segunda-feira, outubro 25, 2010

Utilizar réplicas humanas em pesquisa científica.Certo ou errado?



A Arte Suprema
Replicantes - seres desenvolvidos pela engenharia biológica- criarão réplicas de si mesmo. O homem biológico será apenas um capricho da natureza preservado nas reservas ecológicas. 

domingo, outubro 24, 2010

Cultos arcaicos numa mente moderninha.


Movimentos de protesto contra o uso de animais em pesquisas científicas,espetáculos circenses e outras manifestações artísticas e culturais vem mobilizando um numero gigantesco de seguidores mundo afora.Alguns cientistas afirmam que o uso indevido dos animais acarreta malefícios à espécie humana. Os "pragmáticos- ultra realistas" contestam. Afirmam que é hipocrisia, pois, o sacrifício de animais para fins de consumo humano é descomunal e o abandono de animais nas vias públicas uma realidade vergonhosa e incontestável. Por essas e outras razões, defendem a liberdade de expressão em obras de arte que usem animais vivos como suporte. Guillermo Vargas Hababuc -artista nicaragüense- vivia no ostracismo até realizar a “Exposição nº1″ que consistia num cão atado até a morte, durante 30 dias-sem água e alimento- numa galeria de arte. Muito criticado tornou-se mundialmente famoso -HIPOCRISIA GLOBAL É ISSO AÍ! 

Mas, a hipocrisia que Hababuc critica não é a dele. Vejam o que disse: “O importante para mim é constatar a hipocrisia alheia: um animal torna-se o centro das atenções quando o ponho num local onde toda a gente espera ver arte, mas deixa de o ser quando está na rua”.
Esse artista da vanguarda histérica acha que o sacrifício de um animal é uma lição de ética. 
O mesmo raciocínio deve ter inspirado os colonizadores espanhóis  quando deram de cara com os sacrifícios humanos praticados pelos nativos da America colonial. Certamente sentiram-se muito a vontade para torturar e matar em nome de uma nova verdade contra aquela que consideravam uma hipocrisia celestial. 
A defesa inconteste das tradições culturais é uma maluquice. Se não ocorrem rupturas culturais profundas o homem - em defesa de uma cultura arcaica ou da liberdade de criação alheia aos pactos sociais- permanece praticando sacrifícios à esquerda e a direita.
O "contemporâneo" não é uma formula ou evangelho que garante práticas irracionais em nome de uma suposta ética ou de uma nova estética. 
Isso é puro obscurantismo!

quinta-feira, outubro 21, 2010

MBA em Gestão Existencial.


-Hoje existe técnica disponível  para tudo. Os múltiplos vetores do conhecimento foram sintetizados em manuais específicos vendidos em qualquer banca de jornal do bairro. De um tempo para cá a  experiência pessoal, pautada no mérito, perdeu valor. O que hoje vale são os indicadores de audiência,consumo e resultados econômicos.Se alguém procura um pensamento "profundo"  para amenizar uma angustia existencial ou, publicações sobre a diversidade cultural da atualidade, encontrará nas bancas ou em sites especificos um pacote de produtos  do ocidente e do oriente, decifrados e formatados em códigos facilmente assimilaveis. A eficiência técnica tornou tudo passível ao consumo.A preço popular pode-se encontrar milhares de conteudos, gerados por algum professor de filosofia ou  teórico da comunicação, sobre as complexos questões que envolvem a vida contemporânea. Uma maravilha só alcançável pela prosperidade econômica e tecnológica. Ontem, numa banca de jornal, uma menina procurava uma revista de física quântica relacionada à espiritualidade. Encontrou duas!Comprou-as e partiu contente. É nesse sentido que afirmei que a felicidade se tornou um produto acessível. Creia, em breve, serão oferecidos cursos de MBA em Gestão Existencial.
-Sua descrença no homem alcançou o nível da demência. Por que voce insiste em dar uma conotação vulgar e grotesca aos avanços sociais? Ao que tudo indica voce prefere retornar ao maravilhoso mundo da aristocracia culta. Ao mundo enclausurado do saber seletivo.
-Engana-se, meu amigo.Afirmo apenas que a adesão  ao ideal dominante  tornou-se  um imperativo para quem pretende vencer na vida. Isso é uma deformação assustadora. A consagração desse modelo enfraqueceu uma das substancias essenciais ao conhecimento. O  resultado disso foi  o crescente despretigio à  reflexão individual e a expansão de atitudes e talentos autonômos e originais. É nesse sentido que afirmo que, enquanto sociedade, chegamos mais perto do abismo.
Por essas e outras, o momento atual é  propicio ao sucesso de um MBA  em gestão existencial.

