sexta-feira, junho 18, 2010

Alegrem-se com o Novo, envergonhem-se do Velho!


Alegrem-se com o Novo, envergonhem-se do Velho!
B.Brecht
Adriano de Aquino
06/2010
Guardo, sempre a vista, desde a adolescência, essa ultima frase do poema de Brecht intitulado A Procura do Velho e do Novo.Usada aqui como titulo é arrepiante.Pode ser entendida como provocação irritante,uma afirmação desprezível ao que um dia foi,como tudo mais,alegre,estimulante e que o tempo encarregou de tornar velho e nostálgico. À medida que diferenciamos os ângulos de observação essa curta frase se estende,amassa,enruga e volta a se esticar, recompondo-se e reintegrando-se as mais intimas questões ou ardendo em confrontos com os valores e ícones impostos pelos novos tempos. Afinal, fala de um destino irremediável do qual todo ser humano, arte, cultura e modelos civilizatórios estão tragicamente condenados. É bom frisar que minhas reflexões surgem e se desenvolvem à partir de associações livres.Não sou um expert em Brecht,muito menos um scholar. Não é minha pretensão revelar um conhecimento que não possuo sobre o processo criativo,envolvimento ideológico, objetivos políticos e estética revolucionaria do famoso poeta e dramaturgo. São reflexões desprovidas de intuitos históricos e desvinculadas de posições politicamente corretas,tão em voga em nossos dias. São apenas impressões que coletei nas minhas próprias experiências.Esclarecido isso, me ponho a apresentar os motivos que levaram essa frase a ser protegida e sobreviver em um micro clima mental durante tanto tempo. Por que ela sobreviveu,se renovou em diversos momentos de minha vida?Por que ela e não outras citações e idéias, mais amenas e aparentemente mais férteis?
Não sei se todos conhecem o poema na integra.Vou colar no final desse artigo.Se colar agora,nesse momento, os leitores irão se lixar para minhas elucubrações,pois, poesia tão poderosa tende a tornar banal e dispensável qualquer esforço em decifrá-la.
Pelos idos das décadas de 60/70quando resolvi acatar minha escolha pela vida artística, o mundo tinha uma configuração bastante diferente da que hoje vivenciamos. Achei, num texto que escrevi em 2008,um maço de anotações
[Quando lerem seus papéis
Pesquisando, dispostos ao assombro
Procurem o Velho e o Novo, pois nosso tempo
E o tempo de nossos filhos
É o tempo das lutas do Novo com o Velho] -valeu Brecht! que situa minha visão de mundo na época. Escrevi:... Para um jovem daquele período, que dava os primeiros passos no mundo da arte, um expressivo conjunto de valores da modernidade ainda permeava a mentalidade da época colocando em questão a idéia ocidental de Absoluto e focando o caráter efêmero da vida e da arte. As sucessivas marteladas de Nietzsche, que ainda ecoam como uma forma de desencantamento do mundo, a argúcia arrasadora de Freud contra as ilusões metafísico-religiosas e os fundamentos sócio-econômicos de Marx, dissolveu no ar o que ainda restava de oculto nas crenças e nos negócios do mundo moderno. As colunas centrais da religião, das instituições acadêmicas e as velhas hierarquias econômico/social, alvos de contestações de toda ordem, balançavam. As ruas tornaram-se palco da insatisfação. Movimentos de jovens transbordaram das universidades, escolas , museus, galerias, bibliotecas e espraiavam pelos campos e avenidas.Um enorme processo de desconstrução, que teve inicio na alta modernidade, encontrou nos jovens do século XX, sobretudo nos da geração dos anos 60/70, a voz e a potência para o confronto com toda autoridade constituída: Estado, família, arte, instituições, gênero,sexualidade, política, propriedade, ideologia, mercado, tradições, mente, corpo etc. No meu entender essa foi a derradeira agitação estético/cultural que, mobilizando e transformando inúmeros modos de expressão artística, curiosamente, não era em si, um movimento específico das artes. Não podemos esquecer que os grandes concertos de música, as polêmicas exposições de arte, a literatura, as leituras de poesia, etc. que empolgavam uma multidão de jovens ocidentais, não eram, ainda, fenômenos atrelados à indústria cultural ou submetidos a interesses econômicos mais objetivos. Essa geração se propunha reconstruir,ou melhor,revolucionar o mundo.Senão,ao menos, adentrarem uma vida melhor sobre as ruínas do passado. Havia uma alegria contagiante pelo Novo e certa vergonha pelo Velho!
Ainda bem que o ruído estridente das guitarras,os gemidos dos sexos emancipados, as viagem psicodélicas etc. não me impediram, por muito tempo, de ver que esse troço de arte jovem era uma arapuca,uma bobagem.
A grande arte é cúmplice do tempo!
As revoluções políticas que se consolidavam também não deixaram margem a duvidas sobre o caráter perverso do poder dominante de coloração extremada, que se estabilizou sobre os anseios de mudança e liberdade.
Quando as utopias amainaram vimos que a paisagem havia se alterado substancialmente. As ideologias políticas perderam muito do seu poder sedutor, regimes autoritários entraram em colapso, e arcaicas estruturas institucionais desmoronaram por completo.
Olha o novo aí de novo,gente!
Uma nova cultura econômica, aparentemente mais flexível, que acenava com a perspectiva de prosperidade para os povos surgiu no horizonte. Pouco importa o nome que se dê ao conjunto de forças políticas e econômicas que se empenharam nessa nova via. O fato é que a abundância de recursos trazidos por essas mudanças expandiu o mercado em todas as direções. Simultaneamente, uma embrionária rede tecnológica se expandiu e de forma magnífica transformou de um extremo a outro o panorama cultural. A dinâmica dos recursos oferecidos pela tecnologia da informação produziu um forte impacto em todo sistema produtivo. Na arte esse impacto é enorme. As modalidades de produção, as reações e a mentalidade que hoje se fixou no ambiente cultural dá margem a inúmeras considerações.
Parte da produção artística da atualidade, voltada para a produção de ícones, gestos, instalações, gadgets etc. e fundadas sobre a égide da efemeridade da vida e da arte acionou a partida de um NOVO discurso estético. Os produtos artísticos hoje em voga se apropriam de itens de um sub-repertório. Eventos inspirados em logos banais e cotidianos subiram ao status de arte. Parecem ao primeiro olhar, manifestações integradas ao complexo sistema de comunicação hoje disponível e um desdobramento conseqüente do impacto produzido pelos novos meios tecnológicos. Porém, se olharmos com mais atenção é possível vislumbrar um certo desconforto. Uma reação curiosa tenta ilustrar as virtudes de um novo mundo que conecta indivíduos de todo o planeta. O modelo de arte mundialista que nos últimos trinta anos enche as grandes mostras de arte internacionais parece afirmar que o desejo de ruptura das fronteiras geográficas, tão desejada pelos modernistas, tornou-se realidade,uma realidade restrita a grupos específicos. Artistas de diversas regiões do globo, oriundos de culturas há pouco tratadas como periféricas pelos grandes centros, aparecem, de repente, integrados ao Pantheon artístico universal. Para o otimista boquiaberto isso é uma constatação cabal de que as instituições se reinventaram e o ajustamento de suas políticas distribui saber e harmonia entre as diversas culturas do planeta.
Oh! Mundo maravilhoso!
Nunca na historia um movimento estético de ponta foi tão rapidamente assimilado,enriquecendo marchands,agentes e artistas da noite para o dia.
Porém,no subterrâneo, as coisas são bem diferentes. Muito mais do que se imagina. O surgimento das inúmeras ferramentas tecnológicas trouxe um grande problema para a arte. Incapazes de produzir, por meios tradicionais, estímulos aptos a fazer frente às trocas culturais disponibilizadas por novos recursos tecnológicos, uma parte da produção estética aderiu à demanda de uma nova fase promocional e mercantil, outra se fechou num circuito restrito de eleitos protegidos por curadores a serviço de instituições publicas e privadas. Contudo, as duas vertentes se submeteram a ideia de que uma aparente democratização das linguagens artísticas- uma espécie de vale tudo- é um recurso admissível. Contudo, essas iniciativas não responderam, muito menos ultrapassaram, os expedientes repetitivos de anunciar a morte dos meios tradicionais de expressão: a morte da pintura, da escultura do desenho etc. Tolice,sabemos que nada morre apenas por decreto.
Os artistas que desejam permanecer pintando,fazendo seus objetos sem se dar conta das transformações que ocorrem no tecido social,artistico e cultural tendem a se sentir excluídos da dinâmica do seu tempo . 
A recusa de refletir sobre as transformações que ocorrem ao seu lado é confortável,porem,não potencializa suas ambições a uma esfera mais ampla que seu atelie.    
Por outro lado,caso o envelhecimento e a morte das formas tradicionais de expressão artística fosse uma verdade, os modelos estéticos da atualidade teriam fatalmente que enfrentar a mesma sentença, seriam coagidos frente à dinâmica do presente. No entanto, essa duvida não é sequer cogitada.Bem,uma lógica que despreza o fato de que a arte quando poderosa,subverte preconceitos,modelos e sistemas,não consegue ir além do seu território de interesses.
Alheios a isso, os arautos de um modo de produção estética consolidado nos anos oitenta continuam repetindo a mesma bobagem. Talvez,porque essa é a forma mais fácil que encontraram para manter visibilidade na mídia e no mercado. Isso nos leva a supor que de 30 anos para cá a arte e o meio social atingiram perfeita harmonia.Se compararmos o modelo estético hoje dominante com as correntes estéticas do modernismo constatamos o quanto a contemporaneidade é repetitiva e entediante.
Isso fica escandaloso quando sabemos que nenhum movimento artístico do modernismo ultrapassou 10 anos de predominância de modelo.
É uma piada compararmos a mobilidade estética do modernismo com a     longevidade dos modelos da atualidade. 
As instalações,por exemplo,sua permanência como modelo estético  é um mistério de proporções faraônicas.Hoje,todo mundo é instalador,se não é agora,será um dia.Isso explica,em parte,o meu tédio nas visitas as megas exposições de arte. A longa permanência de um padrão estético levanta a suspeita de que a arte supostamente mundialista alcançou seu objetivo qual seja; recalcar o aparecimento de sucessivas experiências artísticas.
O Novo versus o Novo é o engodo da contemporaneidade.
Explico: no sentido inverso dos artistas da vanguarda histórica que contestavam toda forma de conservadorismo, regulamentos oficiais e regimes estéticos, um grande numero de artistas contemporâneos parecem satisfeitos com o padrão dominante e a regras institucionais seletivas.Em minhas considerações sobre a arte mais difundida nas ultimas três décadas não excluo a possibilidade de sujeição da atividade criativa à crescente centralidade da economia na vida contemporânea. Ao contrário de seus precursores, um grande contingente de artistas pós–modernos enxerga na institucionalização precoce uma virtude. Suas estratégias se montam a partir desse juízo. Os vários modos artísticos que surgiram no pós Segunda Grande Guerra herdaram e souberam usar a diversidade difundida pelos artistas da vanguarda histórica. Esses movimentos contestavam o sistema oficial de arte e a institucionalização pomposa. Os prodigiosos movimentos estéticos dos anos 50/60 são ricos, não apenas pelas obras que legaram e as questões que suscitaram, mas, também, pela abertura artística e cultural que disseminavam. Arrisco dizer que tal circunstancia permitiu aos artistas desse período inaugurar um fluxo produtivo fundado na autonomia criativa, ratificando, criticamente, alguns valores do modernismo e renovando a relação da arte com o imaginário da imortalidade. Esse último item é importante para entendermos melhor as repetitivas argumentações dos artistas atuais sobre a efemeridade como um enunciado estético que delineia as propostas da arte contemporânea. Ainda que o efêmero, anunciado como fundamento teórico da arte atual, pareça inédito ele não é. De fato, esse enunciado é um simulacro do imaginário da imortalidade diferenciado por artifícios conceituais.
Alguns segmentos das artes plásticas conceberam uma versão própria do relativismo nietzschiano mesclado a teorias dispersas coletadas em vertentes do pensamento desconstrucionista. A ligação com a vida acadêmica levou alguns artistas a adicionarem aditivos de antropologia cultural para acentuar o sabor de conhecimento pleno e funcionar como agente para rápida diluição de todo e qualquer critério artístico identificado,então, como reação conservadora. Munidos de fragmentos dispersos e convencidos da luta por uma causa nobre, artistas e teóricos partiram contra os focos de reflexão crítica e aptidão técnica, habilidades que vem sendo gradativamente desprezadas. Instalou-se, então, a crença de que vivemos hoje numa sociedade de homens livres e que todo individuo está apto a produzir o que bem entende sem mais se submeter a nenhum critério externo a si. Tal conceito se tornou um senso comum no campo artístico. Esse tipo de relativismo tornou-se o bálsamo para todos os males preenchendo de estratagemas a vaga idéia de que todo e qualquer procedimento estético tem o mesmo valor simbólico - a única coisa que os diferencia é a fama de quem os faz e o preço. Para consolidar sua permanência no meio cultural os adeptos dessa vertente falam da realidade como um fenômeno imutável e afirmam que a flexibilização dos meios de produção tornou possível a expansão da liberdade. Essas manifestações justificam nossa preocupação.É sempre bom lembrar que a confusão intelectual que se instalou é notável,porém, impotente contra a inevitável renovação crítica.
É até certo ponto compreensível, em uma sociedade altamente competitiva, a coexistência de grupos fechados. O recrudescimento das religiões, o consumismo galopante e outras formas de transferência imposta pelo cotidiano são dados que sempre levamos em conta quando refletirmos sobre a vida atual. A fragilidade das teorias dominantes que visam impor a idéia de que tudo que é avançado em arte é pleno de significado elevado e tem como objetivo a intervenção crítica imune às convenções, esbarra no fato de que o reconhecimento e a confirmação de suas investidas estão em conformidade com os pactos formais de que tudo que é identificado como avançado, inclusive o capitalismo avançado, espelham nossa época, a qual devemos nos curvar,cultuar e não contestar. Contestar a manipulação que sustenta o sucesso é hoje entendido como ataque histérico dos invejosos.Poucas vezes deparei com tão grande asneira. Uma asneira que se consolida e prolifera.Tem sempre um funcionário da imprensa para incensar o discurso de um ícone do mercado.As materias sobre cultura se concentram nas citações sobre preços e nas opiniões vaidosas sobre as preferências mercadológicas de um artista.Um diz que evita os leilões,insinuando uma diferença com aqueles que alcançam altos preços nesse sistema.Fica por aí!Sobre processo criativo,pensamento ou estética-O silencio! No fundo isso revela que importante mesmo é o negócio. O negocio da arte!
Warhol,considerado um visionario da cultura pop, adorava cunhar frases de efeito.Sua frase:"A arte suprema é o negócio" explodiu na cabeça de seus cultuadores como uma causa. Um contingente de artistas saiu repetindo esse aforismo sem mesmo se dar conta do que representava.Afinal, nem todos tem o talento de Warhol.Em suas performances sociais diárias,atras das lentes de seus óculos com olhar de caçador de raposa, Warhol sussurrava para legião de seguidores que o prestígio do artista recluso era Velho, Novo era o brilho das celebridades, Um Novo onde o negocio da arte é uma ferramenta imprescindível.
Um negócio que, de um tempo para cá, ganhou mais visibilidade que a própria arte.
Alegrem-se com o Novo! Envergonhem-se com o Novo de novo.Ele é Velho!
A poesia:
Procura do Velho e do Novo
Bertold Brecht
Quando lerem seus papéis
Pesquisando, dispostos ao assombro
Procurem o Velho e o Novo, pois nosso tempo
E o tempo de nossos filhos
É o tempo das lutas do Novo com o Velho.
A astúcia da velha trabalhadora
Que toma ao professor seu saber
Como um fardo pesado demais, é nova
E deve ser mostrada como Novo.E velho
É o medo dos trabalhadores,durante a guerra
De aceitar os panfletos que tem o saber, deve
Ser mostrado como Velho.Mas
Como diz o povo: na mudança de lua
A lua nova segura a lua velha
Uma noite inteira nos braços.A hesitação dos receosos
Anuncia o novo tempo. Sempre
Determinem o Já e o Ainda!
As lutas de classes
As lutas entre o Velho e o Novo
Ocorrem também dentro de cada um.
A disposição de ensinar do professor:
O irmão não vê, o estranho vê.
Examinem todas as ações e emoções de seus personagens
Na busca de Velho e de Novo!
As esperanças da mercadora Coragem
São fatais para seus filhos: mas o desespero
Dos mudos com a guerra
Pertence ao Novo. Seus movimentos desamparados
Ao arrastar o tambor salvador para o telhado
A grande ajuda, devem enchê-los
De orgulho ,a energia
Da mercadora que não aprende, de compaixão
Pesquisando , dispostos ao assombro
Alegrem-se com o Novo, envergonhem
-se do Velho!

