quinta-feira, maio 24, 2018

Gestos

Claudia Roth Pierpont, escritora e jornalista, colaboradora do The New Yorker, apesar da semelhança do sobrenome, não é parente do escritor que morreu hoje. 
Em 2013 ela publicou um ensaio intitulado ‘Roth Unbound: A Writer and His Books, na edição brasileira da Companhia das Letras tem o título: “Roth Libertado — O Escritor e Seus Livros”. 
Para penetrar nas sutilezas da vida de um escritor polemico como Roth, Claudia não poderia deixar de lado temas delicados e profundos como a decisão do escritor em abdicar de escrever. Saber os porquês de um autor potente como Roth tomar uma decisão como essa é irresistível sobre vários aspectos. Para mim, como artista, é uma decisão existencial profunda. No meu caso particular, não pensar na possibilidade de abdicar de pintar, como expressão de vontade e potência diante das vicissitudes da vida ou mesmo para desviar intencionalmente da mecânica compulsiva de produzir mais objetos estéticos, apenas por temer os males da falta do que fazer ou, pior, cumprir compromissos dolorosos como suprir o mercado de produtos artísticos culturais, sempre me pareceu uma fraqueza diante das grandes interrogações da vida. A 'compulsividade sensivel' me desperta muitas suspeitas.Na maior parte das vezes, as suspeitas se confirmam na visão ou leitura de alguns artefactos de grande sucesso midiático,palataveis ao gosto geral. 
Dito isso, li com atenção redobrada as colocações de Claudia sobre a radical decisão do escritor sobre o medo de acabar deprimindo com a falta de ocupação e inábil para enfrentar a vida sem a dedicação diária à escrita. Entretanto, para espanto geral, Claudia informa o leitor que o próprio Roth se sentiu surpreso ao constatar que a decisão o levou a se “sentir livre”. 
Apenas esse aspecto da sólida estrutura mental de Roth desperta incontáveis reflexões. Afinal, o que não falta no mundo são obras de arte e produtos culturais inócuos que servem, sobretudo, para encher estantes e paredes com ‘mais do mesmo’ sem qualquer atributo intrínseco de real valor. A sensação de ter realizado o que se pretendia como criador e, ainda, ter potência suficiente para estancar o que deixou de ser um fluxo criativo original e surpreendente para o proprio autor, é a máxima das liberdades disponíveis na nossa curta existência.Tudo indica que Roth exerceu em plenitude essa liberdade.
Como disse, sendo essa uma questão crucial de um artista, procurei o 'contraditório' entre a crítica especializada e 'outras' interpretações sobre a decisão de um excelente escritor como Roth de não mais escrever.
Em 2014,Joshua Cohen, colaborador do The Gardian, publicou uma critica ao livro da Claudia. Nela,Joshua, esmerilha o escritor no modo de quem cava fundo a fim de encontrar um diamante falso. Num trecho ele escreve: “Isso sugere que Roth Unbound pode ser ainda mais do que suas promessas de publicidade sem fôlego; na verdade, pode ser a façanha mais virtuosa de Roth. Imagine Roth se aproximando de seu aniversário de 80 anos carregado de prêmios e títulos honoríficos, traduzido globalmente, lido universalmente, seu talento triunfando sobre todas as adversidades: colapso mental, doença cardíaca, ortodoxia rabínica, feminismo. Como um artista que sempre prosperou na transgressão, ele deve ter discernido sua mortalidade no sentido de que não havia oposição a ser superada. Mais uma vez, ele teria que inventar uma, uma perseguição não romântica ou erótica desta vez, mas última o suficiente para flertar com o póstumo, e assim ele concedeu acesso a um biógrafo, e fingiu se aposentar. Previsivelmente, a perspectiva opressiva de ter um estranho narrar sua vida revigorou Roth e fez com que ele reafirmasse a proeminência de seu trabalho, realizado por uma ‘ghostwriting’ na forma de um estudo. A negligência da prosa, então, deve ser atribuída não à senescência de Roth, mas às exigências de escrever sob uma identidade assumida. Incapaz de suportar não receber crédito por esse feito, e por ter concluído sua carreira na voz de uma mulher simpática, Roth escolheu um pseudônimo - "Claudia Roth Pierpont" - apenas tolo o suficiente para trair a verdade. Roth, parece, está de volta, e mais uma vez ele está implorando para ser punido.”