sábado, outubro 09, 2010

Gadget cultural




-O que é isso, companheiro? Estou falando a mais de uma hora do massacre que está sendo perpetrado contra as minorias que ainda teimam em criticar a mentalidade dominante e você volta a recorrer aos velhos métodos da catequese doutrinária? O que você está propondo é uma causa. Uma causa, nas circunstancias em que nos encontramos é apenas um modo de olhar a avalanche de cima. Ocorre que o deslizamento já levou pro buraco os templos, as academias, os abrigos religiosos e ideológicos. Restaram apenas escombros e, sob ele, páginas desconexas da historia, cacos que não se juntam do que um dia foi chamado de  humanismo e da esperança vã. O que você pretende? Reerguer novos templos sobre um terreno minado e inóspito? Seu pensamento é produto da última fase do tecnicismo glorioso que se fiava na crença da sustentabilidade.Esse ideal foi pro espaço na segunda década do século XXI.  Diria que esse foi o ultimo capitulo do tratado da Economia do Desastre. Nem mesmo os shopping centers- velhos templos desse período histórico- resistiram. Viraram ruínas e desapareceram da memória.   
Entendo onde quer chegar. Você é mais um daqueles que pretendem reerguer os princípios e valores atávicos. É um fiel da crença no homem.
 As sucessivas dinastias egípcias construíram pirâmides com pedras arrancadas dos templos dedicados aos faraós que os antecederam e que haviam caído no esquecimento. Todos, indistintamente, criaram uma instancia divina para negociar com deus através da tradição. O que restou das cem pirâmides conhecidas? Quéops, a mais famosa delas, depois de penar por séculos caiu em profunda decadência, tornou-se um parque temático e, nos últimos trinta anos, foi definitivamente engolida pelo deserto. Quéfren, filho de Quéops, e Miquerinos, seu neto, fizeram o povo trabalhar duro para completar o conjunto arquitetônico das pirâmides de Gizé. Hoje, você só se lembra que aquela cultura existiu porque a ciência genética e as ultimas clinicas de nano medicina permitiram que você vivesse muitos anos e guardasse alguma lembrança do passado. Acho que isso explica, em parte, as razões de seu sofrimento. Seus filhos e netos não têm a mínima noção do que aquilo representava. Claro, depois que os arqueólogos, antropólogos e estudiosos foram contratados pelos grandes canais de TV a cabo e o Estado abandonou a noção de tempo histórico se dedicando apenas ao tempo lógico, os investimentos em estudos da antiguidade caíram em desgraça. O que restou da velha idéia de Estado? Nada! A mentalidade vencedora que hoje molda o que chamamos de Estado é imediatista. É um mix de estratégia de dominação militar, comunicação populista, finanças e mercado, focados na maioria e obcecados pela ideia de atender as necessidades  prementes do tempo presente.
As instituições públicas operam pressionadas por flashs momentâneos. Em um segundo tudo pode mudar. O sentido de contemporaneidade se encurtou entre o ontem e o agora.Com a falência completa do velho sistema de comunicação de massas o mundo virou de pernas pro ar. Se formos agora à Gizé constataremos que o volume de calcário diminuiu e as areias do deserto se elevaram às alturas. O deserto tornou-se um Everest de poeira,areia e tempo. Os romeiros que ali transitam criaram uma nova camada mitológica sobre o que imaginam ser o Tempo dos Faraós. As projeções holográficas sobre o local dos antigos santuários, estádios e monumentos como Parthenon, o Coliseu e os templos budistas do Tibete, depois de completamente arrasados, são recriados em eventos bienais por artistas contemporâneos excessivamente criativos. Um escritor do hemisfério sul reinventou aventureiros templários que hoje comovem multidões. Dá pena ver os grosseiros remendos arquitetônicos no Vaticano. Da última vez que passei por lá tive uma visão arrepiante da Praça de São Pedro. O bisneto de um arquiteto que construiu no século XX  um museu no estilo pós moderno  em Bilbao, foi encarregado de dar uma nova cara  a Basílica Sancti Petri. Após a consolidação da última versão bíblica ficou provado que Maria Madalena e não Cristo foi,de fato, crucificada. As últimas duas papisas e agora  a  Papisa Madona III investiram pesado para erguer a nova era cristã. O arquiteto redesenhou as  colunas e o domo. O departamento de marketing do clero aceitou as sugestões do arquiteto que,entre outras coisas, afirmou categoricamente que os jovens não ligavam para igreja por causa do seu designe antiquado demais .O novo material sintético e cintilante usado em todo o monumento reproduz a pele e as chagas de Maria Madalena. Como os mais jovens não sabem quem foi Cristo a reforma teológica e  arquitetônicas  não foram contestadas.                  
Além disso, os cardeais fazem projetar durante todo dia, num grande dispositivo visual de ultima geração e animado por um trepidante som THZKX, as aventuras de Cristo, o grande herói religioso do velho humanismo que salvou a filha de Deus da morte certa. Tudo isso,convenhamos,é um esforço inútil! Fiquei horas passeando pela grande praça e notei que entre os cinqüenta e seis fieis que ouviam a fala papal nenhum tinha menos que cento e cinqüenta anos. Nem mesmo o traje da papisa, inspirado nas vestes das mendigas do século XX, está em bom estado de conservação. Parei entre um grupo de fiéis que comentavam o sucesso dessa congregação num tempo remoto. Um deles, mais entusiasmado, lembrava que na extinta era do cinema um diretor chamado Tarantino deu um novo sopro no credo ao colocar personagens bíblicos vestidos de samurai como partidários de Cristo na heróica peripécia de salvar Maria Madalena da crucificação. A narrativa do sujeito era fantástica.Devia ser um dos remanescentes do trans humanismo. Deu pra perceber que ele viveu na carne a era do "politicamente correto". Me fez recordar alguns episódios emocionantes da luta contra os preconceitos que terminou por colocar em todos os países do mundo, mulheres no comando dos governos. Todos concordavam com tudo que ele dizia. É compreensível, atualmente ninguém se interessa em contestar qualquer narrativa. Todo mundo é livre para criar a historia que melhor lhe convém. O mundo é uma interpretação do mundo. Uma senhora, que identifiquei como pertencente à casta da minoria autentica, tentou ponderar dizendo que mesmo essa alternativa de poder não reduziu o empuxo da espécie humana em direção a destruição, a opressão e ao engodo. Todos desprezaram sua consideração. Continuaram se divertindo e comentando animadamente os tópicos da fala papal.

