terça-feira, outubro 01, 2024

Quando Coppola, após longos anos silente, reaparece no cenário artístico com uma obra, sou apanhado pela sensação de que Fênix é o elemento mitológico que melhor expressa o magnifico, irreverente e substancioso poder da criação. Depois de ler alguns comentários de especialistas em 'showbiz' sobre Megalópoles, a realização recente de Coppola, antes mesmo de ver o filme, tive a impressão de que mais uma vez esse artista atingiu em cheio o que considero o cerne de todo processo criativo inovador e surpreendente. Um artista que propõe a si mesmo a ousadia de romper com os parâmetros estéticos de seu tempo e atravessar o umbral do inusitado, impacta o senso comum, formatado por personalidades da alta cultura que se arrogam os tutores do gosto e da empatia do público ávido por novidades mas que não se sente abalizado para avaliar o que vê, lê ou escuta sem que um mestre/crítico, agora convertidos em 'coaches' coisa que, aliás, sempre foram, lhe forneça a senha, as referencias cults e as razões(sic) de porque deve admirar ou não o que tem diante de si. Um comentarista especializado postou que Megalópoles o surpreendeu negativamente porque não lhe ofertou o Coppola que sempre admirou. Ele ficou frustrado porque o autor dos clássicos 'The Godfather' conspurcou seu legado ao assumir a criação de um filme 'confuso e chato' no crepúsculo da vida. Eu, exatamente por motivo inverso, como escrevi na página Instagram do Coppola, onde acompanhei a fase de lançamento do Megalópoles, considero que o desafio maior de um artista não é apenas ser talentoso mas, sábio o bastante para escapar das armadilhas culturais que levam à auto emulação que o prende à constante repetição da fórmula que outrora o consagrou junto aos especialistas e o tornou um ícone do gosto público. O fenômeno da Fênix é, para mim, a experiencia existencial mais gratificante que um artista tem o privilégio vivenciar.

sexta-feira, outubro 20, 2023

Harvard perde apoio de bilionários após carta pró-Palestina https://www.poder360.com.br/internacional/harvard-perde-apoio-de-bilionarios-apos-carta-pro-palestina/ Comento: Se os lideres das agremiações de alunos de Harvard acham que 'Guerra ao Terror' é uma guerra desproporcional entre povos fronteiriços, os patronos dessa universidade deveriam não só parar de abastecer o caixa da instituição. Minha sugestão é que os patronos desse bando de desinformados, proponham aos centros acadêmicos um plesbicito com dois itens e uma conclusão: 1- que todos os recursos destinados ao fundo estudantil sejam doravante destinados a uma Comissão de Recuperação do Povo da Palestina, que virá a ser constituída fora do âmbito acadêmico. Tal iniciativa se basearia nas considerações criticas sobre as virtudes e falhas do Plano Marshal, que ajudou na reconstrução da Europa, após a devastação da Segunda Guerra Mundial. Que essa Comissão seja integrada apenas por gente isenta ao ativismo e politicagem estudantil. 2- que essa Comissão seja composta apenas por gente com alta capacitação em temas de alta complexidade. Excluindo-se membros dos corpos docente e discente de Harvard, tendo em vista que os mestres da instituição são corresponsáveis pela baixa capacitação cognitiva dos seus discípulos no que tange a distinção gritante entre grupos terroristas e povo em geral. Conclusão: considerando-se a baixa rentabilidade cognitiva dos alunos de Harvard frente aos volumosos recursos destinados pelos super ricos, a criação dessa Comissão Curatorial reverteria em benefícios concretos para o povo da Palestina. Extirparia os focos do terrorismo que ronda a região, oprimindo e barbarizando o povo palestino com objetivo único da extinção do Estado de Israel e seu povo. Detalhe: É prudente que essa Comissão não tenha qualquer vinculação com a ONU e o Parlamento Europeu que por anos vive sob a pressão de investidores e políticos coniventes e indecisos na definição do Acordo Nuclear com o Iran.

quinta-feira, outubro 05, 2023

Ainda bem que o aforismo "Não me associo a um clube que me aceite como sócio" do Groucho Marx, é compartilhado por bilhões de pessoas mundo afora. O clube dos super ricos é uma creche para terceira idade que junta gente que herdou fortunas e gente que por esforço e competência fez a própria fortuna.Entretanto, ao serem aceitos pela diretoria, as diferenças existenciais se dispersam e se transformam em uma massa homogênea empenhada em garantir seu alto padrão de vida. Mal comparando parece o Congresso Nacional, onde a maioria canalha exerce um poder enorme sobre os neófitos cheios de boas intenções. O fato é que os sócios do Fórum Global se acham o sócios proprietários do planeta. Ao darem uma tacada de golfe, imaginam que a bolinha é a Terra e ele o senhor do universo, com o poder de organizar o equilíbrio dos planetas. A começar pela Terra. O afã desses sócios é criar condições ideais para manter o seu alto padrão de vida. Para isso é necessário reduzir a população de terráqueos. Lembram do filme 'Soleil Vert'? O argumento é um pouco inspirado nos grandes autores de ficção científica dos anos 50/60. O filme é sombrio mas, comparado com as insanidades dos sócios do FG, é bem mais instigante porque tocava em dois grandes problemas da humanidade com uma provocação moral: até que ponto vai seu humanismo, quando se trata de sobrevivencia da espécie. Um velho, outro novo. O velho é a Fome. O novo a Superpopulação. 'Soleil vert' é uma ficção futurista focada nesses dois polos. Naquele mundo a fome era grande. A solução do Fórum dos Poderosos era seletiva e pragmática. Uma usina de reciclagem de proteína humana atacaria radicalmente os dois problemas, reduzindo a população e suprindo a comunidade dos eleitos com as proteínas necessárias para manter a vida. Um biscoito(Soleil Vert) nutritivo, feito com a matéria prima de corpos humanos com data de validade vencida, era a principal fonte de proteina. O programa concedia aos vendedores dos próprios corpos- gente das camadas mais pobres, velhos,incapacitados e indigentes dos subterrâneos da sociedade-o direito de vender seus corpos para suprir a produção de proteínas para alimentar o povo do andar de cima. A fórmula era oferecer o conforto de um suicídio assistido, onde o infeliz desfrutaria das sensações de um mundo lindo e experimentaria sensorialmente momentos de êxtase, transcendência e felicidade. Aqui,nesse ponto,vale uma observação. Quando esse filme foi lançado as polticas de ação afirmativa estavam circunscrita aos debates entre um pequeno número de intelectuais e tímidas investidas acadêmicas. Na ocasião do lançamento o filme foi negligenciado por tratar a vida humana(corpo&alma)como matéria prima reciclável para manter o abastecimento de nutrientes para as classes mais ricas enfrentarem a Fome. Hoje, talvez não tivesse o mesmo impacto tendo em vista o predominio das políticas de ação afirmativa, tipo 'meu corpo minhas regras' que não se restringe apenas ao auto domínio feminino de decidir sobre a vida de um feto indesejado mas vale também para a venda de órgãos,não apenas de cadáveres mas, também, de gente viva como crianças sequestradas e gente necessitada que, tendo dois rins, pode vender um para abrandar a miséria. Os associados do Fórum Global usam de uma retórica salvacionista planetária mas omitem dizer claramente quem precisa morrer ou não nascer, para que o aquecimento global seja estancado. Dentre as hipocrisias da classe política, ONU, Ongs etc, a subserviência ao Clube dos Super Ricos é a mais evidente. A banalização da vida da gente pobre e infeliz, que se mata na linha de frente da gigantesca produção de bens de consumo que, ao fim e ao cabo, reverte inexoravelmente em poluição e desastres ambientais(sic)é,no fundo, o que teóricos do Fórum Global pretendem eliminar. O desejo oculto desse clan é reduzir pela metade a população global. Suponho que exista um grande estoque de robôs prontos para executar de forma mais limpa e econômica o que hoje faz o contingente humano de mão de obra. O paradoxo do clube dos super ricos é pretender salvar o planeta exterminando metade da população. Mas dizer isso assim, na lata, fica grotesco e desumano. Na dramaturgia e na arte os delírios são impulsos criativos. Quando desce pro plano da realidade objetiva, vira doutrinação estúpida e celeiro dos novos profetas do Apocalipse. Disparar a paranoia anti viral é uma das táticas da grande estratégia do Fórum Global, que fomenta nas mentes incautas o delírio de enfileirar 'corpos mortos pela covid', num cordão humano que preenche a distância que separa a Lua da Terra. BILL GATES FALANDO SOBRE REDUZIR A POPULAÇÃO MUNDIAL YOUTUBE.COM

