quarta-feira, agosto 18, 2010

O Bem e a Verdade



-O bem ou o mau, assim como a verdade ou a mentira são, no entendimento de quem está no comando da ação prática e sob os efeitos do relativismo cultural apenas - o Bem e a Verdade. A adoção geral e irrestrita dessa mentalidade é tão confortável quanto os assentos da primeira classe deste avião de carreira. Aliás, se perguntarmos para os passageiros que só viajam na primeira classe, certamente as opiniões serão relativas. Alguns dirão que o conforto oferecido merece melhorias. Falarão que as aeronaves precisam ser aprimoradas tornando as viagens internacionais menos sofridas e desgastantes e que os vinhos e o serviço de bordo precisam melhorar, assim como os toaletes devem ser maiores e mais iluminados. Outros dirão que se sentem privilegiados por viajarem em condições similares a dos anjos. Para mim, essa poltrona da classe turística é terrivelmente desconfortável, o avião uma merda e a tripulação parece aflita e despreparada para atender tantas solicitações.

-Por favor, Frederico! O que está havendo? Por que está reclamando tanto do avião desde que partimos? Foi você que quis embarcar nas condições que te ofereceram.

-Não tinha outra alternativa, Salomé. A minha palestra é amanhã à noite. Ontem, quando telefonei para agencia, fui informado que a classe executiva estava lotada. O que eu podia fazer? Essa universidade só paga passagens na classe turística para os palestrantes. Devem pensar que um palestrante é alguma espécie de turista. Intelectual não é turista nem quando viaja a passeio para um país exótico. Ele chega ao povoado sabendo mais da vida e da cultura nativa que os próprios habitantes.

-Querido, à parte o seu mau humor eu adorei a estocada no relativismo. Já deu pra perceber que esse seminário vai pegar fogo. Li anteontem que Carlos Sacii, o mais destacado pilar do relativismo cultural, vai fazer uma palestra fartamente ilustrada sobre as correntes estéticas contemporâneas.

- Eu sei! Li trechos do paper dele. Embora Sacii não seja um relativista autentico, está mais para um oportunista inescrupuloso, é um esgrimista ligeiro e talentoso com as palavras. Sua língua é diariamente lubrificada com manteiga de cacau, escorregadia e pronta pra convencer gregos e troianos a comprar armas na Pérsia. Além disso, para confirmar sua incerteza no relativismo cultural,Sacii aposta na loteria mais do que investe em arte e cultura. Já ganhou fortunas no jogo e vive reclamando da loucura de preços que sacode o mercado de arte, apesar de apenas vender,jamais comprar.Sua rápida ascendência na carreira acadêmica é só um detalhe. Alías, um detalhe rebuscado, já que foi projetada pelas mais ambiciosas mentes do marketing cultural e apoiada por muitos partidários de aluguel. Numa mesma frase Sacii é capaz, sem pausa para o diafragma se recuperar, de submeter tanto a reitoria como comprometer o governo e subjugar os professores e funcionários, se os lucros forem promissores.

-Bem!Nisso ele não é muito diferente de vários colegas. Fred deixa isso pra lá, ainda falta muito para chegarmos. Fale-me mais sobre sua abordagem critica ao relativismo cultural. Vou ficar atenta, juro que não vou cochilar.

- Ora!Salomé, por que não lê o trabalho?

-Porque eu prefiro quando você fala, desdobrando o rigor do texto corrido e inundando a paisagem mental do ouvinte com expressões divertidas.

-Ih!Dando uma de Sacii?

-Nada disso!Você sabe que não é isso.

-Há quanto tempo venho te dizendo que a expansão do relativismo cultural é conseqüência de um largo espectro de idéias que ambicionam controle, poder e...lucro,altos lucros. Abordá-lo e desbravá-lo, na sua totalidade, exige do investigador um esforço hercúleo.

-Humm!Humm!Há muito tempo você toca nesse tema.

-À medida que pego uma ponta do sistema, outra surge envelopada dentro dela. Lembra-me uma historia de ficção científica onde um robô auto-programável reconstrói-se indefinidamente. A auto programação robótica é o sonho dos escravos da tecnologia! Ela encerrará, antes mesmo do que se imagina e aqui mesmo na Terra e ainda no século XXI, o frenesi humano de uma guerra futurista e intergaláctica do homem versus máquina.

-Meu Deus! Espero que esse avião não tenha esse recurso tecnológico adaptado nos seus vários computadores de bordo. Brincou Salomé.








-Os procedimentos relativistas estão preparando as mentes para o paraíso robotizado, onde os homens serão escravos da técnica em troca de um conforto pré - programado pelas maquinas humanizadas. Se você me perguntar se existe uma estratégia nesse processo eu, de imediato, responderia que sim. Porém, temo que ao afirmar tal suposição meu pensamento tangencie equívocos sucessivos e danosos. Pra me prevenir, escapo por outra saída. Penso sobre o “boom” das atitudes politicamente corretas, o sumiço da critica apurada, o desprezo por critérios bem fundamentados,a desvalorização do trabalho humano bem realizado e o pouco caso com a especulação intelectual sobre a vida e o homem.Curiosamente, esses acontecimentos surgiram simultaneamente, na fronteira dos anos 80/90. O que essa conjunção de fatores pode nos dizer? É isso que me anima a investigar as razões que tornaram possível a predominância do tecnicismo, do pragmatismo e do imediatismo no pensamento contemporâneo. O fato é que, ainda que não se delineie como um método visível, tais procedimentos se incrustaram de tal forma na mentalidade atual que tentar abordar o problema já dá uma trabalheira danada. Quem hoje ousaria contestar que a ética e o conhecimento tornaram-se valores tão estranhos a ponto de se antagonizarem?

-É mesmo!Em todos os cantos da vida contemporânea esse se tornou um comportamento padrão. Retrucou Salomé.

-Na política, na cultura e nas atividades humanas mais banais a relação entre ética e conhecimento se dissipou por completo.