quinta-feira, abril 12, 2018

Bichanos Domesticos





Em 1929, o magistral filme "Un Chien Andalou", Luis Buñuel registra uma sequência de imagens que penetrou fundo no imaginário dos artistas da Vanguarda Histórica do início do século XX.
Tamanha potência se tornou um ícone, uma parábola visual impactante, durante o longo percurso da modernidade. 
A sequência de quatro frames do filme, foi uma centelha que explodiu um paiol de sentimentos contidos,liberando milhares de especulações sobre Arte e Sociedade, transcendendo inclusive a proposta estética do movimento Surrealista ao qual, na ocasião, Buñuel se alinhava.
Esses momentos de rara inteligência e beleza se confrontam com a mesmice da atualidade que, vez por outra -frequentemente-  por conta de uma cegueira coletiva me fazem retroceder, retornando a um tema exaustivamente burro que insiste em guinchar, rebocar e induzir artistas incautos e o público de arte a focarem nas obras de arte ‘pautas’ das agendas da comunicação social. 
Essa tolice vem de longe. 
Teóricos e críticos de arte há muito imprimem cacetadas de hipóteses que visam relacionar a criação artística aos campos da psicologia, da sociologia, da etnia, da luta de classes e gêneros, engajamento e,até, faixa etária – arte para a Infância/Adolescência e Senilidade- e outros adornos que lotam as manchetes da realidade objetiva.
Entre o conjunto de subprodutos agregados ao fazer artístico, a política tem pauta especial.
Em período de amplo relativismo Estético/Ético, a  Política e Arte, formam uma dupla temática imbatível que se usa para se encher o papel impresso com tolices.  
Ontem, inaugurou mais uma feira de NEGÓCIOS focada em produtos artísticos.
Pelo teor das notícias em torno do evento, o que se constata é que nos dias de hoje em uma feira de arte, a última coisa que se deve pensar é negócio. 
Apesar de termos atravessado a vanguarda e aberto espaço para manifestações estéticas radicais, o ambiente cultural permanece impermeável e conservador, embebido em romantismo piegas que coloca em segundo plano a ambição da categoria em fazer dinheiro.  
O relativismo estético/cultural colocou lado a lado o protagonismo artista/público - seja em uma feira de arte, em uma visita a um museu ou a mostras contemporâneas temáticas, organizadas por curadores.
Se há alguma transgressão nessas órbitas, ela ocorre na vã tentativa de camuflar o objetivo do negócio de gerar dinheiro e promover artistas, a fim de movimentar a máquina negocista em um evento de arte. 
Ao ler: “A feira de arte contemporânea de São Paulo junta no mesmo espaço artistas e colecionadores, duas comunidades que politicamente podem estar muito desencontradas. Com o seu público classe média-alta, a SP-Arte pode não ter o público mais favorável a Lula da Silva(...)Menos de uma semana depois da prisão de Lula da Silva, o ex-Presidente do Brasil condenado a 12 anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, começa em São Paulo a feira internacional de arte contemporânea (SP-Arte). Mas ao contrário do que se passou na última Bienal de São Paulo, que coincidiu com a tomada de posse do Presidente Michel Temer depois do impeachment de Dilma Rousseff, não se esperam grandes protestos na feira de arte que dura até domingo no edifício do Parque Ibirapuera, desenhado por Oscar Niemeyer(...)bem como a secção performance, que abordavam temas ligados à escravatura e à descriminação racial, o que foi possível ver em poucas horas no primeiro dia”.
Ora! Se uma feira de arte serve para promover e colocar em debate as tendências artísticas em voga na atualidade, os demais segmentos da cultura se tornam periféricos. Quer dizer, tornam-se apenas repetidores do 'mainstream', focado nos fatos cotidianos e de olho na grana. 
Esse texto não é um manifesto, sequer um protesto. 
É apenas uma indagação: Se a realidade não nos basta, a Arte, que nos abre perspectivas existênciais mais amplas, impulsionada pelo frescor do novo, se torna apenas um cosmético seco e inóspito, que transforma beleza em feiura sob a premisa de  refletir uma 'face' do  Real? Uma feiura, mas, Real!  
Então, recortes da  realidade objetiva da comunicação social se impõem, soberana. 
Ela demanda e estimula a criação  de cenários irreais, inundados de autobiografias estetizadas, discursos e expressões individuais egóicas que manifestam - na  aparência de fugaz realismo – o objetivo de enaltece-lo , não transcende-lo.
Miau!
Au!Au!