quarta-feira, setembro 29, 2010

O Tempo dos Assassinos








O BARCO BÊBADO

Arthur Rimbaud

Como eu descia pelos rios impassíveis,
senti-me libertar de meus rebocadores.
Tomaram-nos por alvo os índios irascíveis
e pregaram-nos nus aos postes multicores.

Já não me preocupava a carga que eu trazia,
fosse o trigo flamengo ou o algodão inglês.
Quando dos homens se acabou a gritaria,
pelos rios voguei, liberto de uma vez.

Ante o irado ranger das marés, me lancei,
mais surdo que infantis cabeças, no outro inverno,
fugindo! E para trás penínsulas deixei
que jamais viram tão glorioso desgoverno.

A procela abençoou meu despertar marinho,
dancei como cortiça entre vagas e atóis,
que fazem vítimas no eterno redemoinho,
dez noites, sem pensar no olho vão dos faróis.

Doce como a maçã na boca de um menino,
meu lenho se encharcou do verde turbilhão,
que um caos de vômito e de vinho purpurino
lavou, e destroçou meu leme e meu arpão.

E mergulhei então no Poema do Mar,
todo de astros mesclado, e leitoso, a beber
os azuis verdes, onde, a flutuar e a sonhar
um absorto afogado às vezes vai descer;

onde, a tingir de um golpe o azul, à luz safira
dos dias, ritmos arrastados e delírios,
mais fortes que a embriaguez e mais vastos que a lira,
fermentarão do amor os amargos martírios.

Sei os céus a estalar de clarões, sei as trombas,
correntes e monções: e sei o anoitecer,
a exultante manhã qual um povo de pombas,
e vi por vezes o que o homem julgou ver.

