segunda-feira, agosto 02, 2010

Expandindo o campo da pintura



entrevista com Luciano Trigo postada no site Maquina de Escrever em 15 de julho de 2010 às 17:16

Adriano de Aquino inaugura exposição e critica o evangelho da arte pós-moderna.

Reflexos e Aparecimentos é o título da exposição que Adriano de Aquino inaugura neste sábado, a partir das 16h, no POP – Pólo de Pensamento Contemporâneo, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Os dez trabalhos reunidos pelo artista dão continuidade à série “Formas magnéticas transitórias”, que ele desenvolve desde 2007. São telas pintadas sobre aço carbono com pigmentos e substratos de ultima geração, num esforço de expansão do campo da pintura. Nesta entrevista, o artista plástico fala sobre a sua obra, faz uma retrospectiva de sua carreira e elabora um comentário crítico sobre a situação atual da arte contemporânea.




- Os trabalhos reunidos em sua nova exposição exploram a noção de formas magnéticas, que a meu ver estabelecem um diálogo com a gramática das formas e cores desenvolvidas por Josef Albers e outros teóricos da Bauhaus. Você concorda? Qual são as suas inquietações como artista hoje?


ADRIANO DE AQUINO: Minha escolha pela abstração geométrica passa por inúmeros fatores. Origina-se, certamente, do impacto germinal com a pintura de Dacosta, penetra e se expande a partir de muitas experiências e reflexões. A que mais me encanta se funda no enorme poder de transformação gerado pelo pensamento construtivo. Desvinculado da representação naturalista e não submetido a analogias emotivas e episódios cotidianos, o Construtivismo expressa uma parte vital da experiência humana. A geometria é o domínio mais adiantado da cultura. É o experimento humano mais radical frente ao universo, a natureza e aos acontecimentos mutáveis da vida social. É um discurso único que marca de forma peculiar a passagem e a construção do homem sobre a Terra. Nada na natureza a induz. Arrisco dizer que nesse domínio os homens são iguais, separados apenas pelas concepções estéticas e formais, fruto das suas consciências que escoam como ricas contribuições ao conhecimento e ao mistério da existência. Os artistas vinculados a essa vertente tecem um repertorio infinito de conjecturas. Nesse sentido, sem qualquer propósito referencial, pois a criação geométrica é fruto de tessituras ilimitadas, num determinado ponto do trajeto encontro Albers,Malevitich, Mondrian, Newman, Volpi, Lygia, Helio, Carvão, Reinhard e muitos outros artistas. Porém, encontrar meu próprio lugar é o grande desafio. Essa é minha maior inquietação como artista.
Foi essa inquietação que me conduziu a inúmeros experimentos, como esses que deram origem à série Formas Magnéticas Transitórias, iniciada em 2007.O magnetismo, utilizado nas obras dessa série, se apresenta como um fenômeno peculiar, na medida em que autoriza o espectador a ampliar seu contato com a pintura manipulando as formas sobrepostas à superfície pictórica. Não apenas o olhar, mas o tato solicita a participação do espectador. Essa particularidade só foi possível com a substituição do suporte. Essas obras são pintadas sobre aço carbono com pigmentos e substratos de última geração. Do ponto de vista formal, meu trabalho permanece vinculado ao pensamento construtivo de aparência geométrica. A substituição do suporte adicionou o reflexo como um novo elemento visual.
Reflexão, num dos desdobramentos do termo, é a tomada de consciência, o exame e a análise dos fundamentos ou razões de algo ter ocorrido. Numa associação livre e poética, refletir é espelhar. Os espelhos d’água refletem o entorno e, de certa forma, dele se apropriam. Essas pinturas recorrem a esse fenômeno. Espelham o entorno, olham para o espectador fortuito. Há, sem dúvida, uma alusão a Narciso, o herói paralisado de amor por sua imagem aprisionada no espelho d’água. Essa insinuação veio ao encontro de algumas cogitações sobre a vida contemporânea repleta de imagens, simulacros e cultos personalistas que “espelham” aparecimentos narcísicos.
Resumindo; essas obras se distinguem da mera reprodução ou mesmo representação da realidade. O real é ali espelhado. A ausência do gesto e da caligrafia “sensível” deu lugar à manipulação das formas magnetizadas pela ação do espectador. Esse procedimento ultrapassa minhas intenções durante o processo criativo. Pra finalizar, a manipulação das formas se mescla, até certo ponto, às praticas interativas de uso corrente na realidade virtual.


- Fale sobre seus anos de formação. Em que momento você decidiu tomar o rumo das artes plásticas? Quais foram os encontros decisivos que dispararam e conduziram esse processo?
ADRIANO: As origens do meu desejo de fazer arte e os primeiros passos da educação artística surgiram na adolescência, na minha família. Minha mãe tinha dons poéticos. Meu pai teve aulas com Guignard, desenhava muito bem. Porém, a necessidade da vida os levou por outros caminhos. Os dois gostavam de falar sobre arte, e na nossa casa havia muitos livros de arte. Neles vislumbrei, ainda jovem, a obra dos grandes artistas. Adorava desenhar e me metia a copiar as obras que admirava. Essas edições eram importadas e se concentravam nos clássicos. As obras mais modernas não iam muito além de Picasso, Dali, Braque, Cézanne, Kandinsky, além de alguns pintores do modernismo alemão e do realismo americano não tão famosos. As edições brasileiras nesse campo eram raras. Um dia, acompanhando meu pai na visita a um amigo, vi uma pintura da fase geométrica de Milton Dacosta. Na ocasião eu tinha 14 ou 15 anos. Esse primeiro contato me causou um grande impacto. Perturbador e inesquecível. A sala de estar, as cortinas pesadas e a decoração eclética, que juntava detalhes modernos ao mobiliário de aparência colonial, motivou em mim uma vertigem de espaço/tempo que se imprimiu definitivamente em minha memória.
- Você tinha pouco mais de 18 anos quando participou da exposição Opinião 65, no MAM-RJ. Fale sobre essa experiência e sobre os debates que dominavam o meio artístico da época.
ADRIANO: Após o assombro com a pintura de Dacosta eu quis saber mais sobre os significados daquilo que me encantara. Os livros sobre arte brasileira eram raros. Afora uma ou outra edição sobre Portinari e a Semana de Arte Moderna, nada encontrei nas livrarias. Desconhecia o ambiente artístico brasileiro moderno, e a busca sobre o tema nas livrarias não deu resultados positivos. Procurei por materiais artísticos, telas, cores e outros apetrechos de pintura e me pus a fazer coisas desconexas, apenas para dar vazão à vontade e ao prazer de pintar. Meus pais chamavam minha atenção para a vida dura de um artista. Deviam pensar que se tratava apenas uma ânsia passageira, uma ocupação tranqüila e menos perigosa que as aventuras no mar do Leblon. À medida que pintava, eu via descortinar diante de mim um mundo de sensações. Além dos livros de arte meu mundo artístico gravitava entre as fronteiras do bairro. A turma da rua era o publico, e meus amigos os críticos.
Um dia, informado por um amigo que se sonhava poeta, assim como eu me sonhava pintor, fiquei sabendo que estavam abertas as inscrições para o Salão Nacional de Arte Moderna, em 1962. Provocado pelo meu publico e incitado pela aventura, embrulhei duas pinturas pequenas de leve conotação geométrica e me dirigi para o local de inscrição. As inscrições ocorriam no anexo do Palácio Capanema, então sede do Ministério da Educação e Cultura, onde também acontecia o evento. Impressionado pela quantidade e domínio técnico das obras empilhadas no salão, achei que seria mais prudente aumentar minha idade. As circunstâncias me sugeriam que aquele episódio era mais sério que burlar um porteiro de cinema para assistir um filme para maiores de 18. Em 1962, eu tinha 16 anos. Assim fiz ! Entreguei a inscrição e as pinturas a Dona Isaura. Qual não foi minha surpresa quando soube que as pinturas haviam sido selecionadas. As duas! No dia da inauguração fui escoltado pela turma do Leblon. No recinto, diante das obras, eu os informei: “Agora,vocês não são mais meus críticos e espectadores exclusivos. Pertenço ao mundo!” A gargalhada foi geral!
Nesse dia tive o primeiro contato com o meio artístico “contemporâneo” brasileiro. Não conhecia ninguém e pouco sabia sobre o que os artistas faziam. Ali, naquele evento, passei a conhecer as obras de meus contemporâneos e também alguns artistas. Nesse ínterim, Angelo, meu irmão, que se sonhava poeta, também inclinou para a pintura. Entre outras qualidades, Angelo apresentava uma performance social incansável. Em pouco tempo suas investidas no ambiente artístico tornaram a casa dos meus pais um lugar de encontros e festas. Alguns artistas atuantes começaram a freqüentar, consolidando amizades e promovendo a troca de idéias. Nesse convivo fui, aos poucos, percebendo as tensões entre as tendências que coabitavam o ambiente artístico propriamente dito.
Esse foi um tempo de importantes decisões. Concentrei-me no estudo e procurei de maneira objetiva o aprendizado de técnicas complementares. Isso me levou a freqüentar como ouvinte o ateliê de gravura orientado por Adir Botelho na Escola Nacional de Belas Artes e cursar aulas de desenho e pintura, de acordo com os meus interesses. Foi nesse período que abri mão da idéia de tentar o vestibular para a Faculdade de Filosofia e me debrucei sobre o desejo de fazer arte. A partir de então, passei a me dedicar mais intensamente ao conhecimento de técnicas e saberes da arte.
Um dia, numa época em que os marchands tinham curiosidade e, certamente, indicado por um dos amigos artistas que viam e comentavam as minhas pinturas, recebi a visita de Ceres Franco e Jean Boghici. Eles viram o que eu estava fazendo e me convidaram para integrar a exposição Opinião 65. Eu tinha,então, 18 anos.Foi através dessa exposição que entrei no meio artístico e comecei a participar de algumas exposições como Propostas 66, Vanguarda Brasileira e outras mais.
Em 1964 os militares tomaram o poder político. As coisas se complicaram, pois se juntou às minhas investidas estéticas uma vontade de participar, de forma ativa, contra a natureza opressora de um sistema político imposto. Se assumir a vida artística já era um desafio temerário, ver partir a liberdade democrática tornou tudo mais difícil.
- De que formas o fato de vivermos sob um regime militar foi determinante para os rumos das artes plásticas no Brasil nos anos 60 e 70?
ADRIANO: Não posso afirmar que o regime militar tenha sido um fator determinante para os rumos das artes no país. Os artistas que passei a conhecer tinham carreira afirmada, alguns haviam participado de movimentos artísticos, e seus trabalhos já apresentavam um alto grau de profissionalismo. Isso quer dizer que os novos rumos das artes plásticas no Brasil já estavam em processo quando o regime militar tomou o poder. Houve um corte abrupto, mas não houve uma paralisia completa do pensamento. Pude perceber isso à medida que adentrava esse território. Dava para sentir intensamente os impulsos elétricos provenientes do curto-circuito entre vertentes do pensamento estético, as disputas intelectuais e o calor da fogueira das vaidades.
O raquitismo do mercado de arte, a esclerose do modelo imperial dos salões oficiais e uma burocracia cultural pachorrenta (a cultura brasileira tem uma atração incrível por longos períodos de padrão dominante) desenhavam um panorama provinciano que se chocava com os movimentos de ponta das décadas de 50 e 60. Esses movimentos foram determinantes na construção de uma nova mentalidade estética. Para um jovem artista, a sensação era a de cruzar uma linha do tempo absurda. Nas ruas e nos espaços públicos, havia a presença ostensiva de um Estado policial. Nos centros de ensino, as atitudes se dividiam entre a ousadia e revolta e, em casos lamentáveis, a complacência e a sujeição aos ditames dominantes. Os simulacros de modernidade eram constantemente reeditados. Essa situação levava qualquer ser pensante às raias da loucura, pois acentuava a impotência da sociedade brasileira.
As contradições se tornavam mais dolorosas porque na ocasião eu percebia uma disposição incrível de muitos artistas para o debate, a contestação dos modelos convencionais e toda forma de conservadorismo. Todavia, essas atitudes se chocavam com as representações anacrônicas que ocupavam a maior parte do palco. Sob o foco de luz, vultos esquisitos brilhavam no ambiente e apareciam, quase modernos, para os aplausos do publico. Do outro lado da rua, nas cantinas, bares e ateliês proliferavam as atitudes contra o servilismo mercantil de uma arte feita e aceita como adereço para o deleite burguês – termo de uso corrente no período. Como era muito arriscado confrontar as armas do Estado opressor, o burguês tornou-se o inimigo número 2 dos avanços sociais, por conta da Marcha da Família pela Liberdade. Coitada da burguesia, acabou vendo seus filhos partirem ou serem presos e torturados. Sociedade maluca!
Por outro lado, do ponto de vista institucional é inegável que o regime militar foi determinante para a implantação de um novo modelo de intermediação entre Estado e cultura. Bem, qualquer feito que agitasse a pasmaceira colonial era, até certo ponto, suportado. Nesse período foi criada a Funarte, e alguns dispositivos das exposições oficiais foram alterados. Apesar de alguns fatores positivos, nem tudo resultou em melhores condições para a difusão e apoio mais amplo à arte e a cultura de forma a alterar os modos de ação de grupos e as condições de trabalho dos artistas, pois os materiais de alta qualidade eram importados. A restrição de mercado tornava caro e difícil o acesso aos insumos básicos para a pintura. Hoje isso deixou de ser um problema, contudo se gasta mais para manter a burocracia cultural surgida com o novo modelo do que em investimentos diretos em beneficio dos produtores de arte e cultura. Sociedade maluca! De novo?