quarta-feira, novembro 29, 2017

O Jaguar e as Lésbicas







Tanta coisa transborda da internet que até minha memória está se tornando preguiçosa. A introjeção da inteligência artificial nos afazeres diários transformou nosso modo de agir e pensar e, quem sabe, até lembrar coisas do passado.
Hoje, fazendo uma busca especifica no oráculo digital, um bit intrometido fez aparecer - do nada, sem que eu tivesse solicitado - a foto da traseira de um velho Jaguar –com placa do Estado da Guanabara – estacionado em um tempo distante, numa rua qualquer desse país.
A surpresa me espantou. Primeiro porque a consulta não tinha relação alguma com automóveis. Eu fazia uma pesquisa para atualizar as informações sobre as ilhas gregas que visitei muitos anos atrás. Dentre as ilhas consultadas estava a de Lesbos. A ilha, assim como as mulheres de Lesbos, ganhou notoriedade através do tempo devido sua mais ilustre figura, a poeta Safo. Pertencente a alta sociedade e extremamente culta, Safo organizou a primeira academia de mulheres, onde ensinava música, dança e poesia. Safo se inspirou nas grandes obras, como o Ilíada e a Odisseia de Homero. Seu grande carisma a levou a reunir em torno de si as mulheres de Lesbos e, com elas, desbravar um novo ponto de vista para a cultura grega: um ‘olhar’ o mundo à partir da própria mulher.
Até hoje Safo encanta mulheres e homens. Platão a admirava. A chamava de “Musa Sábia”.  Os romanos da Roma Imperial a tinham em alta estima. A conotação pejorativa dada às mulheres que amam e se relacionam sexualmente uma com as outras, só surgiu muito tempo depois da decadência do Império, durante a Idade Média. Com o passar do tempo essa conotação ganhou musculatura se tornando um rígido preconceito. 
Deixando de lado os feitos maravilhosos e sedutores da poeta, mas,não sem antes mencionar uma fagulha da sua sensível e ousada consciência: “Alguns homens dizem ser as cavalarias, outros dizem ser os soldados, e outros dizem ser as naus a coisa mais bela sobre a terra negra. Mas, eu digo, o mais belo é o que amamos”, volto para a foto do calhambeque conversível branco que, tenho como certo, pertencia ao meu pai. O lindo Jaguar branco pérola - em perfeito estado - é exatamente como era e guardo na lembrança o carro do meu pai nos idos dos anos 50/60.
Naquela ocasião aquele tipo de Jaguar era raro na paisagem do Leblon. Os pais dos meus amigos de infância tinham lindos  e modernos Cadilac’s, Chevrolet, Hudson, Dodge, Desoto, Buick, Oldsmobile,Ford e outras marcas americanas. O Jaguar Mark V branco conversível, estacionado em frente ao número 80 da Rua Afrânio de Mello Franco, era único no bairro.
Foi o Jaguar do meu pai que me transportou em direção a primeira visão e ao sentimento inaugural do contato físico e amoroso entre duas mulheres. A retirada do véu, que encobre os mistérios em torno das relações amorosas entre gêneros, aconteceu no verão de 1956 ou 57. Eu era muito garoto, tinha dez,onze anos ou pouco mais que isso, quando minha  família tomou a estrada a bordo do magnifico Jaguar Mark V, com destino a região dos Lagos, onde o fato aconteceu. 
Só tempos depois, já adulto, entendi o impacto que a cena teve sobre mim.  
Lembro de alguns verões com meus pais e os casais amigos que iam para a região se divertir, pescar, jogar pôquer, beber, dançar e fazer coisas de adultos que, para nós meninos, não eram assim tão interessantes e as  quais ,tirante a sensação maravilhosa de liberdade, pouco lembraria mais tarde. 