A corrupção e a degenerescência proliferam em ritmo veloz. As inverdades e incertezas cotidianas e o amesquinhamento da alma humana, tornaram-se circunstancias, atitudes e sentimentos passivamente tolerados. Basta que um indivíduo tenha os meios para realizar seus objetivos e os obstáculos desaparecem num passe de mágica. Numa sociedade extremamente técnica, meio é o que não falta. Uma idéia brilhante (sic) é rapidamente apresentada como mais uma retumbante realização da mediocridade. O relativismo cultural protege o medíocre. Afinal, pra que serve o dispositivo politicamente correto? Como ninguém vai criticar, o produto se basta. Esse modelo “genial” pôs pra funcionar uma espécie de justiça cultural que, anulando os critérios que dificultavam a ascendência da mediocridade no circuito artístico, defende a inclusão de qualquer afoito, não importando o que façam, pensem ou produzam. O pacto deve seguir em frente. Os produtos são para ser expostos à venda. Dinheiro e um esquema de marketing são capazes de inflar o ego de qualquer aventureiro desprovido de um grama de talento e honestidade. Basta isso, para termos diante dos olhos mais um fenômeno das artes, da política e dos negócios. Quem ousará contrariar uma maquina com poderes estupendos de criar mitos da noite para o dia. A instrução subliminar é muito eficiente e vem estampada na compra do figurino politicamente correto. A instrução número 1 consiste em obliterar, denegrir e achincalhar qualquer critica através da argumentação simplória de que todos têm liberdade para fazer o que bem entender. A instrução número 2 informa que toda critica é uma forma de coerção. Quem quer ser, num mundo padronizado, um estranho no ninho? Um chato de galocha! É mais fácil ser sedutor e agradável e assim se integrar a massa dos contentes. Sou obrigado a reconhecer que nesse laboratório o robô auto - programável vem realizando uma façanha digna de um Titã. Milhões de mentes são tragadas, processadas e devolvidas aos seus portadores humanóides todas as manhãs. No dia seguinte as pessoas não sentem nenhuma diferença substancial do que eram no dia anterior. Apenas notam que seguem com mais entusiasmo para a fila de produção e consumo. Não há queixas, lamurias ou decepções, apenas uma frustração estonteante que serve de estimulo para produzir mais, ganhar mais dinheiro e comprar o que ontem parecia impossível. Quando nada se ajusta as necessidades, o crime é uma opção viável ao alcance da mão. Não se assuste, já existe uma solução justa para essa circunstancia: para os ladrões de galinha, traficantes, assaltantes e pobres; a morte ou a cadeia. Para os gatunos de alta estirpe e os políticos escroques as manchetes dos jornais e algum aborrecimento na hora do almoço. Uma úlcera, em casos extremos.

Essa ideologia se tornou um senso comum. A idéia de que fazendo o melhor para você, estará contribuindo para o Bem de todos é um marco de nossa era. Ainda que o objetivo do indivíduo não seja fazer necessariamente o Bem, o milagre desse preceito sobrevém,mesmo contra a vontade do sujeito. Essa instrução vem funcionando as mil maravilhas. Ninguém duvida dessa Verdade. Aliás, ela se tornou a melhor Verdade do império do relativismo cultural.

-Meu Deus! Onde foi parar o meu passado histórico?Brincou Salomé.

- Nesse admirável mundo novo a critica tornou-se um estorvo e os critérios bem fundamentados, assim como a especulação intelectual sobre a vida humana, foram colocadas em segundo plano. As antigas alusões aos valores e princípios perderam o sentido. Algumas pensatas do gênero ainda permanecem agregadas aos portais decorativos das fachadas dos velhos templos do conhecimento por puro esquecimento. As relações entre a ética e conhecimento tornaram-se, de um tempo para cá, códigos incompreensíveis.

O curioso disso tudo é que o desaparecimento da critica apurada deu lugar a fartura de teorias acadêmicas. Nunca na historia se produziu tanta teoria. No campo da estética todo dia lançam uma nova teoria. A publicação de teorias estéticas acelerou. Nesse ritmo,em breve, disputará corrida com as rotativas dos jornais de grande circulação.

-É! Algumas tão inacessíveis à compreensão quanto os testes do Enem. Comentou Salomé.

-Estilos proliferam. O mais recente de que tenho noticia porta o rótulo de Arte Fetiche. Ninguém até agora tem a mínima idéia do que se trata. Porém, se é fetiche, deve ser ao menos pitoresco.

- Fantástico né?Li algumas coisas a respeito. Disse Salomé.

-Mal tomo conhecimento de uma novo estilo no dia seguinte surge outro para lhe sobrepor. A pluralidade criativa está concorrendo com a velocidade de oferta dos produtos de tecnologia de ponta.As inúmeras nominações da arte contemporânea parecem inspiradas num índice de pesquisas científicas. Não é de hoje que sabemos que a ciência é o território da perfeita clareza. As experiências científicas da atualidade são regidas por exigências e metodologias rigorosas de comprovação da Verdade. A legitimação de uma teoria cientifica só é aferida na superação de regras muito bem definidas. Todavia, a aferição de uma Verdade artística é uma ambição sem propósito. Porém, essa mania se infiltrou de tal forma na mentalidade artística de nossos dias que hoje se tornou comum os produtos artísticos se imiscuírem com paradigmas científicos, sem qualquer pudor. Prospecção criativa é coisa do passado. Hoje, uma sacada esperta tem o mesmo valor de uma descoberta. Além disso, pra que esforço? Tudo pode ser rapidamente apropriado nos meios, nas técnicas e saberes complementares. A inspiração, por exemplo, pode surgir, numa consulta superficial a algumas teses da antropologia cultural.

-Essas reflexões me lembram um episodio engraçado que aconteceu num seminário na USP. Lembra?

-Não!

-No meio da sua fala um artista protestou a plenos pulmões: A Arte é vida, a vida é arte!

Ah! Claro que lembro!

-Então! Lembra que a platéia emitiu um zumbido desaprovador e que eu te disse depois que me contorci na poltrona esperando você mandá-lo à merda?

-É mesmo|!

- Qual não foi minha surpresa quando você, incorporado pelo alter ego Dalai Lama, sorriu e respondeu: - Companheiro, não restrinja a arte a apenas um fenômeno. Arte é vida e também é morte. A arte nos ofereceu no correr da historia e ainda nos oferece, obras maravilhosas que mergulham no mistério da vida e da morte. Mesmo hoje, nos dias atuais, muitos artistas tentam sofregamente encarar esses mistérios e nos encantar com sua arte. Alguns obtêm êxito, outros nem tanto. Sempre que reduzimos a arte a um único fenômeno - o da Vida -por exemplo, obliteramos nosso horizonte e reduzimos as experiências artísticas a um só ponto de vista. Afinal, sobre qual aspecto da vida estamos falando? Da vida individual, ou seja, da estetização de uma autobiografia, dos humores pessoais, da vida social e política, da vida das células, da natureza, dos insetos e das plantas ou da vida como tema genérico? Em qualquer dos casos citados e outros esquecidos a vida está presente. Seja atraves da manifestação de uma estética mórbida, hoje na moda, ou, em uma plena de alegria. Concorda? Entendo sua proposição, no entanto, você há de convir que não é necessário mais que quatro neurônios para concluir que seres vivos só podem se expressar através da vida. Todavia, nem toda expressão humana é um fenômeno artístico. Donde, é licito supor que, só através dela, da vida, podemos refletir, criar e produzir arte.