- Fale sobre a importância da sua temporada em Paris. Que contatos estabeleceu lá? Com que artistas dialogava? Que laços mantinha com o Brasil?



ADRIANO: Em 1973, as ilusões de viver num Brasil moderno e democrático haviam se despedaçado. Numa exposição que ocorreu na Galeria da Maison de France no Rio, fui agraciado com uma bolsa de estudos em Paris, onde residi até 1977. Essa bolsa foi extremamente útil pois me concedia acesso livre a uma serie de cursos. Ainda que a Escola de Belas Artes de Paris fosse minha referência de pesquisa, era possível freqüentar cursos de filosofia e conferências que me interessavam em outras unidades de ensino, bastava para isso justificar tais procedimentos nos meus relatórios.
Fui atraído para as atividades que aconteciam na Universidade Paris VIII. A famosa Vincennes era um centro universitário experimental onde atuavam importantes pensadores como Foucault, Deleuze, Lyotard, Popper etc, e proliferava o inconformismo. Fundada após maio de 68, Vincennes encerrou suas atividades em 1980, ou talvez um pouco depois. Os núcleos ofereciam aulas, conferências e debates memoráveis. Franqueada aos não-bacharéis, Vincennes era um território livre, onde artistas e pensadores descortinavam uma nova atuação entre a universidade e o mundo exterior. Lá fora, o mundo pulsava transformações vigorosas. Tudo parecia fazer sentido. Para alguém como eu, oriundo de um país marcado pela restrição das liberdades civis e pelo medo, Vincennes era um oásis do saber e um local de intenso tráfego de idéias. Esse foi um período fundamental para o desenvolvimento do meu pensamento sobre arte e para o meu crescimento como individuo.
Durante minha estadia em Paris, eu me aprofundei nas experiências estéticas e nas reflexões sobre a vertente construtiva na arte brasileira, sobretudo, a produção dos artistas dos anos 50/60, que me parecia a corrente mais fértil. Essa escolha me aproximou do pensamento construtivo russo e do abstracionismo formal norte americano, com os quais identificava, em alguns aspectos, as tendências da produção estética brasileira. É importante assinalar que essa corrente da arte brasileira registra o primeiro episódio concreto em que uma proposta estética não oriunda dos centros culturais hegemônicos era tão avançada quanto a produção internacional de ponta. Em alguns casos, estava à frente. Esse vínculo me levou ao encontro de alguns artistas franceses do grupo Suport/Surface e a conhecer Le Parc, um artista argentino residente em Paris, que ficou conhecido pelo conceito serialista que movia sua produção.
Nessa ocasião meu trabalho convergiu para uma equação que encontrava ressonância com a arte brasileira que eu admirava e as correntes estéticas internacionais que eclodiam. A forma do chassi e seus limites tornaram-se um problema a ser enfrentado. Essa proposta apresentava dois desafios: o primeiro tocava no formato como uma imposição a ser superada. É possível que existisse um paralelo com a metáfora neo-concreta sobre o quadro e o mundo. O outro desafio consistia em realizar uma operação de supressão cromática e formal, sem com isso abandonar o campo da pintura, desviando para o conceitualismo que se consolidara como um movimento de grande visibilidade.
É muito difícil falar sobre o que fazemos, como fazemos e por que fazemos. Durante um longo período, até a elaboração das obras da Serie Cinza, em 1977, meu trabalho transitou entre equívocos, novas tentativas e raríssimos êxitos. Coisa, aliás, que vira e mexe ocorre durante as investidas em que proponho desestabilizar um sistema formal que me aprisione a formulas plásticas duradouras. Nos anos finais de minha temporada parisiense, abriu-se uma perspectiva de atuar nos Estados Unidos, a partir de contatos com uma marchand que comprou algumas obras iniciais da Serie Cinza. Mas a minha estadia em Nova York foi mais curta do que eu desejava, pois a atividade política no Brasil, no final da década de 70, apresentava um novo panorama. As eleições livres para os governos estaduais estavam sendo aventadas, e eu vi despertar, nessa oportunidade, uma perspectiva de avanço social concreto. Retornei para o Brasil.
- Quais eram as questões que moviam a sua pesquisa pictórica até os anos 80? Qual era o seu projeto como artista e de que maneiras ele evoluiu?
ADRIANO: Nos anos 80, as minhas experiências com a Série Cinza, apresentada na Petite Galerie, de Franco Terranova, em 1977 e 1979, já estavam esgotadas. Vaguei, novamente, entre tentativas que só obtiveram um razoável êxito na elaboração da Serie Negra, que teve inicio nos primórdios dos anos 80. Nesse período já me dedicava intensamente à ação política, integrando o gabinete cultural de Darcy Ribeiro, no primeiro governo de Leonel Brizola.
- Como você avalia o impacto (para o bem e para o mal) de Helio Oiticica e Lygia Clark na arte brasileira?
ADRIANO: Helio e Lygia são artistas de grande potência. Suas obras contribuem para uma nova fase da criação plástica brasileira.
- A década de 80 parece ser um divisor de águas nas artes plásticas, com a emergência das teses pós-modernas no mundo e no Brasil. Como você avalia esse fenômeno? Quais são suas causas, qual é sua lógica, qual é seu impacto na produção artística?
ADRIANO: Vendo hoje, identifico dois focos distintos que ocorriam no inicio da década de 80. É claro que havia muito mais que isso, porém dissertarei apenas sobre esses dois pontos. Um convergiu para o aprofundamento das questões estéticas mais avançadas e, paulatinamente, por força de uma ideologia eminentemente econômica que começava a se impor, perdeu visibilidade. O outro recorreu a réplicas alegóricas das ações e atitudes da década antecedente, sistematizando-as e banalizando seu poder renovador. Mais pragmáticos, um grande número de artistas se conectou à nova ordem econômica e, lamentavelmente, no jogo cultural, eles saíram vencedores.
Vejamos o que ocorria no inicio dessa década. Foi ali, no final da década de 70 e inicio da de 80, que vi florescer uma produção estética que se concentrava na expansão dos meios de produção, sem, todavia, se armar em preconceitos infantis sobre o envelhecimento de alguns procedimentos tradicionais. A morte da pintura era colocada em questão, debatida e confrontada. As argumentações tinham que ser consistentes, se não o ouvinte se refugiava no tédio. Era uma opção mais excitante. Não existia ainda, na forma disciplinar que hoje se apresenta, um movimento hegemônico, alheio ao debate e que se eleva sobre o túmulo de uma ou outra forma de expressão. Claro que alguns artistas evocavam o esgotamento de certas idéias e formulas estéticas do passado. Os mais profícuos se concretizavam em ações plenas de consciência critica, fundadas em escolhas que transcendiam os meios tradicionais ou modelos “quase modernos” que detinham visibilidade.
A originalidade desses atos se encerrava na efemeridade do gesto, do movimento ou do próprio ato. Não se tratava da consolidação de um código estético. Nisso residia sua força, beleza e inteligência. Porém, ao se cristalizar em disciplina estética, tudo que havia de maravilhoso se diluiu no ar, tornou-se imediatamente palatável ao negocio da arte e se disponibilizou, clara e objetivamente, como um código a ser usado por uma malta de “seguidores”, ávidos por significados para preencher seus “vazios”, e substância para a elaboração de planos culturais estratégicos. Nada é mais nocivo para a grande arte que uma cambada de discípulos “fiéis”, dispostos a traduzir os oráculos de um mestre ou defender ardentemente teorias alheias. No correr dessa década, inúmeros fatores convergiram para a elevação de personagens lúgubres, que instrumentalizaram suas mais pérfidas vocações enterrando nas profundezas e inviabilizando o acesso do publico à multiplicidade estética.
É comum para as celebridades a reunião, em torno de si, de um bando de admiradores que se arrogam anunciar ao mundo coisas que nem mesmo o próprio artista cogita. Afinal, as celebridades são gestadas no âmago do culto personalista, agenciadas por um grão-vizir da comunicação e marketing e planejadas em laboratórios acadêmicos (a bienal fez um). Nesse ambiente as germinações artificiais e as adulterações “inspiradas” são muito frequentes. A maior parte das curadorias de hoje se monta sobre essa lógica primária e objetiva.
Eu tive a sorte de, nos anos mais agitados das décadas de 60 e 70 e parte dos 80, ver surgir e participar de um momento que contribuiu de forma estupenda para o pensamento estético, com liberdade criativa e ousadia artística. Entretanto, a partir de meados dos anos 80, ao constatar a “conversão” – no sentido religioso, mesmo! – das instalações e outras ações efêmeras em modelos estéticos “permanentes”, comecei a me preocupar com o que viria mais adiante. O terreno se tornou propício às batalhas devastadoras. As tropas aliadas ao pensamento desconstrucionista eram numerosas. Vêm daí, dos meados da década de 80, minhas cogitações sobre a reedição do velho método de consolidação acadêmica de mais uma “convenção” artística. Dessa vez ajustada aos anseios supostamente indóceis de uma nova geração – convenhamos, tão “indóceis” que uma alavancada de mercado e um conjunto de fatores institucionais e visibilidade midiática, aplacaram rapidamente. A vanguarda desconstrucionista e o ideário do relativismo cultural chegaram ao poder.
Vêm daí as primeiras manifestações artísticas com o rotulo pós-moderno. Antes disso, o termo era usado por setores da sociologia e crítica, sobretudo nos Estados Unidos, para demarcar aspectos da cultura após as transformações ocorridas em relação à “crise dos grandes relatos” – A condição pós moderna, livro de Lyotard escrito no início da década de 70, analisa as regras dos jogos da ciência, da literatura e das artes frente ao impacto com um novo saber empenhado na construção de novas tecnologias. Para o pensador, o saber que se empenhava na construção de teorias especulativas sobre a condição da humanidade e as questões abstratas desvinculadas da produção de técnica e produto perderam valor. É nesse momento que o saber adquire função estritamente técnica.
Nesse momento o relativismo cultural, aliado ao pragmatismo empreendedor, se torna o molde comportamental de alguns artistas mundo afora. Resumindo: O vale-tudo artístico encontrou território fértil para implantação e sustentabilidade de modelo.
A frase “O tempo não pára” é bacana nos brados juvenis. Nas práticas culturais as fórmulas e códigos têm o poder de congelar o tempo, blindando uma mentalidade estética dominante, escondendo os sinais de decadência e estendendo sua permanência por longo período. Isso é um fato e ocorreu na frente dos nossos olhos com a substituição nominal de manifestações artísticas correntes nos anos 70, reeditadas e consagradas posteriormente como arte avançada.
Afora a qualidade, talento e ousadia de uns poucos artistas – coisa que é recorrente na historia da arte, afinal grandes artistas sempre existirão, mesmo sob pressões terríveis, eu me pergunto: os êxitos financeiros e a grande visibilidade de alguns artistas contemporâneos são nítidos, mas como avaliar a contribuição para a expansão da percepção e do saber diante da profusão de meios, da explosão demográfica de artistas por metro quadrado planetário e da montanha de gadgets e dinheiro que circula no mercado de arte? Tirando a ampla difusão midiática da vida insossa das celebridades artísticas, os fatos glamorosos de uma atividade supostamente livre e os estrondosos preços alcançados pela arte da atualidade, nada mais merece atenção ou se impõe como “desordem” que ameace as idéias ou modelos dominantes. Nada ocorre que nos estimule a pensar sobre o conjunto de fatores que hoje atrofiam e banalizam a arte e a existência humana.
Hoje, com a quase extinção da critica autônoma,a crise da grande imprensa, as ambigüidades do estado,a decadência das instituições culturais e a ascensão do mercado, a academia entrou forte no jogo de influencias no campo artístico cultural, abocanhando um naco de poder considerável. Penso que a atual configuração dos departamentos de artes das universidades carece de reflexão extramuros, quero dizer, da sociedade. A idéia de que a academia é o lugar onde se investiga e se propõe o que há de mais avançado nas artes e no conhecimento é insustentável diante da velocidade com que as transformações vêm ocorrendo por força da atuação intelectual aberta e integrada às pressões do mundo e dos recursos disponibilizados por novos meios tecnológicos. No campo da ciência a idéia é, até certo ponto, aceitável, entretanto,nas artes é uma crença frágil e precária. No entanto, ninguém parece preocupado com o assunto. É o tabu da ocasião.
Ocorre, de fato, que ainda que tenha um desenho diferente da velha academia imperial de artes ou do regime acadêmico das belas artes, as academias contemporâneas espelham um poder similar, que vem sendo usado politicamente, de forma cruel. A disciplina curricular da academia de arte atua diretamente na formação de indivíduos. A adoção e difusão de modelos ideológicos por parte dos artistas/ professores/ teóricos é a chave que possibilita o acesso do corpo docente às instituições publicas e privadas. Trata-se aqui de uma estratégia de ocupação não só política ou mesmo comprometida com a distribuição de conhecimento, mas um fator econômico. Não podemos abstrair o fato de que o conjunto de artistas/ educadores /curadores, funcionários da academia interage de forma uníssona nas políticas das instituições culturais. Afinal,são artistas e também membros de uma corporação com acesso facilitado pelos teóricos/ curadores, colegas de cátedra, que atuam nas organizações culturais carcomidas pelo desgaste e infiltradas por interesses difusos, como é o caso das Bienais, alguns museus e exposições de representação oficial.
Em minhas ponderações sobre o tema eu me deparei com uma problemática complexa e danosa. Em alguns casos, ela é mais perniciosa para a arte contemporânea do que as ações do mercado. Afinal,o mercado não opera com idéias e muito menos é responsável pela formação de indivíduos. Para ser eficiente, ele se escora nas tendências em voga e cede às pressões de oferta e procura.Quando muito, marqueteia expectativas de consumo. Nesse sentido o mercado é transparente. Suas vitimas estão dispostas e satisfeitas em obedecer à tutela do sistema. Mas a influência e a participação de membros de carreira da academia de arte em segmentos institucionais, públicos e privados, é inquestionável. Como nenhuma questão sobe à superfície, as pessoas tendem a deixar pra lá.
Mas não podemos desprezar o fato de que no intestino do processo rola dinheiro e abrem-se portas de acesso a estratégias mercantis. Os diversos eventos artísticos, financiados com dinheiro público, têm funcionários da academia como curadores. Curiosamente, os mesmos acadêmicos/ curadores que escalam o time de artistas de uma grande exposição oficial são, também, colunistas de jornais, comentaristas exclusivos de alguns artistas, curadores de um museu, ministram palestras em ciclos temáticos, escrevem os textos de catálogos, livros e folders das galerias comerciais etc. Os artistas considerados “suspeitos” pelos membros desse comitê acadêmico enfrentam enorme resistência para transpor as barreiras institucionais. Isso sucede porque membros das academias de arte se tornaram parte ativa das estratégias de algumas fundações – poucas lhes escapam a influencia – e centros culturais por onde escoa uma boa quantidade de grana, oriunda de incentivos fiscais.
Ocultos sobre o manto do saber desinteressado (ops!) e do entrosamento institucional, alguns membros da corporação acadêmica se revezam nos eventos culturais patrocinados por todo país. Esse esquema poderoso impôs o silencio no setor artístico. É compreensível, porém, não aceitável, que os artistas que ficam na margem silenciem por temerem prejuízo ainda maior. Inseguros e angustiados, eles se desdobram para mostrar sua produção e evitar confrontos. Sabem que não podem contar os dias até a chegada de uma aposentadoria confortável. Vida dura! Como vimos, existem motivos imperiosos para a proteção das fronteiras culturais. Isso explica, em parte, o embate oco contra a crítica autônoma, o desinteresse pela produção de artistas fora do esquema, a defesa intempestiva contra qualquer critica a produção de artistas do eixo, a exaltação aos parceiros e o emperramento do fluxo de ações estéticas efetivamente inovadoras. Nem mesmo D. João VI armaria um ferrolho tão eficaz




