Na arte contemporânea vimos surgir após as recentes metodologias acadêmicas,técnicas de marketing, gerenciamento empresarial, consultorias de mercado, assessoria de mídia, cibermidia, equipes de historiadores da arte da atualidade etc. Tudo muito clean e eficiente. Os críticos, os teóricos estão sendo espanados para longe. Sob os holofotes, os curadores, promotores, agenciadores e negocistas cintilam recitando: qual arte de hoje será importante num futuro remoto, porque o investidor deve verter dinheiro em tal artista, aspectos cognitivos e sócio-educativos das megas exposições de arte, números astronômicos de freqüentadores e cifras como slogans espetaculares. Como venho escrevendo muito sobre essas ocorrências a partir da minha observação limitada e competência restrita, característica da atividade artística que insisto em exercer, creio ser mais produtivo oferecer aos leitores desse HiperBlog trechos da palestra realizada por Donald Kuspit no Simpósio Internacional de Arte/Teoria Contemporânea que aconteceu na cidade do México em 2005, onde esse assunto foi abordado em profundidade. Quem quiser conhecer o texto na integra e na versão original clique> http://www.artnet.com/magazine/features/kuspit/kuspit4-14-05.asp

DONALD KUSPIT
Se escrever a história é algo como unir as partes de um enigma, como sugere o psicanalista Donald Spence, então, arte contemporânea é um enigma cujas partes não surgem juntas. Não há nenhuma narrativa cabível entre elas, para usar o termo de Spence, sugerindo, a principio, apenas incertezas. Porém, em suas partes individuais podem ser compreendidas. O contemporâneo por definição não é necessariamente o histórico, isto é, o contemporâneo é uma quantidade de eventos associados em um presente plausível, ou melhor, uma narrativa consistente que integra algum destes eventos em um sistema ou padrão que, simultaneamente, os qualifica, dando - lhes uma espécie de intencionalidade em relação ao seu propósito. Em Pós-Modernismo André Malraux disse que o museu sem paredes foi pensado a partir da perspectiva de expansão ilimitada do contemporâneo. O pluralismo radical que prevalece no museu sem paredes faz uma chacota com a opinião de que há uma arte mais “histórica” do que outra qualquer. Assim a história tornou-se tão absurda e idiossincrática quanto a contemporaneidade. Pode haver uma história da arte moderna e uma história da arte tradicional, mas, não pode haver nenhuma história da arte pós – moderna. A contemporaneidade radical não se limita a uma única leitura histórica. Mesmo Gibbon não seria capaz de conceber que todas as partes da arte de um tempo determinado poderiam, juntas, trilhar uma narrativa uniforme. [n/t: Edward Gibbon (1737/1794) historiador inglês e membro do parlamento, conhecido, principalmente, pela qualidade e ironia de sua prosa, pelo uso das fontes primarias e por denegrir a organização religiosa]
Sempre houve mais arte contemporânea do que arte histórica...Este fato tornou-se enfaticamente explícito na modernidade. A tentativa da história da arte de controlar a contemporaneidade e com isso o fluxo temporal de eventos da arte através de determinados acontecimentos, retiram da arte sua idiossincrasia incidental em nome de algum sistema de valor absoluto. Contudo, tais propósitos são sempre rechaçados pela abundância das evidências contemporâneas da arte com suas propostas alternativas e ideias freqüentemente radicais e contrárias ao valor instituído...

...Nada é sagrado para os artistas que insistem em sua contemporaneidade, porque o contemporâneo é sempre profano...O poder do contemporâneo vem da insegurança de ser efêmero e isso é melhor que construir uma fundação histórica ilusória, ou seja, uma permanência hipotética que se desintegrará...Nenhuma arte é historicamente importante para sempre: o poder da permanência histórica da arte do passado depende das necessidades criativas, emocionais e cognitivas da contemporaneidade. Ela é permanente e necessária somente enquanto o contemporâneo cria a ilusão provisória de que o é...