-Lembro! Lembro inclusive que durante os debates o sujeito se esforçou para explicar seu conceito de arte/vida. Enrolou-se todo e achou melhor resumir o assunto afirmando que tudo que uma pessoa faz ou produz é arte. As pessoas riram maldosamente. Eu, confesso, fiquei constrangido. Não me apraz fazer chacota com a dificuldade alheia. Meu respeito pela ingenuidade é sincero. Se ele fosse um petulante, um sujeito rempli de soi meme, eu teria ficado puto. Mas, não era o caso.

-Perdão interromper, disse a aeromoça.

- Pois não!Retrucou Salomé

-Um casal da primeira classe lhes oferece essa garrafa de champanhe.

-Oh! Quanta gentileza. Completou Salomé.

Sobre a bandeja da oferenda havia um cartão de visitas escrito em elegante caligrafia, onde se lia: Com os cumprimentos de Carlos Sacii e Aurora Celeste.

sexta-feira, agosto 13, 2010

Nada que é humano me é estranho

Eu sou homem e nada do que é humano me é estranho. O Carrasco de si
Terêncio - Roma [-185--159]

-Quanto custa um corpo humano? Perguntou Donald Kimberley, o pop star da arte inglesa contemporânea, ao plantonista da madrugada na delegacia do distrito de Bayswater em Londres.

-Depende! Existem inúmeras categorias. Alguns custam mais que outros. Além disso, se você pretende comprar um corpo humano vivo em bom estado é um preço, um mulambo é mais em conta, morto, dependendo da origem, também pode variar de preço. Entenda, por favor, que o preço desses corpos não tem qualquer relação com o valor e a qualidade de vida da pessoa ou da riqueza que desfrutou em vida. Respondeu o sargento O’Hara.

-O senhor é humorista? Instilou debochadamente o star.

-Ora, cidadão. O senhor está com sorte. Se eu não fosse humorista o senhor estaria agora chorando numa cela.

-Engraçadinho! Retrucou Donald

-Não! O senhor é que é um deprimido. Respondeu o sargento.

-Como se atreve dizer tal coisa sem me conhecer? Bradou Donald

-Ora, é simples meu caro. O que um sujeito cheio de pompa, envergando roupas caras, abraçado numa garrafa de champanhe que daria para pagar mais de dois meses do meu salário vem, às 3 horas da manhã, fazer numa delegacia policial? Passear?Buscar diversão em meio à ralé, putas, proxenetas, ladrões, assassinos, viciados e traficantes enclausurados e ferozes? Completou asperamente O’Hara

-Não! Respondeu Donald timidamente, olhando para o piso de mosaico carcomido.Não, sargento. Não é nada disso. Eu sou um artista, acrescentou Kimberley.

Depois de um breve silencio e sob o olhar inquisidor de O’Hara, Donald depositou a garrafa de Perrier-Jouët no piso, pegou delicadamente a mochila Louis Vuitton, abriu e retirou de seu interior três luxuosos livros. O brilho das capas excitou as pupilas do sargento e os títulos em letras de ouro refletiram no fundo das retinas de seus olhos escancarados. Quando o foco se ajustou O’Hara conseguiu ler: Donald Kimberley Complete Works Book I -1988 – 2000 – Donald Kimberley Complete Works Book II 2001 – 2005 e Donald Kimberley Complete Works Book III 2006-2010.

-Nem mesmo o Exército Real possui um prontuário tão luxuoso!Exclamou o sargento. Nunca vi nada igual. Completou.

-Toda minha vida está dentro desses volumes. Disse Donald.

-Como assim?Retrucou O’Hara

-Minha obra artística completa está contida nesses três volumes. Repetiu o artista

-Desculpe perguntar, o senhor me parece bastante jovem. Como uma pessoa tão jovem tem três volumes de obras completas antes mesmo de morrer, perdão, parar de produzir, melhor dizendo, se aposentar?

-Porque sou muito famoso e extremamente rico.

-Bem! Que me conste esses não são valores artísticos. Retrucou O’Hara.O preso da cela 18 é um traficante extremamente rico e famoso. Pelo que sei, não possui nem mesmo um álbum de figurinhas completo.Afinal, cidadão, o que o senhor deseja? A fila de clientes atrás de si está crescendo.Concluiu o sargento

-Eu queria comprar um corpo humano. Quer dizer, dois corpos humanos; um vivo e um morto. É isso que preciso no momento, afirmou o artista.

-Ok! Sente-se naquele banco ali atrás e espere enquanto consulto nosso estoque. Ordenou O’Hara com o habitual sarcasmo que usa no trato com os indivíduos que se entregam à policia por crimes que nunca cometeram.

Sentado no velho banco de madeira Donald deu três largos goles no precioso liquido Perrier-Jouët, abriu a mochila e dela retirou um grosso catálogo. Na capa, de um belo azul profundo, impresso em letras negras, lia-se: The Human Body – The Art of Günter Von Hagens. Donald pousou o exemplar no colo, deu outra talagada no champanhe e abriu o catálogo numa página marcada por um grande recorte de jornal. Repleto de fotos, a página estampava no alto à direita da logomarca do jornal, os dizeres: Critical section of Taxidermy Contemporary Art.

- Son of a bitch! Exclamou Donald. Seu desabafo foi tão alto que o sargento O’Hara retrucou imediatamente.

-Siiihhhhh!Silencio!Isso aqui não é um pub.

-Não posso me calar diante desse roubo!Exclamou Donald.

A jovem russa algemada, sentada a seu lado, deu um pulo do banco e saiu correndo para um canto escuro da delegacia esbravejando:

- Я ничего не делал, я невиновен! До вчерашнего дня был на вечеринке в Москве вчера и проснулась в постели гражданского служащего, где английский язык был удален со стороны полиции. . Боже мой, что происходит? (nota do tradutor: Não fiz nada! Sou inocente! Anteontem estava numa festa em Moscou.Hoje, fui brutalmente acordada pela policia londrina na cama de casal de um alto funcionário publico inglês em Chelsea. Meu Deus! O que está acontecendo comigo?)