Mas, esse caso em particular, teve um destaque especial entre tantos outros que aconteceram na ocasião.  
De dezembro a fevereiro eu, meus irmãos e amigos deixávamos de lado os limites da vida na grande cidade, as aulas e os professores e mergulhávamos de cabeça na liberdade de correr pelas pedras, remar, nadar, aventurar no mar, caçar siris, guaiamuns e mergulhar entre as rochas, sem tempo para retornar de uma aventura, aguentar advertências ou reprimendas disciplinares. Calção, camiseta, snorkel, máscara e pé de pato era tudo que usávamos da manhã à noite. Foi no retorno de um longo dia de aventuras, por volta das 7 da noite, concentrados numa desculpa esfarrapada para dar ao ‘Comodoro’ Antunes sobre uma desastrosa manobra que lançou seu barco inflável sobre as rochas, danificando o motor de popa, que o ‘espanto' aconteceu.
Eu, meus irmãos, Alexandre e Ângelo e o amigo Álvaro, estávamos tão concentrados na mentira que inventariamos que ao vislumbrar o grande Jaguar em frente a uma porta que supus ser do nosso quarto não titubeei. 
Meti a mão na maçaneta e a escancarei, deparando com a visão frontal de duas mulheres peladas, abraçadas e se acariciando na cama. 
Não me recordo se elas se espantaram mais que nós. 
Por longos segundos fiquei agarrado à maçaneta tentando entender a cena. Ninguém deu um pio, nem se moveu. Todos com olhar fixo naquela cena. Elas se moveram bruscamente. Deram um salto e agarraram os lençóis como quem agarra uma tábua de salvação. Dei um pulo para trás, fechei a porta e saímos em disparada.
Agora, tínhamos dois problemas para resolver. Explicar para o pai o desastre com o barco do Comodoro e tentar entender o que tínhamos acabado de ver.  
Ora, o que tínhamos acabado de presenciar era hierarquicamente menos grave que o desastre com o barco do Comodoro. Além de ser mais fácil de explicar já que não precisávamos mentir.  Naquela hospedaria nós não olhávamos os números dos quartos. Nossa referência era o Jaguar, sempre parado em frente ao nosso quarto. Por sorte ou azar meus pais saíram enquanto nos aventurávamos no mar. Quando retornaram estacionaram na frente de outro apartamento. Explicar –mentir -  para o pai sobre o que levou ao desastre com o barco do Comodoro era o maior dos problemas. Em vista disso, tentar entender o que tínhamos acabado de ver era moleza. O prejuízo do barco foi rapidamente resolvido entre os adultos. Não contei para meu pai a cena das duas mulheres peladas. Mas, contei para minha mãe. A interpretação dela sobre o ocorrido foi tão natural e convincente que, desde então, o amor, as caricias e a libido entre as mulheres nunca se tornaram um problema, sequer um fetiche para mim, como homem. Numa noite, ao entrar no salão inundado pelo cheiro dos cigarros e do whisky, onde os adultos se debruçavam sobre a mesa da jogatina que varava madrugada, lá estavam as duas, sentadas na mesma mesa da minha mãe e do meu pai e outros jogadores. Enquanto falava com minha mãe sobre alguma coisa que fariamos no dia seguinte, eu não tirava  os olhos da morena que eu achava a mais linda das duas. Aliás, eu achava as duas muito bonitas. Ao me despedir de todos, ela me sorriu e piscou carinhosamente. 
Acho que enrubesci, fiquei quente, mas gostei daquela cumplicidade.       