sábado, setembro 30, 2023

A passiva mediocridade da cultura contemporânea me passa uma sensação desoladora. A Era da Informação descortinou novos horizontes para o conhecimento,sem dúvida. De repente, o mundo livre, plural e criativo aflorou diante dos nossos olhos e no tocar dos dedos. Logo de início o 'status quo' sentiu-se ameaçado pela quebra de hierarquias e a abolição dos comuns. Depois, reagrupando forças no ideário woke e na caretice vitimista 'politicamente correta' , eles voltaram com tudo, cobrando alto custo para a liberdade de expressão,empurrando para o degredo as inteligências transgressoras e silenciado o espírito outsider. Paradoxalmente, o plasma embrionário resultante da ruptura da cultura digital, invés de dar vida plena às mais elevadas virtudes, deu origem a tipos cheios de certezas, altruístas pragmáticos revestidos de moral suprema, que interpretam não apenas a Constituição mas a vontade do todo social. Eles nada desejam para si Dedicam suas vidas para normatizar o 'bem comum'. Hordas de defensores dos oprimidos -por 'outros' que não eles mesmos- transitam com orgulho nas esferas virtual e presencial. Jornalistas lacradores, influencers serviçais, acadêmicos tutelares, artistas complacentes, até mesmo diante do evidente cerceamento das liberdades individuais, sentem-se representados pela reedição do 'status quo' progressista pós moderno. Na esfera social mais ampla, o desejo foi publicamente criminalizado e obliterado pelo identitarismo de gênero e, por aí afora. Falar publicamente do desejo virou ofensa social. Hoje, esse tipo de sentimento humano só deve ser compartilhado nas conversas terapêuticas. Ainda é permitido ter nas prateleiras das livrarias obras literárias de um transgressor dos costumes, como Nelson Rodrigues. Os artistas visuais que exaltam a sexualidade, devem ter como medida estética, parâmetros que exaltem a identidade de gênero. Desejo,não! A ária progressista "Avançar socialmente" (sic) é uma armadilha para extrair a identidade do indivíduo e dar vida ao coletivo domesticado. É um ardil cruel. O retorno dos que nunca partiram, é exaltado como o reino superior dos oráculos da democracia. Mas, no nivel do mar, aos olhos dos comuns o que fazem deliberadamente é interromper e censurar o livre fluxo de ideias, vendendo o truque igualitário como simulacros de respeito à diversidade, ocultando dos ingênuos e incautos sua verdadeira face de consenso opressor.

segunda-feira, setembro 11, 2023

Ainda que não tenhamos um quadro claro sobre as transformações advindas da universalização da cultura digital, o que me vêm a mente são os métodos recorrentes nas simplificações de novos termos no meio social. O mesmo parece acontecer agora em relação ao termo 'disruptura' que, em analogia ao termo 'ruptura' do periodo da 'vanguarda historica', me parece uma discrepância reducionista. Os impulsos que culminaram nos movimentos da vanguarda historica,que antecedeu os varios grupos da 'contra cultura' e posteriormente se amalgamou no que se convencionou chamar de 'pós modernismo' .Para mim, é um acúmulo de equivocos que servem apenas para legitimar estilos,porém,não penetraram profindamente na mentalidade do nosso tempo. Sempre haverá inquietação sobre os desdobramentos da cultura. Lembro quando o pensador francês Lyotard transpôs o termo Pós Modernismo para vetores da produção artistica/ cultural,em meados do século XX. O termo teve origem entre engenheiros e economistas para datar o acesso às novas tecnologias de produção, posteriores à Era Industrial. Contudo, trouxe algum conforto e aparentemente suprimiu dúvidas no meio cultural. Logo o termo foi apropriado por milhares de pessoas das artes e cultura do período.Aquela época foi marcada por grande ansiedade. Buscava--se um termo(ideia) que identificasse e até certo ponto legitimasse uma produção que romperia(sic) em definitivo, os padrões estéticos (significado/mensagem) da modernidade consagrada, digamos assim. O vago paradigma pós moderno foi campo fértil para florescer a ideia de que "tudo é arte e todo mundo é artista".Pretensão ingênua, fundada em um conceito tosco de que se tratava de uma ruptura capaz de destruir hierarquias e padrões estéticos antecedentes. Até meus amigos, adeptos das teorias 'desconstrucionistas', viam aquilo como uma ode ao 'laizes faire' juvenil. Vale lembrar que naquela ocasião, entre os vetores da cultura, as empresas de comunicação surfaram numa onda de prosperidade e atingiram indices fabulosos em volume de público/espectador/leitor, quanto em poder econômico. Então, surge a Era da Informação. Logo em seguida os desdobramentos da Internet em sites e plataformas digitais de comunicação interpessoal em escala global. O que até então parecia um futuro promissor, da noite para o dia, se revelou uma surpreendente realidade . O que muitos achavam que seria um processo cultural gradual, foi veloz e abrangente. A disruptura digital foi fulminante. Pegou a todos mais rapidamente do que supunham e desejavam. Foi um fenômeno que penetrou profundamente na mentalidade de milhões de pessoas mundo afora,independentenente das suas peculiaridades culturais e características regionais. Em resumo; refletir ou projetar o presente pelo viés da cultura analógica, é,hoje, uma tarefa árdua que pode reverter em solitária melancolia e também em grandes frustrações para editorias empresariais que detinham a hegemonia da comunicação social.