Vi o sol-pôr manchado a místicos horrores,
iluminando longas urnas arroxeadas;
como dos mais antigos dramas os atores,
as ondas a rolar à distância, encrespadas.

Sonhei a noite verde entre neves radiosas
dar aos olhos do mar mil beijos hesitantes;
vi a circulação de seivas misteriosas
e o áureo-azul despertar dos fósforos cantantes.


Longos meses segui, tal como vacarias
histéricas, o ardor das ondas contra a areia;
sem suspeitar que os pés brilhantes das Marias
pudesse apaziguar o Oceano que se alteia.

Atingi, sabei vós, Flóridas escondidas,
os olhos da pantera ajuntando às floradas,
com pele humana. E tenso o arco-íris, como bridas,
no horizonte do mar, quais alegres manadas.

Vi fermentar pauis enormes e lameiros,
onde apodrece um Leviatã entre os juncais;
e entre bonanças desabar furiosos aguaceiros,
despencando o longínquo em golfos abismais!

Gelos, argênteos sóis, ondas, céus abrasantes!
Encalhes colossais nos mais fundos negrumes,
onde o piolho come as serpentes gigantes
que tombam da galhada entre negros perfumes.

Desejara mostrar às crianças as douradas
da onda azul, peixes de ouro, esses peixes cantantes
– a espuma toda em flor ninou minhas jornadas
e um inefável vento alou-me por instantes.

Das zonas e do pólo, às vezes, mártir exausto,
o mar, cujo soluço as fugas me adoçava,
dava-me flores de ouro e de sombrio fausto,
e eu, como uma mulher de joelhos, descansava.

Quase ilha, a balançar gritando às minhas bordas

rixas e estrumes de aves de olhos afogueados;
eu ia, enquanto pelas minhas tênues cordas
desciam, recuando, ao sono os afogados.

Eu, barco naufragado entre as marinhas tranças
pelos tufões aos ermos do éter arrojado,
cujo casco ébrio de água os veleiros das Hansas
e os Monitores não teriam resgatado;

livre, a fumar, envolto em brumas violetas,
que perfurava o céu vermelho como um muro,
que traz – confeitos deliciosos aos bons poetas –
liquens do sol e cusparadas do azul-escuro;

prancha louca, a correr entre uma escolta preta
de hipocampos, rajada a estrias resplendentes,
quando julho esboroava a golpes de marreta
do céu ultramarino os funis comburentes;

eu, que tremia, ouvindo a distante agonia
do cio dos Behemots e dos Maelstroms estreitos,
eterno tecelão da azul monotonia,
lamento a Europa dos antigos parapeitos!

Arquipélagos vi do firmamento! e as ilhas
onde em delírio os céus se abrem ao viajor,
é nessas noites que tu dormes e te exilas,
ó milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor? –

Mas, não, chorei demais! Magoam-me as auroras.
Todo sol é dolente e amargo todo luar.
O acre amor me fartou de torpores, demoras.
Oh, que meu casco estale! Oh, que eu me lance ao mar!

Se desejo da Europa uma água, é a poça estreita,
negra e fria, onde à luz de uma tarde violeta
um menino agachado, entre tristezas, deita
seu barquinho, a oscilar como uma borboleta.

Imerso em languidez, não posso transcender
o rastro, ó vagas, dos que levam algodões,
nem dos pendões o orgulho e das velas vencer,
nem já nadar sob o olho horrível dos pontões.

(Tradução de Renato Suttana)



sábado, setembro 25, 2010

Segundos de Contemporaneidade




“O próximo segundo será apenas uma vaga recordação de um tempo célere, que distancia
Frederico Nimbus
Último segundo de tempo algum.