- Na série Imagem & Memória, você trabalhou com imagens captadas na Internet. De que forma as artes visuais podem ser impactadas pelas rápidas transformações tecnológicas que vivemos?
ADRIANO: Numa das reviravoltas da minha prática pictórica, eu me impus uma nova equação. Ainda que relegue a um segundo plano as questões gerais sobre a morte da pintura, uma questão recaía sobre a minha própria pratica. Uma das mais preciosas contribuições da alta modernidade reside na idéia de ruptura. É bom esclarecer, logo de cara, que jamais me iludi com a fantasia da reprodução de um evento histórico. Se acreditasse nisso, estaria certamente integrando o quadro de autores pós-pós-modernos. Seria mais uma voz no vazio de idéias. Frente às tentativas de revirar o modelo que eu mesmo, por escolha própria, havia adotado, abri diante de mim questões que precisavam ser investigadas, pois, caso contrário, eu cairia num impasse de profundas conseqüências existenciais. Diante disso, a tendência de permanecer “integro” – não sei exatamente o que essa palavra significa, certamente inclui uma integridade pacífica, alheia às questões do mundo – no desempenho de minha atividade pictórica realizada até então, através de meios tradicionais. Essa era uma possibilidade perturbadora. A fim de não sublimar o problema, tive que enfrentar uma série de demandas.
Uma intenção sincera não aponta, necessariamente, na direção de algo em que valha a pena investir. Hoje tudo é possível, até problematizar um pomar de maçãs usando apenas Cézanne como referência histórica. Ninguém agüenta mais o uso indiscriminado de grandes personagens da arte para endossar qualquer propósito estético. Contudo, esse tipo de artifício é freqüente. As referencias históricas há muito deixaram de ser confiáveis e, na maior parte das vezes, não resultam de uma análise criteriosa. Tornaram-se fórmulas promocionais com finalidades objetivas.