terça-feira, junho 15, 2010

Ciberespaço?Onde fica?Pra que serve?

Há algum tempo me sugeriram que falasse sobre o que leva tantas pessoas, eu inclusive, a manter contínuo contato através das redes sociais. Como entusiasta dessa onda achei que seria útil colocar algumas considerações sobre essa coisa chamada relacionamento virtual. Topei a idéia. Ocorre que escrever sobre um fazer que já se tornou quase um hábito é complicado.Além do mais , uma série de compromissos, datas e trabalho intenso mantinham meus pensamentos longe desse assunto.Fui adiando o intento enquanto pude.Afinal,sentar diante do micro e passear pelas paginas do Facebook,saber das pessoas,ler textos e poesias e trocar mensagens é um prazer,porém,falar sobre as coisas que fazemos e porque fazemos dá um trabalho danado e exige dedicação.Não basta um tempo livre.São tantas idéias que vagam distantes.Junta-las num bloco de notas demanda uma cabeça afim de encarar a missão.Abri as gavetas da mente e digitei algumas coisas. Depois de inúmeras divisões e subdivisões essa primeira parte ganhou uma forma que acredito ser legível.

Espero que tirem proveito.

Adriano De Aquino

06-2010

Ao contrario daqueles que atribuem à comunicação virtual um papel secundário que, por alguma razão “nobre”, digamos assim, os mantêm alheios ou fazem piadas sobre os que se dedicam intensamente as trocas virtuais, penso que a atividade virtual colocou no plano concreto alguns fatores de considerável relevância.Não apenas o mundo da comunicação institucional/empresarial-jornal, revistas, propaganda e marketing - sofreram e vêm sofrendo abalos em suas estruturas formais e de negócios. O mundo, depois do advento e profusão das novas tecnologias da informação e comunicação, não é mais o mesmo.

Isso é fato!

