais ligado ao saber, sem dispor de poder aquisitivo indispensável para o consumo de obras de arte. Mas nada impede a quem dispõe de um mínimo de capital intelectual de ver uma exposição, a entrada é franca, e com sentimento de “penetra” é possível se apropriar através do olhar de um bem ou meio de conhecimento, a princípio endereçado ao outro.
Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto)

quarta-feira, agosto 16, 2006

Um Réquiem para Newton Cavalcanti

O artista plástico Newton Cavalcanti morreu sábado 12 de agosto em Santa Tereza, bairro onde morava. Segundo noticiou a imprensa ele foi aluno de Goeldi e um dos mais importantes gravadores brasileiros, credenciais que não impediram que a morte, ainda segundo a matéria- o encontrasse em “relativa obscuridade”. Essa consideração me despertou maior atenção.

O que é relativa obscuridade?

Uma obscuridade social sujeita a lampejos esporádicos de visibilidade?

Vai entender!

A síntese objetiva e aparentemente cruel dessa nota deu pouca relevância à trajetória do artista me levando a ponderar sobre a grandeza com que as alegorias vencedoras ocupam o imaginário contemporâneo. Se a pretensão do articulista era provocar a tristeza do leitor em relação a um personagem “esquecido”, comigo falhou. Não me despertou “piedade” em relação ao artista, ao contrario, me confirmou a vitoria de uma vida dedicada à arte, apesar dos tropeços e dificuldades inerentes a função. Tive dó da sociedade! É ela a grande perdedora. Perde dia a dia a reverência à existência humana e a criação artística.
Todos os dias somos levados a encarar noticias de episódios sensacionais envolvendo centenas de mortes, volumosas corrupções e impunidade generalizada lado a lado com matérias sobre os sedutores sinais de riqueza e prosperidade de um personagem high das artes, em destaque na mídia. Algumas pessoas me telefonaram se manifestando sentidas pela forma com que as duras palavras lhes tocaram. Confesso que não me surpreendi. Para mim o deslumbramento pelo glamour “fashion” que seduz os freqüentadores do ambiente artístico contribuíram para criar dois tipos de caricaturas artísticas: as “celebridades e os “relativamente obscuros”. Também pudera, para um mundo desprovido de critérios, fama e fortuna valem mais que talento, dedicação e mestria.
Newton nasceu em 1930 na cidade de Bom Conselho em Pernambuco. De origem humilde e dono de grande talento não permaneceu por muito tempo em sua cidade natal.

A obra de Newton Cavalcanti se insere entre as mais importantes da gravura contemporânea. O artista era senhor de um repertorio único na arte moderna brasileira. Sua representação do mundo foi motivada pela inquietude frente aos mistérios da vida e construída nos moldes de uma epopéia sobre os medos do homem. É um alerta contra as farsas insípidas e banais, desprovidas de conteúdo e incapazes de mobilizar nossa consciência sobre o lado obscuro das coisas.

As obras que compõem seu Réquiem se erguem eloqüentes sobre corpos aparentemente inertes numa espécie de transgressão ao silencio imposto aos mortos. Sua arte totaliza visualmente o horror infringido pelos vivos e discorre sobre a vida dando voz aos mortos. Segundo palavras de Flavio de Aquino seu “diabólico pedaço do inferno, com seus gênios do mal, seus diabos e até com a Morte Rubra surgindo em meio aos cadáveres e fantasmas”, o destacou - ismos à parte - entre os artistas de sua geração.