A pintura é um campo do saber, e me arriscar em direção a algo diferente, que pudesse ampliar minha ação nesse campo, tornou-se urgente. Fechei o ateliê por um período e me concentrei nas investigações sobre a minha prática. A internet funcionou como uma fonte de recursos para ensaios descompromissados. Se fosse um budista, diria que funcionou como retiro espiritual. Essa situação me colocou diante de uma profusão de imagens desprovidas de carga sensível. Levou um tempo até que eu percebesse que ali se originava uma forma diferenciada de trocas simbólicas. Portanto, um fenômeno cultural de larga extensão. Quando entendi, já estava envolvido num processo de coleta de imagens anônimas, manipulando-as digitalmente e as reenviando para a rede. Com o passar do tempo eu havia gerado muitas imagens, que, sob o titulo Imagem & Memória, foram expostas na sala anexa às pinturas da série Divisões Internas no Paço Imperial, em 2007.
Algumas pessoas que acompanham meu trabalho criticaram esse ensaio como um desvio sem propósito do campo da pintura. Outras elogiaram. Ora, Imagem & Memória não é, na origem, muito menos nas obras, uma investida pictórica. Um pintor pode investigar outros territórios sem que isso signifique um impasse em sua atividade ou renúncia a uma prática. Eu a considero importante para a seqüência de experimentos que me levaram as pinturas da série Formas Magnéticas Transitórias, que venho desenvolvendo desde 2007. As pinturas dessa série, mostradas na Galeria da Caixa Cultural Rio/São Paulo, em 2008, provocaram reações curiosas. Alguns pintores e amigos não as absorveram como pinturas. Esse é um debate recorrente, que sempre propus enfrentar. Há muito tempo debato sobre as convenções e as fronteiras que limitam a pintura a paradigmas predefinidos. A pintura é um campo vastíssimo, que se renova constantemente pela aptidão de incorporar procedimentos e experimentos ao longo da historia. A série formas magnéticas transitórias se integra ao campo da pintura não apenas por vontade do autor,gosto ou designação. A pintura não é um campo fechado, regido por tratados, disciplinas ou modos pré estabelecidos. As obras da série Formas Magnéticas Transitórias são pinturas! Podia ser outra coisa, mas não é.
- O que te levou a se tornar gestor de políticas públicas para a cultura, em pelo menos três ocasiões? Que lições e conclusões você traz dessas experiências? Qual você entende que deve ser a atuação do Estado na cultura em geral e nas artes visuais em particular?
ADRIANO: Minha crença no potencial da arte e da cultura de produzir um choque social transformador há muito tempo caducou. Os avanços do sistema educacional e a ética política são objetivos e princípios cada dia mais longínquos. No inicio dos anos 80 eu dava como certo que contar com a cultura como uma ferramenta de ampla transformação social era pura ingenuidade. Eu e outros artistas de áreas distintas centramos esforços nas transformações sociais pela via política de Estado. Atuamos na campanha pela abertura e na primeira eleição livre para o governo estadual, no Rio de Janeiro. Vitoriosos, ocupamos cargos na administração publica. Participei da direção de órgãos públicos da cultura, a convite de Darcy Ribeiro e Edmundo Moniz, quando foram Secretários de Estado de Cultura. Eram dois intelectuais respeitáveis e grandes amigos. Posteriormente, eu mesmo ocupei o cargo de Secretario de Estado da Cultura. Hoje, passado tantos anos e presenciado tantas incongruências, passei a desacreditar no poder transformador das políticas de Estado. Veja como são as coisas!
Tecer considerações sobre essa experiência seria longo e penoso para uma entrevista em que as políticas públicas não são o tema central. Minhas indagações sobre o poder político nos dias atuais são extensas e áridas. Todavia, em minhas inquietações percebo uma brecha de luz por onde vislumbro movimentos crescentes de atuação social do individuo através das redes virtuais e das organizações honestas da sociedade civil. Num rápido esboço sobre as grandes tensões da modernidade. o desenho revela que elas culminaram na crise do Estado. O Estado, na forma que hoje se apresenta,é uma instituição frágil, entregue a pressões que atravessam e se sobrepõem à autoridade instituída pelo voto do cidadão e pelo respeito à ética. Dizem por aí que política e a ética são substâncias que se repelem. Os que acreditam nisso alcançaram o paraíso. Nunca se viu tamanha aversão entre dois princípios.
A globalização e a crescente centralidade da economia tornaram o Estado uma mera representação. Quem manda de fato é a economia. Não precisamos de nenhum mago para deduzir que a expansão descontrolada da economia só é factível com a anuência do Estado. E o Estado que permite a expansão econômica incontrolável não manda nada, apenas obedece para continuar parecendo confiável. Quer dizer, confiável para o poder econômico! O grosso do tesouro publico tornou-se lastro para os financistas, é direcionado para a máquina de guerra ocupar territórios estrangeiros e, em casos mais prosaicos, fazer populismo concedendo migalhas aos famintos, enquanto os bancos explodem de tanto ganhar dinheiro.
- Num momento em que a técnica e o talento são considerados categorias obsoletas até por muitos professores de artes, o que um jovem artista precisa fazer para obter sucesso e reconhecimento hoje? Em que redes precisa se inserir?
ADRIANO: Obedecer A um dos evangelhos do pós modernismo – cada acadêmico tem o seu – e não pensar. Apenas fazer, fazer, fazer… Mais do mesmo. As redes de influência no circuito da arte contemporânea são tecidas com fiapos de esquemas arcaicos. Já falei sobre isso. Quem sonha com visibilidade e reconhecimento veloz deve seguir os 10 passos do sucesso:
1) Ter sempre ao lado um grão-vizir em comunicação e marketing;
- O que pensa dos artistas contemporâneos internacionais mais valorizados hoje, como Damien Hirst e Jeff Koons? Que influência eles exercem sobre os jovens artistas brasileiros?
ADRIANO: Esses ícones são as “células-tronco” do negocio de arte mundialista, e o Brasil é um país integrado ao sistema de arte mundialista. Certamente nenhum artista brasileiro atingirá a dimensão cênica e financeira desses astros. Contudo, para quem gosta de se sentir importante e estar up to date com as tendências de maior visibilidade, o fim da fila das celebridades do mundo das artes não deixa de ser um mérito.

domingo, agosto 01, 2010

Ficção virtual


Na semana passada a revista TIME deu destaque ao site wikileaks. Na VEJA dessa semana o site volta à evidência. O que a matéria da revista brasileira pode acrescentar a tudo que já foi dito pela mídia internacional?

O titulo da matéria da VEJA:“A aliança entre a ‘velha’ e a ‘nova’ imprensa no vazamento dos documentos sobre a Guerra de Afeganistão” é direto e objetivo, nos induzindo a imaginar uma “aliança” não aventada na matéria da revista TIME ou parceiros do empreendimento.

A matéria do TIME aponta em outra direção. Segundo a publicação americana o “Wikileaks "poderia tornar-se uma ferramenta jornalística importante, como o Freedom of Information”

Ora, se tornar uma ferramenta jornalística importante pressupõem certa autonomia em relação ao “velho” sistema de comunicação empresarial.Todavia, quando a VEJA anuncia uma “aliança” entre o “velho”(grande imprensa) e o “novo”(comunicação virtual) a perspectiva se altera substancialmente.

Afora as bobagens de estilo VEJA :-”a cabeleira prateada de seu criador e porta-voz, o australiano Julian Assange, de 39 anos”- concordo com a abordagem “aliança” suscitada por Jadyr Pavão,autor da matéria.

Isso porque é difícil imaginar um poder extremo do site Wikileaks capaz de envolver jornais consagrados a fim de dar credibilidade e difusão aos documentos obtidos por hackers.

Será que o “estimulo” para fuçar documentos secretos específicos não foram gestados na mesa dos editores das grandes empresas de comunicação? Qualquer joguinho de estratégia prevê as trilhas a serem seguidas. Não só Assange adora xadrez e tem enorme desenvoltura no ambiente virtual para, desde o último domingo, disponibilizar nos monitores linkados à internet no mundo inteiro, 92.201 documentos secretos dos Estados Unidos relativos à Guerra do Afeganistão. Não se trata de filminhos de combate tão acessados no Youtube, trata-se de relatórios de inteligência, planos de operações, descrições de ataques inimigos, relatos de encontros com políticos locais - ocorridos entre janeiro de 2004 e dezembro de 2009.

Nesse episodio o site WikiLeaks.org cintilou na blogosfera e ascendeu na Terra.

Curioso é que os veículos da grande imprensa pareciam não saber de nada até o aparecimento da montanha de infos disponibilizadas pelo site de Assange.

Há quem acredite!

Ou, será que desejam que acreditemos que os logos dos grandes veículos de imprensa (velha) não participaram da jogada? A “velha” imprensa está em crise, por que perderiam uma oportunidade tão preciosa de resgatar espaço através de um “furo” tão grave quanto Watergate, fuçado e desvendado pelo Washington Post.

Os jornais não possuem mais “fontes” de vanguarda? Ou será que ninguém no NYT entende de realidade virtual?

Essa pergunta nos leva a percorrer corredores com mais portas que a sede da Matrix.

Na seqüência da matéria a VEJA coloca alguns dados que vale a pena conferir...”Desde 2006, o WikiLeaks, uma organização aparentemente independente, sem sede e tocada por voluntários, se dedica a vazar documentos com informações estratégicas, sigilosas e inconvenientes ligadas a governos ou corporações, sob o argumento de “reduzir a corrupção, aprimorar administrações e fortalecer democracias”. Divulgar os documentos militares foi, mais uma vez, como cumprir uma velha promessa da internet: ofertar na rede informações sem as restrições (de espaço, interesses editoriais e econômicos) que atingiriam a imprensa tradicional e, a partir daí, transferir à comunidade virtual o poder de analisar tudo. Os leitores poderiam até eleger os registros de guerra mais populares, a exemplo das listas de favoritos que sobram na web. Mas nem tudo são rankings de vídeos mais assistidos no YouTube. E os velhos jornais e revistas prestaram um grande serviço no episódio deste vazamento.
No mesmo dia em que o WikiLeaks subiu ao ar os mais de 90.000 documentos em estado bruto, o jornal americano The New York Times e o britânico Guardian, além da revista alemã Der Spiegel, publicaram edições especiais recheadas de análises do material vazado. Assange lhes havia franqueado os dados com um mês de antecedência.”

Quer dizer,os únicos pegos de surpresa foram os internautas e alguns membros da administração publica?

Que compromisso é esse?

Você brinca de difundir algo inédito simulando o “compromisso de transferir à comunidade virtual o poder de analisar tudo” para pouco depois revelar as articulações que possibilitaram essa manobra.

O fato é que o que vimos na internet já tinha sido lido e analisado - quem sabe, editado e selecionado - pelos grandes órgãos da imprensa internacional. Desconfiar de tudo,sobretudo,dos interesses que serão agraciados com a revelação dos documentos secretos é uma atitude saudavel.

Jadyr resume esse continho de ficção libertaria de forma irretocável : Unir-se aos “senhores” do jornalismo, tantas vezes criticados por Assange, foi uma estratégia calculada pelo WikiLeaks. O jornalista Nick Davies, do Guardian, revelou como a “velha” e a “nova” imprensa trabalharam juntas no caso. Um representante do jornal se encontrou com o chefão do WikiLeaks em um café em Bruxelas, na Bélgica, pouco mais de um mês antes da data do “grande vazamento”. Assange revelou o que tinha em mãos e também seu principal temor: que, ao jogar os dados na rede, eles simplesmente se perdessem, indiferenciados, no turbilhão de bytes publicados diariamente...as antiquadas organizações de mídia ainda têm algo a oferecer”, diz Kennedy.

Parece que Assange entendeu isso.

sábado, julho 31, 2010

Despedida a Rubem Ludolf

Foi com tristeza que recebi na segunda feira (27/07) a noticia da morte de Rubem Ludolf. Rubem, um amigo e pintor dedicado, ligado ao construtivismo brasileiro, deixa um legado de obras inteligentes e belas. Em meados de 1950 Ludolf participou do Grupo Frente que se constituiu um marco para pensamento construtivo na arte brasileira. Em 1954, uma mostra na Galeria do Ibeu, no Rio de Janeiro apresentada por Ferreira Gullar , reunindo os artistas Aluísio Carvão, Carlos Val , Décio Vieira , Ivan Serpa, João José da Silva Costa, Lygia Clark , Lygia Pape e Vicent Ibberson , a maioria alunos ou ex-alunos de Serpa nos cursos do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro,revelou ao publico os desdobramentos dessa importante corrente estética.