Acordar numa linda manhã ensolarada, após uma noite amena e restauradora é uma dádiva sublime. A sugestão de Kant foi muito útil para Timothy.  Ele acordou sem a mais vaga lembrança dos febris, quase histéricos, acontecimentos sociais da noite anterior. Agora, com a mente desperta e renovada, tomava um café forte enquanto rolava sua pagina de e.mail Deletou, sem abrir, as noticias dos jornais, passou batido pelas ofertas dos sites promocionais e clicou sobre a mensagem mais recente de Nimbus, onde leu:
Caro amigo,
Ontem não pudemos conversar como eu gostaria sobre aquele trecho do livro do Allan Bloom – A Cultura Inculta – que tanto te agradou. Conferencias são eventos ansiosos que dificultam minha concentração em  assuntos muito importantes que possam,porventura,desviar meu foco da experiência em curso. O recorte que me enviou é deveras estimulante. Até agora apenas passei os olhos sobre alguns capítulos do livro. Numa resenha que li na semana passada alguém, que agora não recordo o nome, fez um comentário sucinto que me estimulou  mais ainda, a ler a referida obra de Bloom. Em resumo o tal sujeito diz que nesse livro Allan Bloom enfatiza que: “a crise social e política do Ocidente é realmente uma crise intelectual. Desde a falta de objetivos das universidades à falta de conhecimentos dos estudantes, desde os clichês da libertação à substituição da razão pela "criatividade", Bloom mostra como a democracia ocidental acolheu inconscientemente idéias vulgarizadas de niilismo e desespero e  de relativismo disfarçado de tolerância”. Segundo o comentarista, essa obra Bloom é uma extensa análise das correntes intelectuais contemporâneas em voga na atualidade.
Fiquei bem impressionado com as fotos que enviou de suas pinturas mais recentes. Elas nos fazem ver uma plasticidade instigante. Fiquei contente em constatar que os desafios que havia se proposto e as experiências que vinha realizando com um diferente processo pictórico, chegaram ao ponto de efervescência inspirador. Estou curioso para ver pessoalmente as novas obras. Só posso lamentar que as grandes exposições de arte, como a que ontem se inaugurava no pavilhão do museu, estão submetidas ao direcionamento ideológico simplista. Ainda levará um bom tempo para que esses eventos sucumbam de vez. Sabemos  que o modelo de mostrar a arte em Bienais e espetáculos grandiosos afins, não dão mais conta de expor a pluralidade da criação artística de nossos dias. As reedições infindáveis do mesmo modelo apenas denotam  os desígnios dos gestores culturais  diante de uma massa falida irrecuperável. Não é apenas por ignorância, vaidade ou fervor por poder cultural que os gestores se apegam ao modelo. Não podemos desprezar o fato de que essa função é uma frente de comercio que proporciona o acesso fácil aos recursos públicos. É um campo de restrita concorrência. Sabemos o quanto é difícil, mesmo para uma vitima da contemporaneidade circunscrita ao ultimo segundo, aceitar a morte de uma instituição de cultura, ainda que ela seja uma remota réplica passadista. Bloom tem razão ao dizer que: “as idéias vulgarizadas de niilismo e desespero, de relativismo disfarçado de tolerância” é a marca do nosso tempo.
Por falar nele - no TEMPO – envio agora o link que prometi te enviar - Tempo Histórico e Tempo Lógico- do filósofo estruturalista francês de origem alemã  Victor Goldschmidt  http://www.consciencia.org/tempo-historico-e-tempo-logico-na-interpretacao-dos-sistemas-filosoficos-victor-goldschmidt
Nesse ensaio ele faz uma interpretação dos sistemas filosóficos. É bastante interessante a forma que ele apresenta as distintas maneiras de interpretar um sistema. Seja interrogando sua verdade, sua origem; ou as  razões que levam o individuo a  buscar suas causas.