-Sem dar atenção ao chilique da moça, como se ela nem mesmo existisse, Donald continuou seu protesto:

-É inadmissível! Eu sei que o estilo taxidermista não me pertence pelo fato de tê-lo criado e tornado sustentável pela critica,curadores e pelo mercado. Também sei que artistas de regiões menos influentes artisticamente adotaram o estilo taxidermista o incorporando a seus precários repertórios. Sou um sujeito generoso e vejo esses seguidores mais pobres do terceiro mundo como uma conseqüência previsível do meu enorme poder criativo. Mas, isso não me obriga a calar diante da desfaçatez. Há mais de dez anos tento realizar minha obra imortal e só tenho esbarrado em dificuldades. Logo depois da exposição de 1989 que teve uma repercussão global, eu venho me esmerando para concluir o diptico The possibility of the Death of the Mind in a living brain (nota do tradutor: A possibilidade da Morte da Mente num cérebro Vivo). Essa será uma obra de rara intensidade.


Será um diptico, onde um corpo humano vivo reproduzirá a mesma posição de um corpo morto. Esses dois corpos em pé, lado a lado, seriam abrigados em um compartimento hi tech protegido por vidros blindados.Dessa forma atravessarão a eternidade.

Nesse ínterim, toda a clientela da delegacia, policiais,escrivãos e faxineiros admiravam atentamente o orador.

Arrebatado pela audiência, procurou na mochila o exemplar do Donald Kimberley Complete Works Book II. Abriu as primeiras paginas e continuou folheando, exibindo para a platéia um verdadeiro zoológico taxidermizado flutuando em líquido colorido.Essa sessão extraordinária proporcionou aos ouvintes embasbacados uma visita guiada as suas obras. Folheava freneticamente as paginas cheias de ilustrações maravilhosas enquanto falava das sensações, dos estímulos e das referencias de cada imagem com a Historia da Arte.

Após a exaltação sentou-se lentamente.Cabisbaixo confidenciou com a voz embargada pela angustia:

-Enquanto isso Von Hagens aparece ao mundo como um astro da arte taxidermista. Uma mentira! Eu fiz tudo muito antes dele ter se curado da frustração de não conseguir nem ao menos ser um anatomista alemão de sucesso. Como cientista é um blefe! Seu controvertido processo de "plastinação", nome de sua invenção dos anos 70, é desprezado pela comunidade científica.Depois de convencer um marchand de Berlim, os curadores, a imprensa e o publico de que o que fazia era arte, tornou-se famoso em seu país. Pior ainda é que esse sujeito ganhou as manchetes internacionais com as exposições que realizou sobre os vários estágios da vida humana que incluía cena de sexo entre cadáveres além de outros 200 corpos inanimados.Miserável!Bradou Donald.

-Sim! Respondeu em coro a audiência. Um depravado, um miserável que impede os corpos de mergulhar dignamente nos abismos da morte.

Donald levantou-se e com os olhos fixados no chão como se vislumbrasse uma trilha nas frestas imundas do mosaico carcomido, atravessou por entre corpos vivos da clientela estupefata,se dirigiu para a porta.Atravessou-a e adentrou o negrume da madrugada londrina resmungando:

-Oh Deus!Que ódio! Esse bosh conseguiu corpos humanos em grande quantidade. E eu, aqui penando para conseguir ao menos um corpo humano vivo e outro morto. Estúpida burocracia inglesa ! Depois não sabem porque os alemães são tão adiantados,ricos e admirados.





quarta-feira, agosto 11, 2010

Relativismo genético - Uma proposta estética




A Escolha de Aurora

"Diferença entre um amador e um profissional. Um amador pensa que é engraçado vestir um homem como uma velhinha, sentá-lo numa cadeira de rodas e dar um empurrão na cadeira, para que ele desça ladeira abaixo feito uma bala e se esborrache contra um muro de pedra. Um profissional sabe que isso tem de ser feito com uma velhinha de verdade". (Groucho Marx)
A citação acima, impressa em letras garrafais, está afixada na parede da sala de estar da casa de Aurora Celeste. Artista e militante convicta da estética pós humanista, Aurora vive, ao contrario dos humanos, numa bolha repleta de objetos e coisas extravagantes. Ela é distinguida pelos amigos como uma pessoa de mente escancarada, que despreza qualquer forma de representação. Para ela, tudo tem que ser de verdade. O amor, a arte e a vida. Isto explica, em parte, a citação de Groucho Marx colada no centro da sala de estar. Além disso, ela não é de titubear, aceita sem restrições todo e qualquer paradigma contemporâneo.
Sua vida artística teve inicio numa tarde de outubro de 1999. Nessa ocasião Aurora estava ultra mobilizada pelo “bug” do milênio. Como tudo corria o risco de parar ela resolveu parar de vez com a vida de tiéte de artistas famosos e mergulhar de cabeça numa ideia genial. Nos dez anos que nos separa do inicio da Era do Conhecimento a obra de Aurora ganhou visibilidade. Tudo aconteceu subitamente, assim como acontecem os milagres.
Ela recorda com carinho aquela tarde quente de verão quando um amigo solicitou sua ajuda numa faxina em seu ateliê. No final do expediente, sob a soleira da porta, amontoaram uma pilha de edições antigas da revista Art Forum.
-Que destino você vai dar a essas revistas? Perguntou Aurora.
-Não sei! Não as quero mais. Talvez faça uma doação à biblioteca de uma escola de arte. Respondeu-lhe o amigo.
-Ah! Posso guardá-las para mim? Perguntou animada.
-Claro! Leve as que quiser.
Levou todas. Foi o que fez.
Durante uma semana inteira Aurora não foi a nenhum vernissage, não visitou galerias de arte nem museus, não leu jornais nem viu televisão, não navegou na internet ou mesmo falou com os amigos no telefone. Como não tinha o habito de ler livros, não sofreu o desgosto de abandonar uma boa leitura. Nesses sete dias de profundo recolhimento Celeste teve um lampejo que qualificou como semelhante ao que teve Jesus durante os quarenta dias que se recolheu no deserto em colóquio com o Pai, antes de dar início à pregação do Reino.
Foi nessa semana de intensa meditação que Aurora Celeste vislumbrou a luz criativa.
Dizem as más línguas que a artista ateve-se nesse tempo a folhear apenas três números das edições da Art Forum de 1974 e, maldosamente, insinuam que a jovem foi mentalmente abduzida pela onda de manifestos estéticos que usavam a genitália humana como modelo.
Os detratores falam que antes do insight que lhe trouxe fama, Aurora passava as tardes de sábado vasculhando brechós da Rua do Lavradio. Colecionava pequenos bibelôs e quinquilharias decorativas em ferro ou bronze, fundidos nos séculos XIX e XX e fotos antigas de personagens anônimos sobre os quais realizava intervenções. 
Era uma forma singela de reverenciar sua empatia com os ready made de Marcel Duchamp.
Todavia, ao dar de cara com um anúncio da sua exposição, publicado em 1974, na contra capa da revista Art Forum, em que a artista Linda Benglis, nua, de óculos escuros, ostentando um grande pênis e simulando a pose característica de um 'macho man', Aurora Celeste entrou em transe.