Na contramão dos aforismos de Wahrol -"A arte suprema é o negócio" e o prestígio do artista recluso é coisa do passado,a contemporaneidade é o tempo do brilho das celebridades midiáticas- Ludolf,manteve-se isolado do circuito de artes e afastado da mídia. Graças a alguns apreciadores isentos que vêem o negocio como uma instância secundaria, o artista foi relembrado em 2002, com uma grande exposição no Museu Nacional de Belas Artes e no início deste ano na Caixa Cultural, no Rio.Além dessas exposições Ludolf integrou a bonita e bem organizada publicação –The Art Book of Brasil- que teve a curadoria do critico Paulo Klein,recentemente lançada.

sexta-feira, julho 30, 2010

Cuidados matinais


Ao realizar sua higiene matinal não se esqueça dos cuidados com sua mente. Choques matinais antes do café da manhã podem produzir efeitos nocivos no seu humor e desfocar sua reflexão sobre os fatos graves ou vulgares do cotidiano. A capa da revista Time desta semana estampa a fotografia de uma jovem afegã que teve as orelhas e o nariz cortados por desrespeitar as regras do grupo radical Talibã. A carga emocional dessa imagem é extraordinária. A reportagem segue em palavras dramáticas a mesma trilha da foto e ilustra a trágica situação das mulheres daquele país. Porem, numa parte da matéria a revista se orienta para a defesa das tropas americanas no Afeganistão. Diabos! me pergunto: o que na pratica justifica a presença das tropas americanas em território Afegão? Pode-se aferir,com a invasão americana em território afegão, uma melhoria nas condições de vida das mulheres locais, submetidas aos maus tratos difundidos pela parte mais radical e perversa da cultura islâmica? Não! Nada confirma que as inúmeras mutilações cometidas contra as mulheres da região tenham sido abrandadas pela presença das tropas americanas na região.
Então, o que essa imagem pode nos falar para além da maldade extrema dos homens?
Que as mulheres ocidentais devem temer os talibãs?Ora, as mulheres ocidentais, por experiência própria, temem o tamanho da crueldade e covardia até mesmo dos homens ocidentais.
Ou será que pretendem nos fazer acreditar que após e desestabilização do prelado talibã, através da intervenção militar americana, irá se consolidar os princípios ocidentais de igualdade entre os gêneros (sic) libertando a mulher do oriente médio das garras da opressão e da violência? Se essa idéia não se funda na ironia, revela o deleite de setores da comunicação de apoiar ações terríveis contra todo um povo, a fim de proteger interesses obscuros. A pergunta que se impõem é de outra natureza e passa longe da hipocrisia humanitaria tão difundida por esse tipo de matéria.Por que, de fato, as tropas americanas estacionadas na região e os serviços de inteligencia ocidentais,tanto tempo preocupados com o TERROR de toda ordem, não conseguem dar um fim ao fluxo de dinheiro e meios que fomentam o abastecimento de armas e materiais de apoio logistico que,diga-se de passagem,não são produzidos na região?
Ao contrario, afora os facões e enxadas, as armas que dão suporte ao terror talibã são produzidas em paises "civilizados" do ocidente que,curiosamente, integram as forças de coalisão ou pela China,Russia e outros centros econômicos do mundo globalizado.

quinta-feira, julho 29, 2010

Como nascem os países imaginários e as tragédias reais.







O Turquestão Oriental não é um país real.
Pouco importa.O importante é que esse dado não seja um empecilho para que o país imaginário receba milhões de dólares em ajuda externa das Nações Unidas e dos Estados Unidos.
A Turquia é a única nação que reconhece o Turquestão Oriental. Além da Turquia a Central Intelligence Agency (CIA) também reconhece a existência desse lugar mítico

O mais curioso é que o líder desse país não reside nas estepes da Ásia.
Ele mora em Chicago, Illinois.
O Turquestão Oriental se situa numa extensa área da província chinesa de Xinjiang, território que fica ao sul das montanhas Tian Shan e é habitado por oito milhões uigures, um milhão e Kazaks Kyrgyrs e 7.000.000 de chineses Han.

Turquestão Oriental foi feito país através da proclamação sui generis de Morton Abramowitz, ex-embaixador americano na Turquia, agente da CIA,membro sênior da Fundação Century Fuller e cientista político da Fundação Rand. Ele  trabalha formatando medidas extraordinárias para forjar uma nação "no exílio" situada na vasta região da China. Numa cerimônia que teve lugar em Washington DC, em setembro de 2004 esse Cristóvão Colombo às avessas nomeou Enver Turani, morador de Chicago, para servir como chefe do novo governo de um pais dos sonhos,quer dizer,mais um pesadelo norte americano.

No seu site thelastcrusade Dr Paull Williams que se diz PHD,porém,não diz em que,pode ser em paranoia islâmica,acredita que a “descoberta” do Turquestão Oriental é parte do movimento Gulen -Fethullah Gülen,um sujeito que existe é esquisitão e vive dentro de uma fortaleza na montanha Saylorsburg, Pennsylvania. Ele é considerado por muitas pessoas como "o mais perigoso islâmico sobre o planeta Terra."

Nos últimos anos, a CIA ajudou Gulen em seu esforço para restaurar o Império Otomano e criar uma nova Ordem Mundial Islâmica,canalizando bilhões para os cofres de seu movimento. 
Mais recursos foram fornecidas pela Unocal, principal patrocinadora da Gulen Cº, que mexe com petróleo e negocia interesses sobre o gás natural nos 'stands'da Ásia Central. 
Hamid Karzai, presidente do Afeganistão, já trabalhou como consultor sênior para a Unocal.

Gulen, exilado da Turquia, usa parte desse dinheiro para financiar o Partido Democrático e Justiça (Adalet Kalkinma - AKP), que ganhou o controle do governo em sua terra natal.
Abdullah Gul, primeiro presidente islamita da Turquia, é um discípulo de Gulen,assim como o primeiro-ministro Tayyip Erdogan e o chefe do Conselho da Turquia de Ensino Superior,Yusuf Ziya Ozcan.
Sob a influencia do AKP a Turquia se transformou de um estado secular em um país islâmico.Com 85 mil mesquitas ativas – ou seja- uma para cada 350 cidadãos - o número mais alto per capita no mundo- agrega também 90 mil imãs, imãs médicos assim como milhares de professores das escolas estatais islâmicas.
Gulen usa parte de sua vasta fortuna para criar milhares de escolas islâmicas em todas as recém-criadas repúblicas russas do Uzbequistão, Cazaquistão, Quirguistão, Turcomenistão e Azerbaijão.
Estes países foram ocupados pelos turcos.
Os turcos faziam parte do Império Otomano e controlam a prática aduaneira turca.
De acordo com Sibel Edmonds, que trabalhou como tradutor de governantes  turcos para o FBI e a CIA,Gulen tentou obter o controle do gás natural e de grande reservas de petróleo das repúblicas russas recém-criadas.Para isso usou a Turquia como uma 'proxy' pois os habitantes destes países continuam virulentamente anti-americanos.
Fethullah Gulen representa os meios para a CIA manter um pé na Turquia e nas repúblicas turcas.
Como os habitantes das novas repúblicas, Gulen é um turco.Sua intenção se concentra na criação de um califado universal.É um militante que pretende doutrinar a juventude nos ensinamentos políticos do Alcorão.
A estratégia tem funcionado como um encanto,amealhando milhões de habitantes da Ásia Central.Hoje,muitos são membros do movimento Gulen e buscam a unificação sob uma ordem islâmica.
Além disso, a Turquia, no âmbito do AKP, forjou uma sólida aliança com o Iran.
Esta aliança foi conseguida através da influencia do movimento Gulen entre a população azeri do Irã, que falam turco e não persa.(O Brasil entrou nessa jogada como moeda de troca barata,oferecendo apoio para o desenvolvimento do projeto nuclear iraniano)
Mas, para o controle total dos recursos naturais da Ásia Central a CIA reconhece a necessidade de ajustar o estágio para a anexação de parte da província chinesa de Xinjiang,que é habitada por muçulmanos turcos (Uyhars, cazaques e Kygyrs)para ali constituir um novo império pan-islâmico.
Os planos para alcançar este objetivo, de acordo com Sibel Edmonds e segundo muitos documentos judiciais,tornaram possível ao governo americano fixar Gulen como residente permanente nos Estados Unidos.Esse processo teve início em 1999 sob a administração Clinton.(Atenção moçada,não foi Bush,foi Clinton)
Os documentos relatam também que centenas de muçulmanos uigures de Xinjiang foram transportados para o Afeganistão graças à CIA para serem treinados no Afeganistão sob a orientação de Osama bin Laden e os mujahadeen.
Após a formação,os Uyghurs retornaram à Xinjiang para formar o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, uma organização filiada à Al Qaeda que lançou ataques terroristas em toda a província de Xinjiang.
Como o Movimento Gulen, o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental foi financiado pela CIA e por grana gerada pela produção dos campos de papoulas.
Sibel Edmonds disse que a forma dos Estados Unidos "para manter suas impressões digitais fora destas operações" tinha como objetivo evitar uma revolta popular na Ásia Central de graves repercussões na China e na Rússia."
Depoimentos de ex-funcionários gravados em tribunais conduzem as seguintes conclusões:
1. A CIA tem permitido o fluxo de heroína proveniente do Afeganistão para a Europa e os Estados Unidos a fim de financiar o movimento Gulen.
2. A CIA tem trabalhado para estabelecer um Estado pan-islâmico em toda a Ásia Central, incluindo a província de Xinjiang na China, a fim de garantir o acesso das empresas americanas a fontes. substanciais de petróleo e reservas naturais desta área geográfica.
3. A CIA tem trabalhado com Osama bin Laden, a fim de criar o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, uma organização islâmica que treina novos terroristas.
O Dr Paul encerra dizendo sua narrativa dizendo :"Infelizmente, o acima relatado é apenas a ponta do iceberg."



terça-feira, julho 27, 2010

Wikileaks - Uma controvérsia

O vazamento de documentos secretos e confidenciais do governo pelo site Wikileaks, pode ser analisada sobre varios aspectos.Para a revista Time o site Wikileaks "poderia tornar-se uma ferramenta jornalística importante,como o Freedom of Information.Para mim,pode representar,além disso, uma nova abordagem mercadologica das grandes empresas de comunicação.O Wikileaks esconde a identidade de quem vaza a informação.Nada mais conveniente ao mercado da informação que uma usina secreta de noticias.
Expor a verdade não é ilegal, a guerra que é!Sobre esse prisma tudo é possível.Desde que me entendo por gente vi surgir e desaparecer, sem nenhuma conseqüência positiva para a paz entre os povos e garantia a liberdade de opinião, relatórios secretos com mais de 100 mil paginas. Pra não regredir pra muito antes do século passado basta consultar os milhares de relatórios "top secret" disponibilizados ao publico pelos veículos de imprensa.Parece game virtual.Vc finge que fuçou por vias obscuras um maço de documentos "top secret" e a inteligência e os organismos de governo simulam um ataque de nervos.As pessoas ficam mais paranóicas e,num passe de mágica, os orçamentos para a segurança e para as forças militares se elevam as alturasl.Joguinho mole de adivinhar.Concordam? Antes do século passado também não era diferente. No século XX essa estratégia atingiu o ápice e permanece operante.Desde envolvimento norte americano na 1ª Guerra Mundial,passando pela 2ª,entrando na Coréia , Japão, Filipinas e China,na Guerra Fria e mais tarde Vietnam,Iraque sem falar nas intervenções na America Latina,África,Oceania e Antártida,Lua,Marte e os escambau,a montanha de documentos top secret revelados ao publico justificaram o arrocho econômico contra a sociedade civil.Curioso é que esse é o tema preferido da grande imprensa norte americana.Aliás,coincidênc
ia ou não,sempre que a grande imprensa revela invasões no sistema de defesa o orçamento militar dispara pra cima.Engraçado, né?
Curioso também é que todos sabem que os talibãs possuem uma extensa rede virtual, contudo, nenhum hacker engraçadinho e ultra libertário se dispõe a invadir o sistema e vasculhar o “esconderijo do dia” de Bin Laden ou a origem do aporte de grana e armamentos dos núcleos terroristas. Alías, nem a inteligência americana faz isso!
E,nós aqui, ávidos por noticias fresquinhas do front.

sexta-feira, junho 18, 2010

Alegrem-se com o Novo, envergonhem-se do Velho!