Abraço
Frederico Nimbus




Ao fechar a caixa de mensagens Timothy lembrou que ontem, antes de cair no sono, escreveu algumas anotações no seu moleskine. A curiosidade o fez ler aquilo como uma leitura inédita.
Encontrou isso:
Lembra-te de esquecer
Kant
Na página ao lado viu uns caracteres amontoados desordenadamente que não reconheceu como letra sua.
Mesmo assim leu o que estava escrito:
Três minutos sobre um ringue de boxe, tão rápido para nós na platéia, é infinito para um lutador durante a porrada e a dor. Só um grande poder de esquecimento mantém a mente do boxer desperta e seus reflexos ligados ao gestos do oponente. Esse é o moto que impulsiona seu desejo de permanecer lutando. Esse poder, revigorado nos intervalos, o lembra que precisa se esquecer de si mesmo para retornar ao ringue no próximo assalto. De um round pra outro ele tenta desesperadamente se refazer. Nesses preciosos segundos o poder de esquecimento é sua única esperança. É esse esquecimento da dor e do sofrimento que sempre me encantou na luta de boxe. Lembro da covardia cometida pelos agentes do entretenimento quando colocaram Maguila diante de Holyfield. Imagino o espanto do Maquila quando viu a montanha Holyfield se erguer à sua frente. Se por acaso ele hesitou em ir adiante eu não notei. Acho que naquele segundo ele se esqueceu de tudo. Da mãe, da sua cidade natal e dos amores da sua vida.
Só o esquecimento explica tamanha ousadia. Os contos populares chamam isso de coragem ou bravura. Eu, o ligo ao esquecimento. Repare nos detalhes. Constate você mesmo. Raramente assistirá um boxeador de alta estirpe, ser atingido por uma porrada violenta e tentar automaticamente bloquear com a luva o sangue que jorra do corte. Nós fazemos isso por reflexo. Eles não! Não podem se dar a esse luxo,um descuido sequer,seja no gesto mais natural de estancar o sangue que jorra, será seu fim. Quando a dor em nós se manifesta nossas mãos partem para o local atingido e em frações de segundos, gritamos. O boxeador que cometer essa falha estará derrotado. É por essas e outras que não dou o menor crédito  aos ditos populares ou mesmo para as razões que explicam em detalhes o que jamais foi vivenciado pelo narrador.

quinta-feira, setembro 23, 2010

A Clínica da Razão Pura











-Para clínica da razão pura, por favor.

-Kant Strasse, não é? Perguntou o motorista.
-Sim!Kant Strasse. Respondeu Timothy.
-Tomara que o senhor não esteja com pressa. Hoje é a inauguração da Bienal de Königsberg. Para chegarmos a clinica somos obrigados a passar pela Alameda do Idealismo, contornar o Boulevard do Empirismo e pegar um atalho pelo Beco do Juízo Estético. O trânsito por aquelas bandas está caótico.
-Oh! Meu amigo. Não me fale 
em caos. Por favor!
-Perdão! Não era minha intenção aborrecê-lo.
-Não leve a sério. É apenas uma piada. Acabo de sair de uma conferência no museu que por pouco não me levou à loucura.
-Lamento dizer; uma rádio informou  que o engarrafamento ja alcança cento e dois quilômetros de extensão nas cercanias do pavilhão.
-Fazer o que!Lastimou Timothy ajeitando-se na poltrona a fim de enfrentar o demorado trajeto. Enquanto divagava olhava o mar de carros, luzes e anúncios que cintilavam lá fora e se arrependeu de não ter ido mais cedo para clinica,quando ainda era dia. Nesse embalo mental os fluxos do seu organismo se harmonizaram e sobreveio uma súbita sensação de conforto e bem estar. 

Relaxado, estendeu a mão sobre a poltrona e tocou o envelope cheio de publicações que havia recebido antes da palestra de Carlos Sacci. Não se lembrava de todos os folders, catálogos e livros que lhe haviam dado. Abriu o envelope e consultou o espólio. Num flash, veio-lhe à mente a cena  em que Sacci, puxando-lhe pelo braço, o conduziu a uma mesa onde fez uma dedicatória no livro As Vísceras do Divino de Eunuco Hanus, no qual ele escreveu o prefácio. Na ocasião Timothy simulou ler a dedicatória e agradeceu o presente. O engarrafamento é ocasião ideal para ler. Poderia ser um passatempo divertido, pensou.
Após deslizar suavemente a mão sobre a agradável textura da capa do livro, abriu o luxuoso exemplar e tentou decifrar a caligrafia de Sacci. Na terceira tentativa conseguiu ler o que aqui reproduzo: 
Prezado Timothy 
É com orgulho que lhe dedico o livro do mais importante artista visual da America Latina. Sua obra e ideias descortinam [nesse ponto a caligrafia deu lugar a uma linha sinuosa inelegível para mais adiante tornar-se um pouco mais legível] para o patrimônio artístico da humanidade o qual tive a imensa honra de escrever o modesto prefácio. 
Com toda a admiração de Carlos Sacci. 