Também pudera, ela já estava prestes a surtar quando folheou as fotos da fatídica performance de Schwarzkogler, na qual o artista fragmentou gradualmente o próprio pênis com uma navalha.Esse episódio o levou à morte aos 29 anos.
Pouco importa o que comentem por ai. O fato é que Aurora ficou deslumbrada com a perspectiva que se descortinou a sua frente. 
Estava totalmente convencida de sua missão. Nenhuma critica ou argumento, por mais razoável que pudesse parecer, iria se contrapor ao seu empenho em desbravar o que considerava vital para a nova Arte do século XXI e uma verdadeira revolução política, digna de uma sala especial em qualquer Bienal do planeta.
As pesquisas sobre o sexo que fez na internet a levou a concluir que era preciso dar um basta a tanto sofrimento imposto por força do Determinismo Biológico .
-Quanto sofrimento tal determinismo impôs e ainda impõe ao homem. Pensou a artista.
–Diante do enorme conhecimento que hoje possuímos, da falácia das verdades absolutas e do enorme domínio tecnológico, o que a arte, juntamente com a ciência, pode fazer para ajudar os homens a adentrar a verdadeira felicidade? Essa foi a questão resultante das suas pesquisas.
-Até quando seremos compelidos a aceitar e a temer o autoritarismo dos genes? Balbuciava para si mesma.
Motivada por esses pontos Aurora Celeste mergulhou de cabeça nos debates mais quentes da ciência atual.
Numa das muitas consultas ao Google, esbarrou com um artigo cientifico que lhe despertou grande euforia.
A pergunta : “O que são e quantos são os gêneros que compõem a espécie humana?" que dava inicio a um texto, a levou ao orgasmo.Evidentemente,por motivações estéticas mais elevadas,um gozo não físico ou biológico.
-Que coincidência, a mesma questão que agora me atormenta. Disse a si mesma
Então, rolando freneticamente a ferramenta do oráculo cibernético, Aurora Celeste deu de cara com um conteúdo que a sacudiu na cadeira:

“O que determina o sexo de uma pessoa?”
Na leitura Aurora ficou sabendo que : “Ainda que a pergunta pareça fácil a resposta não é tão óbvia assim. 
Essa dúvida tem atormentado o meio médico, gerando debates acalorados e pilhas de estudos em alguns dos maiores centros de pesquisa do mundo. O senso comum diz que o sexo masculino acontece quando a pessoa tem um pênis e um par de testículos. E o feminino, quando há vagina e ovários. E não se fala mais nisso, certo?
Errado! 
Há pessoas que têm absoluta certeza de que pertencem ao sexo oposto àquele que seus genitais indicam.
Talvez,então, a resposta esteja nos hormônios sexuais. Errado de novo. 
Esse é um critério ruim porque os endocrinologistas já se cansaram de ver mulheres que têm maioria de hormônios masculinos no corpo e vice-versa. Então a resposta só pode ser a análise genética, já que todos sabem que se os genes se unem em cromossomos no formato XX a pessoa é mulher e se for XY a pessoa é homem. Outro erro, pois ocorre várias vezes o que os especialistas chamam de “mosaicos”,que são  misturas na formação cromossômica que podem desacreditar qualquer conclusão taxativa nesse campo. 
É melhor nem pensar que o que distingue o gênero masculino do feminino é o comportamento, porque as várias preferências sexuais reduzem à cinzas qualquer conceito radical de gênero(... )Essa dúvida, sobre o que realmente define o sexo de um indivíduo, está criando um drama ético crescente por causa de pessoas para quem nenhum desses critérios oferece uma resposta satisfatória.”
Ao ler essas anotações a jovem artista foi ao delírio.
Excitadíssima rolou rapidamente a página.
Foi então que ficou sabendo que um pesquisador brasileiro tinha uma teoria revolucionaria. Segundo ele:... “existem, na verdade, 11 sexos, sendo dez as versões masculina e feminina de heterossexuais, homossexuais, transexuais, gays e bissexuais e 1,o número ímpar, caberia aos hermafroditas.”
-Meu Deus! Exclamou esfuziante.
-Não se trata apenas de um novo paradigma artístico é algo para muito além de tudo que já foi proposto ou realizado pelos artistas do passado. Linda Benglis, Michelangelo, Schwarzkogler e muitos outros, se fixaram apenas no aspecto moral, quer dizer, nas convenções e tabus que atormentam os seres humanos e reprimem as sociedades. Concluiu a artista.
-Geeente! É isso que me aguardava. Minha missão é colocar a arte a serviço de uma causa em prol da liberdade, contra a tirania genética e as imposições da natureza que oprimem o homem.
De posse de um leit. motif a artista enfim repousou.
Na manhã seguinte,mal acordou, telefonou para Maldonado dos Santos, professor, critico de arte, teórico e curador de inúmeras bienais. Maldonado é uma espécie de bandeirante da arte política, revelador de novos e velhos talentos da vanguarda contemporânea.
-Maldo querido, veja o que descobri!
- Oi, Aurora estou agora numa reunião com todos os curadores da bienal. É um assunto muito longo? Perguntou Maldonado.
-É muito profundo, querido.
Oh!Deus, como preciso de você. Balbuciou Aurora
-Da pra resumir? Perguntou-lhe o amigo.
-Tentarei... Tentarei... Disse Aurora em tom titubeante
-O sexo é... Bem, o sexo de um indivíduo é um drama ético!
-Hein?! Como assim, querida? Retrucou o curador com espanto.
-Maldo, descobri que nenhum critério oferece uma resposta satisfatória para os seres que nascem com partes de genitais dos dois sexos: testículos, ovário, pênis e vagina combinados das mais diversas formas ou em dimensões incomuns. Alguns cientistas afirmam que não se trata de um drama raro, uma obra exótica da natureza.Eles afirmam que é um drama mais comum que se imagina.
-Entendo, respondeu o amigo.
-Então, é sobre esse...drama que pretendo conduzir minhas experiências em busca de uma nova estética. Uma estética biomolecular! Bradou Aurora.
-Genial!Respondeu Maldonado.
-Ah!Fico feliz com seu entusiasmo. Vou mergulhar nesse projeto agora mesmo. Até o final dessa semana terei alguns resultados práticos, quer dizer, plásticos.
Aliás, como está aquela situação da curadoria da Bienal do Turquestão Oriental?Complementou Aurora Celeste.
-Ótima!Estávamos falando disso na reunião. Estou confirmado, serei um dos curadores da Bienal do Turquestão Oriental. Respondeu Maldonado.
-Geeente!Que maravilha! Eu rezei tanto pra isso!
-Você acha que dá para me indicar com essa nova pesquisa, para bienal do Turquestão? Emendou a artista.
-Claro! Sua proposta se encaixa perfeitamente com a linha que pretendo adotar para aquele evento. Não quero nada convencional que se limite aos paradigmas pós modernos. Quero algo provocador, um laboratório aberto que esmiúce as questões políticas e interaja com a problemática sexual dos homens e mulheres do Oriente, da Ásia e do mundo. Pretendo que essa bienal seja um barril de pólvora no seio do fundamentalismo arcaico. Uma verdadeira revolução nos preconceitos que ainda perduram no ambiente artístico cultural . Essa bienal irá desnudar a hipocrisia em prol de um mundo mais justo.
-Geeente, que maravilha! Vou começar a trabalhar agora mesmo. Um beijo, querido.
-Outro grande pra você, querida. Tchau!
-Tchau!
Clic.