Newton estudou com Raimundo Cela e Goeldi na Escola de Belas Artes da Universidade Federal. Durante muitos anos se dedicou a gravura em preto e branco. A partir de 1969 intensificou sua inclinação para o desenho e a pintura. O artista teve um diversificado desempenho artístico, expôs em Barcelona, Londres, Estocolmo e Tóquio, na Bienal de Paris, no Chile e na Itália. Com o prêmio de viagem ao exterior, obtido no Salão Nacional de1972, foi para Inglaterra onde morou por dois anos. Em Portugal executou inúmeros desenhos, gravuras e selos. Num ritmo que tudo envolvia participou em filmes de Paulo Cezar Sarraceni, Rogério Scanzela, Mario Carneiro e Vítor Lustosa e criou cartazes para alguns filmes de Glauber Rocha. Seu talento se espalha por incontáveis coleções particulares e públicas no Brasil e no exterior. Esse gravador, desenhista, pintor e professor, alheio ao modismo e distante dos artifícios do circuito de arte, se dedicou, de corpo e alma, aos desafios a que se propôs. Graças a sua eloqüência e imbatível dedicação ao trabalho, podemos fruir um imaginário esplendoroso que só poderia ser transposto para o real pelo poder do talento e do seu amor à arte.

Adriano de Aquino
agosto de 2006

quinta-feira, agosto 10, 2006

O Martírio da Modernidade

1ªparte>Politica e Economia

No seu livro Uma Breve Historia do Homem o professor inglês Michael Cook afirma que a modernidade é uma questão de cultura e que uma vez surgida em um lugar; pode ser imitada em outros.
Através desse prisma as coisas parecem simples.
Para os artistas e intelectuais ligados ao modernismo artístico europeu do século XIX e XX esse era um paradigma cristalino quando preconizavam a expansão dos diálogos artísticos para além das fronteiras nacionais.Essa atitude não lhes obliterou a consciência de que a consolidação dos postulados do novo regime estético se daria às custas de longos embates contra os segmentos culturais conservadores,para quem qualquer mudança representava enorme ameaça.
Porém, apesar das reações contrarias, a extensão planetária dos movimentos modernos em arte, não obstante os descompassos cronológicos ocorridos entre os paises, confirmam o êxito mundial do modernismo.Contudo, no plano social, a modernidade engendrou complexos problemas sociais induzindo as instituições a se reestruturarem para fazer frente a uma nova dinâmica produtiva e a inéditas formas de trabalho.Nesse contexto produziu-se graves contradições.
Admitindo-se que o surgimento dos tempos modernos lá onde se deu -na Inglaterra dos idos de 1760, inicio da Revolução Industrial (historiadores contemporâneos acolhem a idéia de que o berço da Revolução Industrial foi a Holanda) não só difundiu novas técnicas e ferramentas como redefiniu prioridades -concedendo grande destaque aos avanços tecnológicos e redimensionando a escala de produção –alterando significativamente a redistribuição das riquezas pela sociedade local.Nesse sentido a Revolução Industrial e seus efeitos modernizantes, absorveram e consolidaram, lenta e gradualmente, as posições das novas categorias de trabalhadores envolvidos na nova engrenagem produtiva.
Se houve percalços eles foram impotentes para deter a marcha e impedir a magnitude do processo modernizador.Conduzida de maneira voluntária pelos empreendedores ingleses, independentemente da impertinência dos nobres e das agruras e incertezas geradas pela Speenhamland Law que levou a sociedade inglesa do final do século XVIII a se debater entre duas influencias opostas: a que emanava do paternalismo e que protegia a mão de obra dos perigos de um sistema de mercado, e a que organizava os sistemas de produção, inclusive a terra, sob um sistema de mercado, afastando a gente comum se seu status anterior, compelindo-a a ganhar a vida oferecendo seu trabalho à venda, enquanto ao mesmo tempo privava esse trabalho do seu valor de mercado, segundo as palavras de Karl Polanyi. Ainda segundo ele esses vacilos ocorreram durante o mais ativo período da Revolução Industrial, portanto entre 1795 e 1834, e dificultaram enormemente a criação de um mercado de trabalho.Mesmo tendo