Mas, como aferir essas mudanças?Ou, como comprovar que a vida social mudou, para melhor ou pior?O homem emancipou-se de velhos hábitos, costumes e preconceitos? E os meios de produção, se alteraram substancialmente?Essas são questões importantes, todavia, por tangenciarem aspectos objetivos exigem indicadores técnicos apurados. Esse não é um campo de forte interesse em minhas reflexões. Isso não quer dizer que eu não leia ou me interesse por argumentos, estudos e livros que aprofundem esses itens. A Sociedade em Rede de Manoel Castell e a Cultura da Convergência de Henry Jenkins, para citar apenas dois trabalhos do gênero, supriram minha curiosidade sobre as aplicações da TI na sociedade contemporânea e suas conseqüências na cultura e na vida social. Seria inútil, pelo menos nessas reflexões, tentar argumentar por esse viés. Não conseguiria transferir para o leitor dados que pudessem contribuir para a compreensão do conjunto de indicadores que esses autores e outros mais fornecem de maneira clara. No entanto, no âmbito da observação e experiência pessoal, posso oferecer algumas notas sobre esse assunto

Recentemente, num encontro de amigos, esse tema veio à tona. Na ocasião ouvi uma serie de considerações contrarias a importância das redes sociais e coloquei algumas idéias sobre a substituição gradual dos meios de comunicação e sua influencia no transito de códigos sociais.

Observei que, em geral, as criticas a virtualidade se concentram em fatores econômicos (marketing pessoal vulgar, abusos contra o direito autoral, publicidade invasiva, etc.), na superficialidade da comunicação virtual e na atuação dos órgãos de inteligência que vasculham e monitoram as paginas da internet. Não duvido que esses fatores existam e que mereçam atenção e cuidado, contudo, uma das características da cultura é não submeter todos, de maneira hegemônica, aos insidiosos desejos de um poder predominante, seja econômico, político ou comportamental. Além do mais, definir como superficial as múltiplas possibilidades oferecidas pela rede de comunicação global é, em si, um diagnostico superficial. Todos sabem que a eficácia da cultura reside em sua dinâmica de constante mutação e, nesse sentido, sempre haverá desconfiança, dissidência, subversão e confronto com os valores impostos através da duvida sobre as intenções de uma noticia aparentemente “séria” veiculada num jornal, livro ou documento, ou por um post colado numa pagina de um site de relacionamento.

Na oportunidade propus que deixássemos de lado os aspectos econômicos, a espionagem e os riscos de invasão de privacidade que hoje afligem muita gente e olhássemos a internet como um sítio aonde a troca de experiências pessoais vem angariando dia a dia, maior valor. Alguns experts afirmam que os sites e outras ferramentas virtuais não tem se mostrado, no correr desses anos, eficientes maquinas de fazer dinheiro. Porém, sua rápida expansão vem gerando grandes prejuízos aos veículos de imprensa e as mídias convencionais. Talvez, por essas razões, a internet seja encarada por alguns como economicamente inconveniente.

Afinal, o compromisso com a noticia e a verdade dos fatos é mais conveniente quando gera recursos e sustenta um poder. Entretanto, o poder da grande imprensa, como todo poder, está sujeito a crises.

A crise da imprensa que hoje testemunhamos tem contornos graves.

É freqüente, em situações intricadas, se correr atrás de um responsável pelo prejuízo.

Já ouvi e li muitas explanações. A mais usual aponta a internet como a principal responsável pela crise da grande imprensa.

Será?

Não creio, melhor dizendo, não gostaria que a expansão da internet se concretizasse sobre a sepultura dos grandes jornais e revistas. Todavia, caso a internet seja de fato a principal responsável pelo prejuízo é bom que as grandes organizações da imprensa acelerem na direção correta, pois, tudo indica que a internet não diminuirá velocidade, ao contrario. Se a grande imprensa pretende permanecer tão poderosa quanto foi no passado recente, necessita urgentemente de um acelerador ligeiro e certeiro.

Assisti, dias atrás, uma publicidade da Folha de São Paulo veiculada na TV. Uma imagem bacana de um canto da cidade (São Paulo, certamente) é pano de fundo para a atriz Fernanda Torres anunciar as mudanças do jornal. Fernanda nos informa que a Folha mudou, sugerindo ao telespectador que o jornal adotou um novo estilo. A propaganda acertou na escolha da atriz para desempenhar uma mensagem informal. Figura e fundo se mesclam caprichosamente, despertando, de passagem, certa semelhança com muitos vídeos postados no Youtube.

Num ataque de São Tomé, visitei a pagina da Folha on line e constatei que mesmo não sendo uma propaganda enganosa, não deixa de ser uma mensagem equivocada.

É licito que a Folha anuncie. Afinal, ela precisa de novos leitores e, se possível, recuperar os que perdeu para a internet.Contudo,o êxito de tal desafio passa por questões mais complexas sobre as quais uma propaganda tem pouco poder de sedução.

Um leitor não compra apenas um jornal, compra uma quantidade de matéria jornalística bem tratada,credibilidade e uma boa leitura.

Se a propaganda que vi se comprovasse no acesso livre aos cadernos, as crônicas e outras matérias eu constataria, no ato, alguma mudança. Porém,assim como muitos jornais brasileiros, o acesso on line da Folha permanece restrito aos assinantes. A melhor propaganda de um jornal é seu produto e esse produto é feito por jornalistas e outros profissionais de imprensa que já constam da folha de pagamento da empresa. Por que pagar uma agencia de publicidade para anunciar um produto que só pode ser avaliado e credenciado através da leitura?

Essa pergunta torna-se mais evidente quando constatamos que qualquer navegante pode acessar livre e gratuitamente todas as matérias jornalísticas de muitos dos grandes jornais do mundo.

No meu ponto de vista o acesso livre às matérias jornalísticas não é o principal motivo que leva o leitor a abandonar a leitura dos jornais. Quando me pergunto sobre as causas que me levaram gradualmente a abandonar a leitura diária dos periódicos, quer dizer, do jornal impresso, e tento relacionar esse fato ao meu cotidiano na internet, a suspeita de sua responsabilidade na crise da grande imprensa torna-se um álibi frágil.

Motivações mais danosas para o gradual afastamento do publico podem ser investigadas em outros cantos. Por que não no equivoco das estratégias da grande imprensa para conviver e sobreviver às mudanças radicais dos últimos trinta anos?

Nesse período, pessoas com mais de 50 anos viram seu campo de trabalho virar de pernas pro ar. Indivíduos mais reticentes e mesmo os mais flexíveis foram empurrados para um novo tempo. Sujeitos de faixa etária produtiva foram compulsoriamente aposentados. Isso não ocorreu apenas no trabalho regular ou no emprego fixo de setores mais graduados da população. O fato é que uma multidão de pessoas foi excluída de uma participação econômica e social mais ampla. Gostemos ou não isso é um fato. Nas artes, na política, nos negócios e nas relações interpessoais ocorreram mudanças substanciais.

Essas reflexões advêm de uma duvida- como disse acima; se inúmeros experts afirmam que a internet não é uma fonte de lucros para todo e qualquer negócio, sobretudo para aqueles do campo da comunicação, por que seria para um jornal?

Os núcleos comerciais das empresas jornalísticas parecem desconhecer esse fato. Será que não sabem que se alguém tem interesse numa matéria especifica publicada por um jornal de acesso restrito, algum amigo de sua rede de relacionamento, assinante do diário, poderá lhe enviar a matéria inteira por email ou pelas ferramentas disponíveis nos sites de relacionamento? Simples assim!

Muitas pessoas parecem não entender e resistem em vão a uma nova realidade.

O fato é que a internet não atrai as pessoas porque usurpa os direitos das “commodities jornalísticas” (o slogan é de Murdoch que agora integra o mundo virtual por vontade própria. Acusou o Google de surrupiar direitos e comprou o site de relacionamento MYSPACE que até 2006 reunia 106 milhões de usuários registrados. Se o Myspace fosse um país teria a 11ª população do mundo - entre o México e o Japão).

O poder da internet reside no fato de que conecta milhões de pessoas interessadas em trocar experiências e divulgar suas produções, coisa que as empresas de comunicação não têm condições de oferecer.Quando ocorre, é fruto de interesses por vezes difusos.

Não é apenas a tecnologia rápida de comunicação, ferramentas, joguinhos, noticias atualizadas segundo a segundo que conferem valor crescente e, até certo ponto, incontrolável à internet. O livre trânsito e a franquia de espaços como as redes sociais, onde pessoas se expressam livremente, postam imagens, vídeos, textos, teorias, poemas e tudo mais que transita no dia a dia, vem credenciando a internet como um vetor de comunicação plural e democrático. É muito difícil, pra não dizer impossível, que as grandes empresas de comunicação consigam superar essas ofertas.

A adoção de um marco legal é uma medida positiva, creio que sua aprovação evitara o predomínio do vale tudo e dos abusos que circulam na rede,prevenindo grandes prejuízos às empresas e indivíduos .O governo brasileiro vem conduzindo de forma correta sua elaboração. Entretanto, qualquer tentativa, por parte do Estado,dos empresários e organizações privadas de comunicação de conter a expansão da internet através de medidas extremas, reverterá em conseqüências dramáticas para a liberdade de expressão.

Muitos navegantes manifestam a opinião que os anseios do homem ultrapassam as questões econômicas e que a informação é um bem comum que não deve estar sujeito apenas às diretrizes empresariais, ao gosto e ditames das editorias. Essas pessoas encontraram na internet um lugar para trocas produtivas.

É por essa e outras razões que milhões de pessoas buscam as redes sociais

Entendo que a multidão de experiências em transito possa parecer confusa e inócua para aqueles que se abrigam na duvida diante do novo e tendem a reduzir as trocas virtuais a questões factuais: O que fazemos aqui?Onde isso nos levará? O que tudo que dizemos e ansiamos pode ser realizado concretamente?

No sentido mais amplo essa pergunta não é nova. Precede a existência da internet. Foi feita repetida vezes por persas, gregos, romanos e toda a sorte de gente da antiguidade, do oriente milenar ao ocidente moderno.

A filosofia, no correr de sua existência expandiu o horizonte do saber, as religiões continuam garantindo a segurança celestial para aqueles que aceitam e obedecem a seus mandamentos e a ciência, um vetor do conhecimento supostamente mais equipado para responder essa questão ou uma parte dela, coloca, à medida que desvenda alguns mistérios, outros, mais complicados ainda.