sábado, agosto 07, 2010

Arte pós humanista -Uma cronica






Para RáAntunes a palavra ateliê é apenas uma menção nostálgica e antiquada de um lugar mítico onde artistas da antiguidade pós moderna criavam e produziam obras de art. Rá,é um expoente da primeira casta de artistas do pós-humanismo. Ele é um sujeito dinâmico e ultra-flexível. Sua ascensão ao pódio das celebridades das artes ocorreu em paralelo ao esgotamento das tendências estéticas pautadas nas ideias duchampianas, beyusianas e similares. Sua chance apareceu quando os artistas e amantes dos produtos estéticos oriundos de uma subteoria remendada com recortes de antropologia cultural acabaram com o estoque de materiais inéditos de uso artístico corrente e as questões artificiais, relativas ao uso dos materiais,ruínas,escombros e entulhos de tempos distintos, não resultavam em pesquisas extravagantes para resultados simplórios e não entusiasmavam mais ninguém. O mundo das artes precisava de algo NOVO.

Foi nesse interregno que Rá entrou de sola.As balelas relativas ao uso imaginativo dos materiais cansou os deslumbrados e seguidores e as pesquisas se tornaram coisas do passado,saíram de moda.Rá foi o precursor da arte imaterial criada simultaneamente em diversos laboratórios espalhados nas centenas de bienais que ocorrem em todo o planeta. Mas, antes de falar das virtudes de Rá é adequado que eu os apresente seu principal teórico e articulador político. É bom que saibam de antemão que no pós-humanismo não existe arte sem política, marketing pessoal,polêmicas artificiais e seguidores apatetados. Nesse novo mundo tudo é artificial, sobretudo, a arte. Dionísio Pepper é, nesse contexto, uma peça crucial das estratégias avançadas de Rá.