quinta-feira, janeiro 12, 2023

“A ciência do século 21 desempenhou um papel relativamente pequeno no controle da SARS(...)Estamos cansados de mascarar e colocar em quarentena, disse Alan Schnur, especialista aposentado da OMS em doenças transmissíveis que trabalhou no surto de SARS na China. Na China, as pessoas não mexem com o governo(...)Com a autocracia, você não tem pessoas armadas aparecendo nas capitais dos estados dizendo: Estamos cansados de máscaras e quarentena".Essas e outras citações constantes do texto Bob Davis,postado no site Foreign Policy em 08 de Janeiro do corrente ano, apontam para uma questão crucial: onde pode-se hoje vislumbrar a fronteira que separa as nações democraticas dos regimes autoritários? Não apenas os procedimentos centralizados no combate a pandemia,as decições monocraticas da mais alta corte judicial do país colocam em alerta o cidadão quanto as garantias do seu direito civil de opinar,expressar seu pensamento e se manifestar publicamente no tocante aos temas de natureza política,saude publica etc. Seja no plano do combate à pandemia,seja no plano politico,hoje,é quase impossivel identificar o ponto da fronteira que separa regimes autocraticos das nações democraticas. Afinal,em'nome da democracia e da ordem social',a censura,multas,punições e mandados de prisão,sem direito de defesa e sem o conhecimento dos autos pelos representantes legais dos supostos criminosos acusados de terrorismo,podem ser realizaddos tanto pela policia do regime chinês como no Brasil.
GettyImages Bob Davis "A China transformou sua forma de lidar com o COVID-19 em uma propaganda de autocracia, gabando-se de como seu sistema político permitiu salvar vidas, enviar vacinas para países pobres e se tornar o fornecedor mundial de equipamentos de proteção. “A julgar pela forma como esta pandemia está sendo tratada por diferentes lideranças e sistemas [políticos] em todo o mundo, [podemos] ver claramente quem se saiu melhor”, disse o presidente chinês Xi Jinping no início de 2021 na Escola Central do Partido em Pequim. Mas com o COVID-19 agora se espalhando como uma tempestade de poeira pela China, enchendo crematórios e esvaziando lojas e hospitais de remédios, Pequim não parece mais uma vencedora. As estimativas de mortes nos próximos seis meses vão de 1 milhão a 2 milhões . No conflito entre democracia e autocracia, que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, declarou ser a batalha que define esta geração, comentaristas da esquerda e da direita estão marcando este ponto para a democracia. Governos autocráticos “não podem admitir erros e não aceitam evidências de que não gostam”, elogiou Paul Krugman , do New York Times . “Afinal, a economia da China não ultrapassará a dos Estados Unidos em tamanho até 2035”, por causa das políticas COVID-19 de Xi, regozijou -se o conselho editorial do Wall Street Journal , citando um trabalho de pesquisa japonês e vinculando as falhas ao sistema político da China. No entanto, por mais arrogantes que tenham sido as declarações de vitória da China, os resultados da pandemia dificilmente são uma vitória por nocaute para a democracia. Cerca de 300 americanos por dia ainda morrem de COVID-19, e os níveis relativamente altos de proteção desfrutados pela população dos EUA são resultado de uma infecção generalizada – e das mortes de mais de 1,1 milhão de americanos que vieram com ela – bem como de vacinas de alta tecnologia. As campanhas de saúde pública para controlar a pandemia enfrentaram a oposição de políticos de direita e milhões de céticos do COVID-19, trocando histórias em sites de mídia social proibidos na China. E embora a velocidade do surto de COVID-19 na China seja de tirar o fôlego - e as autoridades estejam encobrindo o número de mortos -, os analistas de saúde pública não esperam que a China iguale o histórico lamentável dos Estados Unidos ao lidar com o vírus. Per capita, seriam necessárias cerca de 4,5 milhões de mortes para que o número de casos de COVID-19 na China se igualasse aos Estados Unidos. O COVID-19 testou democracias e autocracias igualmente - e a maioria falhou de maneiras diferentes. Os Estados Unidos e a China são os exemplos mais proeminentes, mas sistemas da democracia peruana à autocracia russa estragaram suas respostas à pandemia. Em alguns casos, a competição entre sistemas políticos pode ser benéfica. A corrida entre os Estados Unidos e a União Soviética para levar um homem à Lua, por exemplo, deu um grande impulso aos gastos com ciência e ampliou os limites da tecnologia microeletrônica, necessária para uma missão lunar. Mas uma pandemia exige que os países compartilhem informações, coordenem bloqueios e trabalhem em conjunto no desenvolvimento de vacinas. Nada disso ocorreu. A China ocultou informações, bloqueou investigações internacionais sobre a causa da doença e fez com que seus diplomatas fizessem alegações de que o vírus surgiu nos Estados Unidos. Os Estados Unidos, sob o então presidente Donald Trump, rotularam o COVID-19 de “vírus da China” e culparam a China por seus problemas políticos. Relações geladas continuam sob Biden. De muitas maneiras, a resposta inicial da China foi uma repetição de seu tratamento inicial abafado do surto de SARS quase duas décadas antes. Depois de tentar esconder o surgimento de um vírus mortal transmitido pelo ar – mais tarde apelidado de síndrome respiratória aguda grave, ou SARS – na província costeira de Guangdong no final de 2002, a China colocou em quarentena os afetados e seus contatos próximos. Cinemas, discotecas, campi universitários, locais de trabalho e outros locais públicos fecharam enquanto as autoridades tentavam convencer os chineses em pânico a não fugir das grandes cidades e espalhar a doença para o interior. Em poucos meses, o vírus foi contido. Globalmente, 8.098 pessoas adoeceram com SARS, incluindo 774 que morreram - números que parecem dolorosamente pequenos na época do COVID-19. Nenhuma vacina nova ou nova tecnologia foi necessária para combater o vírus. “A ciência do século 21 desempenhou um papel relativamente pequeno no controle da SARS”, concluiu uma revisão da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2006. “As técnicas do século 19 continuaram a provar seu valor”. Enfrentando um coronavírus diferente em 2020, a China voltou ao manual da SARS, mas em grande escala, bloqueando vastos segmentos da população com muito mais firmeza do que os países europeus que tentaram uma estratégia semelhante, como a Itália, poderiam sustentar. Embora a estratégia tenha ganho um tempo valioso para vacinar, ainda que de forma incompleta, a população chinesa, ela falhou em derrotar o vírus. A SARS era muito menos infecciosa que o COVID-19 e só se espalhou depois que as pessoas desenvolveram sintomas, como febre alta. As quarentenas impediram a replicação do vírus. Não houve essa sorte com o COVID-19, que foi espalhado por pessoas que não apresentavam sintomas e correu pelo mundo depois que as autoridades chinesas suprimiram as informações sobre o surto inicial em Wuhan e não agiram rapidamente. Diante de um inimigo implacável e inconstante do vírus, a China construiu uma vasta burocracia de testes, vigilância e bloqueio para impor sua política de COVID-0. Mas a estratégia não tinha um objetivo claro. Em outros países que tinham controles rígidos, como Nova Zelândia e Austrália, esse tempo foi usado para vacinar a população e, quase tão crucialmente, construir o sistema de saúde para se preparar para a chegada inevitável de um surto em grande escala. Na China, a energia dedicada a manter o COVID zero consumiu tempo e recursos, e o investimento em saúde encolheu em 2020 e 2021. Os bloqueios na China e em outros lugares tiveram um custo enorme, destruindo as cadeias de suprimentos, criando escassez e estimulando a inflação. Também forçou os alunos a saírem das salas de aula e a entrarem em suas casas atrás de telas de computador e dificultou que os pacientes procurassem médicos por outras doenças além do COVID-19. É difícil avaliar se as democracias ou autocracias lidaram melhor com esses diferentes desafios – especialmente em um país como a China, onde a capacidade de fazer pesquisas locais sem restrições é extremamente limitada. Na China, as desvantagens de uma resposta autocrática tornaram-se cada vez mais aparentes à medida que a pandemia se arrastava, principalmente a relutância do responsável em mudar de rumo. Ao longo de 2022, Xi concentrou-se no próximo 20º Congresso do Partido em outubro, alardeando sua forma de lidar com o COVID-19 como outra justificativa para seu terceiro mandato sem precedentes e empilhando o Comitê Permanente do Politburo com aliados. “Ao responder ao surto repentino de COVID-19, colocamos as pessoas e suas vidas acima de tudo, trabalhamos para prevenir casos importados e ressurgimentos domésticos e perseguimos tenazmente uma política dinâmica de zero COVID”, disse ele ao Congresso do Partido, repetindo a mesma linguagem que havia usado em uma reunião de julho. A política rígida de Xi incluiu uma recusa em importar vacinas mais eficazes desenvolvidas nos Estados Unidos e na Europa usando a nova tecnologia de mRNA. A política rígida de Xi incluiu uma recusa em importar vacinas mais eficazes desenvolvidas nos Estados Unidos e na Europa usando a nova tecnologia de mRNA. Importar ocidentais seria visto como uma admissão de que a tecnologia chinesa era menos capaz, especialmente se os chineses migrassem para alternativas ocidentais. A China estava enviando milhões de doses de sua vacina Sinovac para nações pobres. “Como a China poderia persuadir outros países a importar suas vacinas se aprovava as vacinas ocidentais… reconhecendo assim implicitamente sua superioridade?” disse Minxin Pei, especialista em política chinesa no Claremont McKenna College. A liderança chinesa também rejeitou os esforços para aliviar os bloqueios de zero COVID, que estavam prejudicando a economia e semeando o descontentamento popular. Em abril de 2022, a Câmara de Comércio da União Europeia na China pediu discretamente ao vice-primeiro-ministro Hu Chunhua em uma carta para facilitar os bloqueios para aqueles que foram vacinados e importar vacinas ocidentais. Os requisitos Zero-COVID estavam “causando interrupções significativas, estendendo-se desde a logística e produção até a cadeia de suprimentos na China”, reclamou a Câmara Europeia na carta, que não foi divulgada publicamente. Alguns no governo chinês foram simpáticos e esperavam usar a pressão estrangeira para convencer a burocracia a relaxar, disse Jörg Wuttke, presidente da Câmara Européia. Mas o plano foi rapidamente rejeitado depois que se tornou público. Em uma reunião do Politburo em maio de 2022, Xi dobrou a aposta em zero-COVID, dizendo que o controle da pandemia havia atingido um “estágio crítico”. No Congresso do Partido, Hu, antes considerado uma estrela em ascensão, foi afastado do Politburo. Em julho de 2022, um plano das autoridades municipais de Pequim para exigir vacinação para entrar em cinemas, museus e outros locais públicos foi cancelado após pouco mais de um dia. Os bloqueios tornaram-se tão arraigados quanto a resposta ao COVID-19 que as vacinas se tornaram suspeitas, principalmente em um país com histórico de medicamentos adulterados e outros escândalos de segurança. Ansioso para proteger sua posição emergente como uma alternativa de manufatura à China, afrouxou muitas de suas restrições em setembro de 2021. “Não podemos recorrer a medidas de quarentena e bloqueio para sempre, pois isso causará dificuldades para as pessoas e para a economia”, o primeiro-ministro Pham Minh Chinh disse na época. As autoridades vietnamitas se concentraram no que chamaram de “viver com o COVID-19”. No geral, a taxa de mortalidade do Vietnã por COVID-19 é cerca de 15% da dos Estados Unidos. Cingapura, uma autocracia mais branda, também se ajustou rapidamente. Como uma ilha, era mais fácil para Cingapura bloquear os viajantes. Contava também com um estabelecimento independente de saúde pública de confiança da população. Mesmo antes do surto de COVID-19, o governo construiu um hospital de doenças infecciosas que geralmente fica apenas parcialmente cheio, disse Deborah Seligsohn, especialista em governança chinesa da Universidade Villanova, “para que tivesse capacidade extra necessária para uma pandemia”. Na China, o governo finalmente cedeu cerca de um mês após o Congresso do Partido. Com o aumento dos protestos políticos e a estagnação da economia, o governo subitamente suspendeu quase todas as restrições no início de dezembro. Essencialmente, declarou vitória, argumentando que a variante omicron não era tão mortal quanto as anteriores e mantendo em segredo a contagem de infectados, hospitalizados e mortos. “O período mais difícil já passou”, escreveu a agência de notícias estatal Xinhua em um comentário de dezembro. Jornalistas ocidentais relatam crematórios trabalhando 24 horas por dia, 7 dias por semana, hospitais lotados, ruas vazias da cidade enquanto as pessoas continuam a se agachar e escassez de remédios. Wuttke, o presidente da Câmara Europeia, disse que seus membros agora devem planejar paralisações generalizadas quando os trabalhadores adoecerem ou temerem se apresentar ao trabalho. As mortes são estimadas em 9.000 ou mais por dia. “Com a autocracia, você não tem pessoas armadas aparecendo nas capitais dos estados dizendo: 'Estamos cansados ​​de máscaras e quarentenas'. Na China, as pessoas não mexem com o governo.” Mas o vírus também expôs os problemas da democracia na resposta às crises de saúde pública. Embora o talento científico e a riqueza dos Estados Unidos tenham ajudado a produzir vacinas poderosas usando novas tecnologias apenas um ano após o surgimento do COVID-19, o sistema político dos EUA não conseguiu convencer pessoas suficientes a arregaçar as mangas para evitar centenas de milhares de mortes. Antes da pandemia, os Estados Unidos eram considerados os mais bem preparados de 195 nações para lidar com uma pandemia, de acordo com o Global Health Security Index, um projeto do Johns Hopkins Center for Health Security e da Nuclear Threat Initiative, uma organização antinuclear. . Isso provou ser arrogante. Os Estados Unidos tiveram problemas para realizar testes COVID-19, compartilhar informações sobre a propagação do vírus e coordenar respostas federais e estaduais. “Muitas vezes, os dados compartilhados entre as agências de saúde pública eram enviados por fax”, disse Angela Rasmussen, virologista da Organização de Vacinas e Doenças Infecciosas da Universidade de Saskatchewan. Políticos populistas se opuseram ao uso de máscaras faciais e se opuseram aos mandatos de vacinas. Trump e algumas autoridades promoveram curas malucas para o COVID-19, incluindo hidroxicloroquina , um medicamento antimalárico, e subestimaram as vacinas que seu governo ajudou a criar. Líderes populistas de outros países, particularmente México e Brasil, seguiram o exemplo. “Com a autocracia, você não tem pessoas armadas aparecendo nas capitais dos estados dizendo: 'Estamos cansados ​​de mascarar e colocar em quarentena'”, disse Alan Schnur, especialista aposentado da OMS em doenças transmissíveis que trabalhou no surto de SARS na China. “Na China, as pessoas não mexem com o governo.” Enquanto isso, a mídia social ajudou a espalhar visões conspiratórias de que o perigo do COVID-19 foi exagerado e o número de hospitalizações e mortes exageradas. As teorias da conspiração, geralmente uma marca registrada das autocracias sem uma imprensa livre capaz de separar o fato da ficção, também se tornaram uma característica mais proeminente das democracias. Aproximadamente a mesma porcentagem de americanos com mais de 80 anos recebeu duas injeções na China e nos Estados Unidos. Em 2021, Yanzhong Huang, membro sênior de saúde global do Conselho de Relações Exteriores, previu com confiança que os Estados Unidos alcançariam a “imunidade de rebanho” à frente da China. Agora, ele diz que superestimou a capacidade do governo Biden de convencer os americanos a serem vacinados e reforçados. “O ambiente político acabou sendo mais prejudicial”, disse ele. Em um dos indicadores mais reveladores de fracasso, a expectativa de vida chinesa superou a dos Estados Unidos durante a pandemia pela primeira vez desde que as Nações Unidas começaram a manter registros em 1950, quando os americanos foram atingidos pelo COVID-19 e overdoses de drogas. Outras democracias, no entanto, se saíram melhor, particularmente a Austrália e a Nova Zelândia, ambas nações insulares, onde era mais fácil fechar as fronteiras para forasteiros infecciosos. Em ambos os lugares, a fé no sistema político, de acordo com pesquisas do Pew Research Center, era muito mais forte do que nos Estados Unidos. Mas a Coreia do Sul – uma nação com níveis de desconfiança dos EUA no governo – também teve um bom desempenho. Lá, o governo se concentrou em testar rapidamente o COVID-19, rastrear os infectados e convencer as pessoas a ficar em quarentena. Mais do que o dobro da porcentagem de sul-coreanos receberam reforços de vacinas do que os americanos. A porcentagem de pessoas que morreram de COVID-19 é um quinto da dos Estados Unidos. “É muito difícil fazer uma declaração geral sobre qual regime político respondeu à pandemia de forma mais eficaz”, disse Pei, o estudioso de Claremont McKenna. O desempenho varia entre democracias e autocracias, disse ele, e dentro de cada sistema. O mais importante, disse Rasmussen, o virologista, é que democracias e autocracias trabalhem juntas na saúde pública, em vez de se concentrarem em culpar umas às outras, como os Estados Unidos e a China fizeram em grande parte. “O que é realmente necessário é capacidade de vigilância genômica onde ela não existe” para encontrar vírus antes que eles se espalhem, disse ela. “Você realmente não sabe quantos outros coronavírus estão ao nosso redor.” Bob Davis cobriu as relações econômicas EUA-China por décadas para o Wall Street Journal. Ele é o coautor de Superpower Showdown: How the Battle Between Trump and Xi Threatens a New Cold War .