Porém, nós, indivíduos, como nos posicionamos diante do que vem ocorrendo no mundo?

Aceitamos os postulados religiosos e vamos em frente, filiamo-nos a uma corrente do pensamento filosófico, nos abrigamos nas ideologias, nos entregamos de corpo e alma aos pareceres científicos?

O fato é que na vida cotidiana esses fatores são boa parte do tempo relevados, esquecidos. Enfiamos-nos em relações amorosas, em negócios e carreiras que nos transferem uma carga pesada de compromissos e obrigações.

Então, nos confrontamos com a missão de cumprir uma existência amorosa, realizar um trabalho que nos recompense, se possível enriqueça. Enfim, sair do anonimato, ser reconhecido e alcançar a felicidade. Dito assim parece simples, mas, sabemos, é um desafio que até Hercules temeria enfrentar. Ocorre, entretanto, que nessa missão estamos sozinhos. Afora os livros de auto-ajuda, nenhum texto sério, tratado científico ou teologia religiosa secular se aventuraria a responder a todos de uma só forma. As escrituras sagradas, as pesquisas científicas ou os textos filosóficos foram e são gerados na tentativa de responder as grandes questões do homem e da natureza, num patamar elevado onde a fé ou o método, nem sempre infalíveis, tornam-se opacos, diante das necessidades pessoais do dia a dia.

Bem! Então, o que fazemos aqui, no ciberespaço?

Entendo que um grande número de pessoas, cansadas dos modelos verticais de intermediação social e comunicação, busca um lugar onde possam trocar livremente pensamentos, experiências pessoais e produção. Hoje, com a internet, ninguém mais espera que um crítico generoso ou um jornalista sensível note e divulgue o quão importante é a obra de um poeta desconhecido ou de um artista extraordinário, sem visibilidade na mídia, ações, instalações, gestos e outros meios disponibilizados no atacado ou varejo da arte. Atualmente, o poeta navegante, seus amigos e fãs se ocupam de divulgar o que consideram admirável. Centenas de pessoas o lêem, comentam e apreciam. Esse é o maior valor que circula na internet. Trocando em miúdos; nesse local, o que você pensa, posta e comenta tem VALOR. Nada e ninguém têm poder para interromper, desviar ou adulterar esse fluxo. Nesse NOVO canto do mundo os diretores de seção e os editores de pauta até uma “nova ordem”, foram aposentados.

segunda-feira, abril 05, 2010

2010-Projeto para grande pintura


2010 Project
Studies for a large painting-Rio de Janeiro

segunda-feira, março 15, 2010

Capacitação Humana

Esse recente texto de Vargas Llosa, publicado na imprensa brasileira, me entristeceu.
A manifestação publica desse grande escritor agravou meu sentimento de vergonha quanto ao silencio dos intelectuais e artistas brasileiros na violência que vem sendo praticada pelo regime cubano contra seu povo. Vargas Llosa é um escritor consagrado e suficientemente rico para se dedicar apenas a aprimorar sua arte e usufruir os prazeres da vida. Porém, não é isso que esse homem faz. Ele se indigna! Não permanece apenas “literariamente” indignado, ele se mobiliza, participa de seminários a favor da liberdade de expressão e se manifesta publicamente contra a opressão, a tortura e a morte impetrada pelos regimes ditatoriais, onde quer que se encontrem.
Convivi com alguns intelectuais brasileiros de esquerda que se indignavam e manifestavam a favor da redemocratização, escreviam e subscreviam abaixo assinados mobilizando a sociedade civil. Hoje, onde foi parar o protagonismo público dos artistas e intelectuais?
No meu entender, os intelectuais de esquerda, simpatizantes do regime cubano, seriam as pessoas mais indicadas para abrirem um dialogo publico produtivo, que buscasse resultados objetivos e avanços concretos a favor de uma flexibilização do regime castrista. Salvo honrosas exceções, nada nesse sentido é ao menos cogitado. A maioria parece acreditar que o socialismo cubano é uma experiência política frágil que deve ser mantida a custo de muitas prisões e de milhares de mortes. Contudo, o regime castrista já dura mais de 50 anos. É, talvez, o regime político mais longevo e estável da América Latina. Será que esses intelectuais e artistas simpatizantes não percebem que o apoio fraterno indiscriminado vem funcionando como uma “carta branca” para o regime infligir o medo, o silencio, a dor, a prisão e a morte aos cidadãos que pensem diferente do governo?
As miseráveis crianças abandonadas nas ruas das grandes capitais brasileiras não recebem nem uma vírgula de apoio às suas causas. Contudo, quando qualquer individuo manifesta repudio ao que vem ocorrendo em Cuba, os simpatizantes do regime se perfilam na tropa dos apedrejadores dos “burgueses”, “imperialistas”, “colonialistas”, “capitalistas sanguinários”, “máfia de Miami”, e toda a lenga lenga constante do manual doutrinário, para justificar os horrores do regime.

Com a palavra:

MARIO VARGAS LLOSA
A decepcionante visita de Lula
O ESTADO DE SÃO PAULO – domingo- 07/03/2010

Minha capacidade de indignação política atenua-se um pouco nos meses do ano que passo na Europa. Suponho que a razão disso seja o fato de que, lá, vivo em países democráticos nos quais, independentemente dos problemas de que padecem, há uma ampla margem de liberdade para a crítica, e a imprensa, os partidos, as instituições e os indivíduos costumam protestar de maneira íntegra e com estardalhaço quando ocorrem episódios ultrajantes e desprezíveis, principalmente no campo político.
Entretanto, na América Latina, onde costumo passar de três a quatro meses ao ano, esta capacidade de indignação volta sempre, com a fúria da minha juventude, e me faz viver sempre temeroso, alerta, desassossegado, esperando (e perguntando-me de onde virá desta vez) o fato execrável que,provavelmente, passará despercebido para a maioria, ou merecerá o beneplácito ou a indiferença geral.Na semana passada, experimentei mais uma vez esta sensação de asco e deira, ao ver o risonho presidente Lula do Brasil abraçando carinhosamente Fidel e Raúl Castro, no mesmo momento em que os esbirros da ditadura cubana perseguiam os dissidentes e os sepultavam nos calabouços para impedir que assistissem ao enterro de Orlando Zapata Tamayo, o pedreiro pacifista da oposição, de 42 anos, pertencente ao Grupo dos 75, que os algozes castristas deixaram morrer de inanição - depois de submetê-lo em vida a confinamento, torturas e condená-lo com pretextos a mais de 30 anos de cárcere - depois de 85 dias de greve de fome.
Qualquer pessoa que não tenha perdido a decência e tenha um mínimo de informação sobre o que acontece em Cuba espera do regime castrista que aja como sempre fez. Há uma absoluta coerência entre a condição de ditadura totalitária de Cuba e uma política terrorista de perseguição a toda forma de dissidência e de crítica, a violação sistemática dos mais elementares direitos humanos, de falsos processos para sepultar os opositores em prisões imundas e submetê-los a vexames até enlouquecê-los, matá-los ou impeli-los ao suicídio. Os irmãos Castro exercem há 51 anos esta política, e somente os idiotas poderiam esperar deles um comportamento diferente.
DESCARAMENTO
Mas de Luiz Inácio Lula da Silva, governante eleito em eleições legítimas, presidente constitucional de um país democrático como o Brasil, seria de esperar, pelo menos, uma atitude um pouco mais digna e coerente com a cultura democrática que teoricamente ele representa, e não o descaramento indecente de exibir-se, risonho e cúmplice, com os assassinos virtuais de
um dissidente democrático, legitimando com sua presença e seu proceder a caçada de opositores desencadeada pelo regime no mesmo instante em que ele era fotografado abraçando os algozes de Zapata.
O presidente Lula sabia perfeitamente o que estava fazendo. Antes de viajar para Cuba, 50 dissidentes lhe haviam pedido uma audiência durante sua estadia em Havana para que intercedesse perante as autoridades da ilha pela libertação dos presos políticos martirizados, como Zapata, nos calabouços cubanos. Ele se negou a ambas as coisas. Não os recebeu nem defendeu sua causa em suas duas visitas anteriores à ilha, cujo regime liberticida sempre elogiou sem o menor eufemismo. Além disso, este comportamento do presidente brasileiro caracterizou todo o seu mandato. Há anos que, em sua política exterior, ele desmente de maneira sistemática sua política interna, na qual respeita as regras do estado de direito, e, em matéria econômica, em vez das receitas marxistas que propunha quando era sindicalista e candidato - dirigismo econômico, estatizações, repúdio dos investimentos estrangeiros, etc. -, promove uma economia de mercado e da livre iniciativa como qualquer estadista social-democrata europeu.
Mas, quando se trata do exterior, o presidente Lula se despe de suas vestimentas democráticas e abraça o comandante Chávez, Evo Morales, o comandante Ortega, ou seja, com a escória da América Latina, e não tem o menor escrúpulo em abrir as portas diplomáticas e econômicas do Brasil aos sátrapas teocráticos integristas do Irã.
O que significa esta duplicidade? Que Lula nunca mudou de verdade? Que é um simples mascarado, capaz de todas as piruetas ideológicas, um político medíocre sem espinha dorsal cívica e moral? Segundo alguns, os desígnios geopolíticos para o Brasil do presidente Lula estão acima de questiúnculas como Cuba, ou a Coreia do Norte, uma das ditaduras onde se cometem as piores violações dos direitos humanos e onde há mais presos políticos.
O importante para ele são coisas mais transcendentes como o Porto de Mariel, que o Brasil está financiando com US$ 300 milhões, ou a próxima construção pela Petrobrás de uma fábrica de lubrificantes em Havana. Diante de realizações deste porte, o que poderia importar ao "estadista"
brasileiro que um pedreiro cubano qualquer, e ainda por cima negro e pobre, morresse de fome clamando por ninharias como a liberdade? Na verdade, tudo isto significa, infelizmente, que Lula é um típico mandatário "democrático" latino-americano.
Quase todos eles são do mesmo feitio, e quase todos, uns mais, outros menos, embora - quando não têm mais remédio - praticam a democracia no seio dos seus próprios países, mas, no exterior, não têm nenhuma vergonha, como Lula, em cortejar ditadores e demagogos, porque acham, coitados, que desta maneira os tapinhas amistosos lhes proporcionarão uma credencial de "progressistas" que os livrará de greves, revoluções e de campanhas internacionais acusando-os de violar os direitos humanos. Como lembra o analista peruano Fernando Rospigliosi, em um artigo admirável: "Enquanto Zapata morria lentamente, os presidentes da América Latina - entre eles o algoz cubano - reuniam-se no México para criar uma organização (mais uma!) regional. Nem uma palavra saiu dali para exigir a liberdade ou um melhor tratamento para os mais de 200 presos políticos cubanos." O único que se atreveu a protestar - um justo entre os fariseus -foi o presidente eleito do Chile, Sebastián Piñera. De modo que a cara de qualquer um destes chefes de Estado poderia substituir a de Luiz Inácio Lula da Silva, abraçando os irmãos Castro, na foto que me revoltou o estômago ao ver os jornais da manhã. Estas caras não representam a liberdade, a limpeza moral, o civismo, a legalidade e a coerência na América Latina. Estes valores estão encarnados em pessoas como Orlando Zapata Tamayo, nas Damas de Branco, Oswaldo Payá, Elizardo Sánchez, a blogueira Yoani Sánchez, e em outros cubanos e cubanas que, sem se deixarem intimidar pelas pressões, as agressões e humilhações cotidianas de que são vítimas, continuam enfrentando a tirania castrista. E se encarnam ainda, em primeiro lugar, nas centenas de prisioneiros políticos e, sobretudo, no jornalista independente Guillermo Fariñas, que, enquanto escrevo este artigo, há oito dias está em greve de fome em Cuba para protestar pela morte de Zapata e exigir a libertação dos presos políticos.
O curioso e terrível paradoxo é que no interior de um dos mais desumanos e cruéis regimes que o continente conheceu se encontrem hoje os mais dignos e respeitáveis políticos da América Latina