quarta-feira, novembro 15, 2017

Sobre Artistas e Finanças




Quando se fala em ‘Economia Criativa’ muitas pessoas logo imaginam ‘muita grana’, sucesso financeiro, fama e fortuna dos artistas. O fato dessa ideia estar em voga atualmente confunde aspectos significativos de como a economia acontece nas artes. 
Na superfície, a ideia veste de glória os artistas que alcançam grande sucesso midiático. Entretanto, trata-se de uma ilusão. Tirante as estrelas do showbiz, os astros pops, os expoentes da indústria cultural  e os artistas que pautam suas produções no sistema de comunicação – incluindo, nesse contexto, os financiados pelos investimentos do marketing no setor editorial, cinematográfico, televisivo e as ações do mercado para alavancagem dos preços das obras de artistas vivos, a realidade da economia criativa é bem diferente do que em geral se supõem 
No tocante aos artistas, estrito senso, a ‘economia criativa’ - na realidade -é uma ficção. 
Ela não tem base concreta nos custos inerentes à produção artística e nos possíveis lucros auferidos aos autores. 
Nem poderia ter! Os fatores envolvidos na criação artística não são objetivamente mensuráveis. Alem disso,a 'mais valia' de uma obra de arte no correr do tempo beneficia financeiramente os mercadores e investidores.
Os desafios e os custos da produção artística vão muito além dos gráficos da economia monetária propriamente dita. 
Cabe ao artista, sabedor dessas limitações, entender e enfrentar outro ângulo da economia que decorre da questão existencial e de sobrevivência e, também, objetivamente, fundar uma maneira de manter incólume a liberdade criativa, a livre experimentação e a superação das dificuldades inerentes ao seu trabalho. 
Isso, claro, se ele pretende fazer uma obra emanada do frescor e que o surpreenda como criador. 
Para manter o fluxo do consumo de obras imersas nos códigos esteticos estabelecidos, o custo é basicamente o do material e do empenho promocional em torna-lo um alvo midiático de grande visibilidade e um fetiche de mercado. 
Não é fácil. Porém, é menos difícil que ousar algo novo e autentico, por excelencia. 
Na maior parte das vezes, os itens pautados na ousadia criativa tendem a exaurir os recursos investidos e, algumas vezes, podem afetar a saúde do artista. Isso porque a economia do artista, digamos assim, tem como prioridade ampliar o arco das suas investidas criativas. Opção esta que nem sempre reverte em ganho monetário. Esses itens são muitas vezes entendidos por alguns artistas como a causa do seu sofrimento e incompreensão por parte do público.
Não digo peremptoriamente: 'Dane-se o público' porque a incompreensão me apraz. E muito! 
E, também, porque há um grande egoísmo - orgulho de si - em todo criador.
Por esses e outros motivos somos tomados de tristeza quando um grande artista - na juventude ou na velhice - sofre de carência financeira. 
Nas colunas de entrada e saída da economia de um artista, os fatores não se expressam em cifras. Se expressam na ousadia, na determinação e na qualidade intrínseca da sua obra. Não é raro ver artistas muito dedicados, que não cumprem uma planilha de trabalho regular e não medem despesas para suprir sua demanda por material, que atravessam noites e dias debruçados sobre seu trabalho e que, quando se dão conta, espantam-se não apenas com o fato de o dinheiro ter acabado, mas que a ‘economia’ da sua saúde mental ou física foi um pouco abalada. 
Como inserir esses fatores numa tabela progressiva da Economia Criativa?
Inútil e infecunda tentativa! 
A Economia da Cultura se aplica estritamente aos investimentos em setores da Industria Cultural e fomenta a Cultura do Espetáculo. 
Para a criação artística não existe um plano previamente traçado, previdência social ou aposentadoria. Muitos artistas ancoram suas produções em incentivos fiscais. Mas,tal perspectiva, gera outro tipo de angústia e não supre as necessidades mais fecundas da criação. Convenhamos que fazer um 'Projeto' para cada 'inspiração' é um treco insano. 
O artista, estrito senso, que não produz com uma equipe de auxiliares, é um ser solitário, sujeito as intempéries do seu talento. 
A única vantagem dessa forma de vida é que ele é o primeiro contemplar algo belo e se extasiar ou – se decepcionar com sua mais recente criação,porque não lhe tocou a alma. 
Então, de volta ao serviço!