... O contemporâneo é sempre heterogêneo e fértil, o histórico fantasia a contemporaneidade a reduzindo à homogeneidade estéril... [no] curso do tempo as categorias[artísticas] foram ampliadas tornando inútil dizer quais modalidades do fazer artístico são mais importantes do que outras...A história é uma tentativa de encontrar consistência para ler um contemporâneo inconsistente. Substituir a flexibilidade saudável do contemporâneo pela rigidez da história é uma tentativa de canalizar a criatividade em um determinado sentido e, finalmente, controlá-la. [Na atualidade]...Para Alloway a particularidade da arte esta sendo substituída por um internacionalismo generalizado, como se somente a arte transnacional tivesse um lugar na narrativa histórica da arte contemporânea.


...formas pseudofilosóficas que difundem um pensamento de que o quer que se chame de arte é arte, isto é, qualquer coisa pode se agregar ao motto-contínuo pós-moderno,[vem contribuindo]... para o triunfo comercial da cultura da multidão...O poder do dinheiro e da popularidade [crêem] fazer história...Walter Robinson disse:...hoje não há nenhum movimento da arte, somente no mercado existem movimentos. Isto parece confirmar um artigo, intitulado Através do Telhado, publicado em dezembro 2004 no Forbes Magazine. Começa com o seguinte parágrafo: Cenas de um frenesi: Apenas dois anos após o artista italiano, notório brincalhão Maurizio Cattelan, fazer em 1999, uma escultura tamanho real, em cera, do papa João Paulo II cortado por um meteorito, um negociante de Genebra chamado Pierre Huber pagou US$886.000 [para logo após] lança-la em New York por US$3 milhões. Presumidamente isto faz de Cattelan, ou pelo menos seu trabalho, historicamente importante, isto é, garante automaticamente um lugar na história da arte.[nesse episodio, os movimentos do mercado, do qual nos fala Robinson, ficam claros. Além disso, vale acrescentar, que esse movimento eleva a cotação do negociante Huber no disputado ambiente dos mercadores internacionais de arte] Donald continua dizendo:...A história da arte torna-se ridícula quando tenta fazer a crônica contemporânea. O mesmo artigo cita Larry Walsh, (curador de coleções de museus e um colecionador de estrelas da arte dos 1980s como Jean-Michel Basquiat e Keith Haring... (ambos morreram jovens) identifica e questiona o que considera... O problema real? Escorre muito dinheiro para material que não é testado historicamente... [Muitos parecem acreditar que]... Somente a arte que o dinheiro se derrama sobre ela passa com ela: o valor econômico tornou-se histórico. Passando o teste do mercado, a arte entra na história... Peritos concordam que geralmente, em pelo menos 20 anos, se estabelece o interesse por um artista, diz Missy Sullivan no artigo. E continua:...Somente então o artista é beijado pela posteridade. Kuspit pergunta: Que peritos? Que interesse? E, o que é exatamente posteridade? Valor de revenda? Valor para artistas que ainda não nasceram ? Celebridade Cultural? As chamadas instalações nas coleções permanentes de museus? Que museus? Walsh e Sullivan levantam mais perguntas do que respondem. Uma outra verdade sociológica é o florescimento dos competidores de perspectivas interpretativas [que pretendem para si domínios especiais e reconhecimento intelectual que lhes confira] supremacia sobre a história. [acreditam que]uma arte contemporânea, torna-se histórica quando uma perspective particular consegue impor uma leitura ideológica dela, assim, conferindo-lhe significado e reputação. Ao tentar estabelecer determinada arte como mais legitima e necessária do que outra, a escrita [pseudo] histórica privilegia, implicitamente, alguma arte como mais criativa ou ideologicamente correta que outra, porém, muita história pode ser escrita de forma interpretiva e criativa e como tal tornar-se um ato artístico e também um ato ideológico. Assim, Mendieta é supostamente mais criativa e ideologicamente mais correta do que Breder, porque, sobretudo, é uma feminista, com exposições póstumas nos principais museus para provar que é criativamente inovadora. (Risco dizer que sua função como um símbolo ideólogo precede sua criatividade. Isto é, veio ter um lugar mais importante em uma narrativa ideológica do que na história da criatividade artística). Estou sugerindo que o historiador de arte seja mais interessado no processo criativo e na inter-relação com outros processos humanos, físicos e sociais [ao invés] produtos institucionalmente sancionados da arte...O objeto artístico concretizado, isto é, estabelecido como arte.