terça-feira, março 09, 2010

A Fabula do Lobo e da Ovelha - versão pós -pós moderna


Desde o fim da IIª Grande Guerra, quando a hegemonia cultural se transferiu da Europa para os Estados Unidos, os europeus tentam retomar a liderança perdida.
Sabemos que toda perda impõem conseqüências psicológicas complexas.
Lutas duras e investimentos vultosos não conseguiram dar sustentação a ambição européia de retomar o centro do debate artístico/cultural. As tentativas mais objetivas, realizadas pelas políticas de estado europeias  transitaram, nos últimos 60 anos, entre a implantação de novos equipamentos -Beaubourg, New Tate,novos museus alemães,etc- e o crescente incentivo fiscal para a participação do capital privado nos negócios de arte e cultura.
No âmbito do mercado as ações mais agressivas visando alçar as alturas o preço da arte européia encontrou em Saatchi um agente eficaz. Às vezes imagino que esse brilhante homem de negócios é um agente secreto tipo 007. Ele se destaca de todos os demais. Sua potencia econômica e suas investidas táticas são tão bem feitas que lembram um plano estratégico elaborado pelos serviços de inteligência das agencias do governo britânico. Esse negociante inglês viu com clareza que a New Art inglesa seria  mais eficiente se tomasse de assalto o mercado norte americano, começando o ataque pelo foco central da arte contemporânea- Nova York. Foi o que fez. Aliou-se a Gagossian -outro agente secreto- e, montados em grosso volume de capital, deram inicio a uma nova fase da arte britânica em escala global.
Xinguem à vontade mas, até agora, o plano está dando certo e rendendo milhões. Saatchi inaugurou uma colônia artística britânica overseas muito influente e poderosa a contragosto dos artistas, críticos e marchands norte americanos. Contudo, o esforço europeu de centrar o foco no velho modelo das bienais continua afundando. Argumentos de lá e de cá não configuram nada que valha a pena comemorar. Tentativas de incluir a arte de países considerados periféricos até agora não surtiram resultados que abonem as 154 bienais espalhadas por todo o mundo. Ficam na mera ação de mostrar,mostrar e mostrar,porém, a integração cultural além fronteiras geográficas permanece um entrave real.
Segundo Carolyn Christov, a nova curadora de Kassel, “as bienais possuem uma certa independência territorial e independência enquanto laboratórios de experimentação para novas praticas artísticas e novos modelos de sociedade”. Só por essa afirmação amalucada já da pra sentir a bobagem que vem por aí. Pretender que, nos dias de hoje, um evento de arte seja o laboratório onde se processam as “novas praticas artísticas” e, pasmem, “novos modelos de sociedade” é um delírio juvenil. Nem os hippies de outrora, com a cabeça cheia de maconha, diriam tal sandice.
Pois, é! Será nas mãos e na cabecinha dessa moça que os alemães pretendem dar o novo recado estético ao mundo. Vocês não esperam que eu contra argumente o laboratório de uma doidona. Processar, em circuito fechado, uma nova arte, lembra doutrina de estado fascista. Paro por aqui!Não vale a pena ir adiante, pois, qualquer movimento que exclui o que esta sendo processado aqui fora, no real e no cotidiano, é tema para agentes da KGB que, alias, já encerrou sua missão no fim da guerra fria.
Nesse conjunto de fatores as ações mercantis, desavergonhadas e ultra agressivas de Saatchi soam como algo mais eficiente, compatível com o tempo de predominância econômica sobre todas as coisas e, portanto, passível de ser discutido,contestado e atacado.
Já, os “bonzinhos” gestores das Bienais, protegidos por paradigma falso e mentiroso, de interação radical com a cultura e,supostamente, desvinculados do mercado, praticam o mal maior para as artes de nossos dias.

domingo, fevereiro 28, 2010

A partilha do sensível*


Adriano de Aquino

Venho, há algum tempo, rebatendo a pratica de alguns autores de ensaios sobre a produção estética da atualidade. As recorrentes citações de trechos do pensamento de importantes intelectuais ligados ao modernismo me mobilizam. No Brasil, essa é uma pratica corrente. A maioria nem ao menos se esmera em tecer considerações mais profundas sobre os aspectos das citações utilizadas. Apenas as adéquam a qualquer obra que elogiam. Em geral as transcrevem na forma em que se apresentam. Essas considerações não se dirigem aos pesquisadores sérios que investigam as idéias de notáveis pensadores do passado. Elas permanecem tão importantes quanto necessárias É bom deixar claro que admiro inúmeros pensadores do modernismo. Suas idéias foram e são ainda fundamentais para o entendimento de um período histórico que deu enorme contribuição ao pensamento e resultou em avanços consideráveis no campo do conhecimento, do fazer e da percepção da arte. Consolidaram-se no tempo as férteis leituras das obras de ilustres pensadores, dando margem, inclusive, a uma série de analises sobre as obras e as idéias mais influentes no período que se comprime entre as ultimas três décadas do século XIX até os anos 60/70 do século XX.
Também é compreensível que artistas e pensadores vinculados à década de 60/70 ainda tenham um embate produtivo com a matriz modernista e seus desdobramentos. Contudo, não é compreensível que autores atuais insistam em reprisar sem um acréscimo, as idéias de alguns pensadores da escola de Frankfurt, por exemplo. Nesses casos o que me parece claro é o objetivo de cobrir teoricamente a produção estética contemporânea com algo alheio a ela, porém, de qualidade inquestionável. Isso me parece um disparate. Varias razões me levam a supor que esse procedimento tem uma intenção estratégica fundada em equívocos fatais. Um dos mais evidentes se encaixa no que chamo de apoplexia funcional.
Não precisa ser um gênio para ver que as relações entre estética e política, nos últimos trinta anos, são em tudo diferentes dos litígios e dos recursos disponíveis no modernismo. Acho desnecessário explicitá-los.
A autonomia da arte e a rejeição desse axioma eram dois focos do discurso da modernidade e integravam o mesmo processo histórico. Esse embate se apresentava para os artistas do período como uma questão original e muito importante. Todavia, para os artistas da atualidade, essas premissas não encontram eco.Ainda que os pensadores mais importantes da modernidade tocassem em outros aspectos igualmente importantes da arte, as questões relativas à autonomia ou a vinculação da criação artística ao meio sociocultural e às ideologias políticas, eram foco constante de suas preocupações. Walter Benjamim, o pensador mais citado em textos sobre arte contemporânea, adentrou esse campo. Suas teses tangenciam aspectos dessa autonomia. Escritas há 74 anos evidenciam feitos multiplicadores do fazer artístico ao mesmo tempo em que afirmam que “as massas adquirem visibilidade graças à aparição das chamadas artes mecânicas – respectivamente a fotografia e o cinema”. É licito entender nessa afirmação uma assertiva de cunho social transformador o que torna compreensível, décadas depois, a pontificação de Joseph Beyus: "Todo mundo é um artista."