quinta-feira, fevereiro 11, 2021

Ressentimento

Sempre que leio artigos bombásticos(link no post) sobre os rumos da cultura na atualidade, me vem a lembrança o excelente  livro -que já citei aqui algumas vezes- intitulado  'A Cultura Inculta' escrito há trinta anos  pelo filósofo e professor norte americano  Allan Bloom.

 Um pequeno trecho do artigo de Laura Gullar, publicado em agosto de 2017 na Revista Ideias, toca em aspectos da visão crítica do pensador sobre os motivos e as consequências do colapso da educação moderna no Ocidente.

Diz ela: "Há livros seminais que deveriam voltar ao centro dos debates. Um deles, que acabo de revisitar, é o de Allan Bloom, professor de História das Ideias na Universidade de Chicago, tradutor de Platão e Rousseau, que escreveu uma obra que é fundamental para entender nosso tempo de degradação cultural. “A Cultura Inculta” é um ensaio sobre o declínio da cultura geral e de como a educação superior fraudou a democracia e empobreceu os espíritos das gerações que hoje estão no comando."

Concordo! 

'Cultura Inculta' é um livro seminal!

É um farol na escuridão porque esclarece os pontos nevrálgicos que soam como  prefácio | epitáfio  do que hoje é a cultura geral. Quem tiver interesse em ler a resenha da autora, acessa o link no box comentário.

Voltando ao tema bombástico inicial, o 'levante' tardio de intelectuais, políticos e professores franceses contra a exportação do modelo de 'esquerdização' das universidades norte americanas e sua absorção nas universidades do país, soa para mim como um 'rap' nostálgico. 

Hoje, duas décadas vencidas do século XXI, ver  políticos, intelectuais proeminentes e acadêmicos franceses clamarem por emancipação do "esquerdismo fora de controle e da cultura do cancelamento na América" é, no mínimo, constrangedor.

Alertar os franceses de que essa vertente ideológica "está minando a sociedade francesa e que é um ataque à herança francesa" é lamentável, quando todos sabem -sobretudo os franceses- que nomes ilustres da cultura, que hoje se apresentam como denunciantes, estiveram por décadas em silencioso e confortável conluio com as ideias que agora denunciam.

Parece evidente que sem esses apoios, a influência  americana sobre vários setores da vida francesa não seria uma ameaça tão significativa quanto hoje ressentem e alardeiam. 

"O presidente francês Emmanuel Macron em outubro advertiu contra "certas teorias das ciências sociais inteiramente importadas dos Estados Unidos(...)Seu Ministro da Educação também alertou sobre uma 'batalha travada contra uma matriz intelectual das universidades americanas" e por aí afora.

https://www.dailymail.co.uk/news/article-9242453/Out-control-woke-leftism-cancel-culture-threat-FRANCE-French-politicians-say.html?fbclid=IwAR3SBeZtG1HOIILSroumDSEkgCwr8REqD80fivelNYJXW6XcIQxX86Gq8g4



terça-feira, maio 12, 2020

Image&Memory







Um depoimento
Por Adriano de Aquino
maio de 2020



1 . Anotações sobre o processo de trabalho.

Em meados dos anos 80, fui atraído pelos ecos da Revolução Digital que incitou a Terceira Revolução Industrial, já consolidada em pequenas mas cruciais mudanças nos modos de produção, alterando significativamente   o antigo sistema de tecnologia eletrônica /mecânica e analógica para o novo sistema da eletrônica digital.
A travessia, que teve início nos anos 50, me pegou na infância. A revolução em curso agregou no imaginário da minha geração a forte impressão de que o futuro seria totalmente diferente das narrativas clássicas. Esse fenômeno cultural se estendeu por três décadas. No final do século XX, com meios eletrônicos digitais fartamente expandidos, a Cultura Digital se estendeu do campo técnico cientifico especializado para a universalização, digamos assim. Independentemente da bagagem cultural dos indivíduos, toda a sociedade global foi velozmente ‘alfabetizada’ pela inserção digital. Apta a decifrar seus códigos básicos, criar seu avatar eletrônico e digitar sua senha num terminal bancário,docs e infos,a maior parte da população do mundo atravessou o portal da Cultura Digital.
Um dos marcos dessa universalização foi o impasse do ‘bug’ do milênio que disseminou um certo pânico de que toda memória e informações acumuladas e processadas eletronicamente poderia ser irreversivelmente apagada. Esse impasse atravessou para o século seguinte. Superado o impasse técnico, o novo século (XXI) nasceu sob a égide da Era do Conhecimento.
Essa introdução visa estabelecer as conexões que me levaram a refletir sobre as perspectivas da criação artística em uma Era marcada pela fluidez da informação, a gigantesca profusão de imagens anônimas, a efemeridade dos eventos que espocam em um segundo, atinge milhões de pessoas e desaparecem na mesma rapidez. Mas, permanecem registrados como ‘bits’ no ciberespaço, onde nada perde ou se apaga.
Esse novo mundo, repleto de sinais embaralhados e “propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível”(Z. Bauman),provocou uma mudança de mentalidade que não poderia deixar de tocar o  processo criativo em sua ampla concepção, frente a ideia de ‘tempo presente’.
Foi o que aconteceu comigo.