sido o mercado de trabalho o ultimo dos mercados a ser organizado a modernização dos meios de produção foi se agigantando superando aspectos inumanos, transpondo as fronteiras e proporcionando melhor distribuição da riqueza, que por volta de 1850 já se podia perceber pela elevação real de rendimentos e no maior investimento do Estado no bem estar dos cidadãos. Cook entende como um sinal do sucesso da modernidade a transposição do processo modernizador para além dos territórios nacionais.Para melhor explicar ele dividiu essa expansão em três grupos principais...O primeiro aconteceu nos territórios ultramarinos britânicos. O segundo grupo é dos europeus continentais e o terceiro grupo é o dos asiáticos orientais ou em alguns daqueles paises... Ele diz ainda que:... os países latinos americanos que a adotarem se sairão melhores que no passado.Essa chicotada sobre o lombo surrado dos povos desse martirizado continente demonstra o desprezo que boa parte dos doutos europeus devotam ao esforço dos paises latinos no empreendimento de modernização dos seus sistemas produtivos e das instituições sociais.
Por que?
Na tentativa de responder essa questão é possível que eu cometa inúmeras incorreções ou despreze alguns aspectos relevantes.Por isso antecipo minhas desculpas ao leitor que seguir adiante.
A chamada América Latina engloba trinta e três paises com passado de submissão colonial, na sua grande maioria escravocrata e que ainda permanece uma região marcada pela impunidade a exploração social e uma enorme desigualdade. Boa parte desses povos ainda sofrem mazelas inconcebíveis numa sociedade moderna.
Para Cook nós latinos não estamos sozinhos nesse buraco, mais abaixo, no fundo do abismo dos tempos encontra-se a África subsaariana, com exceção da África do Sul, mas não de Angola, que,segundo ele, são regiões onde não se ouve falar da modernidade com otimismo, caso similar também aparece no mundo islâmico.Restringirei minhas considerações ao panorama que ele destinou os países latinos americanos. Nesse contexto, a visão internacional é de certa forma coincidente.Para a maioria dos habitantes dos paises desenvolvidos os países sul americanos são recantos bucolicos que sofrem as conseqüências de uma absurda passividade administrativa e precaria racionalidade.
Eu, ao contrario, entendo que a elite brasileira não sofre de passividade,assim como o povo simples é trabalhador.
Então ,onde reside o problema?
Se a elite local não é passiva e muito menos ignorante como explicar tantos obstáculos para a implantação da modernidade. Concordo que as elites foram e continuam sendo as principais responsáveis pelos descompassos ao nosso desenvolvimento.Contudo,ela não é a única culpada.Por isso torna-se necessário uma avaliação mais detalhada.
Sem querer contrariar a tese do professor Cook, penso que a mundialmente famosa facilidade de nossa deslumbrada elite em espelhar-se na soberba e no orgulho das altas rodas internacionais e copiar modelos externos fracassou de forma espetacular ao negar estender, com o mesmo entusiasmo, a imitação dos benefícios da modernidade pelos vários setores sociais.Embalada por desmesurada ambição privou e continua privando os pobres de recursos essenciais a subsistência, guardando para si, de forma primaria e arriscada, o poder e as riquezas da nação.Se tal desventura não é sinal de ignorancia pode ser entendida como uma atitude de complascente irresponsabilidade e uma forma de condução que ruma em direção à tragédia.Uma caricatura grotesca disso são as cidades grandes brasileiras onde convivem, lado a lado, palácios nababescos e casebres insalubres.
Dizem alguns que essa atitude das nossas elites são resultantes da vassalagem que de bom grado praticavam nos contatos com o colonizador.Por algum misterioso motivo tal sintoma permaneceu mesmo depois que outros regimes o sucederam.Discordo dessa opinião.Tenho duvidas sobre essa logomarca de fazendeiro pachorrento, preguiçoso e ignorante,tipica dos filmes produzidos por cineastas cosmopolitas sobre personagens da região.