...a perda dos padrões de excelência criativa tornou as artes vulneráveis ao mercado e as forças populistas...Ou seja, o dinheiro e a popularidade são significativos na sociedade capitalista de modo que sem seu imprimatur a arte perde significado social...Acredito também que fazer arte se transformou uma maneira de fazer dinheiro e de se tornar popular. Penso na teoria de Whitehead sobre a concrescência como processo ontológico preliminar...[para ele quando] algo está fora de seu lugar, isto é afixado em alguma instituição de arte, [tal fato] indica que o processo que o trouxe até ali se completou...[com o]...produto tornado fetiche.[Um engano] De fato, o processo termina na interpretação criativa progressiva, que a faz repercutir continuamente como produto artístico. [e]...ressoar no concreto, o que significa dizer que é um produto que não perderá a ressonância vital que teve durante o processo...[e é essa]...aura, sempre restaurada, por injeção renovada da interpretação dinâmica... que [faz com que] a história da arte coloque no lugar concreto o processo do trabalho artístico, porque a história da arte é concernida, subliminarmente, a legitimar os objetos, e, somente os objetos, transformados de abstrato em concreto, são legitimados pela perspectiva da história...Então, ocorre a escrita da historia.
...retornando ao começo de minha conversa, Spence diz que:...unindo as peças de um quebra-cabeça...[notamos]... que cada parte tem um e somente um lugar... [nesse caso usamos]... o que pôde ser chamado de ajuste da narrativa, para estabelecer a posição correta de cada uma das partes... [quando] admitimos que, por exemplo, um dado pode ter inúmeras inserções diferentes que igualmente nos satisfaçam, vemos que uma narrativa presumível pode ter um resultado definitivo melhor do que poderíamos ter desejado, conseqüentemente, [surge uma nova] base de preferência, especialmente particular [que tornam] instável algum valor de verdade prenunciada... acredito que a exaltação de um artista à custa de outro, a maneira Mendieta... transforma um tipo de ilusão em infinita elasticidade obsequiosa...então [já não se trata] de uma narrativa; [trata-se] de um enigma insolúvel e eterno... o contemporâneo é a soma de detalhes incomensuráveis que nunca poderão ser proporcionais em um inteiro (integra é uma noção sem sentido para o contemporâneo) . Eu sugiro que [cada] particularidade seja apenas um caso. Isto é: que um argumento interpretativo de uma arte particular sega seu desenvolvimento ambiental no contexto da articulação fenomenológica [criada] pelo observador-intérprete e sua complexa experiência. Somente aproximando e considerando o trabalho de arte como uma experiência afetiva-comunicacional-educacional... impedimos que a imposição de significado e valor, oriundos do dinheiro e da popularidade, se imponham como fatores determinantes da atualidade e falem em nome da história. A reificação idólatra remove o desafio cognitivo e o interesse humano pelo trabalho... que nos estimula experimentar um certo grau de frescor. Isto é, que [cada experiência] afetiva-comunicacional-educacional envolva uma descoberta, [tornando-se] a demonstração e a exemplificação de um determinado tipo de atitude, de consciência relativa... [ isso se confirma na certeza de que] o preço[das coisas] não é em si um problema humano e intelectual...[assim]...como uma arte contemporânea dimensionada historicamente não pré determina [que] a curiosidade sobre ela será permanente... usando a frase de Einstein nada na natureza [e na cultura] impedirá parar de questioná-la.