2 . Entre 2005 / 2007 meu trabalho começou a desviar para pesquisas sobre a sutil ‘ruptura’ entre cultura analógica e cultura digital. Apesar de não ser uma ruptura que teve origem no ambiente estético/artístico, não ter sido bombástica e estilosa, fundada em manifestos polêmicos e exuberantes provocações artísticas contra os métodos acadêmicos e a tudo que reverenciasse o passado a elegância e o ‘mau gosto’(sic) dos burgueses, mudou substancialmente a mentalidade artística.
Os vanguardistas históricos consideravam um atraso, prejudicial ao desenvolvimento humano e social, o congelamento estético submetido ao padrão neoclássico. 
Transgressão, a palavra de ordem de todos os movimentos radicais da modernidade, chocou os conservadores e, no correr do tempo, se banalizou. 
A título de fazer o 'novo' vigorar, contestações recalcadas ganharam corpo como expressão individual.O mundo das causas pessoais colaram em si o rótulo de Arte. 
“Tudo é Arte/Arte é Tudo” se tornou um mantra pós-moderno.  
É curioso que alguns artistas dos dias atuais, paradoxalmente apelidado de ‘pós-moderno’, ainda creem nesse postulado.
Todavia, ao penetrar nos corredores da matrix, meu ponto de vista sobre as atitudes, gestos e coisas ‘pós-modernos’, correntes nos dias de hoje, focadas nas recorrentes propostas teóricas e estéticas inspiradas na Vanguarda Histórica, hoje se tornaram uma ‘escola’- quase uma doutrina estética que modela modos de fazer similares e repetitivos. 
Em vista desses desafios teóricos me vi enredado na dicotomia do ‘mundo das referências’ cujas as partes geralmente opostas e complexas se converteram em lugar comum.
Como escapar da arapuca de uma ‘arte de citações’, prenhe de referências restritas aos estilos consagrados no mundo da arte, agora consolidada na tendência global rebocada por temas político-sociais de gênero, grupos, minorias e particularidades étnicas e pessoais – autobiografias estetizadas - se instalou  no ciclo intermitente do ‘valor’ estético contemporâneo, reciclado do referencial com o passado e nos múltiplos ‘ismos’, camuflados de novidade? 
  
3 , Essas reflexões me levaram a encarar uma mudança radical no meu processo pictórico para escapar do ciclo de oferta de ‘mais imagens’ num mundo superpovoado delas, e voltar a me encantar e surpreender com um fazer que desbravasse um novo viés do fenômeno criativo.

Essas questões me levaram a confrontar o âmago das transformações em curso. O que observei é que não se tratava mais de um debate ‘fechado’ no velho contexto da ‘arte pura’ em torno da estética da erudição e da alta cultura artística já que –para mim – as mudanças em curso arrastaram tudo, se estendendo ao amplo campo da cultura geral em efervescente ebulição.

Aos poucos fui percebendo que a sutil sobreposição de uma nova cultura geral, paulatinamente revolucionava o modo de ver o mundo, as mentalidades e as trocas sociais.

Como essas mudanças aconteciam nas artes sem serem provocadas pelo inconformismo dos artistas e intelectuais?

4 . Muito se fala das mudanças oriundas das tecnologias digitais e do encantamento das pessoas pelos artefatos multifuncionais, designer elegante e acesso ilimitado ao universo dos dados, conceitos e imagens que inundaram o ambiente da cultura geral.
Porém, pouco se fala sobre o que está abaixo da superfície reluzente dos equipamentos digitais. De fato, a revolução digital não é apenas mais um movimento tecnológico, como os que ocorreram sucessivamente desde os primórdios da civilização.  Isso é o que aparece no toque das superfícies dos meios digitais. Porém, a ‘deep web’, vanguarda da ruptura cultural, em contraposição à cultura analógica - que trançava e protegia o conhecimento na esfera 'cult' e intelectualizada ancorada nas correlações e referencias consolidadas na era moderna, inundou indiscriminadamente o sistema de informações que antes só transitavam em ambientes específicos, revelando que as coisas mudaram de fato, disponibilizando indistintamente um acervo gigantesco de infos para um grande e plural contingente de usuários. Sem grande estardalhaço, a Cultura Digital contundentemente penetrou nos hábitos e costumes da sociedade global.

Já convencido que a vitrine tecnológica era mais do que uma ‘onda’ passageira –era, de fato, um tsunami cultural, -  inicialmente desprezado por grandes figuras da intelligentsia e adeptos da erudição enciclopédica do velho mundo, que a criticavam como usina de ‘gadgets’ para formatar medíocres, reconsiderei essas transformações no plano estético propriamente dito. Minhas interações no ambiente digital foram diluindo a cortina de fumaça do conservadorismo erudito. Percebi, desde então, que não havia condições concretas de resistir ao empuxo do tsunami cultural que varreu o mundo, soprando uma brisa renovadora.
Essas reflexões foram vitais para a virada no meu processo de trabalho.
Em 2007 fiz uma grande exposição no Paço Imperial com obras da Série Divisões Internas. Obras dessa serie eram realizadas em superfícies sintéticas, mas ainda submetidas à tradição pictórica- com referências esparsas entre as formas geométricas, o gesto sensível, a caligrafia das pinceladas, as sutilezas das texturas cromáticas que no meu caso particular aconteciam no dialogo hipotético com as fontes do Concretismo e do Neoconcretismo históricos.  Até então, esses movimentos eram para mim um porto seguro, cheio de tesouros referenciais, que  há tempos eu desejava deixar para traz.  
Minha visão crítica sobre as sequelas do colonialismo cultural e seus desdobramentos no tecido social nativo não se dá apenas em relação à demarcação- interna e externa- do Brasil como ‘exportador’ de commodities agrícolas e minerais, de abundante exotismo naif mercantil e um território aberto à fácil disseminação de réplicas dos arrojados modelos culturais internacionais. A frágil constituição da nossa modernidade artística não é um garrote que nos condena a ‘autodeterminação’ cultural. Em vista disso, para mim, eleger estilos modernos consagrados como ‘alma nacional’ – se tornou uma contradição danosa ao conhecimento e o pensamento estético. Somos arrojados e mais complexos do que isso!

Como tentativa de escape desses paradigmas, nessa exposição dediquei uma sala para a projeção de um trabalho experimental intitulado Imagem & Memoria(link). 
As obras dessa serie não existiam concretamente, versavam apenas em manipulações digitais compartilhadas na memória do programa do computador que me impulsionaram a criar imagens imateriais manipulando dados coletados a esmo nas interações no ciberespaço. Há um pequeno filme sobre essa experiência e um texto que fala das intenções da proposta.

5 . Em 2008 realizei duas exposições na Caixa Cultural. Uma no Rio e outra em São Paulo, que foram divisor de aguas no meu processo pictórico.  As mostras mesclavam pinturas em técnica e suporte tradicionais e obras realizadas sobre superfícies sintéticas, interfaces magnéticas e metais –aço carbono e alumínio, revestidos com pigmentos especiais e substratos (resinas) sintéticas de tecnologia de ponta– PU / Poliuretano Uretane.
Esses insumos de alta tecnologia, não produzidos especificamente para a produção artística se mostraram compatíveis com a experiência que me dedicava. Recondicionando a técnica industrial chamada ‘fechamento de filme’ – ao meu proposito estético, apanhei o substrato básico – uma resina sintética, mais transparente que a clara de ovo usada no processo da tempera-  desenvolvi uma fórmula de diluição de pigmentos translúcidos sucessivamente  aplicados em finas camadas sobrepostas com objetivo de puxar  o croma predominante para superfície onde as cores eram aplicadas, trazendo à tona a fisicalidade do suporte revestido pela cor –aço carbono ou alumínio espelhados. 