sábado, novembro 11, 2017

Constructor Social



    Primeiramente (LOL); Fora os carrascos da Intolerância que estapeiam ideias e agridem pessoas que as expressam. Segundamente (BIS); antes de um breve comentário sobre Judith Butler, manifesto minha discordância pelo trato estupidamente hostil às ideias da filosofa. 
    Ela não é a primeira e não será o último exemplar da espécie humana a exibir uma fórmula simplista (cultural) de superação da natureza. 
    Fazer o papel de ‘deus’, senhor dos fenômenos naturais, sempre foi a maior aspiração da cultura.
    Muitos seres humanos - intensos e geniais - já tentaram.
    Todavia, as principais características que identificam os mamíferos permanecem inalteradas.As glândulas mamárias e a gestação em útero, componente orgânico circunscrito às fêmeas mamíferas,são os mesmos desde o surgimento das especies.Tirante, claro, os marsupiais, que criaram (sic) uma bolsa intermediaria para a função de procriar.
    Enquanto os protótipos Pós Humanos – replicantes – seres fundamentalmente culturais - permanecerem matéria de pesquisas laboratoriais e anátemas religiosos, os mamíferos humanos continuarão nascendo das fêmeas dessa espécie insatisfeita e frustrada com sua restrita dimensão humana.
    Ainda que tal circunstancia natural aborreça profundamente os adeptos do 'constructo social', essa é a realidade da especie
    Que merda! Por que não nascemos deuses? Por que nosso gênero não é consequência da nossa própria vontade ou daquela formada pelo mainstream que molda os desejos, caráter, personalidade e a forma de se apresentar ao mundo?Da cultura da época,claro!
    Ah! A arcaica frustação humana por seu insignificante protagonismo na criação do Universo é uma posição diminuta e inaceitável para quem se quer deus.
    O homem chegou atrazado e cheio de pressa para desviar da desconfortável e inexpresiva posição frente as forças da natureza.
    Por isso,lançou mão da balsa da cultura.
    A balsa da cultura é uma variante em material sintético da Arca de Noé.
    Ela nos dignifica culturalmente frente a forma mais visível de deus : A natureza!
    Pressumir que ela (natureza) não nos reduzirá - enquanto seres sociais - aos seus caprichos, é uma pressunção descabida.
    Judith Butler é mais uma culturalista na frente de batalha contra as injustiças (incompletude) da natureza humana.
    Para ela a CULTURA não deve se dobrar aos fenômenos da natureza. Ela põe fé teórica na ideia de que a ‘construção social’ pode aprimorar e mesmo dar algumas lições de bons modos às arbitrariedades totalitarias da natureza.
    Se a cultura nos da garantias – livre arbítrio - de podermos incorporar o gênero que desejarmos, por que a maldita natureza tem que se intrometer na vida privada dos humanos?