Alegrem-se com o Novo, envergonhem-se do Velho!
B.Brecht
Adriano de Aquino
06/2010
Guardo, sempre a vista, desde a adolescência, essa ultima frase do poema de Brecht intitulado A Procura do Velho e do Novo.Usada aqui como titulo é arrepiante.Pode ser entendida como provocação irritante,uma afirmação desprezível ao que um dia foi,como tudo mais,alegre,estimulante e que o tempo encarregou de tornar velho e nostálgico. À medida que diferenciamos os ângulos de observação essa curta frase se estende,amassa,enruga e volta a se esticar, recompondo-se e reintegrando-se as mais intimas questões ou ardendo em confrontos com os valores e ícones impostos pelos novos tempos. Afinal, fala de um destino irremediável do qual todo ser humano, arte, cultura e modelos civilizatórios estão tragicamente condenados. É bom frisar que minhas reflexões surgem e se desenvolvem à partir de associações livres.Não sou um expert em Brecht,muito menos um scholar. Não é minha pretensão revelar um conhecimento que não possuo sobre o processo criativo,envolvimento ideológico, objetivos políticos e estética revolucionaria do famoso poeta e dramaturgo. São reflexões desprovidas de intuitos históricos e desvinculadas de posições politicamente corretas,tão em voga em nossos dias. São apenas impressões que coletei nas minhas próprias experiências.Esclarecido isso, me ponho a apresentar os motivos que levaram essa frase a ser protegida e sobreviver em um micro clima mental durante tanto tempo. Por que ela sobreviveu,se renovou em diversos momentos de minha vida?Por que ela e não outras citações e idéias, mais amenas e aparentemente mais férteis?
Não sei se todos conhecem o poema na integra.Vou colar no final desse artigo.Se colar agora,nesse momento, os leitores irão se lixar para minhas elucubrações,pois, poesia tão poderosa tende a tornar banal e dispensável qualquer esforço em decifrá-la.
Pelos idos das décadas de 60/70quando resolvi acatar minha escolha pela vida artística, o mundo tinha uma configuração bastante diferente da que hoje vivenciamos. Achei, num texto que escrevi em 2008,um maço de anotações
[Quando lerem seus papéis
Pesquisando, dispostos ao assombro
Procurem o Velho e o Novo, pois nosso tempo
E o tempo de nossos filhos
É o tempo das lutas do Novo com o Velho] -valeu Brecht! que situa minha visão de mundo na época. Escrevi:... Para um jovem daquele período, que dava os primeiros passos no mundo da arte, um expressivo conjunto de valores da modernidade ainda permeava a mentalidade da época colocando em questão a idéia ocidental de Absoluto e focando o caráter efêmero da vida e da arte. As sucessivas marteladas de Nietzsche, que ainda ecoam como uma forma de desencantamento do mundo, a argúcia arrasadora de Freud contra as ilusões metafísico-religiosas e os fundamentos sócio-econômicos de Marx, dissolveu no ar o que ainda restava de oculto nas crenças e nos negócios do mundo moderno. As colunas centrais da religião, das instituições acadêmicas e as velhas hierarquias econômico/social, alvos de contestações de toda ordem, balançavam. As ruas tornaram-se palco da insatisfação. Movimentos de jovens transbordaram das universidades, escolas , museus, galerias, bibliotecas e espraiavam pelos campos e avenidas.Um enorme processo de desconstrução, que teve inicio na alta modernidade, encontrou nos jovens do século XX, sobretudo nos da geração dos anos 60/70, a voz e a potência para o confronto com toda autoridade constituída: Estado, família, arte, instituições, gênero,sexualidade, política, propriedade, ideologia, mercado, tradições, mente, corpo etc. No meu entender essa foi a derradeira agitação estético/cultural que, mobilizando e transformando inúmeros modos de expressão artística, curiosamente, não era em si, um movimento específico das artes. Não podemos esquecer que os grandes concertos de música, as polêmicas exposições de arte, a literatura, as leituras de poesia, etc. que empolgavam uma multidão de jovens ocidentais, não eram, ainda, fenômenos atrelados à indústria cultural ou submetidos a interesses econômicos mais objetivos. Essa geração se propunha reconstruir,ou melhor,revolucionar o mundo.Senão,ao menos, adentrarem uma vida melhor sobre as ruínas do passado. Havia uma alegria contagiante pelo Novo e certa vergonha pelo Velho!
Ainda bem que o ruído estridente das guitarras,os gemidos dos sexos emancipados, as viagem psicodélicas etc. não me impediram, por muito tempo, de ver que esse troço de arte jovem era uma arapuca,uma bobagem.
A grande arte é cúmplice do tempo!
As revoluções políticas que se consolidavam também não deixaram margem a duvidas sobre o caráter perverso do poder dominante de coloração extremada, que se estabilizou sobre os anseios de mudança e liberdade.
Quando as utopias amainaram vimos que a paisagem havia se alterado substancialmente. As ideologias políticas perderam muito do seu poder sedutor, regimes autoritários entraram em colapso, e arcaicas estruturas institucionais desmoronaram por completo.
Olha o novo aí de novo,gente!
Uma nova cultura econômica, aparentemente mais flexível, que acenava com a perspectiva de prosperidade para os povos surgiu no horizonte. Pouco importa o nome que se dê ao conjunto de forças políticas e econômicas que se empenharam nessa nova via. O fato é que a abundância de recursos trazidos por essas mudanças expandiu o mercado em todas as direções. Simultaneamente, uma embrionária rede tecnológica se expandiu e de forma magnífica transformou de um extremo a outro o panorama cultural. A dinâmica dos recursos oferecidos pela tecnologia da informação produziu um forte impacto em todo sistema produtivo. Na arte esse impacto é enorme. As modalidades de produção, as reações e a mentalidade que hoje se fixou no ambiente cultural dá margem a inúmeras considerações.
Parte da produção artística da atualidade, voltada para a produção de ícones, gestos, instalações, gadgets etc. e fundadas sobre a égide da efemeridade da vida e da arte acionou a partida de um NOVO discurso estético. Os produtos artísticos hoje em voga se apropriam de itens de um sub-repertório. Eventos inspirados em logos banais e cotidianos subiram ao status de arte. Parecem ao primeiro olhar, manifestações integradas ao complexo sistema de comunicação hoje disponível e um desdobramento conseqüente do impacto produzido pelos novos meios tecnológicos. Porém, se olharmos com mais atenção é possível vislumbrar um certo desconforto. Uma reação curiosa tenta ilustrar as virtudes de um novo mundo que conecta indivíduos de todo o planeta. O modelo de arte mundialista que nos últimos trinta anos enche as grandes mostras de arte internacionais parece afirmar que o desejo de ruptura das fronteiras geográficas, tão desejada pelos modernistas, tornou-se realidade,uma realidade restrita a grupos específicos. Artistas de diversas regiões do globo, oriundos de culturas há pouco tratadas como periféricas pelos grandes centros, aparecem, de repente, integrados ao Pantheon artístico universal. Para o otimista boquiaberto isso é uma constatação cabal de que as instituições se reinventaram e o ajustamento de suas políticas distribui saber e harmonia entre as diversas culturas do planeta.
Oh! Mundo maravilhoso!
Nunca na historia um movimento estético de ponta foi tão rapidamente assimilado,enriquecendo marchands,agentes e artistas da noite para o dia.
Porém,no subterrâneo, as coisas são bem diferentes. Muito mais do que se imagina. O surgimento das inúmeras ferramentas tecnológicas trouxe um grande problema para a arte. Incapazes de produzir, por meios tradicionais, estímulos aptos a fazer frente às trocas culturais disponibilizadas por novos recursos tecnológicos, uma parte da produção estética aderiu à demanda de uma nova fase promocional e mercantil, outra se fechou num circuito restrito de eleitos protegidos por curadores a serviço de instituições publicas e privadas. Contudo, as duas vertentes se submeteram a ideia de que uma aparente democratização das linguagens artísticas- uma espécie de vale tudo- é um recurso admissível. Contudo, essas iniciativas não responderam, muito menos ultrapassaram, os expedientes repetitivos de anunciar a morte dos meios tradicionais de expressão: a morte da pintura, da escultura do desenho etc. Tolice,sabemos que nada morre apenas por decreto.
Os artistas que desejam permanecer pintando,fazendo seus objetos sem se dar conta das transformações que ocorrem no tecido social,artistico e cultural tendem a se sentir excluídos da dinâmica do seu tempo . 
A recusa de refletir sobre as transformações que ocorrem ao seu lado é confortável,porem,não potencializa suas ambições a uma esfera mais ampla que seu atelie.    
Por outro lado,caso o envelhecimento e a morte das formas tradicionais de expressão artística fosse uma verdade, os modelos estéticos da atualidade teriam fatalmente que enfrentar a mesma sentença, seriam coagidos frente à dinâmica do presente. No entanto, essa duvida não é sequer cogitada.Bem,uma lógica que despreza o fato de que a arte quando poderosa,subverte preconceitos,modelos e sistemas,não consegue ir além do seu território de interesses.
Alheios a isso, os arautos de um modo de produção estética consolidado nos anos oitenta continuam repetindo a mesma bobagem. Talvez,porque essa é a forma mais fácil que encontraram para manter visibilidade na mídia e no mercado. Isso nos leva a supor que de 30 anos para cá a arte e o meio social atingiram perfeita harmonia.Se compararmos o modelo estético hoje dominante com as correntes estéticas do modernismo constatamos o quanto a contemporaneidade é repetitiva e entediante.
Isso fica escandaloso quando sabemos que nenhum movimento artístico do modernismo ultrapassou 10 anos de predominância de modelo.
É uma piada compararmos a mobilidade estética do modernismo com a     longevidade dos modelos da atualidade. 
As instalações,por exemplo,sua permanência como modelo estético  é um mistério de proporções faraônicas.Hoje,todo mundo é instalador,se não é agora,será um dia.Isso explica,em parte,o meu tédio nas visitas as megas exposições de arte. A longa permanência de um padrão estético levanta a suspeita de que a arte supostamente mundialista alcançou seu objetivo qual seja; recalcar o aparecimento de sucessivas experiências artísticas.
O Novo versus o Novo é o engodo da contemporaneidade.
Explico: no sentido inverso dos artistas da vanguarda histórica que contestavam toda forma de conservadorismo, regulamentos oficiais e regimes estéticos, um grande numero de artistas contemporâneos parecem satisfeitos com o padrão dominante e a regras institucionais seletivas.Em minhas considerações sobre a arte mais difundida nas ultimas três décadas não excluo a possibilidade de sujeição da atividade criativa à crescente centralidade da economia na vida contemporânea. Ao contrário de seus precursores, um grande contingente de artistas pós–modernos enxerga na institucionalização precoce uma virtude. Suas estratégias se montam a partir desse juízo. Os vários modos artísticos que surgiram no pós Segunda Grande Guerra herdaram e souberam usar a diversidade difundida pelos artistas da vanguarda histórica. Esses movimentos contestavam o sistema oficial de arte e a institucionalização pomposa. Os prodigiosos movimentos estéticos dos anos 50/60 são ricos, não apenas pelas obras que legaram e as questões que suscitaram, mas, também, pela abertura artística e cultural que disseminavam. Arrisco dizer que tal circunstancia permitiu aos artistas desse período inaugurar um fluxo produtivo fundado na autonomia criativa, ratificando, criticamente, alguns valores do modernismo e renovando a relação da arte com o imaginário da imortalidade. Esse último item é importante para entendermos melhor as repetitivas argumentações dos artistas atuais sobre a efemeridade como um enunciado estético que delineia as propostas da arte contemporânea. Ainda que o efêmero, anunciado como fundamento teórico da arte atual, pareça inédito ele não é. De fato, esse enunciado é um simulacro do imaginário da imortalidade diferenciado por artifícios conceituais.
Alguns segmentos das artes plásticas conceberam uma versão própria do relativismo nietzschiano mesclado a teorias dispersas coletadas em vertentes do pensamento desconstrucionista. A ligação com a vida acadêmica levou alguns artistas a adicionarem aditivos de antropologia cultural para acentuar o sabor de conhecimento pleno e funcionar como agente para rápida diluição de todo e qualquer critério artístico identificado,então, como reação conservadora. Munidos de fragmentos dispersos e convencidos da luta por uma causa nobre, artistas e teóricos partiram contra os focos de reflexão crítica e aptidão técnica, habilidades que vem sendo gradativamente desprezadas. Instalou-se, então, a crença de que vivemos hoje numa sociedade de homens livres e que todo individuo está apto a produzir o que bem entende sem mais se submeter a nenhum critério externo a si. Tal conceito se tornou um senso comum no campo artístico. Esse tipo de relativismo tornou-se o bálsamo para todos os males preenchendo de estratagemas a vaga idéia de que todo e qualquer procedimento estético tem o mesmo valor simbólico - a única coisa que os diferencia é a fama de quem os faz e o preço. Para consolidar sua permanência no meio cultural os adeptos dessa vertente falam da realidade como um fenômeno imutável e afirmam que a flexibilização dos meios de produção tornou possível a expansão da liberdade. Essas manifestações justificam nossa preocupação.É sempre bom lembrar que a confusão intelectual que se instalou é notável,porém, impotente contra a inevitável renovação crítica.
É até certo ponto compreensível, em uma sociedade altamente competitiva, a coexistência de grupos fechados. O recrudescimento das religiões, o consumismo galopante e outras formas de transferência imposta pelo cotidiano são dados que sempre levamos em conta quando refletirmos sobre a vida atual. A fragilidade das teorias dominantes que visam impor a idéia de que tudo que é avançado em arte é pleno de significado elevado e tem como objetivo a intervenção crítica imune às convenções, esbarra no fato de que o reconhecimento e a confirmação de suas investidas estão em conformidade com os pactos formais de que tudo que é identificado como avançado, inclusive o capitalismo avançado, espelham nossa época, a qual devemos nos curvar,cultuar e não contestar. Contestar a manipulação que sustenta o sucesso é hoje entendido como ataque histérico dos invejosos.Poucas vezes deparei com tão grande asneira. Uma asneira que se consolida e prolifera.Tem sempre um funcionário da imprensa para incensar o discurso de um ícone do mercado.As materias sobre cultura se concentram nas citações sobre preços e nas opiniões vaidosas sobre as preferências mercadológicas de um artista.Um diz que evita os leilões,insinuando uma diferença com aqueles que alcançam altos preços nesse sistema.Fica por aí!Sobre processo criativo,pensamento ou estética-O silencio! No fundo isso revela que importante mesmo é o negócio. O negocio da arte!
Warhol,considerado um visionario da cultura pop, adorava cunhar frases de efeito.Sua frase:"A arte suprema é o negócio" explodiu na cabeça de seus cultuadores como uma causa. Um contingente de artistas saiu repetindo esse aforismo sem mesmo se dar conta do que representava.Afinal, nem todos tem o talento de Warhol.Em suas performances sociais diárias,atras das lentes de seus óculos com olhar de caçador de raposa, Warhol sussurrava para legião de seguidores que o prestígio do artista recluso era Velho, Novo era o brilho das celebridades, Um Novo onde o negocio da arte é uma ferramenta imprescindível.
Um negócio que, de um tempo para cá, ganhou mais visibilidade que a própria arte.
Alegrem-se com o Novo! Envergonhem-se com o Novo de novo.Ele é Velho!
A poesia:
Procura do Velho e do Novo
Bertold Brecht
Quando lerem seus papéis
Pesquisando, dispostos ao assombro
Procurem o Velho e o Novo, pois nosso tempo
E o tempo de nossos filhos
É o tempo das lutas do Novo com o Velho.
A astúcia da velha trabalhadora
Que toma ao professor seu saber
Como um fardo pesado demais, é nova
E deve ser mostrada como Novo.E velho
É o medo dos trabalhadores,durante a guerra
De aceitar os panfletos que tem o saber, deve
Ser mostrado como Velho.Mas
Como diz o povo: na mudança de lua
A lua nova segura a lua velha
Uma noite inteira nos braços.A hesitação dos receosos
Anuncia o novo tempo. Sempre
Determinem o Já e o Ainda!
As lutas de classes
As lutas entre o Velho e o Novo
Ocorrem também dentro de cada um.
A disposição de ensinar do professor:
O irmão não vê, o estranho vê.
Examinem todas as ações e emoções de seus personagens
Na busca de Velho e de Novo!
As esperanças da mercadora Coragem
São fatais para seus filhos: mas o desespero
Dos mudos com a guerra
Pertence ao Novo. Seus movimentos desamparados
Ao arrastar o tambor salvador para o telhado
A grande ajuda, devem enchê-los
De orgulho ,a energia
Da mercadora que não aprende, de compaixão
Pesquisando , dispostos ao assombro
Alegrem-se com o Novo, envergonhem
-se do Velho!