6 . A partir de 2008 – depois de muitos erros e acertos- adotei em definitivo esse tipo de procedimento pictórico para todas as obras que produzo desde então.
Nota: o que mais me surpreendeu nessa exposição (2008) foi ter ouvido de diversas pessoas que essa experiência escapava do ‘campo da pintura’. Era outra coisa, não mais pinturas! Alguns achavam que era um processo de reprodução digital de ponta -metacrilatos e similares - comuns nos dias atuais.  Como senti os comentários como autênticos, sem conotação pejorativa a minha obra, guardei como um elogio gratificante. Eureca! ‘Transgredi’(ops) com êxito os limites impostos à pintura e conclui: pinturas únicas, feitas à mão, muitas vezes dadas como  ‘mortas’, se desdobram em múltiplas e sensíveis aparências no mundo das ‘coisas’ reais.

5 . Em 2012, fiz uma pequena exposição só com obras com essa técnica na Galeria Gustavo Rebello. Depois (2014) fiz outras. Uma no Rio (Mercedes Viegas) e duas no exterior.

7 .  O conceito que reveste essa série - em processo - tem duas pegadas. As duas relacionados ao ‘tempo da pintura’. Um tempo é o do próprio processo pictórico em si (in compartilhável). O outro (compartilhável) é o tempo do objeto pintado frente ao observador eventual. Essa fatura pictórica dispensa o gesto sensível, a textura pictórica marcada pela caligrafia autentica e inconfundível do pintor, para dar vida autônoma à superfície pintada em relação ao observador que nela se vê refletido enquanto aprecia e se movimenta frente à obra. Esse conceito tem intima relação com o ‘tempo presente’ e o transito das informações em diversas camadas, eixo da cultura digital.
Do ponto de vista poético, essas obras reativaram em mim a alegria da experiência desbravadora que se lança numa viagem sem rota- projeto/croqui ou estudos- tendo em vista que um ‘projeto’ de pintura é incompatível com o meio. Isso me levou também a um novo encontro com os fenômenos da natureza sem ter como base as ilustrações naturalistas/ desfiguradas ou abstraídas, pela vontade do autor.
As alusões aos fenômenos da natureza dizem respeito à incidência da luz ou ausência dela, sobre as coisas do mundo. Ao evitar representa-las artisticamente –os fenômenos naturais da luz, cores e formas em movimento -  acontecem aleatória e singularmente. As difusas e mutáveis aparências formais dessas obras sobrevêm a cada ‘visão’ do objeto.
Não trato de representa-las como tal, mas sim torna-las em si –intrinsecamente- pinturas ‘espelho d’agua’ em posição anômala -porque vertical -  aos espelhos d’água horizontais espalhados na natureza que desde a infância me encantavam por amalgamar em um só elemento os mistérios da profundidade à platitude, como fenômenos espelhados nas superfícies reluzentes.

terça-feira, dezembro 31, 2019










DÉCADAS & DÉCADAS


Como coleciono décadas, decidi planejar o resto da minha existência sob o prisma das reflexões e significados sócio/político/ culturais das décadas passadas.
Não conheço mais ninguém vivo capaz de ter clareza e sobretudo saco para se prestar a fazer críticas comparativas entre os anos 20 do século XX e as possíveis repetências dos mesmos erros nos anos vinte do século XXI que agora se inicia.Então, decidi recorrer ao excelente livro “ A Sagração da Primavera’ do historiador Modris Eksteins,com tradução de Rosaura Eichenberg, publicado pela editora Rocco em 1992 e-lamentavelmente- esgotado nas livrarias.
Do capítulo ‘PARA QUE NÃO ESQUEÇAMOS’(pags. 323>333) extrai esses trechos(fotos).
As preocupantes circunstancias atuais,marcadas por extremismos tanto em esfera nacional como global é  um castigo recorrente  à espécie humana que se submete à formas perversas  para retardar, recalcar e prejudicar as conquistas e avanços decorrentes do processo civilizatório, repetindo - com estupida convicção- suas mais devastadoras certezas.
No alvorecer dos anos 20 do século  XX, o poeta Paul Valéry  disse uma verdade que vale por mil certezas.Passados quase cem anos, ainda pulsa o paradoxo então vigente  frente ao vasto acervo de certezas: “ A mente na verdade foi cruelmente ferida...Duvida profundamente de si mesma."
Os movimentos artísticos culturais que espocaram no inicio do Século XX  e que culminaram  nas rupturas  com o velho sistema,posteriormente estudados como Vanguarda Histórica, foi o ponto de partida do historiador para  analises e reflexões sobre os  cenários onde se desenrolaram os combates estéticos  'novo versus  tradição',estopim da  Primeira Grande Guerra.
Nesse livro, Eksteins reúne as peças do jogo de motivos,recalques e  confrontos que poucos  anos depois voltaria a ameaçar a civilização com a versão  mais avassaladora, mortífera e atroz da Segunda Grande Guerra.        
Pretendo continuar acreditando na civilização! Que os anos 20 do Século XXI - maioridade da Cultura Digital,da  Era do Conhecimento e das tecnologias da informação-inspirem as mentes à pensar, estimulando  um  maior  numero pessoas a se tornarem  protagonistas das mudanças que se estenderão em  benefícios aos remanescentes do atraso, sempre lembrados pelos arautos da hipocrisia mas,, de fato,por eles providencialmente  'esquecidos' nos grotões do passado   








         

terça-feira, novembro 05, 2019











A conta, por favor!
Enquanto cientistas políticos ensaiam explicar os motivos das manifestações no Chile,a máquina registradora já contabiliza os prejuízos. Caia o governo - o que parece improvável- ou siga adiante, todo mundo sabe quem vai cobrir os prejuízos. Não é preciso dizer quem vai pagar, não é verdade?
Esse é um ‘detalhe’ cruel que os analistas parecem não dar a devida importância.
Alguns analistas preferem recorrer à teses nostálgicas e vitimistas, preferidas dos intelectuais latino americanos, para confirmar que na região os 'sonhos de futuro' são sempre frustrados pelos pesadelos da realidade.
Já li de tudo um pouco, sobre os movimentos explosivos no Chile.
Claro que não poderia faltar alusões à greve de 1972, que mobilizou os caminhoneiros chilenos e durou 26 dias.
Na ocasião foi considerada o ato inicial que culminou com a posterior derrubada do governo Salvador Allende.
Pera lá, companheiro!
Na ocasião, apontou-se a CIA como a principal financiadora do movimento que derrubou o governo de esquerda.
Agora, o quadro é radicalmente diferente!
Quem financia os movimentos explosivos no Chile?
O que eles querem derrubar, alem das estações de metrô?
É certo que nem todos os problemas humanos são de ordem econômica.
Porém,a pobreza e a falta de oportunidades, oriundas de políticas econômicas desastrosas, pioram muito, dificultam ainda mais, que um maior número de pessoas possa alcançar o bem estar social, que possibilite uma vida menos dura e infeliz.
O Banco Mundial aponta o Chile como único país sul-americano com uma economia de alta renda.
A fórmula que superou os atávicos problemas do Chile e desempenhou um papel fundamental na recuperação econômica, nada tinha de especial ou exótico .
Ao contrário; desde o princípio, o Chile adotou com firmeza a descentralização econômica.
Restringiu a mão do Estado no setor produtivo e assim reverteu a histórica pobreza, promovendo uma verdadeira revolução econômica.
Em curto espaço de tempo,o Chile passou da estagnação econômica mantida por uma estatização da economia para a produtividade crescente do setor privado seguindo um modelo de liberalismo que removeu impostos, reduziu as regulamentações excessivas, a burocracia e as tarifas protecionistas.
Diversas estatais foram privatizadas.Pequenas e médias empresas, em determinados segmentos, passaram a usufruir de maior liberdade fiscal.O poder aquisitivo cresceu e se distribuiu na compra de matéria-prima,ampliando a capacidade produtiva.
O desemprego caiu drasticamente.
Novas empresas surgiram. O setor privado prosperou e se tornou mais competitivo a nível internacional
O PIB quintuplicou.
A qualidade de vida se elevou a ponto de por várias edições do IDH/PNUD latino americano, o Chile se manteve na primeira colocação -seguido pela Argentina e Uruguai e na 44º posição no índice global.
Nos anos 1980, o país se encrencou em difícil crise financeira e hiperinflação, como consequência da malsucedida política econômica ministrada pelos ‘Chicago Boys’ que, entre outras coisas, renunciou às taxas de câmbio flutuantes como referência para a estabilidade monetária. Essa medida, combinada com a hipervalorizarão do peso chileno em relação ao dólar americano, abriu caminho para a pior recessão que o Chile experimentou desde os anos 1930. Essa experiência malsucedida não abateu os chilenos.
O passo seguro do liberalismo econômico adotado trouxe robustez, abundância e eficiência ao sistema, o que ajudou o país a reverter a crise com segurança.
As medidas que se seguiram ampliaram as reformas econômicas e solidificaram a economia, concedendo amplas liberdades à livre iniciativa, fomentando a geração de riquezas.
Resultados positivos, um sobre outros, fortaleceram a expansão das políticas liberais, previamente estabelecidas. Este é um dos motivos pelos quais o Chile, depois da experiência malsucedida dos anos 80’ não ter tido mais nenhuma recaída que fizesse retornar a estagnação econômica dos velhos tempos.
Tenho certeza que um país que passou por tudo isso, enfrentando corretamente as dificuldades,não se abaterá com a manifestações de agora.
A geração que hoje se rebela nas ruas de Santiago é herdeira desses sucessos.
Como não há sucesso econômico que teses de sociologia política não possam desconstruir, não me espanto que a velha e reincidente ´paixão’ latina, em sintonia com o populismo arcaico, que esparrama pelo continente o bolorento odor das tumbas do peronismo, impulsionado pelos ventos insalubres do bolivarianismo, reencarne nos jovens, ávidos por aventura, um anarquismo ‘caliente’ escancarado nas manifestações explosivas de viés globalista.
Abarrotadas de ‘causas’ as mais diversas, o que de fato os manifestantes pretendem mudar?
Uma coisa é certa!
A estética Anonymus dos movimentos globalistas da WallStr, Londres, Paris etc, mudou o visual dos manifestantes de Santiago!
Doravante, serão 'visualmente' integrados aos movimentos de jovens rebeldes dos países mais ricos do Ocidente.
Um salto 'estético'.Sem pobres e descamisados..
Com uma pequena diferença: adotaram o vermelho como traje de combate.
É, mais uma vez, a recorrente explosão da 'paixão' latina pelo sonho vermelho encarnado!