Timothy abriu o livro e  foi direto ao prefácio:"O experimentalismo revolucionário" por Carlos Sacci. Uma pequena parte da introdução desse prefacio está transcrita abaixo da ilustração








"A vanguarda contemporânea é justamente aquele campo onde se inventa pelo tesão de inventar. Para dar voz e visibilidade ao campo um especialista da contemporaneidade se cala sobre aquilo que é óbvio e se desdobra em falação sobre o que  desconhece. Graças a esses fatores conjuminados, o impulso transformador da criação artística dos nossos dias atingiu seu apogeu. Um apogeu vital para a liberdade criativa e que se consolidou no correr dos últimos trinta anos. Esse prodigioso advento é o resultado da luta sem tréguas para o desmantelamento da critica fundada em princípios e procedimentos rigorosos. É, convenhamos, uma conquista que deve ser creditada, sobretudo, ao empenho de alguns artistas, curadores e agentes culturais comprometidos com a transformação. 
Tempos atrás, grupos remanescentes do modernismo exerciam uma força negativa contra a arte rebelde e transformadora. Naquela ocasião o desejo de transformação era um sonho inatingível e motivo de angustia e sofrimento para um artista dedicado. Foi um período histórico cruel e opressor. Um tempo em que o homem, cativo da ética, viu-se tolhido por procedimentos seletivos e castradores que achincalhavam  o poder transformador da arte experimentalista. 
Um autor, cheio de ideias originais, senhor de grande talento e poder criativo,era cruelmente vetado em uma editora pelo simples fato de sua escrita não atender as regras gramaticais elementares. Isso ocorria com freqüência porque uma casta de doutos prepotentes e preconceituosos definia quem sabia ou não escrever corretamente. Quantas invenções foram negadas ao mundo por puro preconceito e extremo rigor intelectual. 