Mas, quem é Dionísio?
Uma biografia resumida, já que a militância artística de Dionísio é veloz e sucinta, nos informa que ele formou-se em economia numa faculdade de Alagoas. Por força de sua simpatia e entrosamento com a alta sociedade local foi o único em toda a instituição a ser beneficiado com uma bolsa de estudos em Londres onde, durante um longo e penoso ano, freqüentou um curso de marketing financeiro num famoso MBA inglês. De volta ao Brasil,amparado pela rede de contatos políticos em sua terra natal, não teve dificuldades em obter um bom emprego num grande banco paulista.
Durante sua temporada londrina compactou seus desejos numa estratégia de objetivos precisos. Dependia dos seus conhecimentos em economia para sobreviver,contudo, sua sensibilidade para arte também podia ser aplicada economicamente.
-Por que não?Estava convencido de que nos dias de hoje, qualquer pessoa que junte Lé com Cré pode se destacar no ambiente cultural.
-No conjunto de experts que atuam no campo da arte no Brasil, eu sou um gênio!Especulava entusiasmado.
Como ninguém é de ferro, nas horas vagas Dionísio passeava nos museus ingleses. Numa dessas andanças, extasiado diante de uma obra de Damien Hirst, Dionísio esbarrou em Herbert Ward. Na troca de desculpas e gentilezas os dois terminaram sentados na cafeteria do museu trocando figurinhas. Após as apresentações de praxe Herbert foi direto ao ponto revelando que se colocara intencionalmente como um obstáculo entre Dionísio e a obra do mais famoso star da arte pós-humana. Hesitante por alguns segundos, Ward acrescentou que fez isso porque ficou comovido com a visão de entrega total de Dionísio à obra de Hirst e que isso o havia provocado profundamente. Emocionado, Dionísio esqueceu os compromissos da tarde e os dois saíram a passear pelas simpáticas ruas londrinas. Num bucólico trecho da Carnaby Street, Ward confidenciou que essa tarde havia sido maravilhosa para ele. Disse baixinho que antes do encontro com Dionísio estava tenso e angustiado pois, por coincidência, nessa mesma tarde, a comissão do Royal Scholl of Art estava reunida para decidir entre três nomes, aquele que seria o curador da mais nova bienal do planeta- A Bienal do Cazaquistão.
Os dois se despediram na frente da entrada do metro, não sem antes Ward propor trocarem seus números de telefones.Na oportunidade insinuou que gostaria de comunicar a Dionísio a decisão do Real Conselho.
Ward se tornou curador. Logo se entende o que os dois comemoraram a luz de velas num restaurante próximo ao Royal Museum, local onde haviam se conhecido. Depois desse comovente jantar os dois passaram a dividir um único lençol e a comungarem a mesma profissão.
Desse entrosamento afetivo nasceu o Dionísio que conhecemos. Teórico, professor de arte, curador e consultor artístico de grandes empresas e coleções de arte brasileiras. Ainda que seu maior êxito editorial seja a enorme coleção de passaportes integralmente carimbados e com todas as folhas,frente e verso, esgotadas.Dionísio deu muitas entrevistas e publicou quatro livros sobre arte contemporânea. Todos, direta ou indiretamente, vinculados à obra de Rá. O texto mais notável de Dionísio teve o triunfante titulo: Das Glorias de ser curador de Bienal.
Nesse ínterim Rá dava murros em ponta de faca para vencer os contratempos e o fervor moral dos pós – pós - modernistas.
Suas experiências laboratoriais estavam travadas por falta de compreensão das autoridades e absoluto desinteresse do mercado de arte.
O problema com o mercado era facilmente resolvido já que Rá tinha uma malta de fiéis seguidores dentro da burocracia cultural Planaltina. Sempre que podiam o colocavam num projeto incentivado. O clube dos curadores sistematicamente o indicava para uma Bienal.Seja do Mercosul,Veneza ou Venezuela.Vai daí que Rá participava em media,num ano, de dezoito bienais mundo afora.Tudo devidamente subvencionado.
Não esqueçam que Rá já havia participado de duas quadrienais de Kassel. Sua ultima participação foi motivo da publicação de um caderno especial da Folha de São Paulo pleno de elogios. Até o ministro da cultura participou da iniciativa comprando uma página inteira do caderno para publicar um anuncio do governo.
Mas, mesmo esse sucesso todo não tranqüilizava Rá. Ele queria mais!Sabia que podia mais!
Suas pesquisas NeuroEstéticas estavam ocorrendo na clandestinidade. Isso o aborrecia terrivelmente.
Rá estava estafado, ansioso e revoltado. Uma editora especializada em arte pós humana estava insistindo há mais de um ano para que ele publicasse mais um livro de Obras Completas.
-Ora, já fiz nove livros de obras completas em 12 anos de carreira artística. O que esses caras querem de mim?Sugar meu sangue? Esbravejava pelos cantos do seu laboratório doméstico. Um apartamento no Leme totalmente decorado com suas incisões estéticas. Esse era seu refugio que, aliás, já tinha sido mostrado ao publico pela mídia quando de uma entrevista sobre seu sucesso internacional e suas idéias para a nova arte global.
-Às favas o meu estupendo prestígio se o que desejo me impedem de realizar. Resmungava por entre tubos de ensaio, fios condutores, plasmas e cérebros humanos imersos em líquido colorido dentro de compartimentos vítreos.
-É o moralismo religioso dessa gente hipócrita!Dizia em tom baixo, quase inaudível.
-A reação dos marchands que investiram pesado na arte pós pós moderna é de um conservadorismo atroz e depravado. Coisa do passado remoto, ainda protegido pela fé duchampiana. Vocês não imaginam como esse troço atrapalha os avanços estéticos e atravanca minhas experiências! Confidenciou Rá a seus embasbacados admiradores mais íntimos.
Todavia, o providencial retorno de Dionísio ao Brasil salvou o futuro de interveniências antiquadas e improdutivas.
Vejam o que diz Rá sobre isso:
-Minha ultima IncisãoEstética proposta para a Bienal foi quase vetada porque um bando de petulantes resolveu impedir que Dionísio em co-curadoria com Hebert Ward mais aquela senhora de Kassel que não lembro o nome e o curador atual da Bienal do Cazaquistão;Severino Albuquerque Cavalcanti, tornassem o primeiro andar do pavilhão da Bienal de São Paulo um laboratório neuro-estetico a céu aberto,quer dizer,não totalmente aberto, já que estaria protegido pela construção.
- Meu Deus, isso é pura ignorância! Protestou Mairá Deware, a mais famosa instaladora artística do pós humanismo.
-Cai de joelhos, em transe religioso, quando visitei esse ano sua exposição Caos Cibernético, no palácio do governo da Bahia.Meu Deus!Como proibir o povo de ver aquela maravilhosa fileira de homens e mulheres, com o tampo da cabeça decepado, porém, vivos, cérebro à mostra, sobre os quais você motivava impulsos elétricos estimulando as áreas do prazer e da dor?Gente imbecil, nem ao menos sabem que o cérebro não sente dor!Tive um ataque de nervos quando um artista provinciano que tem o nome de um centurião romano resolveu quebrar tudo e liberar os suportes, quer dizer, os corpos humanos. Pra mim, o cara quis fazer um “contra evento” e criar fama internacional nas suas costas! Disse Mairá.
-Deixa pra lá, são os ossos do oficio. Retrucou Rá, que sempre se refere aos órgãos do corpo humano em suas especulações filosóficas,estéticas e até mesmo políticas.
-É verdade!Complementou Ermenegildo Silva um artista sub-intelectualizado em voga no momento.
-É inesquecível!Aquelas fileiras humanas dispostas simetricamente. Para mim era uma critica contundente ao nazismo.Não via quem não quisesse ver,ou tivesse olhos pra ver.Me emocionei ainda mais com aquela tenda negra,misteriosa e impenetrável que com uma luz tênue a piscar randomicamente, nos remetia aos mistérios da mente,quer dizer,do cérebro,ou melhor dos dois,né?Concluiu Ermenegildo.
Para o bem geral e irrestrito, a rede de relações políticas e midiaticas de Dionísio, o apoio do presidente da Bienal e de um grande numero de artistas comprometidos com o pós humanismo, firmou-se num pacto que protegeu com determinação e empenho a liberdade de expressão contra os ataques de uma gente preconceituosa,moralista e que nada entende de arte, . A pós humanidade é mais uma vez devedora do esforço e dedicação de poucos para o beneficio de muitos e,sobretudo, para o avanço da Arte, a qualquer custo.


sexta-feira, agosto 06, 2010

Reencontros - Os olhos da Asya


(3)Os olhos da Asya.