Não podemos desprezar o fato de que Beyus foi consagrado na segunda metade do século XX.Suas interjeições dialogavam com a própria modernidade. Hoje, entretanto, seria ridículo repeti-la. Não teria nenhum efeito sobre a produção estética ou mesmo sobre o publico de arte.
Bem, apesar disso, os escritos sobre arte contemporânea continuam citando trechos de Walter Benjamim como se fossem profecias cumpridas, edificadas e visíveis nas obras da atualidade.
Será implicância não enxergar paralelos concretos entre a produção contemporânea e o pensamento de Benjamim?
Ou, as apropriações indébitas se servem da grandeza alheia somente para permear suas vazias explanações?
Qualquer resposta só disfarçaria a intenção.
Um olhar atento ao interior dessa pratica revela o intuito de reduzir a noção de modernidade.
Uma pena! Nessa estratégia todos perdem. Perde um grande pensador, o amante de arte e o leitor interessado.
Todavia, há alguns anos, pensadores sérios vêm trabalhando intensamente sobre a transição cultural que se impõem no tempo presente.Jacques Rancière (n. 1940, Argélia) é um deles. Professor Emérito de Estética e Política na Universidade de Paris VIII é um pensador dedicado ao estudo do nosso tempo. Num trecho do seu livro A partilha do sensível* ele dispõe suas idéias sobre uma arte que “afirma a pura potência de arte explorando os poderes próprios do seu médium específico”. Mais além ele aponta o discurso sectário da utopia pós-moderna que intenta diluir a arte na vida.
No capitulo intitulado "Das artes mecânicas e da promoção estética dos anônimos" Rancière estabelece paralelos com o clássico ensaio de Walter Benjamin “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”. Contudo, evidencia uma contraversão sobre certos termos da tese benjaminiana.

Poderia dizer que se trata de uma critica contundente à famosa tese de Walter Benjamim. Nesse intento Rancière acrescenta algo ao que antes havia nas analises sobre as idéias de Benjamin que falam do assombro que as novas técnicas geraram na modernidade: “as massas adquirem visibilidade graças à aparição das chamadas artes mecânicas, respectivamente a fotografia e o cinema”.
Rancière não só discorda dessa relação como é peremptório ao afirmar que, nesse ponto, “é preciso que se tome as coisas ao inverso”.
A partir daí podemos vislumbrar um pensamento que, referindo-se criticamente a alguns paradigmas caros a modernidade, cria um novo patamar para o observador e estabelece relações mais perceptíveis sobre as atitudes e obras contemporâneas e o tempo em que são produzidas.
Em síntese, abre uma nova perspectiva para o exame dos objetos, ícones e signos estéticos que hoje transbordam para a realidade.
Usei esses dois parágrafos com o objetivo de salientar os efeitos da apoplexia funcional contida nos escritos da arte contemporâneas mais influentes em nossos dias. Eles sequer imaginam as contradições produzidas pelo tempo. As idéias dos mais célebres pensadores do modernismo estão aprisionadas em redomas de cintilante mediocridade. Servem,para alguns críticos da contemporaneidade, como replicas carbono desbotado das idéias produzidas no alto modernismo.
Em suma, nada de novo se acrescentou as idéias precedentes. Apesar disso, do outro lado da vitrine, parte da vanguarda contemporânea acredita ter virado a mesa do modernismo ou uma pagina da historia. Ela parece satisfeita com o que lê. Porém, o leitor mais atento sabe que as idéias enunciadas não confirmam nenhum fato diferente.
Estou certo de que existe aqui, entre nós, pensadores sérios e interessados em aprofundar suas analises sobre o fenômeno estético contemporâneo à luz de novos conceitos. Entretanto, infelizmente, essa vertente não tem a visibilidade necessária para se fazer ver.
Complementando: Existe um pensamento contemporâneo original?
Creio que sim!
Apenas, não encontrou visibilidade.


sexta-feira, fevereiro 26, 2010

A marcha dos templários

O hiperbolismo tornou-se a maior tortura da vida contemporânea. É impossível visitar uma grande exposição sem ser invadido por musicas temáticas intermináveis, vídeos, documentação iconográfica que, a partir da Grécia clássica, pretende explicar o processo de trabalho de um artista moderno. Textos longos, preenchido de citações intermináveis, impossíveis de ler em pé, colados nas paredes, etc. Essa mania, a titulo de museografia contemporânea, invadiu a vida atual de tal forma que mesmo o simples ato de ir a uma churrascaria comer um naco de carne te obriga engolir contra a vontade, produtos audiovisuais, jogos de futebol, programas de auditório, BBBrasil e todo lixo da comunicação empresarial que berra dos aparelhos de TV espalhados pelos botequins,bares e restaurantes.Não ha digestão que agüente!Um fenômeno similar envolve o individuo que vai a uma grande mostra de arte. Ele sai de lá tão exausto que mal consegue lembrar as obras que viu, admirou ou criticou. Se conseguir sair com os neurônios intactos o visitante dá de cara numa lojinha do museu oferendo réplicas das obras mais consagradas da exposição na forma de souvenir e nos suportes os mais bizarros. Cinzeiros com a estampa de Mona Lisa, candelabros inspirados nas esculturas de Brancusi, porta livros tipo Richard Serra, prendedor de gravatas Salvador Dali e por aí afora.

Silencio!

Ah! Como eu gostaria de voltar à sociedade humana. Onde os indivíduos transitavam soltos por entre os objetos de arte e as coisas do mundo. Sentavam-se nas praças em busca do simples prazer do passeio e para observar pessoas, bichos e vegetação, sem a obrigação de escutar anúncios religiosos ou rádios estridentes. É musica por toda parte!Pior, nenhuma delas ouviria por vontade própria. Não te perguntam se gosta ou se quer ouvir musica naquele momento, afinal você está num shopping center – o mundo é um shopping center! O ambiente seguro e climatizado dos corredores limpos e aromatizados, cercado de vitrines cintilantes, transfere ao individuo a sensação de segurança e o estimula a percorrer os labirintos infindáveis e se deliciar com armadilhas do desejo. Lá fora, distante, as ruas fedorentas e perigosas.

Os museus seguem o modelo. A musica funcional, uma espécie de facilitador para o entendimento do contexto no qual a exposição se insere, se espalha por entre corredores e cantina. Hoje, tem o poder de um pacto do qual você jamais foi consultado.

Gostaria de voltar a sentar num bar pelo prazer da conversa e da boa bebida, sem ser intimado a saber o resultado da ultima rodada. Poder ir a uma exposição, ver obras de arte pelo encanto que a experiência visual me proporciona. Ir a uma grande mostra e ter a possibilidade de me perder e me achar através dos meus próprios olhos. Poder confrontar a riqueza da diversidade criativa sem ser impelido por sons, vozes e orientações onipresentes.

A cultura hiperbólica desintegra o individuo. O que interessa são as mensagens e a eficácia do comandos.

Mundo chato!

domingo, fevereiro 14, 2010

Riqueza Ostensiva - Prazer & Punição








Adriano de Aquino


O que se passa na alma dos artistas de grande visibilidade e alta cotação de preço?

As declarações dos mais notáveis “stars” das artes plásticas me lembram diálogos dos filmes hollywoodianos de quinta categoria.

Tornaram-se celebridades e hoje são ricos. Poderiam apenas dar um bye bye pra plebe e seguir adiante pintando e gerando produtos estéticos variados. Mas, não! São criaturas boas, imbuídas de nobre causa pública. Que merda! Os filmes de quinta categoria não têm grana para pagar o cachê da Bete Davis. Não há perversos na arte pós moderna! Se fossem ao menos espirituosos, tratariam com ironia a fama, a fortuna, seus currículos artísticos e saldos bancários. Ora, diria Dali, não esqueça que a mediocridade intelectual de alguns artistas não lhes permite nem mesmo abandonar a velha culpa cristã. Eles podem ser enormemente ricos e famosos, porém, continuam se sentindo miseráveis e rejeitados pela mãe. Eles clamam por reconhecimento para curar o maldito ser abandonado que habita seu interior. Jamais trepariam diante da cúpula do Vaticano?(dizem que Dali adorava trepar olhando campanários cristãos).

É constrangedor ver "stars" das artes plásticas se justificando na mídia: - “minha obra é expressão artística original e não apenas preço. Minhas obras não são decorativas - a maioria não é mesmo, são feias pra cacete - ou arranjos florais, etc. A tietagem que cerca as celebridades – críticos de plantão, marqueteiros, assessoria de imprensa etc.) põe a língua pra fora e faz careta pra multidão:- Vocês são uns invejosos! Não conseguem aceitar o sucesso alheio!

Em minha opinião as celebridades se estressam demais quando se metem a dar declarações éticas sobre seu sucesso na imprensa. Parece uma síndrome aristocrática oriunda da extrema visibilidade à execração publica na Praça de La Bastille.

Esforçam-se em explicar o sucesso como conseqüência inesperada, oriundo apenas do próprio talento. Nesse ponto da entrevista tombo em lagrimas. A ambigüidade da mídia provinciana em relação às celebridades é interessante. Alguns ícones são atacados mesmo sem abrir a boca, outros, cultuados por falarem as maiores asneiras. Todo poder tende a querer fazer justiça com as próprias mãos. Há casos em que a armação é tão aparente que me nego tocar no papel jornal temendo jamais conseguir remover as manchas. Lide, foto e texto são puro marketing. Perguntas e respostas transitam na ordem do banal, O fazer artístico e as idéias são abordados como coisas corriqueiras. Pra finalizar, com tom dramático, levantam um tema polemico (?) -na imprensa brasileira a mais leve discordância é uma polemica- sobre a possível critica de artistas e público a obra do consagrado autor.

Ora, quem se importa com isso? Já que críticos fantásticos - alguns nomes estrangeiros desconhecidos do repórter além de referencias a obras espalhadas em coleções milionárias mundo afora, prêmios, comendas etc. que tem muito mais valor que a consciência, publica ou privada.