Hoje, isso não mais existe. Em que período da historia da cultura um curador de museu escreveria o que escrevo há mais de dois anos nos jornais sem que fosse  vigorosamente contestado ou mesmo insidiosamente  escorraçado  por diversos segmentos culturais e pelas editorias dos jornais ? 
Hoje, isso não mais acontece. 
Segundo as antigas regras eu não seria sequer cogitado para integrar o júri do Salão dos Artistas Mirins do Rotary Club. Todavia, desde o descarte dos grilhões da erudição modernista, assistimos a expansão da liberdade, do pensamento estético e do fazer artístico. 
Não mais existem parâmetros repressores. Os novos paradigmas os substituíram a contento. À medida que um determinado paradigma se esgota outro, mais flexível ainda, o substitui. A esplendorosa flexibilização dos critérios estéticos, éticos e culturais permitiu a universalização da experimentação transformadora. É essa transformação que vem fazendo caber no campo da cultura o que antes não cabia. Mesmo contra o desejo dos reacionários e conservadores o mundo atravessa um período de extraordinária transformação. 
A cultura, ao incorporar as variações oriundas da arte experimental, abre fendas no campo fechado da conhecimento, ampliando e transformando, inexoravelmente, em nova cultura. 
Não pensem que o que disse acima é um enigma. O que afirmo é uma verdade. 
A arte enquanto exercício experimental nos faz ver coisas que antes não conseguíamos ver. 
Jean-Luc Godard dizia  que “a cultura é o âmbito da regra, onde somos moldados a agir e a comportar-nos de determinada maneira, onde aprendemos como nos vestir, comportar, comer, participar e como se relacionar com o outro”. 
Todavia, em contraponto à cultura, a arte experimental é o campo da coesão com as balizas do real, é a esfera que se contrapõe ao espaço da contra cultura a fim de atingir a consagração imediata da cultura dominante. Nesse contexto, ser experimental é evitar confrontos, se imiscuindo e camuflando por entre simulacros do real. Para ser coerente com a única regra experimental o autor deve contestar outras regras, de preferência todas as que não sejam a sua. 
Alguns experimentalistas radicais desprezam, inclusive, eventuais regras do seu próprio processo experimental. 
Nas muitas experiências no campo da curadoria multinacional sempre foquei a arte especificamente experimental. Não tenho nenhum interesse na arte que comenta a política e os conflitos. Muito menos àquela que se aprofunda em questões estéticas e insondáveis ou se mete com mistérios complexos da criação. Essas produções são por demais subversivas, não se adéquam a rótulos e,portanto, não se alinham ao meu conceito. No meu juízo, seus autores são prepotentes e se consideram senhores de grande autonomia intelectual e estética. Por isso se lixam para as regras culturais dominantes. São rebeldes demais para serem somente experimentais como gostaria que fossem. O que me interessa na arte é o efeito imediato que ela produz. Isso é que é dinâmico e transformador. Obras que por força de intensa beleza, apuro ou mistério, despertam no público estímulos amplos demais e demandam introjeção e reflexões aprofundadas são nocivas e não possuem o poder de comunicação social imediata. 
Esse tipo de experimentalismo é arcaico, pois ocorre apenas no âmbito do individuo e repercute sutilmente na sua obra. Não são espetaculares, muito menos midiáticas. Em vista disso, apenas pessoas sensíveis as percebe. 
Sendo,portanto,elitista.
É bom lembrar que a eficiência do experimentalismo objetivo se dá através da intima vinculação às demandas dos meios de comunicação de massa. 
Reconheço que existem graves problemas na arte. Porém, dentro dos limites do conhecimento de uma equipe curatorial  economicamente beneficiada,não existe problema que não tenha solução. Cada curador conhece aquilo que a sua história lhe permite conhecer. Se não conhece coisa alguma também não tem a menor importância, dado que o novo é sempre aquilo que se desconhece. Eu sou brasileiro e acabo por não conhecer tão bem a arte indiana ou da Tailândia, dos Estados Unidos, do Canadá, da França, da Alemanha, da Itália, da Inglaterra, do Cazaquistão ou mesmo do Brasil e suas províncias. Todavia, esse dado é irrelevante porque sempre haverá uma troca de interesses comuns entre curadores das mais remotas regiões do planeta. Estou convencido de que é essa abertura que permite a uma Bienal estar sempre em compasso com o estilo artístico global dominante na ocasião. 
É essa dimensão global que os artistas mais importantes da atualidade perceberam antes dos demais. 
Afinal, mesmo sem ter um profundo conhecimento da historia da arte, qualquer individuo sabe que o experimentalismo é o novo.O novo capitalismo está ai para nos confirmar as velozes transformações por que passamos. Essas transformações ocorrem da decisiva atuação do experimentalismo estético em consonância com a agilidade dos financistas internacionais. Esses dois segmentos recusam se submeter a regras limitadoras da ética, da estética e outros princípios arcaicos de pacto social. São eles que lideram as grandes transformações da vida contemporânea. 
Arte pela arte é coisa do passado. 
O experimentalismo pelo experimentalismo é  transformador. 
O hercúleo desafio de tal proposta exige do artista da vanguarda contemporânea, cônscio de sua função social, uma renúncia radical a tudo que não é experimental. 
Apenas uma intensa convicção ideológica pode manter um artista coerente com a prática do experimentalismo. 
Até mesmo nas suas atitudes mais banais da vida cotidiana, na difusão de suas ideias na imprensa e nos salões refrigerados de uma galeria de arte, o artista experimental sempre terá algo inusitado e contundente a dizer contra a hipocrisia cultural. 
É essa singular convicção que torna inócua e desprezível a inflexível critica dos reacionários. 
Eunuco Hanus, é um exemplo vivo dessa nova vertente da arte. 
Além do enorme talento, Eunuco tem características impares que o diferencia da média dos artistas globais. Ter nascido num país da America Latina não tolheu sua grandiosa ambição. Ele é competente na arte e na sua atuação social. Tem grande conhecimento do percurso que um artista contemporâneo deve trilhar para reforçar sua rede de relacionamento instrucional. Além disso, ele é senhor de uma pontaria infalível no que tange as... estratégias de marketing cultural e visibilidade na imprensa. ...Em suas entrevistas é generoso a ponto de se abrir, sem reservas, a comunicação com o público... Sempre atuou e, no auge da fama,... continua atuando na construção de fortes parcerias que lhe acarretam... incontáveis benefícios... Sua arte e seu pensamento exprimem a totalidade do contemporâneo xcmbp, glgo hlçonmb..."

 

-Senhor, senhor! Acorde, chegamos à clinica. 
-Oh Deus! Obrigado!Eu estava velejando num lindo mar azul. 
Na recepção Timothy foi cordialmente atendido. Antes de se encaminhar aos aposentos do SPA A Fusão da Matéria e Sentido, pegou seu surrado moleskine e anotou a frase escrita embaixo do relógio do saguão: 
Lembra-te de esquecer.
Kant