Arte,Cultura e Estado

Um velho e tortuoso tema que,na maioridade do Seculo XXI,ainda  atormenta artistas e intelectuais brasileiros.


Censura não se debate, se combate’, recomenda a ministra Cármen Lúcia aos artistas presentes à audiência pública no STF.
Sendo o STF a última instância de justiça que os cidadãos-artistas ou não- recorrem para preservar e garantir seus direitos, a 'recomendação' da ministra aos artistas presentes é prosaica, sem efeito legal concreto para estancar a censura 'governamental' denunciada pelos artistas presentes e punir, na forma da lei, os censores.
Se levada ao pé da letra a recomendação da ministra pode ser entendida de duas formas.
A primeira é midiática: A sessão foi bacana. Vai repercutir na imprensa.
Certo! Repercutiu, a frase da ministra foi lida por mim,copiada e colada do lide de uma matéria de O Globo.
A segunda,como deboche com os presentes que foram ao STF denunciar, 'debater' e pedir providências do tribunal contra "uma nova forma de censura governamental."
Ao dizer que 'censura não se debate,se combate', os artistas presentes devem ter se frustrado.
Os que viveram sob o tacão da censura e sofreram consequências pessoais e profissionais por suas posições em defesa da democracia e da liberdade de expressão nos anos de chumbo,não precisam ir tão longe,se dispor a preparar e expor suas denúncias para ouvir da ministra o que deveriam saber por experiência própria.
Mas, se porventura,o centro da denúncia dos artistas presentes à audiência diz respeito a uma aludida CENSURA econômica e ao 'desmonte' das instituições estatais, como fator de retrocesso cultural,cresce meu espanto com a posição de notáveis e talentosos artistas da minha geração.
A crença num Estado passivo e justo,não sobrevive a nenhum governo.
Se para garantir o aparelhamento estatal, tendencias ideológicas no poder promovam politicas culturais de aparente inserção, é uma ilusão 'útil' ao sistema acreditar que elas atendam e reflitam os 'avanços' sob a égide de uma democracia cultural.
O Estado não dá conta de suprir massa crítica cultural.
Apenas 'financia' o que uma comissão considera oportuno investir.
Quantos de nós,durante a ditadura, debatemos sobre as possíveis consequências nefastas da tutela estatal, quando da implantação da estratégia dos governos militares -sob a ótica Golbery - das fundações de arte,agencias e empresas públicas de arte e cultura, patrocinadas por um Estado mecenas?
Incontáveis textos e reflexões primorosas foram produzidas na ocasião sobre a temível ilusão de que o Estado seria o 'mecenas' justo em oposição às tendências variáveis do gosto e do incipiente e 'injusto' mercado de arte, cultura e entretenimento.
As ditaduras 'estáveis'(sic) onde o voto é um ornamento secundário "pra inglês ver", o financiamento estatal de arte e cultura é ferramenta de poder que serve,entre outras coisas, para adoçar possíveis e desagradáveis dissidências,financiado uma arte 'oficial', ainda que pareça contestatória e insurgente, contra os artifícios do sistema.
Isso seria o 'justo'? O correto?
Todavia, nas democracias, onde se conta o voto da maioria, o poder muda de mãos.
Quando isso acontece o Estado segue a orientação política do vencedor.
Coisas simples assim, várias vezes comentadas em prosa,verso e textos esclarecedores sobre a insidiosa parceria Estado/ Cultura, acabar sendo debatida nas dependências da Corte Suprema,desperta em mim a melancólica sensação de sentir de novo o gosto amargo da decepção de que não basta uma 'ideologia para viver'.
Parte expressiva da categoria precisa mais que isso.
Precisa de um Estado para prove-la.
Em resumo; uma variante 'artística' das necessidades do povo pobre, submetido à cultura do Estado forte,onipresente.

PS
 Não é apenas ingenuidade.
Ha algo mais preocupante na insistente e prejudicial formula da comunidade artística nacional
 empurrar para baixo do tapete questões que se evita abordar em profundidade. 
Não ha como evitar que os modos de intermediação Estado/Cultura,plantados no país durante o regime militar, que mais tarde se desdobrou em diversos subsídios culturais que atingiram o ápice com a bem intencionada Lei Rouanet, por xs criticada por selecionar 'beneficiados' com grande visibilidade e muitos recursos obtidos nos ramos da industria cultural, um dia viria à tona. Não creio que esse governo tenha ideia clara sobre a importância do assunto, pela maneira descuidada com que o está tratando. Até mesmo a ministra Carmem Lucia que acolheu as denuncias dos artistas, se confunde. E como se confunde! Fala no mesmo tom sobre "Censura e Constituição”. Para ela - a “Constituição deve prevalecer sobre as dificuldades.” Convenhamos, isso não ocorre nem com matérias menos complexas abordadas pelo STF. Rouanet, um intelectual sério,que quando ministro criou a lei que leva seu nome e Capanema que em 1937, por sugestão de Mário de Andrade e Rodrigo Melo Franco, criou o Iphan,duas Politicas de Estado, que deveriam se sobrepor as vontades dos governantes, certamente não previam,sequer imaginavam, que essas politicas sofreriam adulterações de viés politico administrativo nas sucessivas gestões que os sucederam..Considero a 'resistência' -de um lado e de outro -prejudiciais ao bom debate que a Cultura brasileira,por sua importância,ha muito merecia encarar e desenvolver.Mas, como no titulo do seu livro,Mércio Gomes nos alerta que sempre que se abre um clarão de oportunidades - 'O Brasil Inevitável'- surge com virulenta reação que teima em 'buscar' o futuro no passado recente e, muitas xs, na velha tradição patrimonialista.



domingo, setembro 08, 2019

O Preço de Tudo






Ao assistir o documentário " The Price of Everything" ( tb legendado em português nos canais HBO) tive o impulso de compartilha-lo aqui por dois motivos.
O primeiro motivo foi a lembrança imediata de uma matéria publicada ha tempos no NYT com o título:"A Arte está embriagada pelo dinheiro" que, surpreendentemente,na ocasião, não obteve repercussão à altura da provocadora insinuação.
O segundo motivo é que, em se tratando de Arte, visibilidade, fortuna e fama, qualquer crítica ao pileque generalizado, reunindo artistas,curadores,colecionadores,investidores e o dinheirão fluindo pelo sistema,tendem(as críticas)serem encaradas como lamúrias dos ressentidos e invejosos ao sucesso dos 'eleitos' ou mais uma torpeza reacionária e conservadora contra a liberdade de expressão.
Como,por outro lado, a pobreza e o ostracismo de alguns artistas, tende a ser entendido como fatores inerentes ao destino dos que escolheram a liberdade criativa e pagam seu preço com a exclusão do mercado.