É! Dali tem razão.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Exercicio de relativismo cultural


Adriano de Aquino
Jan-2010
Sob o manto das artes alguns personagens falam sobre suas idéias e obras insinuando que falam de uma verdade, um fenômeno singular, próprio ao individuo e a criação. Atestam que fora a sua verdade, a verdade não existe. Essa velha astúcia relativista, que serviu durante um período como fator desestruturante para antigos regimes ideológicos, tornou-se um princípio para a contemporaneidade. Pronunciamentos assim infestam os discursos artísticos. É impressionante ver artistas falarem de conceitos complexos sem nada saber sobre o que estão falando. Bem, por isso são artistas. Podem se apropriar “esteticamente” de discursos filosóficos e políticos sem saber nada sobre seu significado histórico social. Afinal, para alguns, a única verdade que sobrevém do caos é a verdade do artista. Ninguém ira lhe questionar. Ou melhor, ninguém vai perder tempo com isso!
A arte é meu campo de atividade por isso afasto para longe a falta de paciência e me proponho a levantar a poeira que se acumula sobre o acervo de bobagens que se instalou no ambiente artístico.
Na ultima palestra que participei tive a infelicidade de ouvir, de novo, a repetitiva, exaustiva e desinteressante versão particular da verdade. Foi longa e extenuante, se fosse mais curta seria apenas chata. Não reproduzirei aqui para não cansar o leitor. Também, seria desnecessário, é uma retórica bastante comum no meio artístico. Infelizmente, nesse dia fatídico meus neurônios não estavam propícios ao estado alfa. Ouvi, do principio ao fim. Num determinado ponto da dissertação, o tom blasée, típico dos indivíduos que se sentem enfastiados de comunicar a outros suas tramas mentais superiores, me irritou. Não foram as idéias, tenho certeza, era pura tolice, foi seu tom altivo, vaidoso e cheio de si.
Não resisti. Ao final da sua explanação o microfone voltou para a mesa e, não sei porque, pedi a palavra. Já havia falado antes, porém, a verborragia pedante do individuo funcionou como um interruptor nos meus miolos.
Disse eu:
-Sim, entendo! Segundo sua lógica, a verdade não existe. Certo?
-Sim, respondeu ele
-Bem, nesse caso, o que aconteceu com a mentira?
-Ahn!!!???
-Você nunca se colocou essa questão?
-Não!
-Então, seguindo seu raciocínio, se a verdade não existe logo a mentira também deixou de existir. Concorda?
-...!
-Seria incorreto pensar que, para você, a verdade e a mentira têm o mesmo valor?
-...!
-Nesse caso, se são iguais, nada me impede dizer, sem te ofender, é claro, que sua verdade é uma mentira.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Planta baixa dos sentidos artisticos contemporâneos

Adriano de Aquino

Termos arcaicos guardam mistérios encantadores para quem gosta da "onda" do pensamento. Uma das melhores coisas da vida é penetrar labirintos nos quais só se percebe algumas pistas quando já esta dentro dele.
Ah!Que prazer teria se as instalações fossem assim!Templos/labirínticos multi dimensionais que proporcionassem experiências únicas e estimulantes. Porém, na atualidade, os espaços míticos perderam a graça. Uma planta e indicações de percurso desviam o individuo para um trajeto projetado. Textos teóricos, miríades de citações das mais diversas correntes do pensamento moderno se fixam na entrada das instalações pós modernas. É uma espécie de mapa mental.Quase esqueci as placas de honrarias:Pavilhão Walter Benjamim;Pavilhão Merlau Ponty;Pavilhão Adorno(gostando ou não, de rituais consumistas). Seguindo as indicações curatoriais especialmente criadas em laboratório, o visitante não corre o risco de se perder, mas, também não tem nenhuma chance de achar, ou melhor, encontrar algo além da sensação de êxtase coletivo. Algo similar a um culto religioso arcaico, do qual o fiel só conhece os milagres.Na marcha, os "cordeiros" compartilham códigos, não descobertas. O fenômeno é a marcha em direção as Mona(s) Lisa(s) renascidas. Por muito menos Cristo expulsou fariseus do templo. Deus morreu para que a ciência triunfasse. Uma causa nobre, diria. Hoje, uma orda de templários Bienalicos (sic) faz o percurso da mesma forma que multidões de muçulmanos se dirigem a Meca. Celebrações coletivas. Nem Deus, nem Ciência (conhecimento) nem Arte.
Afinal, pra que?


quarta-feira, fevereiro 10, 2010

29 ª Bienal de São Paulo:Mais do mesmo!


Reedição ampliada do texto
Bienal de São Paulo: Um morto barulhento
Postado em 04/10/2006 no HiperBlog
Controvérsias reaparecem a cada nova edição da Bienal São Paulo. Elas se originam do esgotamento das formas de mostragem de arte, conceituação e modelo de gestão dos grandes eventos. Muitos afirmam que as mega-exposições há muito deixaram de ser um elo ativo entre a pluralidade das experiências estéticas e o publico. Essas opiniões coincidem com os protestos de vários grupos contra a investida mercantil sobre os produtos artísticos, associados a esse tipo de evento.
Críticos das feiras de arte e das grandes mostras internacionais focam suas ofensivas sobre os métodos do marketing cultural que enfiou turismo, antropologia, divertimento, arte e cultura num mesmo saco, melhor dizendo, num mesmo ambiente refrigerado e lacrado contra ruídos da cultura contemporânea que acontecem do lado de fora.
As grandes mostras tornaram-se paquidermes em processo de desintegração. Os curadores investem sobre o que resta de orgânico num material em decomposição.
As sucessivas mudanças artísticas, provenientes, entre outras coisas, da dinâmica da era dos meios eletrônicos, expandiram consideravelmente as formas de expressão.Qualquer pessoa minimamente informada sabe que a variedade de informações hoje disponibilizadas, produziu um enorme impacto na vida social. Acreditar que a criação artística ficou imune, protegida no casulo da genialidade criativa é tolice. Para quem enxerga para além da propaganda o que se evidencia na manutenção do velho sistema é uma estratégia que beneficia grupos de interesses mercantis e econômicos.
Porém, os curadores não vêem isso e se prontificam a salvar os restos mortais da instituição reabilitando-a como uma espécie de zumbi transglobal.
Será que acreditam poder voltar no tempo e nos surpreender, reeditando as polêmicas bienais dos anos 60 e 80?
A Bienal de Veneza de 1980, que serviu de vitrine à versão de Charles Jencks para o pós-modernismo, decretou o fim desse modelo de exposição. Essa Bienal foi o último elo de ligação efetivo das grandes mostras com as questões mais radicais da arte e que teve como resposta o entusiasmo do público.
Como esse fato histórico não é uma advertência contra a mesmice, o publico é coagido a assistir as repetições infindáveis do mesmo show, com pequenos cortes particulares. Lamentavelmente, mais medíocres.
Os cientistas, em coro com alguns artistas, acham melhor isso do que nada.
Francamente, sem querer estragar a festança nem sujar a vitrine, prefiro o nada. É mais estimulante.
Se o sopro criativo dos curadores, ou melhor, dos atuais “cientistas da criatividade” conseguisse superar os feitos do passado marcando uma diferença crucial com o sistema de arte dominante eu não seria tão incrédulo. Porém, não é o que vemos. As grandes mostras de arte da atualidade são como rituais arcaicos que orbitavam em torno dos curandeiros. Os cientistas da criatividade são hoje cultuados e temidos como os curandeiros do passado remoto. Essa nova espécie de “meteur em scene” vem perturbando o sono de muitos artistas. De um tempo para cá o mundo das artes foi envolvido numa atmosfera artificial carregada de ansiedade.
Motivos não faltam.
O mais significativo tem origem nas vertentes da vanguarda contemporânea que, ao contrario da vanguarda histórica, derreteu o outsider no insider.
As obras que não se encaixam no esquema em voga não são nem outsider nem insider, portanto, não merecem atenção dos cientistas da criatividade.
Eles não almejam apenas organizar uma mostra de arte, pretendem isso sim, precipitar-se à história.
As atitudes artísticas que antecederam os últimos trinta anos, marcadas pela transitoriedade, romperam barreiras e descortinaram conceitos, trazendo à tona novas formas de expressão. Uma enorme variedade de estilos coincidiu com a atração generalizada pelo efêmero, despindo as obras de arte das características outrora reconhecíveis como “arte burguesa”.
Porém, tais atitudes resultaram num paradoxo que parece não preocupar alguns artistas e gestores das instituições culturais. Dentre as inúmeras questões a mais aparente é a consolidação de um estilo mundial de arte inscrito nas performances, instalações, intervenções coletivas, grafites, pichações e outros gestos identificados como formas de arte mais representativas da atualidade.
Ocorre, entretanto, que tais gestos já duram mais de vinte anos, ou seja, se projetam acima da média de vida de quase todo estilo internacional de arte. A história é farta em exemplos que nos confirmam que a longa permanência de um modo de arte conduz ao esgotamento levando grande parte da produção a procedimentos quase mecânicos e a ostensiva banalidade. É inconcebível, mesmo para um leigo, que artistas, diretores e curadores desconheçam o calendário das correntes estéticas da segunda metade do século XX, quando a Bienal de São Paulo passou a existir.
Uma rápida olhada sobre a descontinuidade de estilos pode esclarecer muita coisa. A pop art que surgiu na Inglaterra de meados dos anos 50 realizou todo o seu potencial na Nova York dos anos 60. O expressionismo abstrato dominou as décadas de 1940 e 1950. O minimalismo desenvolveu-se durante os anos 50/60 etc.
É, portanto, no mínimo curioso que as diversas variantes da produção artística atual, ligadas às referencias artísticas que antecedem os anos 80, sejam tão longevas.
Além disso, a relutância da Bienal de São Paulo em permanecer surda às criticas contra a idéia de reunir obras de arte em torno de um tema (2010- Arte Política –por exemplo) é uma teimosia típica das dinastias do passado. Na edição 2006, a falta de inspiração da cientista da criatividade responsável pela organização da Bienal, a levou a se apropriar de um “mote” de outros campos do saber para conferir substancia a sua proposta de vinculação da arte a teses de antropologia cultural. Foi nesse nicho que a cientista da criatividade escolheu o titulo Como Viver Junto, inspirado nos seminários de Roland Barthes no Collège de France realizados em 1976-77. O que essa escolha nos revela? Dentre os muitos tropeços, a falta de parâmetros apropriados ao tempo presente e uma enorme incompetência frente à diversidade da produção artística da atualidade. Reflexos objetivos dessa política podem ser vistos na perda da visibilidade pública das expressões estéticas comprometidas com a tecelagem de tramas simbólicas, ou seja, narrativas. Em resumo, na sua extensão mais objetiva essa política impõe uma visão “única” da arte da atualidade.Atitude velha e comum ao autoritarismo. Seja em São Paulo, Kassel, Lisboa, Madri, Istambul ou Turquistão Oriental.