terça-feira, junho 15, 2010

Ciberespaço?Onde fica?Pra que serve?

Há algum tempo me sugeriram que falasse sobre o que leva tantas pessoas, eu inclusive, a manter contínuo contato através das redes sociais. Como entusiasta dessa onda achei que seria útil colocar algumas considerações sobre essa coisa chamada relacionamento virtual. Topei a idéia. Ocorre que escrever sobre um fazer que já se tornou quase um hábito é complicado.Além do mais , uma série de compromissos, datas e trabalho intenso mantinham meus pensamentos longe desse assunto.Fui adiando o intento enquanto pude.Afinal,sentar diante do micro e passear pelas paginas do Facebook,saber das pessoas,ler textos e poesias e trocar mensagens é um prazer,porém,falar sobre as coisas que fazemos e porque fazemos dá um trabalho danado e exige dedicação.Não basta um tempo livre.São tantas idéias que vagam distantes.Junta-las num bloco de notas demanda uma cabeça afim de encarar a missão.Abri as gavetas da mente e digitei algumas coisas. Depois de inúmeras divisões e subdivisões essa primeira parte ganhou uma forma que acredito ser legível.

Espero que tirem proveito.

Adriano De Aquino

06-2010

Ao contrario daqueles que atribuem à comunicação virtual um papel secundário que, por alguma razão “nobre”, digamos assim, os mantêm alheios ou fazem piadas sobre os que se dedicam intensamente as trocas virtuais, penso que a atividade virtual colocou no plano concreto alguns fatores de considerável relevância.Não apenas o mundo da comunicação institucional/empresarial-jornal, revistas, propaganda e marketing - sofreram e vêm sofrendo abalos em suas estruturas formais e de negócios. O mundo, depois do advento e profusão das novas tecnologias da informação e comunicação, não é mais o mesmo.

Isso é fato!

Mas, como aferir essas mudanças?Ou, como comprovar que a vida social mudou, para melhor ou pior?O homem emancipou-se de velhos hábitos, costumes e preconceitos? E os meios de produção, se alteraram substancialmente?Essas são questões importantes, todavia, por tangenciarem aspectos objetivos exigem indicadores técnicos apurados. Esse não é um campo de forte interesse em minhas reflexões. Isso não quer dizer que eu não leia ou me interesse por argumentos, estudos e livros que aprofundem esses itens. A Sociedade em Rede de Manoel Castell e a Cultura da Convergência de Henry Jenkins, para citar apenas dois trabalhos do gênero, supriram minha curiosidade sobre as aplicações da TI na sociedade contemporânea e suas conseqüências na cultura e na vida social. Seria inútil, pelo menos nessas reflexões, tentar argumentar por esse viés. Não conseguiria transferir para o leitor dados que pudessem contribuir para a compreensão do conjunto de indicadores que esses autores e outros mais fornecem de maneira clara. No entanto, no âmbito da observação e experiência pessoal, posso oferecer algumas notas sobre esse assunto

Recentemente, num encontro de amigos, esse tema veio à tona. Na ocasião ouvi uma serie de considerações contrarias a importância das redes sociais e coloquei algumas idéias sobre a substituição gradual dos meios de comunicação e sua influencia no transito de códigos sociais.

Observei que, em geral, as criticas a virtualidade se concentram em fatores econômicos (marketing pessoal vulgar, abusos contra o direito autoral, publicidade invasiva, etc.), na superficialidade da comunicação virtual e na atuação dos órgãos de inteligência que vasculham e monitoram as paginas da internet. Não duvido que esses fatores existam e que mereçam atenção e cuidado, contudo, uma das características da cultura é não submeter todos, de maneira hegemônica, aos insidiosos desejos de um poder predominante, seja econômico, político ou comportamental. Além do mais, definir como superficial as múltiplas possibilidades oferecidas pela rede de comunicação global é, em si, um diagnostico superficial. Todos sabem que a eficácia da cultura reside em sua dinâmica de constante mutação e, nesse sentido, sempre haverá desconfiança, dissidência, subversão e confronto com os valores impostos através da duvida sobre as intenções de uma noticia aparentemente “séria” veiculada num jornal, livro ou documento, ou por um post colado numa pagina de um site de relacionamento.