2007-Aeroporto de Congonhas-saguão de embarque da Ponte aérea Rio/São Paulo

Um sujeito alto, vestido num terno escuro impecável, decorado por uma gravata de tiragem limitada, parou na minha frente e perguntou:
-Adriano, se lembra de mim?
Num reflexo educado disse que sim, mas, de fato, não tinha a menor idéia de quem se tratava.
De súbito, levantei-me com olhar indagador e me coloquei diante dele.
Ele percebeu meu desconforto e abreviou o trabalho da minha ferramenta de busca.
-Nicolau, Paris 1973.
-Caramba! Nicolau, quanto tempo.
Ele abriu um sorriso sincero quando atinou que meus neurônios atravessaram velozmente as camadas do tempo.
Eu o havia reconhecido!
Para evitar um esquecimento posterior vou deixar anotado aqui quem é Nicolau e como o conheci.
Nicô era a forma carinhosa que minha amiga Françoise pronunciava o diminutivo de Nicolau.
Nicô, segundo Françoise, era um sujeito extrá.Militante de esquerda,bonito,culto e,segundo ela; charmand. Seu frances era impecável,além disso, sabia muito sobre literatura “revolucionaria” , historia e política. Estudava na L’Ena –Escola Superior de Administração- na época era o equivalente a freqüentar o Olimpo.Essa escola formou vários presidentes franceses,ministros e grandes lideres empresariais.Nicô era emfim  um “eleito” pois a admissão nessa escola exigia enorme desempenho intelectual do aluno.
Outro detalhe importante da personalidade de Nicô era o fato de não freqüentar a comunidade brasileira no exílio e muito menos trocar mesuras e participar da roda de samba dos brasileiros residentes em Paris.
-Nicô detesta feijoada, me disse uma vez Françoise.
-Bien sur,entendi Françoise. Isso facilita tudo, você não precisa se esmerar em nos apresentar. Já conheço muitos brasileiros que residem em Paris, disse eu.
Françoise não ficou nem um pouco feliz com meu pouco caso. Ela era uma militante imbuída do espírito de “união” entre os desprotegidos do terceiro mundo (naquela época esse termo era politicamente correto. Hoje, deixou de ser). Não só Nicô merecia sua atenção e admiração. Eu,assim como Tourée,intelectual do Senegal que resolveu confrontar a “democracia” de Senghor, percebeu rapidamente que era melhor para sua saúde protestar em Paris que em Dacar- e outros desterrados,éramos amigos de Françoise e frequentávamos suas festas.
Um belo dia recebo um telefonema de Françoise
-Voila !Disse ela, vou dar um jantar e gostaria que você viesse.
-Boa Françoise, isso quer dizer que você achou uma solução para me apresentar à Nicô. Não sendo você brasileira acho que ele não sofrera nenhum trauma em ser apresentado a outro brasileiro pela Joana D’Arc do terceiro mundo,respondi.
Foi assim que conheci Nicô.
No correr dos três anos seguintes nos tornamos bons companheiros.
Discutíamos sobre arte, literatura, cinema e, claro, política, sobretudo, do terceiro mundo,além de impressões sobre imperialismo,guerra do Vietnam e etc.
Se alguém queria saber de alguma passeata de esquerda seja em Paris, Nanterre ou Lion consultava Nicô. Ele sabia de todas, inclusive, listava os artistas e intelectuais que estariam presentes na manif, os que iriam discursar e os que haviam subscrito o manifesto da hora.
Nicô era o cara!
No seu aniversario,Nicô convidou uns poucos amigos para queijos e vinhos em seu chambre de bonne, que ficava no topo de um edifício bacana no Boulevard de Vaugirard, em Montparnasse.
Decorado no estilo “aparelho”, seu espaço era todo revestido com pôsteres de revolucionários históricos. Uma grande foto de Marx revestia toda porta de entrada. Sobre o sofá/cama cintilava uma foto enorme de Daniel Cohn-Bendit em ação numa das passeatas de maio de 68 –Cohn - Bendict era o ídolo de Nicô. Ao lado dessa foto uma pequena foto de Mao, espremida entre a do Daniel e uma enorme de Fidel discursando.Esse mosaico revelava uma característica do anfitrião,sobretudo,pela desproporção de tamanho das imagens que deixara o líder chinês numa dimensão insignificante. Não entendi porque Mao merecia uma foto tão menor que a do  líder cubano. Essa situação me molestou tanto que acabei perguntando a Nicô o porquê dessa hierarquia. Não fazia sentido que sendo Mao mais gordo e mais velho e a China uma imensidão territorial e populacional,  Fidel merecesse um lugar de destaque na decoração.
Além da deselegância com os mais velhos, o decór  era incompleto. Havia, num porta retratos sobre uma pequena mesa, duas fotos de Regis Debray e nenhuma de Che Guevara..
-Como pode isso, companheiro?Perguntei.
Todos entraram na brincadeira e Nicô deixou rolar comentários engraçados sobre os personagens dos  sonhos dos jovens revolucionários.
Sobre sua mesa de estudo repousava uma edição de luxo, encadernada em couro marrom com letras em ouro, do Das Kapital - original alemão. Isso mesmo, entre outras virtudes, Nicô falava fluentemente alemão.
Outro fato memorável sobre o personagem Nicô aconteceu quando os amigos, depois de muita discussão, concluíram que deviam cotizar para comprar uma linda e cara edição de La Comedie Humaine de Balzac, para darmos à ele como um presente coletivo por seu aniversario. Nicô agradeceu porém, não demonstrou grande alegria com o presente, menos ainda com o autor.
Dias depois,quando lhe perguntei se havia gostado do presente, ele respondeu que não havia lido porque considerava o autor conservador e royaliste. Enfim, um reacionário.
-Como assim?Balzac pode até ser tudo, mas é um escritor extraordinário, um critico mordaz dos costumes e um dos fundadores do romance popular, disse eu.
-Ah!Deixa pra lá, resmunguei em seguida, você tem razão. As teorias políticas e econômicas tocam mais profundamente a alma humana. Quem sabe um dia se tornarão as mais estimulantes das ficções.
De volta ao futuro, sentados diante das xícaras de café, conversamos sobre as pessoas que conhecíamos e sobre Paris dos anos 70.
Entramos no avião lembrando alguns fatos que participamos juntos. Um rapaz que estava na poltrona ao lado da minha ofereceu trocar de lugar com Nicô e assim continuamos nossa conversa durante o vôo.
No percurso fiquei sabendo que no final dos anos 70, ele tinha decidido ir estudar em Moscou. La se instalou por muitos anos, casou com uma russa com quem teve dois filhos. Durante sua residência ele fez muitos contatos políticos e empresarias. Com o tempo associou-se a um grupo financeiro canadense, ficou milionário, se separou da primeira mulher e casou, em seguida, com uma jovem e linda ucraniana, portadora de olhos azuis que na foto me pareceram semelhantes aos de um rusky siberiano.
Sua primeira mulher, uma intelectual,  ocupou cargos públicos de destaque na administração soviética.
Nos profícuos anos do casório os dois ficaram muito ricos. Agora, ela vive com os filhos num belo apartamento em Londres, comprado na primeira década do lucrativo casamento. Ele, numa mansão digna de um xeique, em Montreal.
-E o Das Kapital, Nicô? Já deu tempo para fazer uma critica dos postulados marxistas?
-Permaneço fiel à esquerda. Hoje, contudo, todos sabem que os ajustes de objetivos é uma estratégia fundamental para a preserverança das ideologias de esquerda.
-Entendo!Disse eu. Mas, no plano social imediato, ainda subsiste a luta de classes?Perguntei.
-Claro!Adriano. Não vê quem não quer.
Sim!Afirmei. Mas,com isso, confirmas que a nova classe dirigente, oriunda dos movimentos de esquerda, precisa urgentemente de um exame oftalmológico.
Ah! Meu amigo, eu vivo há muito tempo no Canadá. Vez por outra, por conta de interesses financeiros, venho ao Brasil e posso constatar como as coisas por aqui mudaram.
-Do ponto de vista do capital ou do Das Kapital?Perguntei
A pergunta fixou sem resposta.
A partir de então a conversa tomou outro rumo. Falamos sobre as belezas da vida e de Asya, sua linda mulher. Despedimos-nos relembrando com saudade da época em que os desejos de mudança e justiça social das juvenis utopias revolucionarias.