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Neurônios Ágora- O lugar do afeto



-Pai, por que a obra de um artista fica mais cara depois que ele morre?
O flash de respostas automáticas para filhos estava prestes a ser disparado quando a sensação de que algo mais poderia ocorrer se eu consentisse, tomou conta dos meus sentidos. O acesso ao diálogo aparece veloz como um raio, se não for apanhado pela cauda desaparece tão rápido quanto surgiu. A Ágora, para os gregos da Era clássica, o lugar da palavra, local de múltiplas atividades onde as pessoas conversavam sem que houvesse uma voz dominante, acontece em nossa vida a todo instante sem que às vezes percebamos. Isso porque, no meu entender, a matriz de Ágora se transmutou no correr dos séculos convertendo-se num valioso patrimônio da espécie humana. Por não possuir os contornos físicos de outrora, muitas vezes o acesso aos seus domínios parece invisível. Não vamos mais para Ágora, não trilhamos os caminhos e partilhamos incidentes para chegar a ela. A Ágora se moldou em nossos neurônios e, muitas vezes, não lhe damos a devida atenção.
A pergunta do Antonio atravessava as colunas de Ágora e quase escapava em respostas pré-concebidas quando fui alertado pela enorme banalidade contida no ato de restringir as respostas a sua idade cronológica. Vencida essa premissa iniciamos o dialogo que aqui reproduzo.
_Antonio, existem várias respostas para sua pergunta. Vou me fixar em duas opções para tentar te passar como entendo sua dúvida: a primeira opção é curta e grossa e se reduz ao fato de que hoje em dia o preço das coisas se confunde com valor.

_Mas, pai, não é a mesma coisa?
_Não, valor e preço são dois fenômenos distintos. O preço das coisas está ligado a um mecanismo que reúne uma gama de fatores vinculados ao sistema produtivo e ao lucro. Esse mecanismo, fundado nas necessidades de troca de produtos e serviços entre as pessoas, deu origem a complexos conceitos econômicos no correr da historia humana. Por força do habito aprendemos a lidar com esse engenho sem saber muito bem como ele foi construído ou como funciona.Muitos pensadores esmiuçaram esse mecanismo.Um filosofo alemão elaborou uma critica a esse sistema que deu origem ao termo "mais valia",ainda hoje muito debatida. Mas, o que importa é que o poder desse sistema, a tradição arraigada, a falta de tempo ou paciência reduzem a questão para o cidadão comum a dois pólos: caro ou barato. Se for caro, porém, precisarmos ou desejarmos muito, pode-se possuí-lo através do financiamento. Mas, ainda que o financiamento altere a composição do preço falar sobre ele nos levará para longe do objetivo de nossa conversa. O fato é que a formação do preço, via de regra, se basea em procedimentos, formulários, planilhas e indicadores que circundam a rede produtiva e definem seu custo e margem de lucro. Hoje, na pratica você vivenciou o fenômeno do preço versus valor quando ficou em dúvida se comprava o livro que acabou comprando, lembra? Venceu a decisão de comprá-lo porque, gostando do que aquele escritor escreve você resolveu pagar o preço.
_Claro!Só fiquei em dúvida porque estaria com menos notas na minha carteira.
_Exatamente!E, você só comprou porque entendeu que o que aquele escritor escreve tem valor para você, já que o que está escrito numa nota de dinheiro nunca te interessou ler, não é verdade?
_É mesmo!Nem sei o que está escrito numa nota. Só vejo cor e números.
_Pois então, o preço das coisas que rodeiam nosso dia a dia só se torna complicado em circunstancias especificas, sobretudo, aquelas que, ao contrario dos produtos industriais disponibilizados no comercio, tem características únicas. Por exemplo, parte da formação do preço do livro que você comprou tem características similares a de todos os livros fabricados por todas as editoras. Porém, algo de especifico o diferencia dos demais e pode explicar uma parte da questão; seu autor. Os segmentos, industrial e comercial, de um livro são mais ou menos iguais,dependendo, é claro, da qualidade de impressão, do papel usado e demais itens que entram na fabricação e divulgação do livro. Isso significa que acolá do talento do escritor e, em diferente dimensão, o fato de que o preço que ele cobra por sua criação ser um item específico, todos os demais que formam o preço final do livro depende de métodos produtivos mais ou menos parecidos. Depois de pronto e colocado na estante das livrarias a única coisa que o diferencia dos demais, afora o preço e o volume de vendas, é a qualidade literária. Esse predicado não é adicionado a um livro pelo fato de ter bom ou mau acabamento industrial, da popularidade ou a fama do escritor. Um escritor muito famoso tende a vender mais livros que um menos reconhecido, contudo, esse fato não quer dizer que o que vende muitos livros é um escritor esplêndido, superior aos demais. Porém, a grande vendagem de um autor aumenta a quantidade de livros a serem impressos e distribuídos. Esse procedimento torna um determinado livro um objeto com maior visibilidade e, por conseqüência, mais ambicionado que outros. Mecanismos alheios a qualidade da escrita podem subitamente tornar um livro de baixa qualidade literária em best- seller atraente para o publico e lucrativo para as editoras. Contudo, nenhum desses fatores é expressão inconteste do valor de uma obra literária.
_Por que não?
_ No inicio da conversa disse que preço e valor são coisas diferentes.
_É, disse!
_Você entendeu meu comentário de como o preço se cola sobre as coisas?
_Entendi!
_O vinculo dos escritores com a indústria editorial e as formas de circulação do livro desenham a fronteira na qual o escritor ganha seu sustento. É nesse lugar onde se organiza o preço de seu trabalho. Se carecer de mais grana para viver ele terá que escrever em jornais, revistas, dar aulas ou fazer conferencias. Na maior parte dos casos, fazer tudo isso numa só vida. Isso quer dizer que o resultado econômico de seu trabalho principal, ou melhor, o preço de seu trabalho criativo, estará sempre ligado ao contrato com seu editor e a venda dos seus livros. Os escritores não produzem objetos que escorregam para uma alternativa que admita uma oscilação, para cima, dos preços praticados pelas livrarias e do qual seja o único beneficiado, Alguns exemplares de uma edição magnífica podem até se tornar raridades e,quando adquiridos por colecionadores, atingir grandes somas. Todavia, os escritores não estarão vivos ou, se estiverem, não receberão nem um tostão por isso. Espero que essas considerações sobre a formação do preço tenham sido claras.
_Entendi sim!
_Já o valor da obra de um artista independe dos fatores relacionados ao preço. Digo isso porque o valor, ao contrario do preço, é gerado dentro nós, se processa no cerne da nossa consciência e é fruto das múltiplas experiências que vivenciamos desde o nascimento. Nossa visão do mundo se reflete numa lente interior, digamos assim, que vai se ajustando à medida que vamos coletando sensações, experiências, talentos e saberes vida afora. Consciência e valor são, portanto, irmãos gêmeos, poderia dizer que são extensões de um mesmo ramo molecular. As causas externas são fatores cruciais na formação de valor de uma pessoa porque agem diretamente no desenvolvimento da própria consciência. A consciência que nos possibilita escolher o que avaliamos como precioso se expande à medida que nos emancipamos das normas herdadas, da tutela de terceiros e das fórmulas consagradas . Num sentido figurado, consciência e valor atingem melhor desempenho quando se fundem na forma de uma fita circular, sem rupturas ou emendas. No ambiente onde se desenvolve o valor/consciência a fusão preço/valor se desintegra e as doutrinas dos arautos da verdade absoluta tornam-se ecos distantes,parecidos com os gestos e berros dos feirantes. A arte, a ciência, a filosofia, a religião, a ideologia, a historia, a política e todas as abas do pensamento se acumulam num dique que chamamos cultura. Nas fissuras da parede de contenção vivem os artistas. É lá que surgem as belas e inquietantes obras de arte. Quando um artista morre um desses vazamentos se fecha. Suas obras se tornam raras e, por uma serie de razões, mais cobiçadas. Essas coisas acontecem porque a matriz que as gerou não mais existe. Como nunca sabemos o que fazer quando algo que nos abastecia deixa de existir, abrimos um gargalo automático a fim de substituir de modo simplificado nossa admiração. Então, a obra do artista morto é cultuada de diversas maneiras, dentre elas a do preço que se torna mais alto do que quando ele vivia. Eu diria que isso é nada mais que um culto onde se tenta mesclar coisas díspares a fim de transferir significado elevado para o dinheiro e dar prosseguimento a um código simples que exprime um conceito equivocado: quanto maior o preço melhor a arte. Como o ser humano é um bicho fascinado por cultos e o culto ao dinheiro hoje é soberano, essa pratica persiste. Deu pra entender?
_Um pouco, estava prestando atenção em outra coisa.