O problema é mais profundo que a rudeza de modos,a aparencia boçal e o linguajar chulo de um capataz.Entre nós se disseminou uma cultura extrativista, hoje facilmente identificavel no oportunismo desmesurado que se derrama por todos os setores da sociedade.O modelo do gestor latino é um protótipo comum a quase todos os paises da região e pode ser achado em qualquer categoria social.Um sindicalista ou um coronel de estância, rico ou pobre, tornam-se semelhantes não só nos trajes janotas com que se apresentam,mas,sobretudo na atitude arrogante e na postura paternalista que espelham quando assumem um poder.Introjetam automaticamente uma postura similar sem a qual não seriam reconhecidos, admirados e temidos pelos companheiros e rivais políticos.
Talvez por isso as repetidas tentativas de mudanças de rumo da nossa sociedade resultaram em rompantes sincopados, de abrangência social restrita e altamente custosa. A parte raros e elogiáveis personagens a vida publica brasileira é coalhada de figuras horripilantes.Acredito que a empatia que temos pela representação dantesca é oriunda de uma visão difusa, imprecisa e episódica que encobre uma fatal atração pelo desastre.
Aqui cabe um exemplo recente pois ele revela o confinamento da sociedade brasileira ao brejo da irracionalidade.Dos inúmeros impactos econômicos e sociais ocorridos nos últimos cinqüenta anos destaca-se o ocorrido no setor das comunicações.Esse setor agregou aos parcos meios locais um abundante instrumental tecnológico de ultima geração, permitindo que as comunicações eletrônicas cobrissem rapidamente um vasto território e atingissem uma enorme população,fazendo prosperar empresas milionárias sem, contudo, reduzir significativamente as desigualdades sociais e o analfabetismo.Para um observador atento e racional tal contradição é manifestação de um delírio esquizóide, entretanto, vista sobre o foco nacional essa discrepância é facilmente entendível e pior, aceitável.
Os marcos da modernidade social e econômica, emblemas da vitória da racionalidade dominante no século XIX e XX, aqui se tornaram só mais uma forma de martírio.Sabemos o quanto é difícil para um país atrasado se opor ao sistema global, contesta-lo e ainda assim progredir.
A recente fartura de recursos disponíveis no mundo desenvolvido vem produzindo curiosos fenômenos.Visando expandir a rede de distribuição de seus produtos, serviços e capitais os paises de sólida economia construíram pontes com os paises de farta e crescente população.Novos teóricos, sobretudo do setor econômico defendem teses que aparentam oportunas e promissoras para os paises que ficaram para traz, esmagados por grandes problemas sócios econômicos, que arrastam volumosas dividas, secular desrespeito pela coisa publica e inaptidão para empreendimentos privados. Uma dessas teses que obteve grande divulgação propõe saltos de etapas.A Coréia é um excelente exemplo de êxito da tese.
O salto de etapas me lembra as modernas pedagogias no trato dos alunos retardatários.Contudo, para o êxito do programa é vital que o retardatário invista sobretudo no desenvolvimento educacional e cultural.No Brasil educação é retórica eleitoral e cultura é assunto pra mídia.Além do mais,como no mundo atual as coisas andam muito mais rápido, é bom saber se os economistas pós-modernos já divulgaram teoria mais recente que devera ser experimentada nos paises periféricos.Quer dizer, todos que não integram o G7.
Novos critérios de avaliação econômica contam hoje com a anuência de importantes agencias internacionais, coisa inadmissível até poucas décadas atrás.Isso é bom mas não é tudo pois um diagnostico pode conscientizar o doente porém não tem o poder de cura de um medicamento adequado.Alguns teóricos da economia moderna e doutores em engenharia financeira crêem que os paises subdesenvolvidos podem saltar etapas e integrar-se mais rapidamente ao fluxo tecnológico e econômico global se adotarem as políticas publicas adequadas.Para eles o país em desenvolvimento que reformar suas instituições publicas direcionando-as para o mercado, atrairão capital e grandes empresas internacionais dispostas a participar de empreendimentos capazes de alavancar o desenvolvimento a partir do domínio dos saberes e das técnicas contemporâneas. A isso se impõe a abertura do Estado a participação das empresas privadas nos setores infra-estruturais, na exploração de matéria prima, produção e distribuição de energia e outros insumos, bem como no sistema de transportes urbanos, nos portos, aeroportos e nas bases e suportes de mercado exterior etc. Os adeptos da globalização acreditam que essas reformas viabilizam novos pactos.