É maçante ter que repetir que confundir aclamação do mercado com credenciamento artístico cultural é uma característica marcante nos néscios
Dois blefes que,paradoxalmente, se nutrem na mesma fonte.
Assim, o debate se encerra com as 'sensíveis' declamações: Arte é Vida & Vida é Arte, em voga na atualidade.
O dinheiro,onde quer que prolifere,tem o poder de abrandar discordâncias.
Esse documentário descortina essas discrepâncias, concede protagonismo especial ao "esquecido,quase morto" pintor Larry Poons,para se aproximar dos supostos critérios do mercado e o retumbante aplauso aos 'vencedores' do circuito.
Porém, quase ao final do filme, o galerista novaiorquino Brow, ao lado do crítico Jerry Saltz, usam discretamente o sentido do olfato para descrever a euforia que eles vêem espalhar nas artes visuais como um alerta; "sentem cheiro de fumaça" no ambiente glamouroso e milionário da arte contemporânea norte americana.
Cabe destacar que o diretor do documentário dispensou os fatores estéticos,teorias e fundamentos e a relação entre Arte e sociedade,qualidade e valor intrínsecos das obras de arte por ele focadas.
Longe disso, preferiu enfatizar, com sutil ironia, o 'espetáculo' do dinheiro na Arte,onde todos os demais atores - juntos e misturados- são coadjuvantes do sistema.







segunda-feira, agosto 12, 2019








Na ficção, a aspiração de gerar um ‘novo homem’, tem aspectos críticos que apontam para a tragédia e a destruição e servem de estimulo parta se pensar sobre o potencial mortífero de uma ‘boa ideia’.
 Mas, a teoria política, fundada na ideia do ‘novo homem’, quando colocada em prática,  a ideia se apresenta como engrenagem de uma máquina terrível que produz mortes em profusão, destrói o tecido social e deixa sequelas terríveis, difíceis de serem superadas por várias gerações. Já se acreditou na saga marxista da ditatura do  ‘newman’ ,oriundo do proletariado, sujeito solidário, igualitário, tolerante e comunal, que brotou na Rússia nas primeiras duas décadas do Século XX.  
Mas, em 25 de fevereiro de 1956, Nikita Kruschev, três anos à frente do Partido Comunista da União Soviética como Primeiro Secretario, subiu na tribuna e fez um discurso demolidor, que viria a mudar a história da URSS.
Em 2019, se comemorou 60 anos do discurso do Kruschev no politburo da URSS.
Ao fim da sua histórica narrativa, milhões de russos adultos choraram como nenéns de colo. E, Kruschev, apenas abriu uma das pastas do volumoso arquivo de atrocidades cometidas por Stalin, “guia genial de todos os povos” e bispo supremo do sanguinário culto que se espraiou pela União Soviética.
Dentre milhares de fatos hediondos, Kruschev se concentrou com mais ênfase em seis pontos: “Expurgos” ocorridos entre 1937 e 1938.Nesse ponto ele registou que 1.500.000 pessoas foram presas, mandadas para campos de concentração onde milhões sucumbiram e, os poucos que tiveram alguma sorte, conseguiram se exilar. “Execuções”: 690.000 pessoas foram executadas (entre os condenados à morte estavam todos os companheiros de Stalin que lutaram na revolução de 1917 e alguns “fundadores do comunismo soviético”. Kruschev afirmou ainda que todos os executados eram inocentes. ”Paranoia e Tirania Oficial” tirante ele próprio, para Stalin, todos que o cercavam eram inimigos da URSS. “Desastrosa Estratégia Militar”, Kruschev, discorreu sobre os imensos erros de Stalin na condução da Segunda Guerra. Os expurgos no Exército, eliminaram 85% da cúpula militar deixando as fronteiras da URSS desguarnecidas. E, pior, esse erro grasso, que aumentou o número de russos mortos, aconteceu porque Stalin confiava no seu acordo com Hitler, mesmo diante dos persistentes avisos de que a Alemanha atacaria. Esses “erros” de Stalin provocaram a imensa perda de vidas que poderia ter sido evitada, só nas primeiras duas semanas da invasão alemã de 21 de julho de 1941 a Wehrmacht fez seis milhões de prisioneiros, dos quais dois milhões pereceram em pouco tempo por maus tratos e execuções.  “Calamidade agrícola e fome” a desastrosa política agrícola de Stalin, se abateu sobre o povo, dizimando 10 milhões de camponeses forçados à coletivização das fazendas. A produção de trigo caiu vertiginosamente   matando de fome outros tantos milhões. Como Kruschev era engenheiro agrônomo, suas críticas ao modelo agrícola de Stalin, deixam transparecer que se tratou de uma ação punitiva intencional, uma espécie de guerra civil do Stalin contra os camponeses que se opuseram à loucura coletiva imposta pelo regime tirânico. “Política Externa” stalinista foi um desastre completo. Pretensamente internacionalista, de fato, se revelou isolacionista e impositiva, trazendo enorme desgaste para a URSS, mais miséria para o povo e enormes dificuldades para o pais no âmbito do comercio internacional, na diplomacia e convívio com outras nações.
Anos depois, Gorbachev, oitavo e último líder da União Soviética, assim como Kruschev, foi Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética de 1985 a 1991. Como chefe de Estado, de 1988 a 1991, Gorbachev revelou ao mundo sua inclinação à social democracia. Foi ele que em 1986, deu a virada política na Rússia com a Glasnost, um dos pontos principais do seu governo tumultuado por conflitos nacionalistas e insatisfação social. Sua proposta consistia na abertura política, que tinha por objetivo trazer ao país a transparência e a liberdade de expressão.
Anos depois, surge Putin, um modelo laboratorial da extinta KGB.O líder, há 20 anos no poder, foi moldado na tradição czarista, com pitadas de stalinismo.     

  

   














quarta-feira, abril 24, 2019







A CULTURA INCULTA


Que ilação é possível fazer entre um abaixo assinado por + de 1000 alunos da Universidade de Artes (UArts) Filadélfia, exigindo o expurgo da professora Camille Paglia dos quadros da universidade com a grade de programação cultural do Watson Institute,Pensilvânia e dos doutos de Harvard?
Recentemente, o Watson Institute realizou palestra show da funkeira brasileira,feminista de exquerda, MCCarol(vídeo).Logo em seguida, Annita se apresentaria em uma conferência sobre o Brasil,em Harvard.
O que essas inebriantes aberturas da elite acadêmica norte americana ao ‘pop’ e à massificação da arte da cultura e do pensamento em Terra Brasilis pode nos oferecer como reflexão sobre o mundo e nós mesmos,brasileiros?
Tempos atras, o intelectual norte americano,Allan Bloom,em seu excelente ensaio, escrito em 1987 “ A Cultura Inculta”(titulo do post em referencia ao autor) já apontava as universidades norte americanas como celeiro para a disseminação da crise social e política do Ocidente no século XX . No ensaio, ele aborda temas como: falta de objetivos das universidades à falta de conhecimentos dos estudantes, desde os clichés da libertação à substituição da razão pelo embuste supostamente criativo em prejuízo da crítica livre e bem fundamentada.
Revela, também, como a democracia ocidental acolheu irresponsavelmente as ideias vulgarizadas de niilismo, desespero e de relativismo disfarçado de tolerância.
Seu ensaio,hoje me parece uma profecia realizada!
Estariam os ‘acadêmicos’ norte americanos exauridos do farto acervo de produtos artísticos, intelectuais e culturais de excelência?
Estão empanturrados de Sócrates , Platão e Aristóteles e ávidos por menus filosóficos preparados por exóticos pensadores pós modernos,carregados de temperos progressistas, politicamente corretos?
Estão de saco cheio de tanto ver/ouvir espetáculos públicos primorosos de 3 grandes tenores.
Se sentem condenados a ouvir Bach? Serem torturados pelo som de Mozart?
Ter que aturar,ainda hoje,em pleno seculo XXI, as sofisticadas e profundas sonoridades de Miles Davis,Coltrane, Thelonious Monk?
Estariam eles em tédio? Renitentes e avessos ao consumo de mega shows e produções milionárias? Estariam reagindo politicamente à 'obrigação' de ouvir as lendárias gravações de seus ícones ‘pop’, como Prince, que criaram poderoso repertório que influenciou, melhor dizendo, se converteu em modelo a ser seguido pelas gerações subsequentes, na forma de cultura replicante, calcada grotescamente na rebeldia, nas mensagens e no swing da world music, funk, punk e caterva, virilizadas mundo afora e no Brasil em particular?
A primeira coisa que me passa pela cabeça é que a elite acadêmica progressista de exquerda, dos EUA, lidera e difunde uma enxurrada de propostas que, no fundo, se bem esmiuçadas, revelam que o objetivo estratégico desses 'lordes', no papel de cruzados da Incultura, é reafirmar ao mundo sua liderança e supremacia global, nos campos das artes, do pensamento e da incultura contemporâneas.
Senão, vejamos!
Só esse ano li, sigo lendo, ótimos ensaios de professores e escritores brasileiros, com visões originais e propostas inéditas para abordar os impasses que afetam a cultura e o pensamento nacional.
Por que os acadêmicos ianques não enxergam os artistas, escritores e pensadores brasileiros originais que, por não acolherem os cânones ‘pop’ da arte norte americana e reproduzi-los na formula ‘copy/paste’, com pitadas de regionalismo, seguem ‘não lembrados’ para palestras e apresentações nos antros da exquerda norte americana?
Por que suas obras, em síntese, expressam qualidade intrínseca e autonomia ideológica, estética e formal? Por que essa parcela de pensadores e artistas não espelham o 'exotismo' sedutor dos trópicos, que enche os olhos dos eruditos norte americanos e europeus?
Por que nossos pensadores emancipados já reverteram a submissão neo colonialista?
Há muitas perguntas que permanecerão sem respostas. Até o dia que a boa Arte e Pensamento original e profícuo de um grupo de brasileiros pensantes, mandem esses 'doutrinadores' à PQP.