Na oportunidade propus que deixássemos de lado os aspectos econômicos, a espionagem e os riscos de invasão de privacidade que hoje afligem muita gente e olhássemos a internet como um sítio aonde a troca de experiências pessoais vem angariando dia a dia, maior valor. Alguns experts afirmam que os sites e outras ferramentas virtuais não tem se mostrado, no correr desses anos, eficientes maquinas de fazer dinheiro. Porém, sua rápida expansão vem gerando grandes prejuízos aos veículos de imprensa e as mídias convencionais. Talvez, por essas razões, a internet seja encarada por alguns como economicamente inconveniente.

Afinal, o compromisso com a noticia e a verdade dos fatos é mais conveniente quando gera recursos e sustenta um poder. Entretanto, o poder da grande imprensa, como todo poder, está sujeito a crises.

A crise da imprensa que hoje testemunhamos tem contornos graves.

É freqüente, em situações intricadas, se correr atrás de um responsável pelo prejuízo.

Já ouvi e li muitas explanações. A mais usual aponta a internet como a principal responsável pela crise da grande imprensa.

Será?

Não creio, melhor dizendo, não gostaria que a expansão da internet se concretizasse sobre a sepultura dos grandes jornais e revistas. Todavia, caso a internet seja de fato a principal responsável pelo prejuízo é bom que as grandes organizações da imprensa acelerem na direção correta, pois, tudo indica que a internet não diminuirá velocidade, ao contrario. Se a grande imprensa pretende permanecer tão poderosa quanto foi no passado recente, necessita urgentemente de um acelerador ligeiro e certeiro.

Assisti, dias atrás, uma publicidade da Folha de São Paulo veiculada na TV. Uma imagem bacana de um canto da cidade (São Paulo, certamente) é pano de fundo para a atriz Fernanda Torres anunciar as mudanças do jornal. Fernanda nos informa que a Folha mudou, sugerindo ao telespectador que o jornal adotou um novo estilo. A propaganda acertou na escolha da atriz para desempenhar uma mensagem informal. Figura e fundo se mesclam caprichosamente, despertando, de passagem, certa semelhança com muitos vídeos postados no Youtube.

Num ataque de São Tomé, visitei a pagina da Folha on line e constatei que mesmo não sendo uma propaganda enganosa, não deixa de ser uma mensagem equivocada.

É licito que a Folha anuncie. Afinal, ela precisa de novos leitores e, se possível, recuperar os que perdeu para a internet.Contudo,o êxito de tal desafio passa por questões mais complexas sobre as quais uma propaganda tem pouco poder de sedução.

Um leitor não compra apenas um jornal, compra uma quantidade de matéria jornalística bem tratada,credibilidade e uma boa leitura.

Se a propaganda que vi se comprovasse no acesso livre aos cadernos, as crônicas e outras matérias eu constataria, no ato, alguma mudança. Porém,assim como muitos jornais brasileiros, o acesso on line da Folha permanece restrito aos assinantes. A melhor propaganda de um jornal é seu produto e esse produto é feito por jornalistas e outros profissionais de imprensa que já constam da folha de pagamento da empresa. Por que pagar uma agencia de publicidade para anunciar um produto que só pode ser avaliado e credenciado através da leitura?

Essa pergunta torna-se mais evidente quando constatamos que qualquer navegante pode acessar livre e gratuitamente todas as matérias jornalísticas de muitos dos grandes jornais do mundo.

No meu ponto de vista o acesso livre às matérias jornalísticas não é o principal motivo que leva o leitor a abandonar a leitura dos jornais. Quando me pergunto sobre as causas que me levaram gradualmente a abandonar a leitura diária dos periódicos, quer dizer, do jornal impresso, e tento relacionar esse fato ao meu cotidiano na internet, a suspeita de sua responsabilidade na crise da grande imprensa torna-se um álibi frágil.

Motivações mais danosas para o gradual afastamento do publico podem ser investigadas em outros cantos. Por que não no equivoco das estratégias da grande imprensa para conviver e sobreviver às mudanças radicais dos últimos trinta anos?

Nesse período, pessoas com mais de 50 anos viram seu campo de trabalho virar de pernas pro ar. Indivíduos mais reticentes e mesmo os mais flexíveis foram empurrados para um novo tempo. Sujeitos de faixa etária produtiva foram compulsoriamente aposentados. Isso não ocorreu apenas no trabalho regular ou no emprego fixo de setores mais graduados da população. O fato é que uma multidão de pessoas foi excluída de uma participação econômica e social mais ampla. Gostemos ou não isso é um fato. Nas artes, na política, nos negócios e nas relações interpessoais ocorreram mudanças substanciais.

Essas reflexões advêm de uma duvida- como disse acima; se inúmeros experts afirmam que a internet não é uma fonte de lucros para todo e qualquer negócio, sobretudo para aqueles do campo da comunicação, por que seria para um jornal?

Os núcleos comerciais das empresas jornalísticas parecem desconhecer esse fato. Será que não sabem que se alguém tem interesse numa matéria especifica publicada por um jornal de acesso restrito, algum amigo de sua rede de relacionamento, assinante do diário, poderá lhe enviar a matéria inteira por email ou pelas ferramentas disponíveis nos sites de relacionamento? Simples assim!

Muitas pessoas parecem não entender e resistem em vão a uma nova realidade.

O fato é que a internet não atrai as pessoas porque usurpa os direitos das “commodities jornalísticas” (o slogan é de Murdoch que agora integra o mundo virtual por vontade própria. Acusou o Google de surrupiar direitos e comprou o site de relacionamento MYSPACE que até 2006 reunia 106 milhões de usuários registrados. Se o Myspace fosse um país teria a 11ª população do mundo - entre o México e o Japão).

O poder da internet reside no fato de que conecta milhões de pessoas interessadas em trocar experiências e divulgar suas produções, coisa que as empresas de comunicação não têm condições de oferecer.Quando ocorre, é fruto de interesses por vezes difusos.

Não é apenas a tecnologia rápida de comunicação, ferramentas, joguinhos, noticias atualizadas segundo a segundo que conferem valor crescente e, até certo ponto, incontrolável à internet. O livre trânsito e a franquia de espaços como as redes sociais, onde pessoas se expressam livremente, postam imagens, vídeos, textos, teorias, poemas e tudo mais que transita no dia a dia, vem credenciando a internet como um vetor de comunicação plural e democrático. É muito difícil, pra não dizer impossível, que as grandes empresas de comunicação consigam superar essas ofertas.

A adoção de um marco legal é uma medida positiva, creio que sua aprovação evitara o predomínio do vale tudo e dos abusos que circulam na rede,prevenindo grandes prejuízos às empresas e indivíduos .O governo brasileiro vem conduzindo de forma correta sua elaboração. Entretanto, qualquer tentativa, por parte do Estado,dos empresários e organizações privadas de comunicação de conter a expansão da internet através de medidas extremas, reverterá em conseqüências dramáticas para a liberdade de expressão.

Muitos navegantes manifestam a opinião que os anseios do homem ultrapassam as questões econômicas e que a informação é um bem comum que não deve estar sujeito apenas às diretrizes empresariais, ao gosto e ditames das editorias. Essas pessoas encontraram na internet um lugar para trocas produtivas.

É por essa e outras razões que milhões de pessoas buscam as redes sociais

Entendo que a multidão de experiências em transito possa parecer confusa e inócua para aqueles que se abrigam na duvida diante do novo e tendem a reduzir as trocas virtuais a questões factuais: O que fazemos aqui?Onde isso nos levará? O que tudo que dizemos e ansiamos pode ser realizado concretamente?

No sentido mais amplo essa pergunta não é nova. Precede a existência da internet. Foi feita repetida vezes por persas, gregos, romanos e toda a sorte de gente da antiguidade, do oriente milenar ao ocidente moderno.

A filosofia, no correr de sua existência expandiu o horizonte do saber, as religiões continuam garantindo a segurança celestial para aqueles que aceitam e obedecem a seus mandamentos e a ciência, um vetor do conhecimento supostamente mais equipado para responder essa questão ou uma parte dela, coloca, à medida que desvenda alguns mistérios, outros, mais complicados ainda.

Porém, nós, indivíduos, como nos posicionamos diante do que vem ocorrendo no mundo?

Aceitamos os postulados religiosos e vamos em frente, filiamo-nos a uma corrente do pensamento filosófico, nos abrigamos nas ideologias, nos entregamos de corpo e alma aos pareceres científicos?

O fato é que na vida cotidiana esses fatores são boa parte do tempo relevados, esquecidos. Enfiamos-nos em relações amorosas, em negócios e carreiras que nos transferem uma carga pesada de compromissos e obrigações.

Então, nos confrontamos com a missão de cumprir uma existência amorosa, realizar um trabalho que nos recompense, se possível enriqueça. Enfim, sair do anonimato, ser reconhecido e alcançar a felicidade. Dito assim parece simples, mas, sabemos, é um desafio que até Hercules temeria enfrentar. Ocorre, entretanto, que nessa missão estamos sozinhos. Afora os livros de auto-ajuda, nenhum texto sério, tratado científico ou teologia religiosa secular se aventuraria a responder a todos de uma só forma. As escrituras sagradas, as pesquisas científicas ou os textos filosóficos foram e são gerados na tentativa de responder as grandes questões do homem e da natureza, num patamar elevado onde a fé ou o método, nem sempre infalíveis, tornam-se opacos, diante das necessidades pessoais do dia a dia.

Bem! Então, o que fazemos aqui, no ciberespaço?

Entendo que um grande número de pessoas, cansadas dos modelos verticais de intermediação social e comunicação, busca um lugar onde possam trocar livremente pensamentos, experiências pessoais e produção. Hoje, com a internet, ninguém mais espera que um crítico generoso ou um jornalista sensível note e divulgue o quão importante é a obra de um poeta desconhecido ou de um artista extraordinário, sem visibilidade na mídia, ações, instalações, gestos e outros meios disponibilizados no atacado ou varejo da arte. Atualmente, o poeta navegante, seus amigos e fãs se ocupam de divulgar o que consideram admirável. Centenas de pessoas o lêem, comentam e apreciam. Esse é o maior valor que circula na internet. Trocando em miúdos; nesse local, o que você pensa, posta e comenta tem VALOR. Nada e ninguém têm poder para interromper, desviar ou adulterar esse fluxo. Nesse NOVO canto do mundo os diretores de seção e os editores de pauta até uma “nova ordem”, foram aposentados.

segunda-feira, abril 05, 2010

2010-Projeto para grande pintura


2010 Project
Studies for a large painting-Rio de Janeiro