É bom lembrar que os governos brasileiros já vêm operando assim desde 1992, contudo, o crescimento brasileiro vem de revelando medíocre de ano para ano.Os vencedoresconsideram isso um detalhe irrelevante.Segundo eles isso ocorre mesmo em paises de sólida estrutura econômica onde os lucros astronômicos do sistema financeiro alcançaram a estratosfera com indicadores jamais alcançados em modelos antecedentes.Por isso eles identificam nosso tempo como uma era de prosperidade.Os altos índices de desemprego e a recessão industrial são entendidos como questões menores que podem ser amenizadas através de um programa assistencialista de governo.Coisa que no Brasil vem sendo feito há muito tempo e que atingiu absoluta mestria no atual governo.
Bem!Se tudo até agora descrito sugere um plano perfeito justifica-se nossa insônia, insegurança e preocupações.
Não só os brasileiros, mas todo o país latino americano conta com quase duzentos anos de independência política, entretanto, continuam sofrendo a opressão cabotina de seus dirigentes.Só podemos lamentar nossa impotência diante da vigência de uma cultura política paternalista, populista e demagógica que atravessa os tempos.Esses métodos devastadores marcam profundamente nosso caráter.É surpreendente e motivo de inexplicável orgulho que tenhamos chegado até aqui com relativa integridade territorial e poucas guerras.Nossas histórias são no mínimo intrigantes, mesmo diante do poder destrutivo das elites e da classe política da região, responsáveis pelas mazelas que sofrem as nações desse pobre continente.Uma danada tradição faz com que os críticos de nosso atraso se encham de razão quando afirmam que só poderemos obter êxito quando tivermos modernizado nossas sociedades, extinguido nocivos e antiquadas manobras eleitoreiras, enfrentado corajosamente os problemas sociais dando um fim ao paternalismo, as políticas clientelistas, a impunidade e aos favoritismos e nos graduado em autonomia econômica. Bem, se depender de todos esses fatores as coisas começam a descer ladeira em velocidade vertiginosa.
Não possuo conhecimento academico sobre economia.Só conheço Havard por fotografia , porém , me sinto pleno de pureza angelical para tecer comentarios sobre o assunto.Além do mais a finança sucedeu a magia e a religião se constituindo o novo Deus que rege o mundo contemporaneo.
Sobre Deus todos temos ignorancia similar.
O extraordinário poder da economia moderna despertou uma nova categoria de hereges com os quais me identifico.E,é bom lembrar que os economistas brasileiros conhecem muito pouco sobre a sua propria matéria. David Landes narra uma historia interessante envolvendo um economista latino.Ele relata uma conversa que teve sobre o ...insuportavel fardo da divida externa antiga e da vexatória e mesquinha insistencia estrangeira quanto ao reembolso.Ele sugeriu ao interlocutor que o seu país não pagasse o debito sublinhando: ...uma nação soberana pode sempre recorrer ao não reconhecimento da divida ...diante do que o economista retrucou ...mas a quem então iremos acudir para mais empréstimos? Para ele a questão essencial dos altos débitos dos governos latino americano está no cerne da cultura da maioria dos paises que querem permanecer tomando emprestimos, nem que seja para pagar os juros dos emprestimos mais antigos.Essa doida mentalidade ainda perdura na mente do politico local, mesmo diante das restrições impostas pelo rigor do importado recurso da responsabilidade fiscal.
(continua na próxima semana)
Imagem
O Caipira Picando Fumo de Almeida Júnior (1850-1899) na frente de uma pintura de Mondrian( 1872–1944)