domingo, outubro 15, 2017

Divagações






Domingo 15 10 2017, na estação das divagações, me ponho a refletir sobre a produção artificial de uma polemica estúpida envolvendo arte e moral, fartamente explorada pela grande mídia. Vejo, com mais espanto, uma sequência interminável de argumentos descabidos revestidos da tola intenção e conceitos vagos sobre arte e moral nos tempos correntes. 
Releitura (um subtítulo bonitinho para encobrir a incapacidade de se pensar a complexidade do tempo presente) é uma forma pueril de se reduzir o pensamento contemporâneo a um pastiche midiático, submetendo-o ao controle da máquina da comunicação social que impiedosamente massifica o pensamento da atualidade. 
Tal circunstancia é o revés de uma atitude realmente emancipatória. 
Constato com desgosto o grande estrago que o multiculturalismo e a relativismo cultural, que imperam na cultura dos últimos trinta anos, causaram nos corações e mentes da gente de hoje.  
A falsa polêmica que se alastra na atualidade levou muitos a desprezarem os cortes artístico/ científico/ético/moral lançados pela vanguarda histórica do começo do século XX .
Atribuir comparações esdrúxulas de fundo moral entre nus performáticos de hoje com obras da antiguidade grega, mesmo com as do renascimento, é jogar na lixeira as importantes transformações geradas pelo novo pensar sobre o homem, a cultura, o tempo e o mundo. Antes de tudo, é bom frisar que não se combate mais dogmas morais de uma arte oficial ou de uma ciência que emolduravam, os dois, os modelos das academias vetustas de outrora (século XIX). Naqueles templos cultuava-se as aparências do ‘belo’ e do ‘conhecimento’ cientifico, ajustados ao mundo ungido por uma elite que se sobrepunha aos demais no tocante a complexidade da experiência humana através da história.
Tentar reproduzi-lo não é factível nem mesmo para os replicantes do século XXI. Tecer um manto de fábulas num mundo desabitado por deuses do passado pode levar a produção de seriados proto medievais de grande sucesso. Todavia, na realidade, são apenas farsas, fadadas (de fadas, mesmo) a uma temporada de sucesso midiático e fim.  
O que hoje assisto são confrontos entre turbas de doidos tentando impor uma vontade sobre as demais. Seja de que lado for. Tal situação revela aspectos da pretensão dos contemporâneos. Não tendo diante de si mais dogmas para enfrentar com galhardia, os libertários fora de época se batem contra a censura etária ou, as falhas dela, no que tange o cumprimento das regras estabelecidas por lei para o consumo de produtos culturais da atualidade.  Outro aspecto é o ajuste da ignorância generalizada sobre o processo histórico que denota profundo desprezo por pensadores como Freud, Nietsche, Einstein e muitos outros que derrubaram pedra por pedra as colunas dos edifícios do saber erguidos pelos senhores do conhecimento (mainstream) que os manteve em pé por longo tempo, como proteção de  um sentido precário de unidade humana. Relegar as grandes transformações da alta modernidade a segundo plano é nada mais que retrocesso. É um tipo de conservadorismo de viés progressista que se firma na crença do bom combate contra os dogmas morais que supostamente subsistem. Pura balela. A indústria cultural de massas aniquilou esses artifícios.
Esse mundo acabou! Caput!
A façanha que o levou ao fim foi movida por sucessivas transgressões.
Francamente, não há um pingo de transgressão ou embate liberador que possa ser copilado e reeditado pela grande imprensa pelo simples fato de que ela é a voz e as cores do que o ‘status quo’ deseja e investe pesadamente.




Voltando as divagações na estação do pensamento. As fotos que complementam as imagens do local onde ocorrem minhas divagações, são alusões as obras do Suprematismo (não confundir com os deploráveis  suprematistas raciais) movimento artístico russo iniciado por Malevitch nas bordas do século XX. Numa das fotos aparece o artista cercado de suas obras em sua estação de trabalho, no tempo em que foram feitas.




A que a segue abaixo é o ajuste que a pós modernidade imprime para inserí-las no circuito de arte contemporânea, a fim de  atender as demandas dos centros culturais e do público de arte da atualidade. 
Seja no contexto artístico/ histórico, seja no contexto moral, trata-se de uma apropriação adequada às ações das instituições culturais e do mercado de arte da atualidade.
Time is money! Literalmente.
   





sexta-feira, setembro 15, 2017

Rir! Um estimulo para pensar






Ontem,o Teatro Sanders/Harvard,apresentou mais uma edição do prêmio IgNobel.
Esse prêmio é o único que considero ajustado às transformações da atualidade. Ele é conferido a pessoas cujas façanhas científicas "primeiro fazem rir, e depois fazem pensar".
As velhas austeras premiações, as solenidades das Academias de Arte e demais segmentos da indústria cultural são comemorações espetaculares, mas, circunscritas aos velhos parâmetros de consagração.
Sim! São bacanas e milionárias, porém, falta-lhes um olhar crítico e desafiador frente ao futuro, capaz de reverter o pessimismo global diante das ameaças que se acumulam.
O físico francês Marc-Antoine Fardin recebeu o IgNobel da sua especialidade graças a um estudo que investiga se os gatos podem ser considerados matéria líquida.
Outro francês, Jean-Pierre Royet, da Universidade de Lyon, usou imagens de ressonância magnética para estudar a atividade cerebral das pessoas que tem repulsa a queijo. Sua pesquisa concluiu que quando essas pessoas cheiram queijo cheddar e gruyère um centro de recompensa associado à alimentação desliga-se e outras regiões do cérebro são ativadas.
A equipe de pesquisadores liderada por Kazunori Yoshizawa, da Universidade de Hokkaido, Japão, descobriu que insetos que habitam grutas no Brasil têm “um pênis feminino e uma vagina masculina”. Por essa façanha ganhou o prêmio de biología.